A garota do apartamento à frente

11 Um infeliz natal - Parte II


Notas iniciais
Mais um capítulo para vocês. Não se esqueçam de favoritar, comentar, recomendar, etc.

Albert tentava gravar tudo o que via. A Mme. Rousseau era uma senhora rígida, de cabelos curtos e claramente pintados de louro, tinha o rosto muito maquiado e era de uma beleza artificial, à base de cremes e plásticas. O M. Rousseau era um velho de bigode cheio e nenhuma barba, cabelos grisalhos, mas ainda com uma cor natural negra, pele morena e enrugada, tinha uma pança enorme e voz de fumante. A expressão de seu “sogro” era a de estar sempre encarando e analisando cada movimento de Albert, enquanto sua “sogra” fazia o mesmo com Nicolle. Ambos procuravam alguma coisa que pudessem criticar.

Nicolle abriu a porta e um casal entrou. Ele tentou se lembrar da explicação que a garota havia dado anteriormente e reconheceu os dois como Dominique e seu marido. As duas irmãs se abraçaram e a cunhada de Albert parecia realmente estar feliz por ver Nicolle. Era uma garota ruiva como Nicolle, mas mais alta e de olhos castanhos. As duas realmente se pareciam. Assim que o abraço acabou, a mais nova se aproximou de Albert.

–Mana, esse é meu namorado, Albert. — Ela apresentou e Albert estendeu as mãos para cumprimentá-la.

–Hum... demorou, mas pegou dos melhores, hem, Nick? — A mulher disse, cumprimentando o rapaz. Aquele comentário havia sido muito infeliz.

–Aqui só passa produto de qualidade. — Nicolle respondeu, com falsidade. Depois abraçou Albert e se recostou em seu peito.

–Amor! — Chamou o marido de Dominique, ele estava no corredor. — Ainda tem mais presentes, venha me ajudar.

–Já estou indo. — Dominique respondeu.

Assim que a mulher saiu do apartamento, Nicolle passou um recado rápido para Albert, tentando não ser ouvida.

–É agora que o inferno começa, o nome do marido dela é Pierre e ele é um babaca. Meu pai vai te fazer um interrogatório logo, então se eu fosse você, me sentaria ao lado dele. Eu quero bater na minha mãe.

–Tudo bem – Concordou o rapaz, sem muitas opções. — Vou me sentar ao lado do seu pai.

Albert estava para fazer o que disse quando o marido de Dominique atravessou a porta e ele o reconheceu imediatamente, não como o “marido da minha cunhada” e nem como “Pierre”, mas sim como “Torta”, seu melhor amigo da universidade, com quem ele perdeu contato há muito tempo. Ele não havia mudado nada; tinha cabelos louros curtos, pele alva e olhos muito azuis. Tinha a aparência de um ator de cinema desses que as meninas ficam gritando como loucas.

–Amor, esse é o namorado da Nicolle. O nome dele é...

–Albert. — O rapaz completou. — Meu Deus, não é qualquer Albert. É o Albert!

–Do que você está falando, meu querido? — Quis saber Dominique.

–Eu tô falando do cara mais foda desse universo! — Ele respondeu, deixando os presentes no chão.

–Cara, não acredito que é você, Torta! — Albert disse, muito animado.

Os dois correram um em direção ao outro e se abraçaram como se um deles tivesse acabado de voltar da guerra. Um abraço apertado, cheio de saudade e alegria. Chegaram a beijar um o ombro ou o pescoço do outro, uma cena que ele esperava que ninguém tivesse visto. Quando o gesto terminou, os dois estavam até rubros de animação. Albert ainda não acreditava que era realmente o Torta. Ele se lembra que esse apelido veio porque algumas pessoas o chamavam de “Pie”, que se mudar a pronúncia, se torna “Torta”, em inglês.

–Com licença, amor. — Disse Nicolle, visivelmente alterada – Mas vocês já se conheciam?

–Se eu já conhecia esse cara? — Albert respondeu, sem nem pensar no plano de atuação. — Ele foi meu melhor amigo na universidade.

–Não sabia que gente burra ia pra faculdade. — Ela disse, encarando Pierre.

–Ainda bem que você é a prova viva de que elas vão, não é? — Pierre rebateu. Nicolle saiu furiosa e foi atender a campainha que havia tocado novamente.

–Ei, é minha namorada. Respeita ela. — Albert reclamou, com seriedade.

–Não era você o fodão que não pegava ninguém porque era bom demais pra isso? Você mesmo disse isso pra mim!

–É, o fato é que eu mudei. Eu vim pra França, eu conheci a Nicolle e deu nisso.

–Meus pêsames. Se eu soubesse que era você, teria te salvado.

–Estou muito bem com ela, obrigado. — Albert falou, um pouco mais bravo. Depois suspirou. — Mas então? O que fez depois que voltou pra cá?

–Consegui emprego num jornal local daqui, depois eu conheci Dominique, daí rolou um clima... casamos e hoje faz dois anos que nos mudamos para Berlim. E você? Como veio parar aqui na França?

–Ah, você sabe que eu sempre quis vir pra cá. Depois que eu concluí a universidade, trabalhei um tempo num jornal de Londres e me mudei pra um apartamento meio tosco na periferia. Eu estava quase voltando pra Inglaterra quando meu ex-chefe me arranjou um emprego aqui, como repórter correspondente.

–Bacana.

–Albert! — Gritou Nicolle – Venha aqui, preciso te apresentar às minhas primas e meus tios.

–Pega meu número de telefone depois, cara. Não vamos perder contato de novo. — Albert recomendou e em seguida, foi atrás de Nicolle.

As primas de Nicolle pareciam duas modelos da Victoria Secrets. Eram louras naturalmente e com lindos olhos verdes, altas, de lábios carnudos e pele bronzeada. Mas o que mais incomodava o rapaz era que a única coisa que diferenciava as duas eram as roupas que usavam.

–Olá, sou Lis. — A primeira cumprimentou. — É um prazer conhecê-lo.

–O prazer é meu. — Albert apertou as mãos dela.

–E eu... sou Francine. — A outra prima de Nicolle se apresentou. — Você tem bom gosto, Nick.

–É... eu tenho. — Nicolle disse, segurando Albert pelo braço. — E ele não é só um rostinho bonito. Seu marido não veio, Lis?

–Ah, ele está numa reunião de emergência da empresa. Sabe como é, eles são todos muito ocupados. — A moça comentou, mas Albert sentia que havia mais alguma coisa além disso.

–Sei sim. Eu fico muito feliz que Albert jamais me deixaria sozinha no natal, não é mesmo, amor? — Nicolle perguntou, com uma melosidade e admiração atípicas, muito provavelmente irreais.

–Jamais. — Albert concordou, com um sorriso sem graça em seguida.

–E o Louis, não veio também, Francine?

–Ah, ele só vai chegar depois das oito da noite. Mas passaremos a ceia juntos. Aliás, onde eu posso colocar esse frango recheado?

–Isso é um peru. — Corrigiu Lis – Tia Marie disse que podemos colocar num forno. Onde tem um forno, Nick?

–Na cozinha. — Respondeu a ruiva, sem largar Albert.

Assim que as duas se foram, ela se soltou do corpo do namorado. Albert a olhou meio assustado e esperou que ela dissesse alguma coisa.

–Já que você é tão amiguinho do Pierre, controle ele para ele não acabar com o meu natal. E não se esqueça de ir conversar com papai.

–Eu já estou controlando ele. Estou indo bem? — Ele perguntou, querendo receber uma nota.

–Melhor do que eu esperava, merece até um... — Ela ficou na ponta dos pés e deu um selinho rápido em Albert – Beijo.

Então, Albert foi conversar com o pai de Nicolle. A conversa foi mais tranquila do que ele esperava e não durou muito tempo. O senhor só perguntou se Albert trabalhava, quanto ganhava, se ele amava Nicolle verdadeiramente e disse que se ele tivesse mentido alguma daquelas informações, iria se ver com ele. Em seguida, o rapaz foi abrir a porta para os últimos convidados: tio Henri e tia Eloise, os dois mocinhos da festa, que chegariam para trazer a paz... ou quase isso.

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Nicolle estava se sentindo cada vez mais vingada de suas primas, de seus pais e de todos ali que a a haviam humilhado. Pela primeira vez, a ceia era em sua própria casa e a mãe dela estava encontrando poucos motivos para criticá-la. Albert estava indo perfeitamente bem, apesar de ela estar ressentida e até enojada depois de saber que ele era amigo de Pierre, mas ao menos aquilo lhe daria uma vantagem, porque seu namorado mantinha aquela praga longe dela. As duas primas sem maridos estavam sentadas ao lado de seus pais.

As comidas da ceia estavam devidamente guardadas, os presentes estavam embaixo das árvores, o ambiente era pacífico e tudo ia de bem a melhor. O pai de Nicolle havia a chamado para conversar, então ela logo foi até ele.

–Diga, papai. Está se sentindo bem? — Ela perguntou, vendo que ele parecia incomodado ao sentar na única poltrona da sala.

–Estou, mas eu que devo lhe perguntar isso. Aquele seu namorado parece ser um bom homem, mas as aparências enganam. Sabe que ele tem um jeito meio... efeminado?

–Meu namorado não é gay, papai. Pare de implicar com ele e admita logo que eu fiz uma boa escolha.

–Tudo bem, ao que tudo indica, fez mesmo.

–Eu sabia! — Ela sorriu e beijou o rosto do seu pai, espontaneamente e sem fingimentos, depois foi fazer companhia à irmã.

Dominique também havia perdido um par, já que Albert e Pierre estavam em um canto do apartamento conversando animadamente sobre aquelas coisas que os homens conversam como esportes e sexo e provavelmente estavam lembrando dos tempos da faculdade. Era nojento, mas ao menos, Pierre estava longe. A irmã dela estava enviando mensagens de felicitações aos seus amigos pelo celular, sentada à mesa da cozinha.

–Mana, está tudo bem? — Ela perguntou, mas não estava interessada em saber.

–Estou ótima. E você?

–Melhor do que achei que estaria a essa altura do campeonato. — Comentou a ruiva.

–Mamãe está te enchendo o saco? Sabe que eu posso calar a boca dela, não é?

–Não, não está. Parece que ela realmente está tendo muita dificuldade para encontrar modos de implicar comigo.

A irmã não respondeu nada e, se sentindo ignorada, Nicolle foi conversar com os tios, as únicas pessoas que ela ficava feliz em ver naquela ceia, além de Albert. O casal estava sentado no sofá da sala, admirando a árvore de natal.

–Tia Elo, tio Henri! — Ela chamou – Vocês não sabem como eu estou feliz em ver vocês.

–Oh, minha querida. Nós também estamos muito felizes. — Disse tia Eloise – Seu namorado estava falando com a gente. Menina, que partidão você arranjou, hem?

–Eu sei, ele não é lindo? Ele também cozinha bem, lava a louça e tem uns beijos que... meu Deus! Nem acredito que foi de graça. — Ela comentou e foi acertada por uma bolinha de papel.

–Eu ouvi isso! — Exclamou Albert. Nicolle mandou um beijo irônico para ele, que foi respondido com um gesto obsceno.

–Eu estava olhando a árvore de natal e me lembrei daquele ano em que nós colocamos fogo na nossa casa eletrocutando os pisca-piscas. — Disse o tio Henri. — Foi muito engraçado, não foi, Elo?

–Claro que não! Foi terrível, eu quase morri sufocada. Só é engraçado agora porque eu me lembrei da cara da Lis.

–Eu tenho trauma daquele dia – Disse a prima de Nicolle.

Assim seguiram-se as horas. O tempo foi passando e a noite caiu. Era hora de preparar a ceia e Dominique ajudou a irmã a arrumar a mesa, em seguida, Albert e Pierre colocaram os alimentos para serem esquentados. Em poucos minutos, tudo estava pronto. Era hora de trocar os presentes.

–Pessoal, vamos abrir os presentes! — Convidou Nicolle, de modo que o prédio inteiro poderia ouvir.

–Mas... não é só depois da meia-noite? — Albert perguntou, com estranheza.

–Albert, nessa família só eu, Pierre e o meu pai não tomamos remédio para ansiedade. Então se você não quiser que minha família toda tenha um troço, é melhor trocarmos os presentes agora. — Nicolle explicou e arrancou risadas de todos.

–Eu entrego os meus primeiro! — Tia Eloise disse, separando algumas caixas embaixo da árvore.

Ela entregou um presente para cada um. Nicolle foi a primeira a receber e viu que era um lindo vestido, feito à mão e com o costumeiro bom gosto de sua tia. Ficaria perfeito no corpo dela e ela não via a hora de fazer calor para finalmente usar a roupa nova. A última pessoa a receber o presente foi Albert, que ficou surpreso, já que não esperava nada.

–Poxa vida, tia Eloise! — Ele disse, aceitando o presente – Eu nem comprei nada... foi tudo tão rápido...

–Ora essa, meu querido. Que bobagem. — Ela sorriu – Espero que seja do seu gosto.

Albert abriu a caixa e tirou de lá, a embalagem de um dos perfumes franceses mais conhecidos na Europa.

–Minha nossa! Eu amo esse perfume, você nem faz ideia de como eu queria isso. — Albert disse, muito feliz. — Muito obrigado mesmo, tia Elo. Irei retribuir.

–Não se preocupe com isso! Seu sorriso já é uma boa retribuição.

Em seguida, tio Henri entregou os presentes e também deu algo para Albert. O rapaz abriu a caixa e viu que eram... cuecas. Até mesmo Nicolle se sentiu envergonhada recebendo aquilo, até notar que todos os homens da festa receberam o mesmo presente. A diferença é que na caixa de Albert e de Pierre, havia dois pacotinhos de preservativos. Os dois olharam com estranheza para aquilo.

–Sabe como é, não quero ser tio-avô tão cedo. — Tio Henri justificou, com uma risada. Para Nicolle, não tinha graça, mas ao menos os outros riram.

As duas irmãs gêmeas se levantaram e pegaram os presentes. Elas não presentaram Albert, mas presentaram o resto da família com presentes em conjunto, comprados em nome das duas. Nicolle ganhou um perfume que ela havia comentado com a mãe que queria. Os pais de Nicolle também distribuiram seus presentes, assim como Dominique e Pierre, até que finalmente, embaixo da árvore só havia os presentes de Nicolle e o presente de Albert. Além dos que sobraram, que eram pertencentes aos dois maridos ausentes.

–Louis não virá. — Francine disse, um pouco sem graça. — Pode distribuir seus presentes, Nick.

Nicolle sorriu e entregou cada um dos presentes aos seus respectivos donos. Todos agradeceram e ela pegou a última caixa, que seria de Albert.

–Agora, esse último... pro melhor namorado desse mundo. — Ela sorriu e levou uma caixa bem-embrulhada para Albert. — Feliz natal, meu amor.

–Obrigado, minha linda. — Ele aceitou o presente e rasgou o embrulho, com a indelicadeza costumeira dele.

Ele retirou as duas camisas, a calça e as gravatas que ela havia escolhido cuidadosamente, baseando-se nas imagens públicas que ela tinha dele. Basicamente, ela se baseou em todas as reportagens que ele fez e que estavam disponíveis no YouTube.

–Você prestou mesmo atenção no que eu queria, amor. — Ele comentou, rindo. — Agora, eu vou entregar o seu presente.

Albert pegou uma caixa embaixo da árvore, a menor delas. Entregou o presente de Nicolle depois de se desculpar com todos ali por não poder comprar presentes, em especial tia Elo e tio Henri. A ruiva abriu a pequena caixa e retirou de lá um lindo colar, que ela tinha certeza que era feito e ouro puro e cravejado com pedras coloridas. Ela teve que se segurar para não chorar, porque ela pensava que ele havia brincado quando disse que o presente dela era caro. Ela abraçou Albert e o beijou rapidamente várias vezes seguidas.

–De verdade, gente. Eu não esperava. — Ela justificou toda a animação. — Achei que ele ia me dar um vestido ou algo assim, mas... ai, Albert!

–Sabia que ia gostar. — Ele comentou. — Você ficou quase uma hora babando na vitrine aquele dia.

Agora era oficial: ou Nicolle ficaria com Albert o resto de sua vida ou não ficaria com mais ninguém.