Vivi os primeiros nove anos da minha vida alternando entre o hospital e a casa. A partir daí, os outros seis foram apenas trancada em minha casa, mesmo. Hoje tenho 14 anos e nada de bom para contar, pois minha vida é uma sucessão de desastres.

Eu nasci prematura, com 6 meses. Mal tinha 30 cm de altura, e não chegava aos dois quilos e meio. Passei 4 meses na UTI. Chegando em casa, o que eu trouxe comigo foi asma, bronquite, ossos frágeis e um útero mal formado. E aos 3 anos, diagnóstico de leucemia. Hoje em recessão, e como costuma dizer minha tia que é freira, "graças a Deus". Eu não sou religiosa, não. Mas se ela falou tá falado.

Não frequentei a escola como as outras crianças. Meu tio, um professor que está pra se aposentar hoje em dia, ia me dar aula no hospital. Aprendi a ler com ele. Todos ali ficavam admirados com minha facilidade pra aprender, mas era só porque eu não tinha nada pra fazer além de repetir os números e o alfabeto entre uma sessão de quimioterapia e outra. Mas olha só. Hoje eu tenho cabelo e vou à escola como uma pessoa quase normal.

Ainda me acham estranha. Alguns dos meus colegas de classe são vizinhos e filhos dos amigos dos meus pais, então eles sabem a minha pequena história trágica. Mas uma quantidade muito maior acha que eu sou estranha por querer ser. Ah, quem dera. Reclamam do meu penteado — cabelo curtinho na altura do queixo, porque ele mal cresce — e dos meus olhos claros e saltados. Reclamam das minhas olheiras, resultado escuro das noites em claro por conta da dor e dos meus óculos fundo de garrafa. Acham ruim que eu esteja consideravelmente acima do peso. Bem, se eles soubessem o quanto foi difícil sair da subnutrição, me serviriam bolo todos os dias.

Mas a gente não pode esperar compreensão de pessoas de 14 anos, pois essa idade é quando nossa babaquice está desabrochando. Eu mesma já fui muito babaca gratuitamente. Com meus pais, com as colegas de química, com o médico, com os professores. Com Penny, minha irmã de 6 anos, e até com minha gata, Betty. Eles me perdoaram, todinhos. Vantagens de ter uma história desastrosa de vida.

Eu contei de tudo isso, mas até o dia 12.04.2010 eu não vivia. Eu só existia. Dois dias depois do meu aniversário de quatorze anos, enquanto eu estava debruçada no parapeito da janela da sala, curtindo a vista da rua naquela primavera fria, uma garota passou correndo com uma bola de futebol americano. E eu senti todas as células do meu corpo doente se agitando e cumprimentando umas às outras. Senti meu sangue correr por todas as veias e artérias e capilares. Coloquei até os óculos para ver melhor. E lá veio ela de novo, mais uma vez correndo. O cabelo dela era cheio, cacheado e da cor do café. Ela era meio morena, sabe? Do sol. Bronzeada.

Mas o detalhe foi quando ela acabou olhando pra minha janela. Aí sim eu percebi que até então eu só existia. Foi a primeira vez que eu quis, de verdade, que meu coração batesse. Os olhos dela eram feitos de universo. Dali, eu conseguia ver o brilho de milhões de galáxias e a escuridão confortável de um céu escuro. E definitivamente, eu me vi apaixonada.

Isso me assustou em muitos níveis.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.