A garota dos olhos limpos - Hiatus
6 Um amigo que se foi
Notas iniciais
Assim que passamos pelo corpo inerte da Susana as portas se fecharam e nos deparamos com aquela praia de água cristalina, que, mesmo sem a luz do sol, percebia-se que era linda a cena. Decidimos, por ser noite, parar um pouco e descansar. Armamos a barraca, que Rose pôs dentro da bolsinha de contas com um feitiço de extensão indetectável que a mãe, Hermione, lhe dera assim que entrou para Hogwarts. Comemos alguns bolinhos que estavam lá dentro também, suco de maracujá para acalmar o ânimo de todos. Depois de algumas piadas do Max todos, exceto Scorpius, estavam rindo e sorrindo alegremente. Todos nós estávamos cansados, Rose disse que era hora de dormir.
–Mas já Rosecreide? – Perguntou Max. Scorpius fechou a cara mais ainda
–Eu vou ficar de vigia lá fora caso algum animal apareça. – Ele disse emburrado. Depois disso todos se deitaram com um desejo de Boa noite uníssono. Todos adormeceram rapidamente, mas eu não conseguia tirar da cabeça o porquê do Scorpius ser tão fechado, principalmente com o Max que é sempre engraçado e gente boa, então me levantei sem fazer barulho, peguei uma lanterna e saí da barraca que é maior por dentro.
–Posso sentar ai? – Perguntei para o Scorpius que parecia distraído momentaneamente olhando para o horizonte e sentado em um tronco de árvore caído.
–Pode – disse ele não tirando o olhar do horizonte. – Você não deveria estar dormindo? – Disse ele assim que eu sentei.
–Acho que nenhum de nós é bom em obedecer às regras, não?
–Eu estou de vigia, é diferente.
–Por que você é sempre assim? – Perguntei
–Assim como?
–Tão fechado para o mundo.
–Eu não sou fechado para o mundo!
–Ah, não? Você quase não falou nada dês de que te vi pela primeira vez. Você não ri das piadas do Max, que, acredite você se quiser, já fizeram até a McGonagoll rir.
–Isso não significa que sou fechado para o mundo, significa que sou fechado para o Max.
–Por quê?
–Ele me lembra um amigo. – Disse Scorpius
–Que amigo?
–Acho que não deveria falar dele. – Disse Scorpius.
–Não falar não vai te ajudar a se senti melhor. Está te deixando mal, péssimo na verdade.
–Eu não sei...
–Ora, vamos que mal pode fazer? Desabafar é sempre o melhor remédio.
–Okay – Disse ele. – Não gosto de falar nele, sempre me faz chorar.
–O que foi que aconteceu com ele afinal? Quem era ele? Qual o nome?
–Vincent. Vincent Bloosk. Ele era animado, divertido, um amigo para todas as horas. Ele sempre me fazia rir nas horas difíceis. Ele era sonserino, assim como eu e era amigo de grifinórios, a Rose e o Alvo o conheceram. Ele também a chamava de Rosecreide e me chamava de Corcor – disse ele e uma sombra de sorriso botou de seus lábios. – ele era a cópia fiel da personalidade de seu amigo, o Max. Os olhos eram castanhos assim como o cabelo. Ele era da minha cor. – e de repente o leve sorriso desapareceu – Ele era meu melhor amigo, até o dia em que Hogwarts foi invadida. Nos tínhamos apenas quinze anos, a escola estava sendo invadida por uns loucos que queriam tomar frente ao poder do mundo bruxo e decidiram começar pela escola. O filho do chefe desses loucos era um sonserino, do mesmo ano que nós, e era nosso inimigo, por assim dizer. Assim que ele conseguiu tomar o salão da sonserina ele amarrou eu e o Vincent, ele era maluco, queria vingança. Me lembro daquela noite como se tivesse sido esta.
–Os amarrem!– Disse Marcel aos seus dois capangas – Tragam o engraçadinho aqui. – Ele ordenou apontando para Vincent.
–Solta ele seu imbecil – Gritou Scorpius tentando inutilmente ganhar tempo. Ele sabia o que viria a seguir.
–Não se preocupe filhote de doninha, você vai ser o próximo, mas antes, você verá o seu amigo morrer – Disse o garoto de cabelos negos em corte militar.
–Não consegue me enfrentar sozinho? Precisa de cordas para isso filhinho da mamãe? – Zombou Vincent. Scorpius desejou que ele parasse com isso ou só iria apressar a sua morte.
–Diga onde está! – Ordenou Marcel à Vincent.
–Nunca. – Gritou Vincent.
–Você decide. Cruccio. – com um giro de varinha de repente Vincent começou a se contorcer e soltar gritos de dor, então ele cessou o movimento com a varinha e o Vincent parou de se contorcer. – FALA
–Você acha mesmo que eu vou colocar no teu poder a espada de Griffyndor? Você está muito enganado. – Disse Vincent levantando a cabeça. Um filete de sangue escoria pelos seus lábios e os seus cabelos normalmente arrumados estavam desgrenhados.
–Tem certeza? Cruccio – e a contorção recomeçara só que dessa vez por um tempo maior. E assim como da última vez, o movimento da varinha cessara com a maldição.
–Nada vai sair desta boca. – Disse Vincent
–Então você não me deixa outra escolha. – o sorriso maníaco predominava a face de Marcel. –Quais são as suas últimas palavras? – Vincent olhou para Scorpius, em nenhum momento, nem quando estava sendo torturado ele abandonou o sorriso faceiro, agora seu rosto estava pálido, mas tingido em vários pontos pelo sangue dos cortes em sua testa, bochecha esquerda, queixo e boca, então Scorpius soube que não teria mais como adiar aquilo, lágrimas caíram dos seus olhos.
–Chute a bunda dele por mim Corcor.
–Péssima escolha. Avada Kedavra – Ordenou com a varinha e a vida deixou o corpo de Vincent que ficou lá, no chão frio do salão comunal da sonserina. Pela única vez, Scorpius viu o brilho deixar os olhos do amigo, mas seu sorriso continuava lá. Faceiro como sempre.
–Eu só consegui escapar graças aos professores. Assim que ele ia me matar, eles chegaram e o renderam. – Lágrimas fartas rolavam pelo rosto de Scorpius deixando clara a dor que ele sentia. – Por isso eu não consigo me senti feliz na frente do seu amigo. Ele sempre me lembra o meu.
–Eu... Eu sinto muito. – eu disse pondo a mão por cima do ombro dele tentando consolá-lo. – Mas você não acha que tem que tentar ser feliz? Pelo Vincent?
–Eu sinto que ele morreu por minha culpa. – Ele falou olhando para o mar. – Se eu não tivesse falado para ele onde a espada estava o Marcel teria me torturado primeiro. Ele poderia ter escapado.
–E agora eu estaria consolando a ele, não a você. Você não entende não é? Tudo na vida tem um propósito. Vem cá – Eu me levantei e puxei-o pela mão e o levei até perto do mar e então apontei para cima. – Tá vendo aquelas estrelas?
–Hmrm. – Ele falou olhando para o céu.
–Tem uma lenda que diz que a=quando alguém morre, ela vira uma estrela.
–Mas no que é que isso me ajuda?
–Escolhe uma estrela. – Eu ordenei.
–O que?
–Anda, escolhe.
–Tá bem, tá bem... Aquela. – Ele apontou para uma estrela solitária nos céus.
–Agora memoriza onde ela está. Aquela estrela é o Vincent. Ela nunca vai te abandonar assim como um amigo verdadeiro nunca abandona o outro. Ela sempre vai estar com você, mesmo de dia. Imagine que ela é o Vincent, e imagine que ele te siga onde quer que você vá. Isso da certo comigo.
–Quem foi?
–O meu avô. Eu tinha quatro anos e ele era o melhor. Quando eu estou triste eu sempre imagino isso, imagino que ele é a estrela que eu escolhi e que ele está sempre comigo, do meu lado e no meu coração.
–Obrigada. Você é uma amiga de verdade.
–Eu tento.
–Agora vai dormir. Quando bater o sono eu vou. – Ele disse retomando a posição de antes, mas desta vez, olhando para as estrelas. Mesmo o conhecendo tão pouco, eu espero ter ajudado, essa foi uma das lições que o meu avô me ensinou. Ajudar os outros, no fim, acaba nos ajudando.
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