A garota da tribo de Bharani
1 Caminho para a floresta
Notas iniciais
Era uma quase manhã ensolarada na aldeia de Bharani, localizada no leste de toda Corellyh. Toneri, e sua irmã Aghata, pairavam sobre a aurora matinal em direção à floresta. Tencionavam juntos, recolher mantimentos para seu povo, que há muito já fazia falta.
Toneri, um rapazola hiperativo com exatos 9 anos, cujos olhos eram de cor negra peculiar, media menos de 1.40, o que enfatizava ainda mais seus cabelos negros aos olhos de que o via por cima. Sonhava com a guerra, embora tivesse muito medo dela, pois há dois anos ela lhe arrancara a sua mãe.
Seu pai, Harvery, fora para batalha vingar a morte de sua mulher, deixando seus filhos sobre os maternais cuidados de Erin, uma bondosa senhora que fora Xamã em sua mocidade, antes da magia ser extinta do mundo.
Aghata, sua irmã mais velha era uma jovem amável e prestativa, era uma dos poucos adolescentes de sua aldeia. Tinha longos cabelos negros que realçavam seus olhos castanhos, sua pele alva, era marcada por uma cicatriz ao lado direito da boca por conta de corte, ferimento resultado de uma invasão ocorrida em Bahani 2 anos atrás. Observando as dificuldades sofridas pelo seu povo, após as invasões ocorridas em sua aldeia, ela voluntariamente, passou a auxiliar os líderes locais a manter a ordem, oferecendo servidão ao cuidar das crianças e idosos em horários relativos enquanto os adultos mantinham-se focados com as coisas da guerra.
Era um povo totalmente inofensivo, cuja principal função era enviar alimento e ervas medicinais aos que batalhavam há meses para garantir sua segurança.
— Olha, Aghata! Ali, ali!! — gritou o rapaz puxando-a pelo braço
— C-calma Toneri, ali o que?!
— Não está vendo? – disse apontando o dedo para uma árvore gigantesca — comida! Comida!
Era uma árvore espessa, de galhos turvos e espinhosos, cujo seu fruto não era conhecido, mas tinha quantidade suficiente para alimentar as 23 pessoas de sua aldeia, não lhe parecia venenoso, o que para Aghata foi como um alívio, porque naquele dia ela tão teria de ficar a manhã toda atarefada buscando o que comer.
Depois de algum esforço e uns arranhões a mais, a menina desceu sorridente, lançando uma sacola mais do que cheia da fruta a seu irmão.
— Urrh, parece que hoje é o nosso dia de sorte! – disse enquanto se limpava.
— Sim, sim!!! Isso quer dizer que hoje vamos ter mais tempo pra brincar não é!!?
— Nada disso, Toneri. Hoje a gente tem que aproveitar o tempo que ganhamos aqui e ajudar a vóvó Erin nos afazeres de casa, mas isso só depois de distribuirmos essas frutas pra todo mundo — afirmou sorrindo pro irmão.
— Aah Aghata... mas isso não é justo! A gente já vem pegar os mantimentos e ainda temos que distribuir?
— Você sabe porque temos de fazer isso, já está grandinho o suficiente pra entender que as coisas não estão muito favoráveis, e por isso temos que contribuir o quanto pudermos.
— Que saco! –bufou- mas você não acha que o que est--
— Toneri! Sem “mas”, se a gente não fizer isso, ninguém lá vai ser capaz de fazer então para de resmungar e anda, nós não temos escolha! – rosnou Aghata interrompendo a ladainha do irmão e prosseguiram a caminhada.
Ao perceber a tristeza do irmão, Aghata se perguntou se não acabou sendo rude demais, então, arrependida abaixou-se ante seu irmãozinho, fixando seu olhar no dele e com amor disse:
— Olha Toneri, eu sei que é chato, mas o nosso pessoal precisa de nós, o nosso pai confiou à nós ajudar a vóvó cuidar de todos, somos em 23 no total e a vóvó Erin já não pode fazer certas coisas, está na hora de nós assumirmos algumas responsabilidades. Lembra do que o papai dizia? “Liderança é fazer o que é certo sem ninguém estar olhando”... – Disse enquanto cingia-lhe num abraço
— Está bem, você tá certa... – disse enquanto lhe retribuía com afeto.
Continuaram andando por volta de 20 minutos até chegarem de em casa, mas não foi uma caminhada ás pressas, no caminho observavam a beleza das montanhas, ouviram o canto dos pássaros, sentiram a brisa e admiravam entre um sorriso e outroa autenticidade do percurso. Para Aghata, tudo aquilo era mágico, em meio a tanto caos, sentia que a natureza era o que acalentava sua alma.
Ao chegarem à Aldeia, Toneri correu entusiasmado em direção de Erin.
— Vóvó! Você não vai acreditar! Olha o que nós conseguimos! Olha...! Vai Aghata, mostra pra ela! – disse com a voz abafada pelo afago da senhora.
— Oh meu amor, calma. – disse sorrindo – o que temos de bom ai, querida?
— Hoje foi o nosso dia, encontrei um cacho enorme com essas frutas aqui, e acho que serão suficiente para uns 2 dias ou mais. Além disso vamos poder ajudar a senhora a arrumar a choupana hoje, já que chegamos bem mais cedo. – explicou
— Oh querida, muito bem! Estou orgulhosa de você.
— MAS VÓVÓ, fui eu quem vi!! A Aghata só pegou porque é maior que eu! — berrou Toneri emburrado.
— Ah querido, claro, claro! Estou orgulhosa de você também. Agora vá lá brincar e volte daqui a pouco. Quero conversar com sua irmã.
Enquanto Toneri corria em direção ao lago juntos de seus amigos, Erin recolheu-se com Aghata pra dentro da choupana – vamos, querida.- estava com um olhar preocupado, assentou-se do outro lado de uma pequena mesinha de madeira encostada na parede, enquanto servia-lhe um chá.
— Diga vóvó, é algo sério?
— Aghata... – disse entre suspiros- é algo preocupante, mas a situação ainda está sob controle.
— Então fala logo.
— Querida, hoje pela manhã, antes do sol raiar, Jackson, o ferreiro me deixou aqui uma mensagem de seu pai. Eu não quis lhe mostrar antes de você sair porque não queria preocupá-la com antecedência, mas agora gostaria que você lesse – falou enquanto lhe entregava um pergaminho.
“Erin,
Espero que minhas crianças não estejam lhe causando muita dor de cabeça... sou imensamente grato por tudo que fez e permanece fazendo por Bharani, fiz essa carta porque preciso vos informar algo sério e gostaria que lesse na presença de Aghata.
Filha, desde que tive que me retirar para a guerra, sinto muito a sua falta. Hoje fazem 2 anos e alguns meses que eu lhe deixei responsável pelo controle de nossa gente, pois confio em sua capacidade de liderança e acredito na sua força. Não posso me prolongar, então serei breve. Têm sido meses difíceis os que estou passando aqui, e imagino que por ai também não esteja nada fácil, Infelizmente, por conta de nossas enormes perdas, a tribo de Mizar saiu vitoriosa em várias batalhas, e fomos forçados a recuar. Com isso, a linha de frente inimiga estava cada vez mais perto de nossa aldeia. Não quero ser o responsável por mais mortes de pessoas inocentes, e por isso, tive que tomar medidas extremas, Hoje à noite partiremos para um território desconhecido, no lado Oeste de Corellyh , eu não sei o que encontraremos por lá, mas isso atrasará muito o progresso inimigo e nos dará mais tempo para pensar em estratégias. Quero lhe dizer, que não sei quanto tempo isso pode durar, mas acredito que levará alguns meses, ou até anos. Sinto muito não pode voltar pra casa para abraçar você e seu irmão e dizer de pertinho o quanto eu amo vocês. Mas tenho fé em sua competência e sei que pode cuidar de tudo por mim. Avise ao Jackson, e aos demais ferreiros que não é preciso mais fabricar armas e nem a coleta de alimento para nós. Vamos nos virar com o que encontrarmos lá. Cuide bem de todos e lembre-se que, liderança é fazer o que é certo sem ninguém estar olhando,
Com muito amor, papai ‘’
Foi impossível para Aghata conter a expressão taciturna de seu rosto, para ela, cada palavra podia ser facilmente comparada a um corte. Seus olhos já tomados pelas lágrimas foram afagados junto de seu rosto nos ombros cansados de Erin, que antes mesmo do pranto, já havia prontificado um abraço prolongado.
— Chore querida, chore... chorar lava a nossa alma... – disse com melancolia enquanto acariciava os longos cabelos da menina.
— Mas vó... – soluçava- Já se foram dois longos anos sem ver o papai, e agora eu vou ter que esperar mais? E o Toneri? O que eu vou dizer pra ele?
— Eu sei Aghata... tenha mais paciência, querida... nós estamos em guerra, e tudo que o seu pai tem feito até hoje foi para sua, a nossa segurança. Ele é um homem forte e sábio, e com certeza encontrará um caminho.
— Eu estou cansada... – sussurrou para si.
— O que disse, Agh?
— Eu estou cansada, vó! – rosnou- cansada dessa história de guerra, cansada de sempre ser pacífica com tudo! De fingir que estou segura de que meu pai vai voltar, eu tenho medo! Dia após dia eu sou forçada a engolir o meu desespero e passar segurança pros outros. Assumir responsabilidades que eu nunca imaginei e sempre ser a boa menina. Mas a verdade, vó, é que eu cansei, estou farta!
Para Erin, aquelas palavras apertavam o peito. Sua menina estava crescendo, e aos poucos, tendo que encarar sozinha a maldade do mundo. Aghata, a sua garotinha, já não era mais uma criança, e tinha perguntas que talvez ela jamais pudesse responder.
Sem mais palavras, Erin olhava para Aghata sentada no chão, observou então, que sua face estava avermelhada, marcada pela dor e incerteza, mas não tanto quanto seus olhos.
— Vamos, querida. Vai dar tudo certo. Pode acreditar que vai... – disse enquanto lhe estendia a mão- Vamos esquecer esse assunto por hora e vá lá chamar seu irmão, temos muito o que fazer por aqui.
Calada, a jovem segurou na mão de Erin e levantou-se com um leve torpor. Seguiu caminho até onde as crianças estavam e como sempre, o vigor da infância lhe dava forças, pois a fazia lembrar de sua infância...sentada à mesa ao lado de seu pais enquanto sua mãe a beira do fogão à lenha, preparava com amor aquela sopa de cogumelos incrível que ela adorava. Mas agora tudo isso era passado e para esconder sua dor, apressou seus passos para fazer o que fora pedida.
Ao se aproximar, foi calorosamente recebida por todas as crianças. Por ser a auxiliadora e uma espécie de segunda mãe delas, era inegável o amor recíproco para com menina, e em meio a tantos sorrisos, Aghata pôde encontrar mesmo que momentaneamente, um pouco de paz.
Adjacente a esse cenário, sentavam-se abaixo de um imenso salgueiro três senhoras, que supervisionavam as crianças enquanto teciam deslumbrantes peças de linho e lã, que ao observarem o alvoroço, não podiam deixar de cumprimentar a menina.
— Aghata! Que alegria te encontrar, venha aqui! Venha tecer conosco. – exclamou uma das velhinhas.
— B-bom dia Sra. Namoi! Bom ver você também. Vocês já pegaram a parte do alimento de vocês hoje? Eu iria distribuir, mas encarregaram essa tarefa ao Jackson.
— Não querida, ainda não. –disse-lhe lançando um sorriso- Agora não fuja mais do assunto, venha! Mãos à obra!
— Peço desculpas, mas hoje não vou poder ficar. Vim apenas buscar o Toneri para ajudarmos a vovó em algumas tarefas... aliás, vocês o viram por ai?
— Oh, tudo bem... ele está logo ali, querida – respondeu enquanto estendia os dedos enrugados para o leito do rio.
— Obrigada! – disse se retirando – Um bom dia pra vocês!
Na choupana, Erin estava atarefada. Resolveu adiantar o serviço antes dos meninos chegarem. Fazia literalmente anos que ela não dava uma organizada em sua casa. Era um lugar confortável e de tamanho mediano. Uma casinha simples, construída há muito tempo. Localizada abaixo de uma Sumaúma, cujo tronco altíssimo de madeira espessa favorecia o clima “lar” tão característico de Erin. Seu interior era composto por quatro cômodos bem planejados e de estrutura pentagonal.
Embora fosse um ambiente aconchegante, era inevitável perceber a quantidade de coisas antigas acumuladas em vários cantos, que precisavam urgentemente ser arrumadas e organizadas. Foram para Erin, minutos cantarolando um costumeiro mantra de sua mocidade, enquanto empilhava seus livros, desempoeirava jarros, separava algumas ervas e enumerava pacientemente sua coleção de mandalas. Até que finalmente o reforço chegou.
— Chegamos vóvó! – gritou Toneri enquanto despia-se de seus sapatos
— Desculpe a demora vó, acabei me distraindo.
— Sem problemas Agh. Já fui adiantando algumas coisas, não quero tomar muito do tempo de vocês. Eu já separei algumas das coisas pra vocês organizarem, estão todas em cima da mesa. – informou enquanto indicava com o olhar, já que as mãos estavam ocupadas.
Ao passo que Erin e Toneri conversavam durante a arrumação, Aghata observava atenta aos apetrechos da avó, e se perguntava quando e como contaria a seu irmão as más noticias sobre seu pai. Folheou pacientemente as folhas de um antigo livro, cujas páginas já estavam marcadas pelo tempo, tentava identificar aos poucos palavras e figuras quase que monótonas e um tanto desconhecidas.
O enigma foi deixado de lado assim seu irmão, que lhe acertara um pergaminho amassado na testa gargalhava prazerosamente anelando a diversão.
— Toneri, seu... – disse Agh prontificada à revanche .
— Você não me acerta! Lálálálálá – respondeu cantarolando.
— Ahh é? Vamos ver então!
E começaram uma guerra.
Entre papeis e mais papeis amassados, Erin observava com afeição suas duas crianças e aliviava-se ao ver que mesmo com a ausência dos pais, e em meio a tantas desgraças ainda existiam momentos de felicidade. Não se importou com a bagunça que teria de arrumar depois. Afinal, o que podia fazer, senão entrar na brincadeira?
Mais tarde, enquanto Erin dava os retoques finais na arrumação, reparou a maneira com que Aghata observava as brasas da fogueira quase apagada, parecia tensa. Depois de várias olhadas e ao perceber a expressão da neta, Erin resolveu falar.
— Tudo bem aí, querida? – indagou sem criar contato visual.
— ... Tudo, eu acho....
— Quer me perguntar alguma coisa? Conheço essa carinha...
— É... eu estive pensando, hoje enquanto eu arrumava alguns dos seus livros antigos, e...
— Prossiga. – disse enquanto se sentava na poltrona à frente.
— Eu reparei em algumas coisas, mas não tenho certeza... me parecia algo... místico. Eu já ouvi vários rumores sobre a magia, e sei que ela já existiu um dia. Por isso fiquei me perguntando: porque a senhora tem essas coisas?
— Onde está o seu irmão?
— Dormindo, oras!! Porque você está com essa cara?
— Ótimo, querida. Agora preste muita atenção. Tenho algo pra lhe contar, mas preciso que fique atenta, pois é um segredo o qual tencionava enterrar comigo...
Fale com o autor