A história de Arthur
2 Me chame de Philipe
O lenço em meu pescoço fica mais pesado. Tiro-o e ponho-o na bolsa. Enquanto o elevador desce, penso em como o Sr. Grey é um homem estranho. Ele não é gay, mas seu jeito e seu olhar... Seu último olhar... Passo a mão pela testa, estou suando.
As portas do elevador se abrem no térreo, já calmo e tranqüilo, ando em direção a saída. Dou uma última análise no ambiente: é tudo muito limpo, sem energia, até as plantas do pequeno jardim, ao lado da recepção, parecem sem vida. Pergunto-me se aquele ambiente pode dizer algo sobre o seu dono.
Gotas de água vêm me tirar dos meus pensamentos quando saiu. Umidade e ventos frios fazem com que eu corra para o carro. Dentro está frio mas não molhado. Com o carro em movimento sigo para a Interestadual 5.
Com a rodovia livre dou uma pisada no acelerador. Meus pensamentos voltam para Philipe Grey, seus modos me deixam confuso, e começo a pensar que talvez seja eu que tenha visto coisas onde não haviam, talvez tenha visto o meu desejo refletir nos olhos dele. Mas quem pode me culpar? Ele é realmente lindo. Os olhos são de um cinza atraente, os músculos, cobertos pelo paletó preto, pareciam bem fortes, assim como seu peitoril volumoso. A pele do rosto é grossa, mas imagino que a dos braços seja bem lisinha devido ao inchaço dos seus músculos, a das pernas também... suspiro... as pernas devem ser bem trabalhadas como as de um corredor. Começo a pensar no bumbum do Sr. Grey, e fico decepcionado por não ter conseguido dá uma olhada. Lamentando o fato de não poder ter tudo isso, desisto do Sr. Grey e procuro qualquer outra coisa para me distrair enquanto não chego em casa.
Chego ao apartamento, jogo a bolsa em cima do sofá e vou direto para a cozinha.
– Arth... – grita Kate, mas sua garganta a faz maneirar o tom – Então?
– Acho que consegui um bom material.
– Obrigada. – diz ela tentando elevar a voz ao máximo que consegue. Pulando de alegria, vai até o sofá e pega o gravador e as fichas na minha bolsa.
– O que achaste dele? – pergunta se aproximando da cozinha. Percebi no seu olhar uma pergunta oculta.
– Estranho. – Respondo direto. Não quero pensar no Sr. Grey. Falar dele é como falar de um presente, que desejo muito, mas que nunca vou ganhar.
– Como assim estranho? – ela fica surpresa com o adjetivo que escolho.
– Estranho estranho, Kate. – respondo rispidamente – E ele não é gay.
– Como? Teu radar não identificou nada?
Riu pensando no fato de que meu radar explodiu.
– Ele nunca aparece acompanhado nos eventos – continua Kate – pensei que fosse.
– Eu perguntei a ele.
– O que? Tu fizeste o que?
– Fica tranqüila, Kate. Ele respondeu numa boa. Eu falei que era uma pergunta tua. – Digo e riu.
– Não?!! Arthur! – Diz ela batendo em mim.
– Claro. Eu não podia deixar que ele pensasse que eu estava interessado na sexualidade dele. A arrogância daquele homem, Kate, é maior do que a sede da própria empresa.
– E eu podia?
– Sim, tu sois a repórter.
– É, faz sentido. Mas...
– Não – digo cortando-a antes que faça outra pergunta. – Eu não vou falar mais nada, agora eu quero comer e ir para o meu quarto. Tu tens o gravador para matar a tua curiosidade.
Ela olha para mim, dá um sorriso mordendo o lábio inferior e liga o gravador.
– Tens razão. – Diz e agradecendo novamente, sai. Saio logo depois de terminar o lanche e vou para o meu quarto.
Passo o resto da tarde e boa parte da noite estudando para as provas finais e começando alguns trabalhos acadêmicos para terminar em algum dia da próxima semana. Poderia ter ido trabalhar, mas como a Sra. Clayton já tinha me dispensado aquela tarde, resolvi ficar em casa estudando.
A noite foi como todas as outras, o sonho que tive, não. Estava em um lugar todo branco, como o nada, não se via horizontes, só brancura. Porém havia raios prateados em certos pontos e o chão era de um metal brilhoso. Não sabia onde estava, até que chegava alguém e me agarrava, sussurrando em meu ouvido “Eu não sou gay, ouviu.Ninguém deve saber de nós” e de repente todo o lugar se transformava no prédio da Grey House. Acordo excitado, fico com raiva por ter tido aquele sonho, mas feliz por ter acabado.
Esta noite foi apenas sensações da experiência daquela tarde. Os dias seguintes são calmos, no seu normal, e monótonos com o trabalho e a WSU. E as noites sem excitações indesejadas.
Tenho meu plano de carreira focado no mundo editorial, não vejo a hora de conseguir um estágio em alguma editora, e essa hora é ainda mais esperada nos dias de sábado, quando gasto minhas energias indo do depósito da Clayton’s ao balcão, do balcão para um cliente, do cliente para um outro que acaba de chegar. A Clayton’s é uma loja de materiais de construções, nos sábados seu movimento é maior porque todo mundo aproveita a folga para concertar algo em casa. Há apenas um período de tranqüilidade durante o trabalho, o tempo que se estende de pouco antes do almoço até as duas da tarde.
Aproveitando este tempo de sossego, confiro as encomendas a pedido do Sr. Clayton. Apoiado, com o cotovelo, no balcão, meus olhos vagueiam da lista de encomendas para a tela do computador. A luz do monitor cansa os meus olhos e junto com a sonolência pós-almoço, contribui para que eu não faça meu trabalho direito. Quem se importa?! Penso em voz alta.
– Essa é uma pergunta que eu não posso lhe responder, Sr. Steele.
Ergo a cabeça de imediato. Philipe Grey está ali, na minha frente, na Clayton’s, em Portland. Mas o que ele faz aqui.
– Sr. Grey – balbucio surpreso.
– Boa tarde, Steele, fico surpreso em vê-lo aqui. – Diz ele.
Não, isso não é verdade, eu trabalho aqui.
– Não, Sr. Grey. Eu trabalho aqui, moro e estudo aqui, em Portland – digo incisivo. – Surpresa é ver o senhor aqui.
Ele parece ficar perdido por alguns instantes, sinto como se ele buscasse algo dentro dele, até que por fim fala.
– Eu financio pesquisas no departamento de medicina da WSU. Estou aqui para ver como anda essas pesquisas. – Responde, mas algo me deixa na dúvida.
Ele me respondeu que não era gay, mas sei, com certeza, que estava mentindo, assim como agora. Ele está aqui por mim, tenho quase certeza disso. Ficaria feliz em ver um homem como ele interessado em mim, se não fosse o fato dele não se assumir. Eu não gosto de pessoas que não saem do armário, são hipócritas e vivem uma farsa.
Dou o leve sorriso, decido não entrar no jogo dele. Armo-me com uma armadura de imparcialidade, olho nos seus olhos e faço o meu trabalho.
– Boa tarde, Sr. Grey, em que a Clayton’s pode lhe ajudar?
Seu rosto se fecha em segundos, ele entende o meu recado, o que me deixa satisfeito.
– Eu gostaria de um assento sanitário? – Fala e sua voz parece mais séria.
– Qual a marca que o senhor procura?
Após me dá a informação, conduzo ele por um corredor até um outro onde se encontra a sessão de artigos para banheiro.
– Trabalhas a muito tempo aqui, steele? – Pergunta o Sr. Grey enquanto caminhamos.
Noto que sua pergunta é fria, sem interesse, feita só para quebrar o silêncio. Olho para trás e sinto um pouco de culpa por ter começado com a frieza.
– Desde que entrei para a WSU. – Respondo com um sorriso para mostrar simpatia.
Fico aliviado por chegarmos no corredor procurado. Vejo os assentos sanitários da marca que o Sr. Grey quer, na parte superior da prateleira do canto. Procuro uma das varias escadas da loja, e depois de apoia-la me preparo para subir.
– Cuidado, steele. – Recomenda Philipe, parecendo nervoso.
– Tudo bem, Sr. Grey, faço isso sempre. – Minto.
Poucas vezes preciso usar as escadas e quando é necessário, peço para outro funcionário. Alturas não me fazem bem. Mas não posso ser derrotado na frente dele. Respiro fundo e subo.
Pouco tempo depois me vejo próximo dos assentos, estico o braço esquerdo e pego um. Tento fazer o caminho contrario, mas meu pé não senti o degrau. Olho para baixo e vejo dois olhos assustados me observando, são tão lindos. Desvio o meu olhar do dele, não quero que ele veja que estou com medo. Mas quando faço isso fico tonto e me desequilíbrio. Tento agarrar em algo, mas uma mão segura o assento e a outra me sustenta a escada. Rapidamente meu pé escorrega e passa por entre dois degraus, fecho os olhos enquanto caiu.
– Eu pedi para ter cuidado. – Fala Philipe Grey bem perto do meu rosto. Seu tom não é de repreensão, é quente.
Não sinto nada, é tudo tão rápido. Abro os olhos e vejo aqueles olhos novamente. Uma das minhas pernas está presa entre os degraus da escada, estaria pendurado se o Sr. Grey não tiveste me segurado. A mão esquerda ainda segura o assento, e a outra mão agarra, agora, o braço dele. Naquele momento o medo de altura e o susto da queda davam lugar a outra sensação. Eu estou nos braço do Sr. Grey, um lugar tão perigoso quanto a escada.
Minha cabeça pesa devido a posição que estou, mas quero mante-la ali. Começo a apertar o braço dele, sei que vou me arrepender depois, mas a vontade de senti-lo é maior. Aperto ainda mais e ele faz o mesmo comigo em seus braços.
– Steele. – Diz aproximando sua boca da minha.
– Sim... Sr.... Grey... – Sussurro.
– Por favor... – Ele para por um instante e me olha fixamente.
– Sim. – Espero.
– Chame-me de Philipe, Steele... Me chame de Philipe.
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