Notas iniciais
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Quando me disseram que estudar à noite era cansativo, eu achei que teria grandes problemas para me adequar. Afinal, eu sempre estudei de manhã. Mas a verdade era que eu adorei.

Não tinha aquele sol irritante esquentando as salas, eu podia dormir até a hora que eu quisesse e a melhor parte de todas: a escola não exigia uniforme no período noturno.

Eu me sentia tão adulto.

Mas é lógico que isso era só até eu entrar na escola e ver as pessoas dos outros anos. Todos eram muito mais velhos.

Tinha uma discrepância enorme nas idades. E a minha sala, a 172, era uma das únicas salas um pouco mais homogêneas onde quase todos tinham quinze anos, salvo os repetentes.

Eu não expliquei sobre as salas, não é?

Então, todas as salas eram formadas por três números que indicavam o ano que você estava, o período que você estudava e um dos três cursos que a escola oferecia.

O primeiro número era o do ano e indicava em qual dos quatro anos você cursava. O período total do curso era de quatro anos, e não três como nas outras escolas. E normalmente o quarto ano era repleto de matérias técnicas complicadas.

O segundo número era o do período. O número 1 indicava que você estudava de manhã, o 4 (que era o caso do meu irmão) que você estudava à tarde, e o 7 (como no meu caso) que o aluno estudava à noite.

E por fim, o último curso indicava o curso. Os números 0 e 1 eram para o curso de eletrônica. Os números 2 e 3 eram para o curso que eu fazia, o de Processamento de Dados. E os números 4 e 5 eram para o curso de Informática Industrial.

Então por que a discrepância?

Acho que devido ao fato da escola ser técnica havia mais procura de adultos do que adolescentes que saiam direto do ensino fundamental. E tirando a minha sala, normalmente os mais novos das outras tinham na faixa de uns dezoito anos. Como o Daisuke, por exemplo. Aquele folgado estava no mesmo curso que eu, mas na turma do segundo ano, e ele tinha dezenove.

Todos diziam que ele era um gênio, e nos primeiros meses da escola, eu o vi inúmeras vezes batendo papo e cochilando na sala dos professores, ou até mesmo dando aulas no lugar de um professor ou outro. Mas como ele podia ser um gênio sendo que ele repetiu o primeiro ano e pelo que as más línguas diziam provavelmente repetiria o segundo também?

Será que ninguém via o quão irritante ele era?

— Com licença, professora. Eu tenho um recado urgente para a turma — uma voz falou educadamente da porta.

— Jogo rápido, Matsumoto — a professora de matemática rosnou, chamando minha atenção.

Ele era louco? Não tinha amor à vida? Ninguém interrompia a aula da Gilda, a terrível. E mesmo ele sendo um saco, eu fiquei com pena dele. Ela o trucidaria assim que tivesse a oportunidade.

— Nesse fim de semana não vai ter a pelada na praia porque vai ser o churrasquinho de bicho — ele dizia enquanto escrevia na lousa “Churrasquinho de Bixo” e os dados com valores da entrada e o horário.

— Bicho não é com “ch”? — perguntou Cristina, uma menina que sentava na primeira fileira.

— Bicho, de animal? Sim. Bixo, de calouro? Não. E vocês sabem por quê? — ele perguntou e até a Gilda abaixou o rosto, tentando conter um sorriso. — Porque Bixo não é gente! Então Bixo não tem direito a língua portuguesa, entenderam? — ele explicou para a garota num tom baixo e controlado. — Alguma pergunta? — ele terminou com um sorriso para a turma.

— É obrigatório vir? — o Kinder perguntou, obviamente temeroso de sofrer mais algum trote. E ele tinha razão. Os trotes não pararam no primeiro dia de aula. Ainda éramos tratados como escória.

— O churrasquinho é para nos conhecermos melhor — Daisuke explicou despreocupado —, é quando finalmente os reconheceremos como iguais, depois que provarem seu valor. — Ele disse enigmático, sem realmente explicar detalhes. Eu tinha um mau pressentimento — E você não vai querer que os veteranos achem que você não quer conhecê-los melhor, não é? — ele perguntou olhando para o Kinder.

— E depois disso, os trotes param? — ele quis se certificar.

Daisuke só deu um sorriso enigmático, agradeceu a professora e saiu.

— O que ele quis dizer com pelada na praia? — eu pensei em voz alta, e os outros garotos da classe de repente pareceram entretidos com o chão, com a lousa. Nenhum olhava na minha direção.

E então caiu a ficha. Eles se encontravam para jogar futebol na praia. E aparentemente há um tempo.

Todos sabiam menos eu.

— Ah, entendi — eu disse, tentando me concentrar novamente na lição que a Gilda tinha passado.

Eu era o excluído que ninguém ia com a cara desde o dia da aula—trote no primeiro dia.

— Eles só me chamam porque guardam as traves na minha casa — o Marcelo se explicou.

— Deixa para lá — eu falei sorrindo, não querendo demonstrar o quão péssimo eu me sentia por ser excluído.

Os dias passaram e finalmente chegou o bendito “Churrasquinho de Bixo”.

Eu realmente achei que seria só um churrasco, mas eu estava totalmente enganado.

Logo, todos os calouros foram separados, não pelas turmas ou cursos, mas por adoção. E adivinhe quem me adotou? O Daisuke.

Então, basicamente, o professor de teatro que tinha organizado a festa, o Pedrão, fez uma lista com tarefas absurdas que deveriam ser cumpridas em sua totalidade pelos grupos. Cada grupo era liderado por um veterano e tudo era regado a churrasco e bebida, normalmente alcóolica.

— Quem inventou essas tarefas bobas? — eu perguntei, olhando para algumas. — “Encher a boca de água e falar carambola”, “Fazer uma pirâmide humana”, “Casal travestido mais convincente”? — citei algumas.

— Eu ajudei com algumas. — Daisuke respondeu e eu torci o nariz — São para descontrair — ele disse, organizando quem faria o quê.

— Eles estão dando cerveja para os calouros sem nem perguntar se são menores de idade ou não. Isso é muito irresponsabilidade! — eu voltei a reclamar. — E a gente ganha o quê se vencer essa gincana?

— Eu acho que a ficha não caiu para você ainda, ne? — ele falou, e pela primeira vez eu notei um pequeno sotaque japonês nele. — Ninguém vai segurar sua mão aqui. Se você é menor de idade e não pode beber por lei, então não pegue uma porra de uma cerveja. Simples assim. E quanto ao prêmio, além do fato de rirmos uma tarde inteira e nos conhecermos melhor, acho que não tem nenhum. — Ele falou e piscou para mim — Agora vai colocar essa saia aqui e se maquiar. Não é porque cortou o cabelo e está todo machinho que deixou de ser o Gabi, boneca.

Todos riram, obviamente. E não tive escolha se não aceitar a humilhação.

Graças a minha boca grande, eu fui convidado pelo grupo para as tarefas mais ridículas contidas na lista. E o dia passou meio que voando.

Na última tarefa, quase todos os grupos falharam e o nosso não tinha um participante, já que o líder não poderia participar. Seríamos eliminados.

— Eu acho que consigo — eu falei tentando parecer incerto. É lógico que eu conseguia. Fazia muito mais do que isso nos treinos.

— Você tem certeza, Gabi? São cinquenta flexões sem parar — Daisuke perguntou me medindo. Acho que ele me achava meio fraquinho.

— É isso ou sermos desclassificados — eu argumentei —, e eu odeio perder.

Ele sorriu e me apresentou como representante do nosso grupo naquela tarefa.

Nas dez primeiras, todos riam. Quando passei de vinte, as pessoas foram parando de zoar. Depois de trinta, um ou outro já torcia. Quando passei de quarenta, meu grupo já estava torcendo e gritando para me dar forças. Quando cheguei a cinquenta e passei, o povo foi ao delírio. Só parei quando cheguei a setenta e três e poderia ter continuado.

Todos aplaudiam, gritavam, torciam. Veteranos que até então sequer olhavam para mim, quando nos trombávamos nos intervalos das aulas, vieram me cumprimentar.

A gincana acabou e outro grupo ganhou, apesar dos nossos esforços.

— Você até que é fortinho, Gabi. Aparece lá nos jogos no fim de semana. São sempre aos domingos às duas horas, na praia em frente ao Canal 3 — Daisuke falou, batendo no meu ombro antes de ir falar com os amigos dele.

Ele estava certo. Não precisava de prêmio. Eu fazia parte do grupo e isso bastava.

Os dias passaram e logo chegou o dia da tal pelada.

A expressão de surpresa do povo quando eu cheguei me deixou meio sem reação, e eu estava quase dando meia—volta quando o japonês me notou.

— Você veio! Achei que tinha amarelado, Gabi. — ele disse sorrindo e vindo ao meu encontro. Colocou a mão no meu ombro e me levou para junto do resto do time — Esse é o nosso novo jogador — ele me apresentou para o pessoal, ignorando o fato de que a maior parte era da minha sala.

— Opa! — eu cumprimentei todo mundo, levantando a minha mão. Tinha certeza absoluta que meu rosto estava vermelho.

— Tem certeza que ele aguenta o tranco, Matsumoto? Hoje a gente joga contra o pessoal de Eletrônica — um garoto de cabelos loiros, magrelo e alto indagou o que parecia ser dúvida de todos.

Daisuke olhou para mim por um momento e perguntou:

— Já quebrou algum osso?

Tirando a vez que ganhei um nariz roxo num treino, eu nunca tinha quebrado nada.

— Não — respondi temeroso.

— Tem sempre uma primeira vez, ne? — ele comentou ao ver o time adversário chegando. E não acho que ele tenha percebido que falou em voz alta.

Quando olhei na direção que ele ainda olhava, eu percebi o porquê do comentário. Eles eram enormes!

Deviam ser todos do terceiro e quarto anos. E o mais baixinho ali devia ter no mínimo 1.80 m. e eu era só um franguinho de 1.65 m que não pesava nem 50 kg.

— Eu vou morrer — eu falei ainda meio atônito.

Daisuke olhou para mim com fogo nos olhos e disse dramaticamente:

— Então vamos fazer dela uma morte memorável.

E saiu correndo para receber o pessoal de eletrônica.

— O que ele está fazendo? — o Marcelo me perguntou ao ver o japonês falar apontando para mim.

— Eu acho que ele não bate muito bem — eu respondi, me esquecendo de que não estávamos nos falando. Afinal, que amigo exclui o outro de uma diversão por tanto tempo?

Do nada, um homem gigantesco do time deles, que ostentava uma barba mal feita e tinha cara de poucos amigos, veio gritar enfiando o dedo na minha cara:

— Você já era, Gabi!

O restante do time veio com o Daisuke e quase todos fizeram questão de bater no meu ombro. Eu já estava todo dolorido e o jogo nem tinha começado!

— O que você falou para eles? Eles parecem putos — o garoto orelhudo que estava do lado do loiro, que falou quando eu cheguei, perguntou.

— Eu falei que o Gabi estava espalhando para todo mundo que a mãe do Ogro — Ogro era o nome desse aluno de Eletrônica — tinha tanta barba no rosto que no Natal fazia bico de Papai Noel no shopping. — Ele falou calmamente ao arrumar os cabelos com um pentezinho ridículo que levava no bolso.

— Eu nunca disse isso! — eu me defendi. — E é tão absurdo. Como ele pôde acreditar numa lorota dessas? — eu perguntei indignado quando o jogo começou.

— É que a mãe dele tem barba mesmo — ele explicou e saiu rindo.

O jogo foi brutal. Eu nunca vi tantas faltas num jogo que deveria ser descontraído.

E no último lance, eu teria me machucado sério se o tal loiro não tivesse pulado me empurrando no último momento.

E eu fiquei chocado pelo pensamento rápido dele. Não achei que fosse capaz disso. Afinal, só ele já tinha feito três gols contra.

Ao me dar conta que no “salvamento” ele acabou caindo junto comigo, o choque passou. Quem é que se acidente quando está salvando alguém?

— Obrigado. — Eu falei meio sem fôlego — Você poderia sair de cima de mim? — eu perguntei meio sem jeito.

Por mais que soubesse que eu era gay, eu realmente nunca tinha feito nada. Com ninguém. Então, ficar tão perto assim de alguém me deixava meio desconfortável.

— Mas eu gosto daqui — ele falou olhando nos meus olhos, e me fazendo corar.

— Ele está dando em cima de mim? — pensei comigo mesmo.

Ele deu uma piscadinha e se levantou.

Sim, ele estava.

Eu fui me levantar e me desiquilibrei. Meu pé direito doía.

Eu quase caí de cara na areia, mas ele me segurou antes disso.

— Tudo bem aí? — ele perguntou preocupado, e logo os outros jogadores foram se aproximando.

— Eu acho que dei mau jeito no pé. — Eu respondi — E o campeonato é semana que vem, saco — eu pensei em voz alta.

— Melhor encerrar antes que mais alguém se machuque — o Marcelo falou se aproximando de mim e olhando feio para o garoto que ainda segurava meu braço.

Todos acabaram concordando e foram se dispersando.

Eu sentia que alguém me olhava, e quando virei o Daisuke estava conversando com o grandalhão que falou (e cumpriu) que acabaria comigo. Ele apontava para mim com uma mão e com a outra coçava a nuca.

Eu tentei sair de lá o mais rápido que pude, mas o meu pé realmente estava me incomodando. Por isso, o grandão me alcançou em segundos.

Eu queria dizer que fui corajoso e o encarei, mas eu não fui. E assim que ele chegou à minha frente, eu coloquei os meus braços na frente do meu rosto para me defender de um possível ataque.

— Eu só queria pedir desculpas por ter pegado meio pesado — ele falou meio sem jeito.

Eu concordei e ele foi embora. Não tinha porque ficar com raiva dele. O babaca tinha sido o japonês folgado do Paraguai.

Eu comecei a andar na direção da minha casa com o Marcelo, já que a casa dele era no caminho da minha, quando o garoto loiro nos alcançou.

Ele estava acompanhado do amigo orelhudo dele e do Daisuke que revirou os olhos quando eu olhei feio para ele. Nós continuamos a andar.

— Eu não me apresentei antes. Eu sou o Fernando e esse é — ele apontou para o amigo orelhudo — o Orelha.

Criatividade não era o forte dele.

— Eu queria dizer que foi um prazer conhecer vocês, mas eu estaria mentindo. Nunca deveria ter vindo nesse jogo idiota — eu respondi meio mal humorado.

Ele pareceu meio surpreso com a minha resposta, e me dei conta do quão grosseiro eu fui.

— Esse mau humor é por conta do campeonato que você comentou? — ele perguntou.

Eu fiquei surpreso. Ele tinha prestado atenção no que eu falei. E ninguém nunca presta atenção no que eu falo.

— Campeonato de quê? — o Marcelo estranhou.

— Tae-kwon-do — eu falei.

— Mas será que você vai conseguir participar? Seu pé parece meio inchado — o Fernando falou preocupado.

— Eu aguento. Não vou jogar três meses de treino no lixo — eu comentei dando de ombros.

— Bom, eu fico por aqui. — O Marcelo disse quando chegamos na Av. Ana Costa — Não quer ir lá para casa e eu peço para o meu pai te levar? — ele me perguntou.

— Nem esquenta. Logo, logo eu chego em casa — eu respondi, e era uma mentira deslavada. Eu morava no Campo Grande, perto da Vila Belmiro e tinha mais uns três quilômetros ainda para andar mancando.

— Bora pegar o ônibus — o Orelha chamou o Fernando, que seguiu ele meio de má vontade.

— A gente se vê na escola amanhã. E vê se você se cuida — ele gritou ao atravessar e sorriu para mim. Eu sorri de volta e acenei.

Eu me virei para voltar a andar e reparei que o Daisuke estava parado na minha frente e me olhava sério.

Ele parecia querer falar alguma coisa, mas não sabia como.

E nós ficamos alguns segundos nos encarando até que ele segurou os meus braços cruzados, se abaixou e se virou passando-os por cima de sua cabeça. Deu um impulso e eu literalmente voei do chão.

A próxima coisa que me dei conta é que estava praticamente em cima dele, que tinha seu corpo inclinado para frente, e que eu poderia cair a qualquer momento.

Eu me segurei em seu pescoço e prendi minhas pernas no seu corpo, por instinto, porque eu estava escorregando.

Ele me ajeitou em suas costas e enlaçou minhas pernas com seus braços, fazendo um apoio de cada lado do seu corpo, para impedir que eu caísse.

— Onde você mora? — ele me perguntou.

Ele realmente estava pensando em me levar nas costas até em casa?

— Você não precisa fazer isso — eu disse afrouxando os braços que estavam em volta do seu pescoço, para que ele me soltasse.

— Eu sei, mas é o mínimo que posso fazer — ele disse —, você não teria se machucado se não fosse por aquela brincadeira idiota — ele explicou e parecia envergonhado.

Era impossível ficar com raiva dele por muito tempo.

— Minha casa é longe — eu falei tentando fazê-lo desistir da ideia. Ele era um saco de vez em quando, mas não merecia ficar todo travado por me levar nas costas por metade da cidade.

— Não quer que eu saiba onde você mora, ne? — ele provocou.

— Talvez não queira mesmo. Você é meio maluco — eu ri.

— Você confia em mim? — ele perguntou com uma voz galanteadora, e eu ri mais ainda.

E pelo incrível que parecesse, por mais que aquele garoto me irritasse mais do que qualquer um, eu confiava nele. Talvez ele não fosse tão ruim assim.

Fim do capítulo 2