Notas iniciais
Sobre vontades e desesperos — Rose Weasley
Já passava das três da manhã quando finalmente consegui pegar no sono. A cena da detenção se repetia na minha cabeça como um disco riscado e cada vez que isso acontecia, eu sentia meu coração acelerar de uma maneira que parecia querer pular fora do peito.
Agora, sentada na mesa da Grifinória, minha mente insistia em vagar para um certo sonserino. E Roxanne percebeu isso.
— Você está mais avoada do que o normal. — sussurrou a morena, evitando chamar atenção das pessoas ao redor.
Eu e Roxanne não éramos tão próximas, apesar de dividirmos além do sobrenome, o dormitório e a mesa em algumas matérias, mas a morena era esperta e tinha uma perspicácia e intuição incomum. Sempre era a primeira a perceber quando algo estava incomodando ou errado, e era primeira também em ligar os pontos e entender o que acontecia. Por isso, não precisei dizer uma palavra sequer para ela entender o que, ou quem, era o responsável por isso.
— O que aconteceu entre você e Scorpius? — murmurou, fazendo-me suspirar. Não adiantava mentir para Roxy porque ela saberia se eu estivesse mentindo. Ela sempre sabia.
— Eu... — comecei, sem saber muito como continuar e escolhendo as palavras. — fui fraca. — suspirei. — E nós quase nos beijamos. — a morena arqueou uma sobrancelha, parecendo minimamente surpresa.
— Confesso que essa era a última das minhas hipóteses. — disse, dando um gole em sua bebida quente. — O que te impediu?
— Filch chegou e nos interrompeu. — respondi dando de ombros. Ela me encarou como se perguntasse “é só isso mesmo?” e eu suspirei. — Eu sei lá, Roxy, depois de tudo que aconteceu... estar perto dele, conversar com ele, tudo que o tenha relacionado parece errado... e beijá-lo eleva isso em um grau que não consigo nem contar. — abaixei meus olhos, encarando a xícara com chá que havia tirado mas permanecia intocada. — Não importa o que ele diga ou faça... acho que nunca conseguirei confiar nele novamente.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, parecendo processar e refletir minhas palavras. Quando voltou à falar, ergui meus olhos para encará-la.
— Naquele dia eu disse que seria idiotice você sentir algo por ele, e foi um erro da minha parte. — ela me olhava como se pedisse desculpas. — Independente do que você sentir, não é um erro cogitar ou sentir vontade de fazer algo. Se quer xingá-lo, xingue. Se quer jogar uma azaração, jogue. Se quer conversar, converse. E, principalmente, se quer beijá-lo, então o beije! Erro é não seguir nossos corações e deixar passar as oportunidades; não precisamos de desculpas ou porquês para fazer o que queremos.
As palavras dela me acertaram em cheio e, embora não fosse exatamente o meu dilema, acabou se tornando uma resposta para eu refletir sobre. Quando abri a boca para respondê-la, um pigarro alto me calou, junto de todos no salão.
— Bom dia a todos. — a voz da Diretora Mcgonagall, que raramente era vista compondo a mesa dos professores àquela hora da manhã, foi ouvida chamando a atenção e calando todos no salão. — Antes demais nada, gostaria de pedir que os alunos dos primeiros, segundos e terceiros anos se retirem e aguardem às ordens de seus monitores nos jardins ou salões comunais. — um burburinho curioso se instalou, e a mulher só voltou a falar quando se certificou de que sua ordem havia sido cumprida. — A vida de um adolescente bruxo e um trouxa se difere em muitos pontos, isso é óbvio, e a nossa missão nessa era de paz é fazê-los entender que, no fim, independente de nossas diferenças culturais ou “mágicas”, se assim posso dizer, somos todos iguais. Pensando nisso, a Professora Fletchley, de Artes e Estudo dos Trouxas, nos deu a ideia de seguirmos uma tradição trouxa e realizarmos um baile de Halloween... — mais uma vez um burburinho se instalou, desta vez animado, e todos já fantasiavam a ideia do tal baile. O salão só voltou a se calar quando a diretoria pigarreou, chamando-nos a atenção. — Ainda não temos todos os detalhes certos do evento, mas gostaria de deixar explícito que bebidas para menores de idade não serão toleradas, as visitas à Hogsmade serão adiantadas para que aqueles que desejarem possam comprar vestes novas, além disto sugiro que já convidem seus pares...
E aquilo foi mais que suficiente para o barulho do salão voltar e todos não escutarem mais nada.
— Quem será que irá me convidar? — Dominique, que hoje se juntava à mesa da Grifinória embora vestisse a gravata azul e prata, perguntou animada e com um ar sonhador.
— Todos, é claro. — Roxanne revirou os olhos. — A pergunta é: quem não a convidaria? — eu ri, juntamente com a morena.
— Pois saiba que existem muitos por aí que não me convidariam, ok? — cruzou os braços. — Ainda mais agora que a Rosie está toda linda, ela é a novidade, quem quer que vá com ela será o garoto mais comentado do ano! — sorriu. Eu revirei os olhos, sentindo minhas bochechas esquentarem.
— Não fale besteiras, Dominique. — murmurei. — E você, Roxy, com quem quer ir?
— Talvez eu convide alguém do time, não sei. — deu de ombros.
— Você irá convidar? — a loira fez uma careta. — Tenho certeza que receberá muitos convites, não será preciso isso.
— Eu irei convidar porque vivo no século vinte um onde as mulheres deveriam ter os mesmos direitos que os homens! — exclamou, parecendo irritada com a fala da prima. — Se eles podem convidar, então eu também posso! E, sinceramente, é até melhor, assim minhas chances de ir com uma pessoa que eu realmente queira aumentam ainda mais. — deu de ombros.
— E quem seria essa pessoa? — Dominique arqueou a sobrancelha.
— Não há ninguém exato, são hipóteses. — deu de ombros novamente. — E você, Rosie, com quem que ir? — perguntou, me fitando de uma maneira que eu sabia o que estava fazendo: ela queria que eu admitisse que talvez, apenas talvez, uma parte minha ainda quisesse ir com Scorpius.
Mas eu não podia admitir o que não era verdade, certo?
— Não sei ainda. — inconscientemente, meu olhar vagou para a mesa da Sonserina onde encontrei um par azul acinzentado também me encarando. Desviei o olhar quando nossos olhos se encontraram, encontrando Roxanne me olhando com algum tipo de triunfo no olhar.
— Scorpius Malfoy
Slughorn havia entregado o resultado dos nossos primeiros testes e agora explicava algumas poções que ele julgava importante, para na próxima aula começarmos a praticá-las.
Ainda assim, minha mente só conseguia prestar atenção na cabeleira ruiva sentada de frente para o professor, junto de Roxanne. Era a primeira vez, desde que soube que ela havia voltado, que Rose Weasley me pegava a encarando e era a primeira vez também que eu não me importava nem um pouco com isso.
Depois de uma noite estranha de detenção, bebedeira — que resultou em uma ressaca péssima — e sono ruim, eu havia finalmente admitido para mim mesmo que uma parte — grande — de mim a queria, e decidi que não podia mais ser burro e fingir que ela não me afetava, porque afetava sim e muito antes de ir embora eu já havia constatado isso, embora não gostasse de falar sobre.
— Senhor Nott. — a voz de Minerva cortou meus pensamentos, atraindo a atenção de todos para porta da sala. — Me acompanhe, por favor. — o rapaz se levantou, sumindo pela porta junto da mulher.
Haran estava diferente àquela manhã. Suas piadas matinais e bom humor foram substituídos por um Nott mais calado e aparentemente nervoso. Nós não havíamos dado muita atenção à isso porque todos temos dias ruins, mas agora aquilo estava estranho demais, e eu não podia nem ao menos perguntar para Hadassa se ela sabia de algo porque ela simplesmente estava me evitando.
Virei para trás junto de Albus, encarando Antony na mesa que ele dividia com o rapaz, em uma pergunta muda se ele sabia de algo. O Zabine mexeu a cabeça negativamente e nós três trocamos olhares preocupados.
Suspirei, decidido a aproveitar meu tempo vago para falar com Hadassa, e por tudo a limpo de uma vez.
{...}
Hadassa também não estava normal, e era nítido pra qualquer um que a conhecesse de verdade. Quando cheguei à biblioteca, encontrei-a sozinha, rabiscando alguma coisa em um pergaminho, em uma mesa com vários livros espalhados.
— Oi. — sentei-me de frente para ela, que não levantou o olhar do papel.
— Oi. — respondeu baixo, mas o suficiente para eu escutar.
— Então... — comecei, tentando escolher as melhores palavras. — você sabe por que Mcgonagall chamou o Haran? Ele parecia bem estranho no café...
— Não. — murmurou, erguendo rapidamente o olhar. — Tinha esperanças que algum de vocês soubesse de algo.
— Caso ele nos encontre primeiro e diga sobre, eu te conto.
— Obrigada. — voltou a escrever, parecendo querer que eu fosse embora logo. O que eu obviamente não fiz.
— Hadassa. — chamei, mas ela não ergueu o olhar. Suspirei. — Por que você está me evitando?
— Não estou o evitando. — respondeu simplesmente. Revirei os olhos, ela queria mesmo mentir para alguém que a conhecia desde pequena?
— É por causa do que aconteceu no banheiro? — murmurei baixo. Ainda que não fosse algum segredo, imaginei que se Hadassa não comentou nada, era porque não queria aquele incidente divulgado. — Jade me contou... — ela soltou uma risada debochada.
— Claro que sua namoradinha iria te contar. — mesmo sem me olhar, foi possível ver seus olhos se revirando. — E não estou te evitando, apenas não tenho o que lhe falar. — ela levantou a olhar, me encarando e parando de escrever. — Sobre o banheiro, não achei que tinha necessidade de você saber, já que não tinha nada do seu interesse. — arqueou a sobrancelha, exibindo um sorriso irônico. — A não ser que Rose Weasley seja.
— Hadassa... — ignorei sua última frase. — Sei que uma parte de você acha que tem uma dívida ou algo do tipo com ela por conta do passado, mas não é assim. O que aconteceu está no passado, não há como mudar, só aceitar e seguir em frente.
— Você realmente pensa assim, Scorp? — ela arqueou a sobrancelha de novo, me encarando com algo indecifrável no olhar e descansando a pena no tinteiro. — Acha mesmo que é só aceitar e seguir em frente que tudo ficará bem? Seja sincero, eu sei mais do que ninguém como você se culpa pelo que aconteceu e está certo em se culpar porque estava errado, mas só se culpar não irá mudar em nada. Pelo menos eu estou tentando fazer algo.
— Tentando fazer algo? — eu ri nasalado. — Você acha que é só defende-la uma vez que ela irá esquecer todas as azarações que você jogou nela? Não importa o que seja feito, Hadassa, não há como mudar o que aconteceu.
— É isso que você diz a si mesmo para conseguir deitar a cabeça tranquilo no travesseiro quando vai dormir? — riu, fitando rapidamente algo nas minhas costas. — Você está certo, não há como mudar o que foi feito, mas se continuar sem tentar fazer nada vai estar sendo o mesmo garotinho babaca de anos atrás. Por mais pequeno que seja o gesto, é importante para mostrar que não somos os mesmos de antes e talvez até para mostrar que você se importa. — ela suspirou. — E, se eu fosse você, se manteria esperto porque Rose Weasley não é mais o patinho feio de antes. — abriu mais um sorriso carregado de deboche.
— Por que diz isso? — ela acenou com a cabeça para algo atrás de mim e foi o bastante para sentir meu estômago revirar ao vê-la conversando com um garoto que eu não sabia quem era, mas pelas vestes reconheci sendo da Corvinal.
— Ela conversa com quem quiser, Hadassa, eu não me importo. — ela sabia que era mentira, por isso alargou ainda mais o sorriso.
— Continue repetindo isso para si mesmo e talvez um dia se torne verdade.
Abri a boca para retrucar, mas fui calado por uma Madelaine Goyle correndo desesperada para onde nós dois estávamos.
— Scorpius! Hadassa! — chamou.
Madelaine Goyle costumava ser nossa amiga durante a infância, mas acabou sumindo repentinamente dos eventos que seus pais frequentavam quando foi mandada para Grifinória, ao ingressar em Hogwarts, e nós acabamos perdendo todo contato.
— É o Haran! — ela mantinha o tom baixo, mas era nítido pra qualquer um, que estivesse prestando a atenção, o seu desespero. — Eu o encontrei desacordado perto de alguns frascos pequenos de poções vazios, não sabia o que fazer ou quem chamar, então o levei para enfermaria...
Arregalei os olhos, começando a sentir meu estômago revirando mais uma vez e minhas mãos suarem. Haran tinha que estar bem, tinha que estar bem!, eu repetia para mim mesmo.
— Ele não pode ter feito isso de novo! — Hadassa sussurrou para si mesma, mas alto o suficiente para que nós dois a escutássemos.
A garota largou seu material ali mesmo onde estava e correu para a enfermaria, sendo seguida por mim e Madelaine Goyle.
Fale com o autor