A garota do cemitério
1 Capítulo único
Seus dedos deslizavam sobre a capa do livro. Olhava para a janela aberta do seu lado, quase não se tinha vento e o ventilador da sala estava quebrado. Todos queriam sair o mais cedo possível daquela aula, menos ela. Gabriel sabia que Manuela não se importava com o calor, havia coisas mais interessantes para ocuparem seus pensamentos. O garoto sentado a duas cadeiras dela só queria saber o que eram. O que tanto aquela menina linda de cabelos negros pensava. Entrar em seu mundo e convidá-la para entrar no seu.
Manuela gostava de discursar; em seminários, era sempre ela quem iniciava. Todos a escutavam. Podia ser o assunto mais chato do mundo, mas seus colegas paravam de falar, somente par ouvi-la. E quando o tema foi poesia, Gabriel soube que nunca amaria mais ninguém além dela.
Ele repetia mentalmente aquelas palavras soando com sua voz: "Flores para seus pés/ para suas mãos, guardo o meu calor/ para sua pele, o meu toque/ para sua boca, o meu beijo/eu seria tua flor/ Flores para seus pés/ para minha musa poder andar/ sorte dessas flores, que puderam lhe tocar/ eu só posso lhe olhar...".
Gabriel cambaleou duas vezes preso a sua lembrança. O que o seu irmão diria quando soubesse que sonhava noite e dia com a garota do fim da rua? A mesma a quem a mãe foi vista um dia desses bebendo até vomitar tudo no piso do bar. Ela não queria ir embora e nem tinha mais dinheiro para pagar o seu vício. O dono do bar praticamente a jogou para fora. Manuela teve que arrastar a mãe por dois quarteirões sob o olhar de todos, inclusive o de Gabriel. Ele não a viu chorando, talvez já estivesse tão acostumada com aquela situação que nem se importava mais, seria mais como uma nova ferida por cima de outra mal cicatrizada. Mas ele queria acreditar que ela só era forte.
Manuela faltou no dia seguinte a este. Gabriel nem notou. Duas semanas depois, ele estaria dormindo e acordando pensando em seus olhos. Eles eram verdes? Castanhos? Cinzas?
Teve a oportunidade de conhecê-los numa sexta-feira. Trabalho em grupo, algo sobre a formação das rochas e dos cristais.
─ ... e depois de milhares de anos eles se formam ─ disse ela.
Os dois estavam na casa dele. Ele quem convidou.
─ Tanto tempo... por isso custa o que custa.
─ Ora, Gabriel, a vida levou outros bilhões de anos para chegar ao nível que chegou e ainda assim, mata-se por qualquer coisa, inclusive por um cristal.
─ Então não é questão de tempo...
─ É questão do que se considera ou não importante. Para um assassino sua vítima é mais importante morta.
─ ... Ou o processo. Alguns gostam de matar ─ riu. Então calou-se. Como foi que chegaram aquele assunto tão macabro. Gabriel pigarreou e virou a página do livro. ─ A opala não é cristal, é um geoide, mas ainda assim, bem valorizado no mercado. Olha, não é bonito? Parece um arco-íris preso dentro de uma pedra.
─ É, parece... Parece um olho!
─ Um olho? Nunca vi nenhum assim.
─ Eu já.
─ Onde então você viu um olho como uma opala?
─ Nos meus sonhos...
─ Só podia ser ─ ele interrompeu.
─ Nos meus sonhos... os olhos do meu pai são duas opalas.
Ele mordeu o lábio inferior. Sabia que o pai de Manuela havia morrido um ano antes, diziam que tinha se suicidado. Depressão que o levou a beber e afundar-se ainda mais em dívidas. Sua mãe estava indo pelo mesmo caminho e o seu era bem mais torto e pedregoso do que o do falecido marido. Chamavam-na de Maria Louca. No começo, bem sutilmente, só entre cochichos; mas depois, passaram a gritá-la no meio da rua.
─ Louca! Louca! Devolva meu cachorro!
Maria Louca gostava de animais. Tinha vários deles em casa, não duravam uma semana. No sexto dia, a mãe de Manuela os matava asfixiando entre os dedos da mão. Enterrava seus corpos no quintal ou os jogavam no pequeno rio que passava ali perto. Os vizinhos já chamaram a polícia ambiental, civil e até alguns médicos. Ninguém a tirava da sua casa. Houve duas vezes que conseguiram levá-la para um hospício. Sempre escapava e voltava ao seu lar e animais. Nesses dias, os vizinhos trancavam os seus bichos dentro de casa. Ainda havia aqueles, aproveitando-se da sua loucura, que jogavam em seu quintal gatos ou cachorros que não queriam mais. Maria Louca fazia um bom serviço exterminando-os.
Gabriel ficou imaginando como deveria ser crescer em um lugar assim. Manuela parecia tão sã, tão digna, como poderia uma menina como ela ser filha da Maria Louca?
─ Minha mãe tem um colar de opala, você quer ver? ─ perguntou ele.
─ Ela não irá zangar-se?
─ Não precisa se preocupar, volto já ─ respondeu com um sorriso.
Quando Gabriel voltou com o colar em mãos, ela já estava arrumando suas coisas.
─ Aonde vai?
Ela demorou um pouco para responder. Parecia com vergonha.
─ É seis horas, não é?
─ Sim. Seis da tarde, por que?
─ Hora de visitar o papai.
No cemitério, pensou ele. E se ofereceu para acompanhá-la.
A única iluminação do local era um velho poste de luz que merecia ter sua lâmpada trocada por uma mais nova. Os túmulos projetavam sombras que para uma mente assustada poderiam se transformar em vultos sombrios. Ele perguntou se ela não tinha medo de vir naquele horário.
─ Tenho mais medo dos vivos do que dos mortos, Gab.
Ela o chamou de Gab.
─ Verdade. Ainda assim, esse lugar é assustador.
Manuela o ignora e vai até um túmulo. Limpa a folhagem sobre a lápide.
─ Boa noite, papai. Trouxe um amigo. Se apresente, Gab.
─ Ãn... Bem, meu nome é Gabriel, senhor. Prazer em conhecê-lo. Você tem uma filha incrível.
A garota riu do comentário.
─ Não pense que sou uma louca que fica falando com túmulos por aí. É só que eu gosto de está aqui, é tão calmo. Longe de casa...
─ Da sua mãe.
─ É, da minha mãe. Acho que ela deve está enchendo a cara em algum bar por aí nessas horas.
─ Por que não sai de casa? Digo, não há nenhum lugar melhor para você ficar? ─ Ele se arrependeu da pergunta em seguida ─ Desculpa.
─ Tenho tios em outros estados, mas, se eu for, quem vai cuidar dela? ─ Ela deu-lhe um sorriso triste.
Os dois ainda permaneceram naquele mesmo lugar por mais alguns minutos. Trocaram poucas palavras, ele chegou a tocar em sua mão. Era quente e macia.
Alguns dias depois, Gabriel olhava pela mesma janela, da mesma cadeira que Manuela sentava. Em todo esse tempo, ela nunca mais voltara a aparecer na sala de aula. Já estava preocupado.
Cogitou ir até a sua casa, acompanhado de um amigo.
─ Tá doido, se pensa que vou. A Maria Louca mora lá!
─ Por favor, cara... Eu quero saber o que está acontecendo.
─ Não! ─ respondeu grosso. O amigo de Gabriel, assim como a maior parte dos garotos dali, transformaram a senhora em uma verdadeira lenda urbana. Diziam que ela tinha um cemitério aos fundos da casa, que não eram só animais que enterrava.
─ Deve haver milhares de fetos ali também. Ela mata todos os filhos ainda na barriga. Manuela teve foi sorte ─ dizia uma colega.
─ Ou azar ─ comentou outra. ─ Deve ser horrível viver daquele jeito.
Cansado de tanto remoer, Gabriel decidiu ir sozinho mesmo. Ele desceu a rua até parar em frete a uma casa de muros altos e cobertos com mato. Havia um velho umbuzeiro do lado, por onde subiu agarrando-se ao seu tronco, apoiado no muro.
Ele levantou um pouco a cabeça e deu de cara com um quintal fétido e coberto de mato e folhas secas. A área da lavanderia não passava de um local para de se acumular coisas velhas como colchoes e papelões. Maria Louca estava lá agachada cutucando a parede com uma vareta. Tinha cabelos desgrenhados e sua pele estava coberta de arranhões como as feitas por algum animal furioso. Ela virou-se para trás ao mesmo tempo em que Diego cogitava ir embora.
Maria Louca lhe sorriu, dentes falhados de uma bruxa. Gabriel desceu e correu para sua casa.
Durante a chuva, a água levava tudo o que encontrava no meio da rua. Uma sacola plástica, um panfleto, um galho de árvore... Todos iam para no fim da rua, próximo à casa de Manuela. Gabriel escreveu uma carta à menina, o tipo de carta boba que somente os apaixonados escrevem. Ele a dobrou com cuidado, protegeu-a com plástico e jogou-a na correnteza. A carta flutuou e logo após, afundou. Em pouco menos de um minuto chegaria à casa dela só para depois ser tragada por alguma boca de lobo. Ele já sabia que isso aconteceria.
Às seis horas de uma segunda-feira, Gabriel abria os portões do cemitério. Essa ideia lhe ocorreu ainda pela manhã, e ele não via hora de encontrá-la, torcia para que sim.
Manuela estava sentada sobre a lápide do pai, do mesmo jeito como ele havia visto-a pela última vez, mas parecia mais luminosa e até bonita ─ se era possível.
─ Você veio!
─ Me desculpa por não ter tido essa ideia antes.
─ Me desculpa você, não ter lhe avisado. Então, como está?
─ Estou bem. Eu quero saber é de você. Como some assim, sem deixar rastros? Eu estava preocupado!
Ela baixa a cabeça, envergonhada.
─ As coisas não tem andado fáceis. Isso não irá mais acontecer, eu prometo.
─ Quando vem para a escola?
─ Não irei mais. Estou desistindo.
─ Sério?
─ Seríssimo. ─ Então sorriu ─ Sentiu mesmo minha falta?
─ Mas é claro! Todos os dias, todas as horas...
─ Gosta de mim?
─ Muito.
─ Me ama?
Ele estancou. O que responderia? Diria que amava como nunca amou ninguém? Seria tão ousado assim? Mas ela perguntou, tinha que responder. Seria sincero.
─ Sim.
Ela indicou um lugar do seu lado para que ele sentasse.
─ Eu também te amo, Gab.
Gabriel estava sem ar. Ele olhou para o lado, para um jazigo recente.
─ Isso é bom, não é?
─ Isso o que? ─ perguntou ele.
─ Saber que se é amado. Só o meu pai me amava e agora estou só... Ou melhor, agora tenho você. Obrigada.
Ele pensou em segurar sua mão. O primeiro toque foi gelado. Ela se afastou.
─ Me desculpe. Não posso beijá-lo.
Ele nem falou em beijo! Mas por que não poderia beijá-la?
─ Está na hora de você ir ─ disse ela. ─ Amanhã venha aqui de novo. Estarei o esperando.
Gabriel concordou, já estava tarde e sua mãe ficaria preocupada.
─ Amanhã, as seis?
─ Sempre ás seis.
No outro dia, ele estava lá de novo. E dessa vez a conversa fluiu melhor, ela lhe fazia várias perguntas sobre sua vida, os seus gostos, os seus sonhos. Ele respondia admirado com o interesse dela. Se tinha dúvidas sobre o que Manuela disse antes, elas iam embora aos poucos. Seu olhar era de uma garota apaixonada, seus sorrisos também. Mas quando ele lhe perguntava sobre sua vida, ela mudava de assunto, pedia para perguntar sobre outras coisas. Gabriel desistiu depois que ela se irritou de verdade com sua insistência. E assim, o mundo dela ia ficando cada vez mais longe. Tão próximos e tão distantes...
No quinto dia, ele atrasou mais do que deveria e já estava escuro demais para ir embora sozinho.
─ Eu te acompanho ─ Gabriel se ofereceu.
─ Eu não vou.
─ Vai ficar aqui?!
─ Sim, é melhor.
─ Manuela, desculpa lhe fazer essa pergunta ─ ele já estava pensando nisso há muito tempo ─, mas você está morando aqui?
─ Claro que não, seu bobo ─ ela riu sem graça. ─ Ninguém pode viver em um cemitério.
─ É você tem razão ─ ele baixou os ombros. ─ Às seis?
─ Às seis. Não se atrase.
Era tarde de faxina, a mãe de Gabriel precisava de sua ajuda em tudo. Logo, muitas horas se passaram desde o meio dia até o final da tarde. Já estava quarenta minutos atrasado. Ele correu até o portão do cemitério. Ofegava. Nunca uma noite havia feito tanto frio. Manuela não estava lá nem em lugar nenhum. Culpa do atraso, culpa do frio.
No dia seguinte, foi no horário marcado, mas ela também não apareceu. Gabriel ficou preocupado. E durante mais quatro dias, aquilo se repetiu. Manuela não ia nem para cemitério, nem para escola.
No quinto dia desde a última vez que se viram, ele decidiu que já era hora de encontrá-la. Desceu a rua e subiu no pé de umbu. Maria Louca não estava no quintal. Gabriel aproveitou para pular para o outro lado. O cheiro de animais mortos o sufocava. Ele andou com o cuidado de não fazer barulho. Chegou à cozinha e abriu a porta devagar. Por dentro, a casa estava um pouco pior em termos de bagunça, havia terra para todos os lados, louça quebrada e suja sobre a pia. A torneira estava aberta, a lâmina d'água deveria ter, no mínimo, três centímetros de altura a partir do piso. Da cozinha para a sala, havia um degrau. Ele subiu e virou a direita no corredor. Estava escuro. Pisou em algo, só para ter a infelicidade de ver um gato morto sob os seus pés.
O quarto dela deveria ser aquele com a porta aberta. A cama estava arrumada e na cômoda havia alguns livros e vários bichinhos de pelúcia. Mesmo ali, o cheiro era insuportável.
Gabriel tocou em seu lençol limpo. Algo lhe tapou a boca e o puxou para trás com força. Ele tentou resistir, mas a mesma pessoa devia ter uma faca na mão e estava usando-a para enfiá-la em sua cintura pouco a pouco.
─ O que faz aqui? Que faz aqui? ─ perguntou a voz rouca de uma mulher. O bafo era incrivelmente nauseante.
─ Vim ver a Manuela. Ela está aqui?
─ Está! Está! Está no quintal... ─ riu, então soltou e correu para fora.
Gabriel levou a mão até o ferimento que sangrava. Também correu para fora. Maria Louca estava o esperando com um facão.
─ Onde vai?
─ Cadê a Manuela?! ─ gritou.
─ No quintal! No quintal!
─ Deixe-me vê-la!
─ Não! Não! Ela é minha!
Alguém gritou do lado de fora, ouviu-se batidas e logo depois uma explosão soou.
─ Cadê ela?!
Maria Louca partiu para cima de Gabriel que se defendeu como pode. Ele caiu para trás e quase teve o rosto perfurado se não fosse pelo tiro que acertou a mulher no abdômen. Ela tombou em meio as gargalhadas. A sala se encheu de policiais que entraram e a algemaram.
Um policial ajudou Gabriel a se levantar e tentou conduzi-lo para fora.
─ Não vou. A minha amiga está por aí...
─ Manuela?
─ Essa mesmo.
─ Recebemos uma denuncia do tio de desaparecimento da garota. Disse que ela iria morar com ele, mas a menina não apareceu na rodoviária na hora marcada. Quando foi a última vez que a viu?
─ Tem uns seis dias, eu acho...
─ Matias! ─ chamou outro policial.
─ Pode falar.
─ Achamos um corpo.
O corpo estava enterrado no quintal. Deveria está lá há quase três semanas devido ao seu estado de decomposição. Era de uma garota da idade de Gabriel. Tinha cabelos negros e um dia recitou um poema no meio da sala de aula de um jeito que ninguém conseguia não prestar atenção.
Seu enterro foi na semana seguinte, no mesmo cemitério em que ela e Gabriel se encontravam. Depois que todos se foram, ele sentou-se em sua lápide, deslizando a mão sobre o granito gelado. Ele não chegou a chorar, mas seu coração estava partido em tantos pedaços, quanto as cores de um opala. Manuela sentou-se do seu lado. Tocou em sua mão e lhe pediu desculpas. Gabriel disse que não havia nada para se desculpar. Ela lhe beijou. Beijo gelado. Beijo de um fantasma.
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