A garota que sentia baixinho
2 Capítulo 2
O avião pousou e a chuva já estava esperando por ela.
Não era uma chuva bonita, de filme. Era uma garoa fina, gelada, que grudava no cabelo e encharcava a roupa em dois minutos. O aeroporto de Port Angeles era tão pequeno que Isabela achou que era uma rodoviária.
E lá, encostado numa viatura velha da polícia de Forks, de boné, jaqueta impermeável e cara de quem preferia estar em qualquer outro lugar, estava ele.
Charlie Swan.
Seu pai.
Ele não era alto como nas fotos antigas. Estava mais gordo, mais cansado, com bigode falhado. Ele levantou a mão quando viu ela, sem sorriso.
- Isabela.
- Oi — ela respondeu, arrastando a mala de rodinha que custava mais que o carro dele. A mala que a mãe comprou.
Ele pegou a mala sem perguntar, colocou no porta-malas e abriu a porta do passageiro pra ela. O carro cheirava a café velho e a papel.
- Sua mãe disse que você chega a ter que trabalhar se quiser coisa — ele disse, ligando o carro. Direto, sem rodeio. Policial mesmo.
- Ela disse um monte de coisa — Isabela cruzou os braços, olhando pela janela. Tudo era verde. Verde demais. Sufocante. — Ela surtou por causa de uma blusa.
- Ela me disse que foi roubo.
- Foi um erro. — Ela revirou os olhos, daquele jeito que fazia a mãe ceder. Com Charlie, não funcionou. Ele só continuou dirigindo.
- Em Forks não tem shopping — ele disse, depois de um silêncio. — Tem umas lojinhas. Se quiser coisa, vai ter que arranjar um emprego. A Beth da lanchonete tá precisando de garçonete nos finais de semana.
Isabela sentiu o sangue subir.
- Você tá brincando? Eu servir mesa?
- Eu tô falando sério. Na minha casa, quem mora segue regra. Acorda cedo, vai pra escola, volta, ajuda em casa. Nada de gritar, nada de porta batendo. Se não gostar, sua mãe disse que tem um colégio interno em Idaho.
Foi a primeira vez em 17 anos que Isabela ouviu um "não" que não tinha choro que revertesse.
A casa do Charlie era exatamente o que ela esperava e pior. Pequena, de madeira, com um sofá xadrez que devia ter 20 anos. O quarto dela era minúsculo, com uma cama de solteiro e uma cômoda. Sem closet. Sem penteadeira com luz.
- Banheiro é ali. Divide comigo. Jantar é 7 horas. Não espera — ele largou a mala no chão e saiu, deixando ela sozinha.
Isabela sentou na cama e olhou pro teto com mofo. Pegou o celular. Sem sinal direito. Abriu o Instagram. As meninas de Phoenix já estavam postando foto com a blusa. A blusa que ela roubou e não conseguiu ter.
Ela chorou. Não de tristeza. De ódio. De raiva da mãe, do Phil, do pai, de Forks.
Naquela noite ela não desceu pra jantar.
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