A história de nós dois
4 Imagem mental
Notas iniciais
Era a manhã do dia seguinte ao final de seu recesso. Izuku acordou bem cedo a fim de ir à enfermaria fazer o último check up antes de tirar as faixas do quadril. Não que a singela limitação de movimentos que ela causava ou as idas periódicas à médica para trocá-las fossem um incômodo, mas já não estava aguentando a forma como coçava justamente nos piores momentos. E a ideia de finalmente voltar à rotina de exercícios também o agradava.
Ao receber alta, decidiu dobrar um pouco os joelhos e fazer um ou dois agachamentos a fim de verificar se ainda tinha alguma dor que não deveria estar sentindo. Nada. Levantou o polegar na direção de Recovery Girl atestando que estava completamente recuperado e deixou a enfermaria com a liberação para atividades físicas, sob aviso de praxe para que voltasse imediatamente se qualquer coisa saísse do normal.
Correu para o bosque, onde All Might já o esperava com um habitual sorriso. Apesar de preocupar-se com a aparência cada vez mais pálida e magra, Izuku se alegrava em poder estudar e receber lições tão importantes do seu maior herói no final da carreira, e também com o fato de que ele poderia descansar e cuidar de si a partir do próximo ano. Para que isso acontecesse, porém, estava nas mãos do rapaz levar seu legado à diante, algo que envolvia ter total controle do One for All em menos de dois períodos.
— Eu não entendo. — Começou, logo depois dos cumprimentos e de ele terminar de atualizar o herói sobre a situação da sua perna. — Quer dizer, eu tenho me focado na imagem mental que você me falou, mas desde que passei dos 70% tem horas que parece que meu corpo não obedece direito.
— Andei pensando sobre isso durante esse tempo em que esteve parado. — All Might respondeu com as mãos na cintura. — Esses episódios aleatórios não seriam mais decorrentes de estresse e cansaço mental do que de condições físicas da individualidade?
— Estresse? — Izuku levantou as sobrancelhas.
— Não que você esteja estressado! Mas a repetição dos mesmos exercícios e a pressão psicológica, em lutas muito longas, isso pode causar umas descargas muito grandes de força de uma vez só. Eu digo porque já passei pelo mesmo problema quando era garoto.
— V-v-você já passou por isso também? — Izuku gaguejou tanto por descobrir uma dificuldade de seu herói no começo da carreira quanto pela possibilidade de estar tendo-a também, o que tornava os dois parecidos. De certo modo, isso era muito legal. — E como fez para resolver?
— No meu caso, a imagem mental funcionou perfeitamente com alguns ajustes. — All Might pôs a mão no queixo ao notar a decepção nos olhos do garoto, então prosseguiu. — Até agora temos focado muito em chegar ao máximo o mais rápido possível. Talvez seja o caso de começar a treinar um pouco de resistência a longo prazo.
Izuku baixou os olhos, tentando refletir sobre o que estava acontecendo consigo enquanto escutava as ideias do homem sobre novas técnicas de treinamento. Pensando bem, todos os episódios tinham acontecido após certo tempo de luta, em momentos em que se viu em situações difíceis. Mas se recusava a ter apenas isso como desculpa.
Imaginar o quanto poderia ter machucado Todoroki, se não estivesse tão perto do chão e fosse um pouco mais lento, o assustava. Pela primeira vez, começou a sentir medo da capacidade de sua individualidade. Se ele matasse ou ferisse alguém sem querer, não seria apenas o fim para ele, mas para tudo o que All Might havia construído como símbolo da paz em todos aqueles anos, talvez até mesmo para a própria finalidade original do One for All.
Engoliu em seco. Duvidar de si próprio era a pior coisa a fazer agora, portanto preferiu manter-se quieto e seguir as instruções dos exercícios que começariam naquele mesmo dia. Consistia em usar frações pequenas de sua habilidade por curtos períodos de tempo várias vezes seguidas sem perder o controle dos números específicos que havia sido instruído a lembrar. No começo, parecia fácil, mas não demorou até se dar conta de como nunca tinha precisado fazer aquilo. Ao anúncio da hora do começo da aula, estava exausto.
Fazia um bom tempo que não se sentia tão cansado após um treino. O sol da manhã ainda nem havia começado a esquentar quando entrou quase rastejando na sala de aula e praticamente se deixou cair em cima da cadeira. Bocejou. A conversa dos colegas parecia distante em seus ouvidos, enquanto ele apoiava a cabeça em uma das mãos.
Aizawa começou a escrever alguma coisa no quadro, despertando a atenção da turma. Em duas semanas participariam de um intensivo profissional, quando seriam dispensados da escola por cinco dias para irem apenas ao estágio. O objetivo era terem experiência com o trabalho em período integral, agora que estavam no último ano. Izuku suspirou. Fazendo os cálculos mentalmente, não parecia nem de longe possível terminar o treinamento de All Might em quinze dias, mas ele precisava tentar ainda de algum jeito.
O professor pareceu não se incomodar com a meia dúzia de conversas paralelas que surgiram da animação de todos. De fato, aquele era um momento interessante para aprenderem, mas também para se mostrarem aptos ao trabalho no ano seguinte.
Duas cadeiras à frente na fileira do lado, porém, Todoroki continuou sentado na mesma posição, contrariando o clima ao seu redor. Izuku conseguia perceber o quanto ele estava chateado, provavelmente por ter que passar cinco dias inteiros com Endeavor como patrão. Não havia dúvidas que o mais sensato a se fazer era trabalhar para o herói número um em serviço, mas aquele peso no olhar do outro o incomodava de um jeito que até mesmo os seus próprios problemas poderiam ficar para depois.
Esperou até o final da aula, quando o horário do almoço tirou a maioria dos alunos da sala, ainda em dúvida se deveria mesmo fazer o que tinha planejado. Quando Iida o chamou para o refeitório, negou com um gesto curto, anunciando que precisava falar com Todoroki antes. Com o canto do olho, percebeu-o levantando a cabeça ao escutar o próprio nome e virou-se pedir um minuto de seu tempo. A confirmação rápida e quase inaudível fez com que os dois se levantassem ao mesmo tempo e saíssem da sala.
O som dos passos do rapaz que vinha logo atrás ecoava pelo corredor e era como se sua cabeça estivesse latejando no mesmo ritmo. Não sabia nem como começar a conversa, mas preferia que fosse em um lugar com menos gente, por isso o guiou instintivamente até o corredor que levava ao pátio de trás, onde costumava treinar com All Might alguns dias. Encarando-o, pode perceber a tensão nos seus ombros assim que pararam. Talvez estivesse mesmo sendo um incômodo.
— É que… — Começou, incerto. — S-sobre o estágio e… a semana do intensivo. — Todoroki permaneceu quieto de pé a sua frente, esperando o que viria a seguir. Havia coisas que Izuku podia falar e outras que talvez fossem muito delicadas, mas ele precisava ao menos tentar propor aquilo. — Sabe, como o professor disse, é comum acontecerem intercâmbios na semana do intensivo... Lá no escritório, nossa área de ronda aumentou um pouco desde o mês passado e por isso estamos precisando de mais pessoal… Quer dizer, eu p-pensei… Se você quiser, eles te aceitariam na hora… Trabalhar comigo durante esse período.
Suspirou, lutando contra a vontade de pôr as mãos nos joelhos. Pensando bem, aquilo estava sendo bem mais difícil do que uma proposta desse tipo deveria ser, mas ele não conseguia dizer o porquê de suas mãos estarem suando. Não havia motivos para aceitar uma oferta tão estranha, no meio de um lugar estranho, em um momento aleatório como aquele.
Certo, a próxima coisa a fazer era ouvir um não e continuar com sua vida normalmente, fingindo que nada daquilo um dia aconteceu. Ele estava preparado.
— Por quê? — Izuku levantou a cabeça exibindo uma expressão confusa. Talvez não estivesse tão preparado assim. Todoroki repetiu a pergunta, acrescentando — Por que essa proposta agora?
— B-bem… — Não podia, de forma alguma, falar sobre o caso do Endeavor ou qualquer coisa do tipo sem que fosse uma intromissão enorme e desnecessária. Na verdade, ele não tinha pronto nada na cabeça para esse tipo de resposta, então resolveu colocar um sorriso no rosto e dizer outro motivo que também era verdadeiro — Bem, eu e você… Nossas habilidades combinam, de certa forma, e eu sempre me divirto quando posso lutar ao seu lado... Seria bem conveniente se nós pudéssemos continuar sendo colegas depois da escola.
Não conseguia ver como qualquer pessoa poderia ser convencida por aquelas palavras, mas permaneceu em silêncio, quando Todoroki pôs a mão no queixo, como se estivesse realmente considerando. Ia começar a dizer algo sobre não precisar receber a resposta hoje, quando o garoto interrompeu seus pensamentos.
— Se não se importar, — A expressão dele era suave de modo que quase podia ler como animada. — Eu posso ir hoje no seu estágio resolver isso.
— Resolver…? — Izuku estava incrédulo a ponto de precisar confirmar o que ouviu.
— O intercâmbio. — A voz de Todoroki soou um pouco mais alta. — Se você não se importar.
— N-não me importo. — O garoto disse, boquiaberto. — Aposto que hoje mesmo já vão querer segurar você.
Combinaram de sair juntos da escola naquela tarde até o trabalho, que futuramente dividiriam, e então voltaram para o refeitório a passos rápidos. Sentaram-se perto de Iida e Tsuyu, com os quais Izuku pegou o meio da conversa sobre propulsão de foguetes a jato. O horário de almoço já estava quase no final, por isso precisou se apressar ao comer. Ainda era um pouco estranho pensar no que estava por vir, mas sentia que tinha feito a coisa certa.
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