Notas iniciais
É uma introdução pra vocês conhecerem a personagem e entenderem a história :)

Eu estou numa clínica psiquiátrica. Terça feira, quatro horas da tarde, do mês Março. É uma clínica para a alta classe social, e eu só posso frequentar esse lugar por causa do convênio médico que o emprego de minha mãe fornece. Essa é uma das únicas razões que faz com que minha mãe enfrente ficar, por oito horas, dentro de uma fábrica, concertando peças de aparelhos telefônicos.

Eu sempre encorajei minha coroa a largar aquele emprego ruim, falava que a gente dava um jeito caso as coisas não dessem certo, que era para ela ir atrás de seu sonho de ser escritora e tentar ser feliz. Por um momento achei que ela fosse seguir meu conselho. Mas aí...ela achou que eu estava depressiva e resolveu contratar um terapeuta.

Sério, cara, foi do nada! Bom, na verdade, eu tenho alguns problemas, como qualquer adolescente, mas ela achou que o fato de eu passar muito tempo deitada na frente da TV, usar roupas velhas e masculinas, não ter nenhum amigo além do meu cachorro e ser uma grande anti-social era algum tipo de problema psíquico. Credo, escrevendo isso aqui, agora, até eu começo a achar que era!

Todas as minhas tentativas de fazê-la perceber que eu sou normal, fracassaram. E acho que isso se dá porque eu mesma não me julgo muito normal. Veja bem: quando converso com as outras pessoas da minha escola, me sinto um ET, por fora do assunto, sei lá. É horrível.

E agora aqui estou. Nessa clínica para ricos. Vou para minha quarta consulta e ainda não vi resultado.

“Maria Catarina” ouço o doutor Klaus me chamar e entro na sala dele “Bom dia, sente-se.” Sento-me a vontade na poltrona de pacientes. “Então, como foi sua semana?”.

Eu não gosto de magoar as pessoas, muito menos as inocentes, como Doutor Klaus. Ele é um cara legal, um pouco louco e sistemático, mas legal. Eu não queria fazer desta mais uma consulta fracassada, mas repeti a frase que sempre respondia em toda a consulta, quando ele me fazia perguntas como essa.

“Foi...normal”.

“Com normal você quer dizer como todas as outras, e ‘como todas as outras’, pelo olhar de sua mãe, você quer dizer péssima.”

Suspirei entediada.

“Exatamente”.

Ele se aproximou de mim.

“Bom, Maria, eu quero que você me conte sobre as pessoas na sua escola. Sua mãe me disse que você não tem amigos, é verdade?”.

Suspirei e tentei me lembrar da feição de cada pessoa que eu via diariamente na escola.

“Bom... sim. As pessoas de lá são legais e tal, alguns até tentaram fazer amizade comigo. Mas acho que o problema sou eu mesma. Eu...não vejo graça naquela gente. São todos tão iguais, tão únicos. Sei que isso pode parecer um tanto narcisista, mas aquelas pessoas não são interessantes o suficiente para serem meus amigos”

Terminei e olhei para o doutor. Tinha dito tudo aquilo com determinação. Era um fato que eu já tinha estudado e me acostumado, esse lance de eu simplesmente não querer ter amigos. Não aqueles.

“Me desculpe, Maria Catarina, mas eu simplesmente não concordo.” Olhei para ele confusa. Como ele poderia saber, se nunca pusera o pé no Colégio Estandarde? “Aliás, eu poderia colocar minhas mãos no fogo, pois aposto que haja lá pelo menos uma pessoa tão interessante quanto você. Seja lá o que você julgue como interessante.”

Olhei- o entediada e eu estava para discordar quando ele de repente toma feição marota e diz:

“Eu quero lhe propor um desafio, Maria. Quero lhe mostrar como os limites é você que cria. Darei-lhe um mês para que você encontre naquela escola alguém que valha a pena. Eu sei que há.”

Meus olhos brilharam quando ouvi a palavra ‘desafio’.

“Continue”.

O doutor, aquele homem de meia idade, que sempre fora sério, estava agora com um ar juvenil e energético.

“Se você não arranjar um amigo interessante em um mês, você ganha e eu digo para sua mãe que sua depressão está curada. Se você conseguir, continuará na terapia e lhe darei outro desafio.” – Eu nunca tinha o visto tão animado – “Você terá que se esforçar nessa busca e em cada consulta terá que ser extremamente sincera e narrar os acontecimentos. Caso o contrário, eu saberei e o castigo será torturante”

Olhei- o com certo desdém e respondi com ironia:

“Como vai saber caso eu minta? Usará seus poderes psicológicos e descobrirá a verdade lendo meu olhar?”

“Quase isso” Ele sorriu, foi até seu armário e tirou de lá uma máquina estranha. Colocou- a em sua escrivaninha. “Conheça, querida dama, meu detector de mentiras!”.

Corri para perto da máquina e a toquei. Aquilo era incrível.

Olhei para o Doutor e estendi a mão.

“ Acordo fechado.”

Foi quando saí da clínica que percebi no que havia me metido. Pessoas legais no Colégio Estandarte? Onde o Doutor estava com a cabeça? Eu nunca acharia esse tipo de pessoa lá! Entretanto, eu teria de me esforçar, já que o tinha prometido.

Fui para casa me sentindo leve como uma pena naquele dia. Era só preciso um mês. Um mês de terapia para eu provar que não havia como eu fazer amigos, e me livrar de uma vez por toda de todo esse drama!

Notas finais
Altamente movida a reviews, infelizmente.