A história de nós dois

44 Pretérito imperfeito do subjuntivo


— É verdade? — A voz de Uraraka era fina e um pouco tremida, depois que ela havia derrubado metade das cartas do baralho no chão. — Não é verdade, né? por que não nos falaram?

— N-nã… — Shoto ouviu a voz de Izuku, enquanto podia vê-lo agitar os braços apenas com a visão periférica — N-nós só… Eu e ele, n-no-no-nós somos...

Antes que ele pudesse terminar a frase, no entanto, o outro garoto girou nos calcanhares, segurou-o pelos ombros e encostou os lábios nos seus, de forma brusca. Não houve reação. Izuku ficou apenas paralisado em resposta e, no momento em que se separaram, seus olhos ainda estavam bastante abertos. Shoto não tinha muito bem certeza das próprias ações, mas naquele ponto, a última coisa que poderia suportar era Izuku negando a relação deles na frente dos colegas, depois de tudo.

— É verdade — confirmou ao soltá-lo, ignorando o jeito que o garoto parecia atordoado. — Nós estamos saindo há seis meses.

— Então Deku teve mesmo um sonho erótico com o Todoroki na aula, aquele dia? — Kirishima apontou para Izuku, que instantaneamente ficou com o rosto inteiro vermelho.

— O que!? — Ele retrucou, quase dando um passo para trás, com a voz trêmula. — C-c-claro que não! Eu juro que foi sobre um bolo, não teve nada que chegasse perto de ser erótico. O-ok que era um encontro, eu admito, m-m-mas foi numa lanchonete e tinha um bolo que a gente gosta, por isso eu fiquei dizendo para comer e também que estava com vontade, mas isso não significa nada demais, já que não foi s-s-sexual nem nada, eu juro por tudo...

— Acho que eu meio que já sabia. — Sero coçou a cabeça, interrompendo o que já havia se tornada um murmúrio incompreensível da parte do outro.

— Como assim, cara? — Kirishima quem perguntou, mas todo mundo teve a mesma curiosidade ao dirigirem olhares para o rapaz no canto da sala.

— Po, o Todoroki mora do lado do meu quarto. Não precisa ser muito esperto para perceber uma coisa ou outra...

O barulho alto da mesa de centro virando chamou a atenção de todos. Uraraka levantou subitamente, parecendo que tinha levado um soco no estômago, e disparou para fora do salão em direção ao refeitório. Iida olhou para Asui e então os dois correram atrás dela. Izuku pareceu querer ir também, mas o namorado o segurou pelo pulso, sem pensar muito bem nas próprias ações. Manteve a visão grudada em Bakugou até que este último deu de ombros:

— Que seja, amiguinho ou namorado, danem-se vocês dois. — Ele limpou o sangue no canto da boca com as costas da mão e ajeitou a calça com batidas leves, inexpressivo. Então olhou para Izuku. — Se é assim, então se vira sozinho.

Bakugou deu meia volta e saiu pela porta da frente, seguido logo por Kirishima, que virou a cabeça para trás algumas vezes, com o olhar alternando entre Sero e o casal. Pareceu legitimamente impressionado com a revelação sobre o namoro dos colegas, mas não disse mais nada até que os dois amigos sumiram das vistas de quem ficou. O clima ainda estava tenso, quando finalmente tudo caiu em silêncio. Por algum motivo, Shoto não conseguia se acalmar e nem soltar o pulso de Izuku. Desta forma, praticamente puxou o namorado atônito para os elevadores, batendo os pés ao caminhar.

Não foi surpresa quando o rapaz não apertou o botão do próprio andar, mas o jeito que ele absolutamente não levantou o rosto e manteve os punhos fechados, sem dizer mais nenhuma palavra fazia o coração de Shoto se apertar por causa daquela cena lá em baixo. Era óbvio que ele tinha feito besteira e Izuku estava chateado, mas não conseguia se sentir de todo culpado por toda a situação. Não, o que estava sentindo era frustração e indignação acima de tudo, ainda mais pela forma que Bakugou tinha falado a última frase, como se o outro precisasse de algo que ele poderia ter e Shoto não.

Abriu a tranca com a chave e girou a maçaneta, revelando o cômodo quase vazio, agora iluminado pela luz artificial fluorescente, que deixava o ambiente mais pálido do que durante o dia. Não sabia se estava pronto para a conversa que viria a seguir.

— Por que fez aquilo? — A voz de Izuku soou um pouco mais alta, assim que a porta do quarto se fechou atrás dele, mas não a ponto de ser uma bronca. — Nós não tínhamos combinado de manter segredo até nos estabilizarmos? Agora o que vamos fazer se alguém sair espalhando? Vou precisar conversar com cada pessoa que estava lá em baixo para pedir que não conte a ninguém...

— E se eu nao quiser mais manter segredo? — Shoto indagou de volta: — estou cansado de tudo ter que ser segredo!

— Isso não diz respeito só a você.

— E diz respeito a quem? Ao Bakugou? — Shoto recuou e afastou a franja do rosto. Ao notar a forma como o garoto franziu o cenho em sua direção, rangeu os dentes, sentindo uma enorme frustração em seu peito começar a querer sufocá-lo. Algo que precisava ser colocado para fora o quanto antes. Apertou os punhos e completou. — Você não tem dignidade? Todo mundo sabe o que ele fez contigo antes da U.A a ponto de não conseguir nem olhar para ele no começo do primeiro ano. Até hoje você não consegue falar com ele sem tremer! Por que ainda se sujeita a esse tipo de tratamento?

— N-não é assim! — Izuku gesticulou com os dois braços na frente do corpo. — As coisas agora são diferentes daquela época…

— Diferentes? — Shoto interrompeu, incrédulo. — Escuta o que você está falando! Acha que eu não percebo? Que não percebi os cadernos queimados, o jeito que você não consegue nem me contar que ele te maltratava? E mesmo assim vocês ficam de segredinhos… — Shoto engoliu em seco, com a respiração acelerada. Apertou os punhos e abaixou os olhos para então se inclinar e segurar nos ombros do garoto a frente. — Ele é tão mais importante para você assim? Se… se eu estivesse lá naquela época… se fosse eu no lugar dele… Eu nunca teria te tratado assim...

Quando deu por si, as duas mãos de Izuku pousaram em seu peito, empurrando-o para trás com uma força mediana que o fez recuar dois passos para se equilibrar. Incrédulo, encarou-o. Estava pronto para dizer qualquer coisa, quando pôs os olhos nos dele e congelou no lugar. A expressão no rosto do garoto era algo que nunca havia visto, a boca pequena curvada para baixo e as sobrancelhas franzidas pela raiva, mas com lágrimas escorrendo pelas bochechas. Shoto engoliu em seco, paralisado por um segundo, até que ele começou a falar em um tom mais agudo e rouco.

— Se fosse você lá? O que acha que teria feito?! Você não teria nem olhado para mim em primeiro lugar! — Izuku tremia violentamente enquanto secava o rosto com as costas do braço. — Olha só para você, sua perspectiva desde pequeno. Alguém como você é... Em relação a alguém como eu… O que acha que teria feito? O que acha que sabe?!

— E o que eu não sei?! — Shoto deu um passo à frente, incapaz de controlar a respiração acelerada. — Se não me conta as coisas, é claro que eu não vou saber, mas você prefere confiar em alguém como o Bakugou! Então vai procurar ele agora e discutir seus assuntos secretos que não me dizem respeito, já que eu não sei de nada. E sai do meu quarto!

— Está me colocando para fora?

— Estou.

— Ótimo! — Izuku se afastou e tateou a porta até achar a maçaneta. — Eu não quero mais mesmo te ver tão cedo.

Shoto observou a porta abrir e fechar, antes do silêncio tomar conta do quarto. Ficou parado na mesma posição até que a adrenalina da situação anterior minguasse, fazendo com que sua respiração fosse voltando ao normal.

O semblante do namorado ainda matutava em sua cabeça. Conforme seu coração se sentia mais apertado, pode perceber a quantidade de mágoa que aquelas lágrimas carregavam e como ele tinha provocado isso de forma tão cruel. Afinal, o que Izuku tinha vivido, as marcas que ele levava no coração, a forma ele como lidava com o que machucava, nada disso Shoto conhecia ao certo. Como pôde ter sido tão insensível e egoísta?

Um segundo depois, correu até a saída para o corredor em busca da figura do garoto, mas se deparou com o lugar já vazio. Voltou ao quarto e se deixou ajoelhar em cima do futon dobrado, levando a mão à boca ao lembrar da forma como havia gritado com o namorado e do jeito que ele havia ficado abalado antes de responder o óbvio, realmente não sabia de nada.

O que lhe dava o direito de ter falado aquelas coisas para Izuku, no fim das contas? Onde queria chegar com isso? Por que tinha ficado tão chateado? Quem ele achava que era? Eles tinham terminado? Essa última questão lhe atravessou a mente tão depressa que um nó lhe apertou a garganta. Sim, essa briga era motivo de término, não importava por onde olhasse.

Sentiu algo quente na ponta dos dedos e os tirou do rosto para constatar que estavam molhados com lágrimas que agora não paravam de escorrer.

As coisas que tinha dito... Havia magoado a pessoa que gostava deliberadamente… pelo que? Deitou sobre as próprias pernas e pôs os braços em volta da cabeça, conforme sua respiração custava a vir entre soluços. Qual era a diferença entre ele e Bakugou, afinal? Qual era a diferença entre ele e o próprio pai? Agarrou o lençol com os dedos, sem conseguir manter uma linha de pensamento além da culpa. Talvez ele realmente fosse seguir o que todos diziam e se tornar o monstro que o assombrou durante toda a infância. Como podia ser de outra forma, enfim? Fechou os olhos, se sentindo tonto e enjoado, com o ouvido zunindo e o peito doendo.

Chorou até que o tremor no corpo passasse sozinho e sua respiração fosse se acalmando devagar, então se jogou de lado no chão duro. Já estava bem escuro lá fora. Pegou o travesseiro e colocou sob o próprio pescoço, sem se importar em fazer a cama. Virou de barriga para cima e olhou para o teto branco, desanimado como se suas forças lhe tivessem sido sugadas do corpo, mas agitado o suficiente para não pegar no sono naquela noite.

Notas finais
Lembrem-se, crianças, de se hidratar