Minha boca já não tem saliva alguma. Os passarinhos amarelos estão saltitando na frente de uma loja com manequins esportivos rosa shock onde se lia " Louise Boutique".

Eu, com meu jeito crítico de sempre, estalo a língua em desaprovação. Aonde quer que eu estivesse agora, parecia com os anos 80.

Uma moça loira passou na minha frente e eu ri. Era claramente o cenário de The Carries Diaries. Quanta breguice!

O riso trouxe de volta a tosse seca. Eu não sabia onde estava e ainda iria morrer de sede.

Aquele lugar parecia aquelas festas horríveis de anos atrás onde todos vestiam a roupa que tinham em casa( as mais horripilantes que tem no armário) e fingiam que estavam por dentro de tudo.

Eu não sabia o que fazer, então olhei ao redor, tentando decifrar a brincadeira. Mas aquilo parecia real demais para isso. Ninguém nem ao menos olhava na minha direção.

A avenida onde eu estava era pouco movimentada mas tinha outdoor's chamativos e desnecessários. Um carro quase passou em cima do meu pé, me fazendo cair no meio fio. Quando virei para levantar o dedo do meio, vi que junto de mim tinha um livro de capa dura rosa pastel. Estendi a mão para pega-lo. A lombada era áspera e o nome estava escrito com letras miúdas e prateadas.

—Moça?Está tudo bem? — ouvi uma voz suave e familiar atrás de mim.

Puxei o livro contra o meu peito e suspirei. Isso não é possível.

Me virei, mas como ainda estava no chão,dei de cara com os pés. A pessoa estava calçada com um sapato simples, alto e preto, acompanhado de uma meia branca com bolinhas pretas. Subindo um pouco mais o olhar,vi o vestido branco com pequenas flores amarelas. Ainda não era o visual que eu usaria, mas era melhor do que as roupas fluorescentes das outras garotas.

Fechei os olhos e fiz uma pequena prece desejando que fosse apenas um daqueles meus sonhos estranhos...mas eu não era inteligente o bastante para criar tudo aquilo e reunir em um sonho tão lúcido.

Levantei a cabeça e abri os olhos. O queixo redondo, a boca rosa naturalmente, o nariz arrebitado como o meu e os olhos claros de dar inveja. Seu cabelo negro caia ao redor da cintura, como uma rainha.

Ela me olhou curiosa, esperando uma resposta, de um jeito que fez meu corpo levantar do chão. Antes que eu pudesse segurar entre meus lábios,a pergunta saiu rápida demais.

—Mãe?

Ok, não foi a melhor decisão que já tomei. Minha mãe está me olhando como se eu fosse louca( o que eu provavelmente acharia também, caso uma garota me chamasse de mãe no meio da rua).

Ok,Lana, você consegue resolver isso.

—Desculpa, é que você parece muito com minha mãe.- dei meu melhor sorriso, tentando ser convincente.

Para meu alívio, ela também sorriu. Ficamos assim, ambas sorrindo uma pra outra.

Finalmente, ela quebrou o contato visual.

—Quer entrar?Seu joelho está sangrando muito.- ela olhou para minhas pernas, preocupada.

Não tentei olhar para baixo para confirmar. Minha mãe não ficava preocupada com frequência e por isso ela tinha cursada medicina.

Tinha aqueles momentos em que era horrível ser filha de alguém com conhecimento de saúde, como quando eu fingia que estava gripada para não ir a aula. Ou ela descobria de cara ou dava o pior remédio de gota que tinha no kit.

—Quero sim, obrigada.

Tentei olhar pra longe enquanto ela fazia o curativo no meu joelho. As paredes da sala eram pintadas de vermelho escuro e tinham retratos pendurados a cada dois centímetros.

—Vou fazer um chá de erva cidreira pra gente, ta bom? Enquanto isso deixa a perna esticada.- ela foi para a cozinha e colocou a água para ferver.

Lambi os lábios, desejando desesperadamente algo para beber.

—Obrigada,mãe. Eu estou morta de sede.

Ela olhou pra mim e sorriu.

—Como é a sua mãe? -ela sentou em cima da mesa de vidro e voltou-se para mim, esperando uma resposta.

Eu hesitei.

Se fosse eu sentada naquela mesa em 2016, ela provavelmente iria dar um tapa fraco em cada um dos meus joelhos e me mandaria descer.

—Ah, você sabe — revirei os olhos. -como todas as mães.

Nós demos uma risadinha. Ela desceu da mesa quando o telefone fixo tocou.

Telefone fixo? Que morte horrível.

Aproveitei a oportunidade para olhar pra minha mãe aos 15 anos de idade. De acordo com o calendário grampeado na parede ao meu lado, amanhã ela teria a minha idade. Hoje são 23 de abril de 1986.

Ela desligou o telefone.

—Desculpa, mas ainda não sei o seu nome.

—Lana, prazer. — eu falei.

—Lana, minhas amigas estão fora essa semana inteira e amanhã eu vou dar uma festa. Você pode me ajudar?

Tentei organizar meus pensamentos, mas acabei concordando. Ela era bem diferente da minha mãe daqui a 30 anos. Essa garota tinha me conhecido a menos de uma hora e já tinha me transformado em sua ajudante/ amiga. Eu só esperava que nenhuma atitude minha mudasse nossa vida em 2016.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.