A gente canta junto, amor.
1 Capítulo 1
Notas iniciais
— O quê?
— É sério, quebra essa pra mim!
— Você deve estar ficando louco, você quer que eu seja demitido?
— São só dois minutos!
— Não mesmo, some daqui!
(um deles chia, pedindo silêncio)
— Silêncio, ‘cê tá em um estúdio de gravação, lembra?
— Lembro, lembro sim, lembro também que por esse motivo eu já devia ter te colocado pra fora daqui.
— É um favorzinho de nada, nem vai doer. Ninguém nem vai perceber.
— Qual a parte de “nem sob decreto de estado” você não entendeu?
— Eu não arredo o pé daqui até você me deixar gravar essa mísera música, eu prometi pro pessoal que conseguiria um lugar.
— Você também contou que seu namorado tem um emprego e uma renda a manter para sobreviver?
— Você é muito dramático.
— Eu sou realista.
(a porta abre. uma moça esguia a cabeça por entre a fresta, os olhos curiosos. os dois homens param de discutir e a encaram)
— Tá liberado?
— Não!
— Sim!
— Ahn, quando estiver resolvido avisem... (e a porta se fecha com um click)
— Por favor, eu nunca mais te peço nada.
(um som liberado pela boca que só podia indicar uma sensação de total descrença)
— Quando você não está me pedindo alguma coisa, Miguel?
— Você tem muita coragem. Como namorado você devia me ajudar e não me abandonar em um momento de necessidade.
— Necessidade? Você só quer gravar uma música improvisada para um meme de internet.
— Não é só um simples meme de internet! É um projeto artístico!
— É um meme de internet pelo qual eu não estou disposto a arriscar o meu emprego.
— Você pensa que eu não sei que você se senta aqui nas horas vagas e fica brincando com esses botãozinhos?
— Primeiro, eu não brinco, eu trabalho. Segundo, o único que tem horas vagas aqui é você.
— Eu sou um homem muito ocupado! Você podia estar me ajudando a ser mais ocupado ainda.
( Miguel se senta em uma das cadeiras acolchoadas, olhando para a vidraça enorme que o separava da sala onde os artistas gravavam suas músicas. Ele balançava as pernas como sempre fazia quando estava ansioso por algo)
— Meu deus, eu não acredito. Você não vai me deixar mesmo em paz até eu ceder, né?
(os olhinhos se levantaram, brilhando. um suspiro.)
— Ainda bem que chegamos a um acordo! Te amo!
(Miguel se levanta, abraçando o namorado como um urso. o outro retribui, sentindo o cheiro característico dele na camiseta verde musgo)
— Ah, esqueci de comentar um pequeno detalhe. Eu disse para o pessoal que você também participaria.
(os olhos alheios exprimem com desconfiança.)
— É um dueto. Eu sou o B1 e você é o B2. Vai ser genial!
(Miguel se senta na cadeira novamente, encarando todo aquele mar de botões como um verdadeiro profissional. Ele olha para o namorado e sorri, cinco pessoas irrompem pela porta cochichando entre si. O namorado suspira, preparando-se mentalmente para sua parte no tal dueto.)
Fale com o autor