A história de nós dois

51 Antes o futuro imediato


Notas iniciais
Capítulo de transição é uma coisa engraçada porque ele vai pra todos os lugares e quando tu ve ta botando uns títulos psicodélicos

Com um ponto final, Izuku terminou a última questão da última prova escrita que faria na U.A.. Apertou um pouco perto do pescoço, buscando um relaxamento da tensão nos ombros, que não aconteceu. Ninguém tinha parado de escrever ainda, então isso era um pouco preocupante. Resolveu reler tudo o que tinha feito como revisão, mesmo estando relativamente satisfeito com as respostas. Ter estudado com os colegas o ajudou a focar no que iria cair na prova ao invés de deixar sua cabeça divagar por outros assuntos durante horas perdidas. Por fim, assim que o professor anunciou o horário, passou o papel para frente e esperou até ser liberado para encontrar os colegas no corredor.

Tecnicamente eles não tinham mais nada durante a tarde para fazer, mas Izuku ainda precisava entregar alguns papéis sobre planos de carreira, que o habilitariam a já se formar com um trabalho garantido, agora com as modificações que consideravam os seis meses de estudo a mais no exterior. Por sorte, o pessoal do escritório onde havia feito estágio esse ano, e onde pretendia seguir com o começo de carreira, não viu problemas em adiar um pouco sua estreia, mesmo mantendo-o como contratado. Raindrop inclusive fez algumas piadas sobre treinamento vip de funcionários no exterior e tudo se resolveu até fácil demais na conversa.

Chegou ao quarto no meio da tarde e olhou em volta, finalmente sentindo um pouco de pesar. Agora havia apenas o último teste prático marcado para o dia seguinte e tudo estaria terminado. A cerimônia de encerramento era na próxima semana.

Não que Izuku fosse de olhar para trás, mas a ideia de encaixotar suas próprias coisas, nos dias que viriam, lhe deu um sentimento triste, feliz e ansioso ao mesmo tempo. Suspirou. Se continuasse ali, a antecipação o mataria, por isso levantou em um salto e saiu porta fora, indo parar no corredor do dormitório do namorado, quase instintivamente. No caminho, encontrou Sero indo em direção ao elevador com um sorriso no rosto. Os dois meninos pararam no lugar para se cumprimentarem.

— O Todoroki está em casa. — ouviu-o comentar, ao apontar para a porta do quarto do outro, e então completar — Relaxa, eu, Bakugou e Kirishima não falamos para mais ninguém. Mas ainda bem que a Mina e o Kami não estavam na hora, se não você estaria escutando piadinha até agora… Veja, eles não são más pessoas, só um pouco exaltados, saca?

Izuku concordou mecanicamente com a cabeça, indeciso sobre como responder àquilo. Sero girou o corpo, indicando para que o outro passasse e, assim, se despediram.

O quarto de Shoto emanava a mesma aura calma de sempre e era bom encontrá-lo assim depois do tempo em que passaram sem se falar direito, devido às provas. Queria namorar um pouco, enfim.

Assim que o recebeu, o rapaz começou a dizer algo sobre poderem se sentar, porém Izuku girou nos calcanhares e passou os dois braços em volta do outro, se encaixando em um abraço. Poderia dar a desculpa de que o ano estava acabando e muita coisa estava acontecendo ao mesmo tempo para precisar de um carinho, mas a verdade era que, no fundo, sempre que podia estar sozinho com ele, tinha uma certa urgência por tocá-lo. E isso só estava ficando mais grave.

Sem separar os quadris, levantou a cabeça para encará-lo. De perto, os lábios de Shoto eram dolorosamente atraentes e também macios ao toque do beijo, que já começou profundo o suficiente para lhe tirar o fôlego. Escorregou as duas mãos por dentro da camisa dele, sentindo os músculos das costas e dos lados da barriga, indo até quase as axilas.

Quando notou, havia sido encostado em uma parede. Apertou os olhos ao passo que a língua do outro percorreu seu pescoço, em um toque quente que deixava um rastro gelado, e sentiu a espinha arrepiar ao ouvir a respiração pesada bem ao lado da orelha.

— S-Shoto-kun… — arriscou, assim que pararam para tomar fôlego. Ouviu um "hm" como resposta, seguido pelo olhar ímpar lhe caindo em cima com um ar curioso. Imediatamente as bochechas de Izuku começaram a queimar, pelo simples fato de ter se dado conta do assunto que iria começar, e ele precisou abaixar os olhos. — E-eu… Bem… Eu... T-tinha uma coisa para dizer, m-mas acho melhor… e-eu agora não tenho certeza, quer dizer, eu não é como se tivesse tido certeza, mas queria pelo menos tentar, só que agora não sei como falar. Na minha cabeça era mais fácil. Talvez eu não devesse ter interrompido nosso momento com minhas ideias, é que...

— Tudo bem? — A expressão de Shoto mudou para algo como preocupada quando ele se dobrou um pouco, tentando ver o namorado. — Aconteceu algum problema?

— Não! Não… eu… Bem, a gente tem estado cada vez mais confortável para fazer esse tipo de coisa… você sabe. — Izuku apontou com os olhos para baixo, onde Shoto ainda segurava seus quadris colados um ao outro. — Eu estava p-p-pensando se você não quer f-fazer sexo…

— Sim. — Shoto respondeu de forma tão direta que Izuku sentiu a cabeça latejar, mas então ele emendou — Eu ia te chupar agora mesmo...

— Eh? Não isso! — Naquele ponto da conversa, o garoto já estava quase sentindo que iria vomitar ou desmaiar, o que viesse primeiro. Ao se explicar, sua fala saiu mecânica: — O tipo de sexo que usa a camisinha, que a gente conversou sobre… Eu andei pesquisando, antes das provas, e acho que tenho segurança sobre o que fazer… teoricamente...

— Quer dizer sexo anal? — A combinação de palavras sem nenhum pudor fez Izuku levantar os olhos na direção do namorado. E, por incrível que pareça, além da óbvia vergonha, sentiu-se um tanto quanto excitado ao ouvi-la na voz do outro rapaz. Apertou os lábios enquanto concordou com a cabeça, mas Shoto o largou e se afastou meio passo para encarar o chão, um pouco corado. — Acho que agora é um pouco complicado, por causa da prova prática de amanhã...

— Eu pensei em depois das provas! — Izuku exclamou, rapidamente, querendo se bater por ter começado aquele assunto naquela hora, sem nem mesmo ter planejado nada. — Precisa comprar mais algumas coisas também e se preparar antes… F-foi só uma sugestão, caso você queira.

— Que tal no natal? — Shoto ofereceu, pensativo. — Eu posso arrumar uma reserva em algum hotel… e comprar as coisas que estão faltando, se você me fizer uma lista.

Izuku piscou algumas vezes, dando-se conta do quão proximo estava o natal e, consequentemente o final do ano. No fundo, não parecia uma má ideia passar a data com o namorado desse jeito. Concordou devagar e depois ficou sem saber o que dizer. Por mais que a voz de Shoto estivesse sempre calma, podia ver suas bochechas cada vez mais vermelhas enquanto os dois meninos ficaram em silêncio por algum tempo.

— E-está marcado então. — Concluiu, tentando quebrar o gelo. — U-um encontro d-de natal…

— Sim. — Shoto concordou com a cabeça de um modo tão sério que chegava a ser tragicômico.

De repente, tudo aquilo estava parecendo tão surreal na cabeça de Izuku que ele começou a precisar prender o riso. Desde quando agora ele marcava encontros românticos em hotéis como se fosse a coisa mais natural do mundo? Namorar era incrível.

— Que foi? — Shoto levantou os olhos, confuso.

— Nada, eu só estava pensando… que gosto muito de namorar… você.

— Oh! Eu também gosto muito de você. — Shoto respondeu em voz baixa e depois apontou para o futon dobrado. — Quer sentar um pouco? Digo, no futon...

Dessa forma, os dois se aninharam novamente, agora no chão, para um abraço que durou até ser capaz de acalmar os seus corações acelerados. O olhar terno que recebia, de algum modo, dava forças para Izuku sentir que poderia fazer qualquer coisa. Será que estava desenvolvendo uma certa dependência? Será que isso não poderia ser, de alguma forma, ruim para os dois? Bom, agora não conseguiria pensar muito nisso, pois Shoto parecia querer voltar para a atividade de alguns minutos atrás. Tudo o que sabia era que, se havia alguém com quem tinha vontade de ter intimidade, essa pessoa o estava beijando nesse momento. E era bom demais esse aspecto.

Desceram para jantar um pouco atrasados e encontraram com o pessoal já sentado à mesa. Izuku pegou um prato quente e escolheu um lugar afastado de Kacchan, que estivera prontamente ignorando os dois no último mês. Sabia que precisava conversar com o rapaz, mas a situação estava tão estranha que foi deixando para depois e esperando por alguma intervenção divina em sua sorte. Agora, porém, apenas assistiu-o se levantar e ir embora, ao acabar de comer, sem nem mesmo olhar na sua direção. Assim que isso aconteceu, Ashido levantou e praticamente se jogou ao lado da cadeira de Izuku.

— Parece que o cara de bunda está mais furioso ultimamente, Deku-kun. — Ela se inclinou um pouco para frente, dirigindo o olhar para Shoto, praticamente debruçando em cima da comida dos outros. — Ouvi dizer que levou a maior surra do Todoroki… mas não entendi bem o motivo...

— B-bem, — Izuku começou — n-não...

— Ele me incomodou, eu revidei. — Shoto fez barulho ao pôr um pouco de lamen na boca e completou, ainda mastigando. — Nada demais.

— Nada demais, hum? Poxa, achei que ele tivesse dado em cima da sua namorada ou algo do tipo…

As palavras de Ashido foram suficientes para disparar o coração de Izuku, que torceu para que ela não estivesse escutando as batidas, mesmo praticamente grudada nele. Instintivamente, olhou para Sero, lembrando da conversa de mais cedo, sobre ter sido melhor ela não saber sobre seu relacionamento. Ao notá-lo, porém, o colega fez que não com a cabeça, em um movimento curto, indicando que não tinha contado e era melhor não dar corda. Izuku suspirou. Resolveu tentar mudar o assunto para algo aleatório, mas Shinso acabou falando primeiro:

— O Todoroki só fez o que todo mundo aqui já teve vontade um dia e ninguém nunca teve coragem.

A partir dessa frase, boa parte dos alunos concordaram em silêncio e não tocaram mais no tópico. Izuku suspirou aliviado, terminou de comer e voltou ao quarto para dormir cedo.

Acordou com o despertador, anunciando que faltava poucas horas para a prova prática final. Vestiu já o uniforme de herói e calçou os sapatos com um pouco de sono ainda. O café da manhã foi rápido e todo mundo estava um pouco nervoso ao se dirigirem para o ginásio. Estranho. Geralmente as provas práticas eram feitas em locais de simulação e não na quadra, que estava montada exatamente da mesma forma que as finais do festival esportivo. Seria possível que os alunos lutariam entre si daquela forma outra vez esse ano?

Começou a murmurar consigo mesmo, pensando no que aquilo podia significar , quando notou o silêncio em volta e levantou os olhos por cima dos ombros dos outros, apenas para encarar a fila de heróis profissionais entrando pelo outro portão. Segundo os registros de seu diário, ali provavelmente estavam os melhores heróis da atualidade, incluindo Hawks, Mirko, Fatgum e até mesmo o próprio Endeavor, que não parava de olhar para Shoto, a algumas pessoas de distância do namorado. Antes que a murmurinhos pudessem começar entre os alunos, contudo, Vlad King explicou:

— O último teste prático vai se configurar em lutas entre um aluno e um herói profissional. Nesse ponto, vocês já devem estar familiarizados entre si, portanto vamos pular a parte entediante das apresentações. As duplas já foram escolhidas meticulosamente pelos professores e vão aparecer no telão.

Assim que o professor apontou, a tela do meio da quadra se acendeu para mostrar duas colunas de fotos com nomes ao lado, pareando um aluno e um profissional. Nessa hora, Izuku sentiu que todos os órgãos parariam de funcionar ao mesmo tempo, pois ao lado de seu nome, estava o nome do seu sogro, Endeavor, a penúltima disputa. Trancou os dentes, conforme o resto das palavras de Midnight pareciam vindas de outro planeta:

— Obviamente não estamos esperando que vocês vençam, mas se esforcem para tal, porque os pontos vão ser contados com base na performance de batalha. O que mais? Ah sim, nem pensem em falhar completamente ou vão ter que repetir o terceiro ano.

Ainda um pouco abalados, foram mandados às arquibancadas para que a primeira dupla pudesse começar imediatamente. Izuku ouvia as saudações entre as pessoas que estavam se revendo depois de alguns meses de estágio parado e até mesmo respondeu quando Kuroko o cumprimentou e sentou ao lado dele e de Shoto para assistir, mas sua cabeça ainda estava uma pilha de pensamentos em relação ao que viria.

Assim que a primeira batalha terminou e Shishida perdeu com dignidade, Izuku arriscou olhar outra vez para o futuro oponente e percebeu que ele estava encarando de volta com uma expressão 10 vezes mais carrancuda que o usual. Engoliu em seco e abaixou os olhos o mais rápido que conseguiu, tentando respirar fundo e não pensar na surra que levaria daqui há mais ou menos uma hora. E isso era estranho, independente da perspectiva da qual olhasse.

Notas finais
Leu até aqui comenta: "Esse episodio de casos de família eu quero ver"