A história de nós dois
15 A escola em alerta
Notas iniciais
Uma parte da turma havia se organizado para a visita ao rapaz que não estivera frequentando as aulas ultimamente. Shoto se pegou tomando um elevador lotado de colegas, onde ficou imprensado desconfortavelmente próximo às costas de Izuku encostado na parede.
Haviam voltado a conversar como antes. Ainda que lhe parecesse algo bom, comparado à última semana, não sabia o que pensar de tudo aquilo e nem dizer para si o motivo para ter tanta vontade de passar os braços em volta da cintura do outro garoto mesmo naquela situação na qual havia sido colocado por acaso.
Em meio a reclamações em tom de brincadeira, os alunos puderam respirar fundo apenas quando chegaram ao andar correto e concordaram, como um grupo, que não deveriam mais entrar todos ao mesmo tempo daquele jeito.
Shoto andou um pouco atrás em relação aos outros e assistiu as meninas baterem na porta do quarto algumas vezes sem respostas antes de começarem a ficar realmente preocupados. Depois de um tempo, decidiram então forçar a fechadura para finalmente entrar no cômodo, esperando encontrar ao menos o rapaz desacordado, mas se assustaram ainda mais quando não avistaram ninguém. Nesse mesmo instante, Iida tomou a decisão de contactar os adultos.
Em instantes, as turmas A e B inteiras estavam no hall dos dormitórios esperando notícias. Professores se agitavam por todos os lados, mas Shoto não conseguiu escutar os sussurros para além da preocupação no tom de voz. Quando a noite começou a ficar avançada e alguns alunos já até mesmo dormiam sentados no sofá ou no chão, Midnight entrou pela porta com um semblante sério e chamou a atenção.
— Nós vasculhamos cada canto da U.A. Ojiro-kun não está na escola. Seus pais também não têm notícias. — Um suspiro longo se seguiu enquanto ela esfregava as têmporas, claramente mais apreensiva do que queria parecer. — Algum de vocês tem qualquer informação que possa ser útil para encontrá-lo? Algo estranho nos últimos dias, alguma ação suspeita? A polícia já foi acionada. Tenham em mente que a situação é gravíssima.
O silêncio que seguiu endossou o choque que todos estavam sentindo. Nunca antes um aluno da U.A. havia desaparecido dessa forma, ainda mais de dentro do terreno da própria academia, onde a supervisão era alta. Várias possibilidades passavam pela cabeça do rapaz que se aglomerava ao lado de Asui e Iida sentados no chão. Observou a expressão preocupada de Izuku, sabendo que ele estava matutando muitas coisas em sua cabeça para tentar resolver aquilo.
— Ashido-san, Hakagure-san — a professora prosseguiu, — vocês duas eram as mais próximas dele. Podem me acompanhar um minuto, por favor? O restante dos alunos vai permanecer aqui sob supervisão até que nós tenhamos ideia do que realmente está acontecendo. Por hora, as aulas estão suspensas.
Quando as meninas deixaram a sala, vários murmurinhos estouraram em cantos diferentes, entre olhares apreensivos. A sensação de não ter o que fazer era impulsionada pela falta de informações e isso se percebia em praticamente todos os alunos e também os professores que os estavam vigiando.
Shoto suspirou e se levantou, explicando para os outros que iria pegar água na cozinha. Não estava exatamente com sede, mas a ansiedade tornava irritante a tarefa de ficar esperando novas informações. Esperou uma menina da turma B voltar para então poder ser acompanhado até a geladeira, da qual tirou uma garrafa pequena de plástico. Assim que a abriu, sentiu o telefone vibrar uma vez no bolso e casualmente o pegou, se perguntando se já estaria recebendo mensagens preocupadas de sua família.
O que viu assim que a luz da tela acendeu, porém, fez seu coração parar por um instante.
Uma foto tirada em um ângulo estranho de Ojiro coberto de sangue caído no chão, tinha os braços presos para trás e a cabeça coberta por um saco, sendo identificável apenas pela cauda grossa no meio das pernas. O mais assustador, porém era o texto atrelado à imagem:
“Estou adorando observar a festinha do pijama dos dormitórios. Acha que seu colega também iria gostar?
Se vocês ficarem quietinhos e seguirem as minhas instruções direito, pode ser que a gente descubra. Vocês têm exatamente uma hora para pensar em um jeito de sair da escola e pegar o trem até a última estação sentido sul.
Eu não preciso avisar que se sequer pensarem em mostrar essa mensagem para qualquer professor vão chegar apenas algumas partes do garoto na sua caixa de correio, à moda antiga, não é mesmo?”
— Tudo bem?
A voz do professor soou distante, mesmo que o estivesse esperando na porta há poucos metros. Shoto imediatamente se forçou a piscar para manter uma expressão facial sóbria para assentir, mentindo, e empurrou um gole de água pela garganta seca tentando se acalmar. Levou a garrafa consigo de volta a onde os colegas os esperavam.
As duas garotas tinham acabado de voltar, ao que parecia, e toda a turma A se amontoava em cima da poltrona onde Hakagure chorava sem parar. Assim que o viu, no entanto, Izuku levantou a cabeça. Tinha o celular na mão e mal conseguia disfarçar os olhos assustados de quem havia recebido exatamente a mesma mensagem.
Ofereceu-lhe a garrafa enquanto se afastavam relativamente da confusão dos outros estudantes, e assistiu ao movimento de sua garganta enquanto ele bebeu todo o resto do conteúdo de uma vez. O clima de tensão coletiva ajudava a disfarçar seu nervosismo e também mascarava a conversa.
— Você pensou em alguma coisa? — Sussurrou. Sabia que estava jogando a responsabilidade no outro com aquela pergunta, mas a agitação o havia deixado incapaz de se concentrar para refletir. Inclinou-se para o lado de Izuku, observando o movimento dos dois professores das duas turmas conversando baixo perto da porta. — Eu não acho que ele esteja blefando sobre contar para os adultos. Não esse homem… Precisamos dar um jeito de sair daqui.
— Sim. — Izuku pôs a mão no queixo em um pensamento silencioso, que o outro só pôde observar. Era de se admirar o quanto o garoto havia se tornado confiável de uma forma que Shoto apenas podia almejar. Antes que pensamentos estranhos sobre isso voltassem a lhe ocorrer, contudo, ouviu as palavras indecisas que vieram como resposta. — É o cara da cozinha que está acompanhando os meninos ao banheiro. Se nós dois perdirmos para ir ao mesmo tempo, talvez justifique a demora…
Shoto encarou-o enquanto sua voz foi abaixando até se tornar um murmúrio incompreensível. Podia perceber que havia mais alguma coisa nesse plano sobre a qual o garoto não tinha segurança de falar. Não era hora para isso.
— E então? — Perguntou para apressá-lo a dizer, não se surpreendendo quando Izuku deu um pequeno salto ao voltar a si.
— Vamos precisar nocautear e prender ele dentro de uma das cabines com seu gelo. Não é muito, mas vai nos dar alguns minutos para sair da escola.
Não era um plano simples e envolvia quebrar regras suficientes da escola para até mesmo serem expulsos. Shoto respirou fundo e balançou afirmativamente a cabeça enquanto as palavras do colega reverberavam em sua cabeça. No fim das contas, era o que tinham.
— E quanto às câmeras de segurança do lado de fora e os muros?
— Bem… — Izuku pareceu corar um pouco ao abaixar a cabeça e coçar a testa. — Essa manhã eu q-quebrei uma boa parte do sistema de segurança no jardim de trás enquanto treinava e eles ainda não consertaram. Ninguém mais sabe disso, ok? Não é completamente certeza que vá funcionar, mas a-acho que é o melhor plano que eu tenho…
Enquanto o colega pedia ao cozinheiro para levá-los, Shoto checou o celular, constatando que já haviam perdido vinte minutos. Seja o que fizessem, precisariam ser rápidos dali para frente. O banheiro estava silencioso de uma forma um tanto quanto mórbida. Assim que entraram, Izuku usou sua grande velocidade para puxar o homem para dentro de uma cabine, que Shoto congelou sem pensar duas vezes.
Entreolharam-se aflitos, certos de que daquele ponto não haveria volta.
A janela era apertada mesmo com a moldura removida, de forma que esgueiraram-se para fora com certa dificuldade. Tinham mais meia hora para chegar ao trem. Izuku conduziu-o até o jardim, onde árvores recém derrubadas davam um ar mais assustador à toda a situação. O muro à sua frente era a última barreira a traspassar e pelo visto não seria tão complicado.
— Esperem aí. — Uma voz feminina ecoou em um tom baixo fazendo o coração do rapaz disparar. Viraram praticamente ao mesmo tempo com expressões culpadas, que logo se transformaram em confusão ao perceberem a figura de Hakagure sozinha atrás deles. — Vocês sabem onde Ojiro-kun está, não sabem?
O silêncio praticamente confirmou a pergunta da menina.
— Eu fui ao banheiro lavar o rosto e percebi o que estavam fazendo na janela. Pode deixar que nenhum professor me seguiu. — Ela continuou enquanto a manga vazia da camisa gesticulava. — Por favor, me levem com vocês.
Automaticamente, Shoto olhou para Izuku, que repetiu a ação no mesmo instante. Por sua expressão, já sabia que a resposta seria negativa. Não poderiam arriscar perderem mais ninguém.
— Nós estamos sendo vigiados e não sabemos como. — Izuku sussurrou para ela com um ar de desculpa na voz. — Não podemos levar mais ninguém ou ele vai fazer alguma coisa com Ojiro-kun.
— Não precisam se preocupar com isso. — A menina respondeu enquanto os dois rapazes a assistiram desabotoar a blusa com naturalidade. — Ele não vai me ver. Pode ser um bom elemento surpresa, não acham?
Com as bochechas coradas, Izuku desviou os olhos da cena à frente e Shoto se pegou fazendo o mesmo até que todas as roupas estivessem no chão. Um instante a mais de discussão e concordaram em levá-la consigo pela possibilidade de terem uma vantagem e também porque não havia muito tempo para convencê-la do contrário.
Ajudaram-se a pular o muro alto com certa facilidade. e correram pela rua até as escadas que os levaram aos trilhos. Pegaram o último trem com apenas 3 minutos de sobra.
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