A história de nós dois
42 Susto
Notas iniciais
Izuku nunca antes estivera tão nervoso ao sentar na presença da mãe. Não que ela já não tivesse uma ideia do nível de relacionamento entre ele e Shoto, mas para terem sido pegos pela primeira vez daquela forma ainda era bastante constrangedor. E aparentemente todos os três envolvidos se sentiam da mesma forma. A comida na mesa era curry e, mesmo enquanto estavam se servindo, Shoto não arriscou tirar o olhar do próprio prato. Izuku começou a pensar se seria melhor que ele fosse embora pela tarde, mas um suspiro longo da mulher ao lado o tirou da espécie de transe no qual havia entrado sem perceber.
— Shoto-kun nunca me contou muito da sua família... — Ela mexeu um pouco o suco no copo enquanto falava, em um tom tão tranquilo que fazia parecer que o acontecimento de um pouco antes era algo criado pela cabeça de Izuku. Podia ser que ela não tivesse percebido, no fim das contas? No mais, o assunto que estava puxando era um pouco delicado, portanto o rapaz se forçou a engolir rápido o que tinha na boca para mudar de tópico, até que ouviu sua mãe continuar mais veloz. — Meu filho disse que você tem uma irmã.
— Do… Um irmão e uma irmã. — Shoto finalmente olhou para frente ao responder, sua expressão pensativa, mesmo que as bochechas ainda estivessem meio rosadas e o tom de voz mecânico. — Eu sou o mais novo.
— Oh, uma família grande! — Ela soltou de forma mais alegre, ignorando o jeito que o menino gaguejou no início. Então prosseguiu, sem deixar de sorrir: — E você pretende ter filhos no futuro?
— Mãe! — Izuku praticamente gritou, sem conseguir conter a expressão boquiaberta. Seu rosto começou a queimar quando estava prestes a dizer para Shoto que não precisava responder.
— Não. — O tom de voz de seu namorado era tão convincente que tirou Izuku de qualquer linha de pensamento para escutar o que vinha a seguir. — Eu não vejo motivo para alguém desejar para si uma criança... Além do mais, com o perigo que envolve as nossas carreiras, isso não seria prejudicial para ela?
— Entendo. — Inko respondeu assim que terminou o gole do suco e então mudou de assunto outra vez, sem pedir mais explicações, finalmente deixando o clima na mesa de alguma forma tranquilo.
Izuku não pode deixar de dirigir o olhar ao namorado algumas vezes, enquanto terminava de comer, impressionado ainda com a resposta dele sobre crianças. Não era como se nunca tivesse pensado no assunto, mas isso sempre lhe pareceu algo distante e abstrato, de forma que ouví-lo falar de uma maneira tão concreta e racional era um tanto quanto estranho.
Pegou um pedaço de peixe do prato e mastigou devagar. Bem, de qualquer modo, esse tipo de coisa não poderia acontecer naturalmente entre os dois e, por isso, era uma discussão sem sentido em primeiro lugar. Convencido por esse raciocínio, o rapaz terminou de comer e esperou os outros dois para recolher os pratos e levar até a cozinha. Shoto ficou na sala, enquanto ele e a mãe lavavam e secavam a louça em conjunto.
— O relacionamento de vocês dois está cada vez mais sério, não é? — Ela disse ao esfregar uma panela, sem tirar os olhos do que fazia.
Izuku parou de secar um prato e contraiu os lábios. Depois daquela afirmação, literalmente qualquer coisa poderia vir, certo? Será que ela estava dizendo isso por causa da conversa anterior ou porque tinha visto algo comprometedor mais cedo? Se tivesse que lidar com mais um ensinamento sobre camisinhas, preferia ser engolido pelo chão naquele instante. Bom, talvez fosse uma observação mais geral pelo fato de Shoto vir visitá-lo com certa frequência… de qualquer maneira, Izuku sentia que a forma como respondesse àquilo iria determinar a continuidade da conversa e ele não tinha ideia de como queria que a conversa continuasse. E principalmente não queria entrar em detalhes pessoais sobre sua vida afetiva com a própria mãe. Quer dizer, isso era normal, certo? Não era como se ele não pudesse contar com ela, mas…
— Izuku! — Inko se inclinou em sua direção e o rapaz percebeu que estivera murmurando tudo aquilo em voz alta. Rapidamente, se calou e piscou algumas vezes na direção da mulher, que deixou a esponja dentro da panela ao continuar. — O que eu quero dizer, é que eu estou do lado de vocês para o que precisar, sabe? Eu sei que ambos são meninos fortes e responsáveis, mas… se qualquer coisa acontecer e vocês precisarem de auxílio, eu…
O rapaz estava ainda decidindo o que fazer com aquelas palavras tão queridas, quando um barulho grave de explosão do lado de fora chegou quase ao mesmo tempo em que a estrutura do prédio tremeu. Sem pensar duas vezes, correu para a janela e se debruçou um pouco, para ver a fumaça preta que levantava não muito longe dali. A essa altura, Shoto já estava do seu lado, com um semblante preocupado. Os dois se encararam por meio segundo e, sem pensar muito, correram para o quarto para se enfiar nos macacões e ir averiguar.
— deixei meu uniforme em casa. — Shoto disse ao abrir a mochila. Izuku olhou-o de sobrancelhas levantadas, como se dissesse "e agora?", mas não teve tempo de verbalizar antes do outro concluir. — Me empresta o seu reserva.
Izuku abriu a boca para discutir, mas considerou que não podia se dar a esse luxo de gastar tempo com um possível ataque lá fora. Desta forma, abriu o armário e tirou o macacão verde para entregar ao namorado e o ajudou a fechar o zíper na parte de trás, um pouco admirado com as costas do rapaz. Antes que pudesse se aprofundar nesse pensamento, ou mesmo perceber que as pernas e mangas da roupa ficaram curtas nele, outra explosão os balançou.
Saíram pela porta da frente e Shoto subiu nas costas do outro, para que pudessem ir pulando pelos telhados até o local onde a segunda cortina de fumaça estava, ainda mais perto da sua casa. Izuku parou assim que avistou a figura de Kacchan, em cima de um prédio, olhando para o céu, na direção de um enorme nomu, que se preparava para uma terceira investida.
— Você demorou pra caralho! — Bakugou berrou ao bloquear o ataque do monstro com uma explosão antes de virar o rosto na direção dos meninos. — Isso é hora do meio a meio fazer cosplay?!
Izuku ignorou a pergunta, considerando o estado do colega. Era visível que havia sangue escorrendo pelo seu rosto e ele não usava um dos braços, provavelmente por estar machucado. Antes que pudesse fazer alguma pergunta, porém, de dentro da nuvem de poeira causada pelo garoto, um ponto de luz branca se acendeu cada vez mais forte. Sem pensar duas vezes, Izuku se jogou na direção de Kacchan, evitando que ele fosse atingido por um raio. Um barulho ensurdecedor fez com que tomassem os ouvidos enquanto rolavam no chão que tremia. O prédio estava desabando. Shoto imediatamente criou uma parede de gelo enorme, que segurou a estrutura da melhor maneira que pôde, mas ainda era preciso apagar o fogo e tirar as pessoas dali o mais rápido possível.
— Que merda é esse bicho? — Izuku ouviu Bakugou gritar antes de ser empurrado para o lado com certa violência. — Sai de cima de mim, Deku!
— Deku! — O grande nomu repetiu a última palavra em um tom que arrepiou os cabelos da nuca do rapaz. Se virou para na direção do som e finalmente conseguiu dar uma olhada no quão bizarro ele era, com asas pretas e braços muito mais fortes que as pernas e um terceiro olho na testa, completamente branco, de onde o raio havia vindo. Não tinha como se acostumar com a aparência deles afinal. Primeiro, Izuku achou que o monstro tinha apenas repetido, como um eco, mas então ele continuou falando — Deku, matar o Deku.
A próxima coisa que viu foi um golpe vindo na sua direção, do qual precisou saltar no ar para poder desviar. Nem mesmo um segundo depois, porém, o nomu bateu asas e um vento poderoso tirou o rapaz da trajetória, fazendo-o cair em uma praça. Desviou de outro raio e então alguns ataques físicos, enquanto tentava subir novamente para os telhados e afastar a luta dos civis, mas o inimigo era mais rápido do que ele conseguia acompanhar, mesmo com 80% do One for All, e forte o suficiente para se abalar pouco com seus contra-ataques. Era como se tivesse sido projetado especificamente para matá-lo naquele dia.
Uma explosão de Bakugou vinda de cima fez o nomu se desequilibrar por um instante, suficiente para que Izuku girasse o corpo em um chute que o jogou para cima, o mais alto que conseguiu.
— Vai para a praia! — Bakugou tinha acabado de aterrissar alguns metros à frente, mas olhava para cima, para o nomu que já estava voltando. — Essa merda está atrás de você. Eu atraso ele!
Izuku concordou com a cabeça, pois sabia que a praia era a melhor opção de campo aberto. Girou nos calcanhares e usou toda a energia para correr, mas assim que o mar despontou sua visão, levou um golpe nas costas, que o arremessou para frente, fazendo-o cair na areia molhada, protegendo a cabeça com os braços.
Antes de levantar, captou, com a visão periférica, a luz branca que antecederia outro raio, e seu coração disparou. Estava pronto para rolar de qualquer jeito, quando sentiu uma força lhe empurrando para o lado de modo a escapar por um triz do ataque. Era Kacchan, o qual agora se punha mais ou menos entre ele e o monstro. Lutando juntos, eles poderiam ter uma chance.
Observaram o nomu bater asas, inclinado para frente para um novo ataque físico, e se prepararam para contra atacar. Contudo, uma labareda enorme irrompeu desde o lado, pegando todos de surpresa conforme a temperatura aumentava instantaneamente. Izuku viu o nomu praticamente torrar, até não conseguir se mexer mais diante de seus pés. Era uma cena horrível e aliviadora ao mesmo tempo. Se perguntou quando Shoto tinha ficado tão incrível, enquanto olhava se virava para a fonte do ataque, mas topou com a figura de Endeavor caminhando até eles na areia.
— Onde está Shoto? — Ele perguntou, direcionando-se principalmente ao menino de verde, que engoliu em seco ao ouvir o nome do namorado.
— O prédio! — Izuku exclamou uma resposta antes de começar a correr por lembrar da situação do outro — ele está segurando um prédio!
Não demorou muito para que os três chegassem ao local e ajudassem a evacuar todos os civis da área, e assim Shoto finalmente pôde deixar o edifício desabar de vez. No fim do dia, a polícia e alguns outros heróis já tinham se juntado a eles e enfim as coisas se acalmaram. Izuku, no entanto, ainda se sentia um tanto quanto angustiado pelo acontecimento. Tanto ele quanto Kacchan tinham ossos quebrados e mal conseguiram dar conta de apenas um inimigo, lutando juntos. Como é que ele poderia ser o próximo símbolo da paz nessas condições?
Enquanto o paramédico cuidava dos arranhões em seus braços, Shoto veio até o seu lado, aparentando estar tão chateado quanto Izuku.
— O que aconteceu aqui? — A voz de Endeavor surgiu no meio dos garotos assim que acalmou e afastou a multidão que tentava se aproximar dos heróis.
— O nomu estava atrás de Izuku. — Shoto respondeu com a voz ríspida que costumava usar com o pai. — Quando chegamos, Bakugou já estava lutando, mas ninguém sabe da onde ele veio.
Endeavor cruzou os braços e concordou com a cabeça, dirigindo o olhar para o próprio filho. Izuku reparou que ele franziu o cenho ao descer devagar a visão até os pés de Shoto e então virou o rosto para o outro rapaz, que sentiu o estômago revirar com a lembrança de que o namorado estava usando seu uniforme. Aquilo era ilegal, não era? Mas de repente, sua preocupação ia além disso. Quer dizer, era como se houvessem sido pegos duas vezes no mesmo dia. Imediatamente, quis inventar uma desculpa, mas nada lhe veio à cabeça, por isso apenas mexeu a boca em silêncio até que o homem foi chamado em outro lugar e deixou-os sozinhos de novo, como se não houvesse realmente captado a nuance a mais no significado daquilo.
Izuku suspirou, um pouco aliviado.
Naquele momento, por vários motivos, queria muito segurar a mão do namorado, mas era impossível qualquer contato físico sem levantar suspeitas com tanta gente por perto. Por isso apenas abaixou a cabeça quando Shoto anunciou que voltaria para casa de carro com o pai e pegaria a mochila com ele na segunda-feira.
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