A fábrica do arco-íris
1 A fábrica do arco-íris
Pouca iluminação, uma textura sórdida, sons de rangidos metálicos seguidos de choro baixo e soluços. Parecia ser algo estranho para a jovem unicórnio, mas logo seu olhos conseguiam assimilar o local; um galpão obscuro e úmido, onde um grupo de pôneis estavam acuados no final, todos um olhar assombrado ou desolado. Não dava para dizer ao certo do que se tratava; ela não se lembrava ao menos de como tinha parado ali. Ela tentou aproximar-se deles e conversar:
- Er... Oi? – O silêncio era constrangedor e até perturbador. -... Que lugar é esse?
-... A fábrica. – Um deles disse, com um tom rouco. Era um grande terrestre de pelo azulado e crina dourada.
-... Que fábrica? ... E por que tanto assombro?
- Sua idiota! – Outro pônei a puxou para perto do grupo. O unicórnio era verde, com crina esbranquiçada. – Não reconhece onde está? A Fábrica do Arco-Íris! A morte eminente! Vamos ser todos executados--
- Silêncio aí embaixo! – Alguém gritou de cima do galpão, batendo a pata.
Os outros paralisaram no ato, inclusive a própria unicórnio. O pônei que estava por cima da galpão soltou um estranho resmungo e, com trotes lentos, chegou ao que parecia ser um alçapão. Logo, o teto se abriu e com o som das pesadas correntes, o tal alçapão desceu. Nele, estavam três figuras claras: dois pôneis metálicos, com cores obscuras e ensanguentadas, e no meio dos dois, um estranho pégaso marrom; seus olhos eram vermelho-escarlates e demonstrava profundo rancor, sua crina acinzentada era rala e malcuidada, além de sua aparência, no que pese a descrição, se assemelhava a de um morcego. Ele passou o olho rapidamente entre todos ali e a unicórnio novata ainda escutou um sussurro: “é tudo culpa sua!”. Depois de esse rápido olhar, o pégaso sorriu para outra unicórnio, no fundo do grupo; seu pelo amarelado e crina azul clara saltavam os olhos do grupo.
-... É você mesmo; já está na hora!
Os outros se afastaram de súbito dela e a pobre pônei saltou de medo. Encurralada no local, os pôneis robóticos a agarraram com agressividade, arrastando-a até o galpão, com a mesma esperneando e tentando segurar-se para não ir. O choro dela ia aumentando à medida que ela aproximava-se do alçapão, até que quando estava em cima dele, o desespero era claro. Porém, enquanto esta mesma cena acontecia, o “pégaso-morcego” aproximou-se da pônei recém chegada e olhou-a ponta-a-ponta; pelo branco, crina marrom com mechas rosadas e olhos dourados detrás de um par de óculos cinzentos. Ele franziu o cenho e falou:
- Kiara Jewel... O que está fazendo aqui?
A unicórnio espantou-se; ela nunca o tinha visto antes e o mesmo sabia seu nome. Estaria ele a espionando outrora? Ela engoliu seco enquanto os vibrantes olhos vermelhos lhe perfuravam até a alma. Quando o suor frio já caía no chão devido àquele olhar penetrante, ele continuou:
- Você vem conosco também, mas o seu caso, é para outro lugar!
Ele terminou dando às costas para ela, enquanto um dos pôneis robóticos a pegou com brutalidade. Sendo arrastada à contra gosto e implorando pelo “possível mal-entendido”, o alçapão subiu até o andar de cima, revelando uma verdadeira cena infernal: aparentava-se com uma velha fábrica, se não fossem pelas engrenagens e maquinários ensanguentados, os cadáveres expostos e o cheiro da morte rodeando o local. Kiara ficara estupefata de medo; eram sete corpos expostos no local, todos debaixo de chaminés e dos cadáveres saíam cores que seriam vislumbrantes, se não fossem ofuscadas pelo ar macabro do local. Eram as sete cores do arco-íris e justamente o amarelo estava esgotando-se de seu cadáver. “Eles vão executar aquela pônei!” ela pensava, ainda paralisada “Mas o que eles querem comigo, então?”. Porém, enquanto ela pensava, fora interrompida de novo pelo puxão do pônei robótico, sendo novamente arrastada.
Kiara não conseguia se manter sob quatro patas por causa do robô que a segurava, sendo arrastada escadaria acima, enquanto a outra pônei permaneceu em choro constante no alçapão que novamente subia. Quando ambos estavam no mesmo andar, a unicórnio encontrava-se do outro lado da pônei e do “pégaso-morcego”. Do seu lado, uma inconveniente sala branca, separada em várias áreas; do outro, uma estranha e macabra máquina. O robô agarrou-a pelo pescoço e prendeu a unicórnio em uma corrente presa ao chão, dizendo algumas palavras quase indecifráveis, podendo ela apenas entender o “Ficar”, depois ele seguiu corredor adentro. Do outro lado, ela pôde assistir uma cena perturbadora: o mesmo pônei-robótico que a prendeu ali juntou-se ao outro e ao “pégaso-morcego” para prender a pobre terrestre à uma imensa maca metálica. A respiração dela era ofegante e os olhos, arregalados e trêmulos, estavam fixados no naquele estranho pégaso. Ele agora estava em um maquinário à parte, digitando frenética e violentamente; ele permaneceu assim até que, com um forte ruído, uma máquina desceu do teto e se montou rapidamente. Entre engrenagens e tubulações, uma espécie de braço mecânico desceu até a pônei, com uma ponta parentesco a uma enorme agulha. Ela suava frio e arfava de medo; completamente imobilizada, aquela bizarra máquina cravou-lhe o peito, rasgando seus pulmões ao meio em fração de segundos. Um grito esganiçado fora solto e foi o último som que aquela pobre pônei soltou após seu rosto imediatamente desfalecer-se. Gradualmente, a injeção sugava seu sangue, enquanto a mesma perdia suas belas cores. Os olhos entreabertos e pálidos, além da cabeça baixa, já indicavam que a pônei estava morta desde o começo. Quando a última gota fora sugada naquela torturante cena, o corpo gélido da pônei gradualmente começou a brilhar; as cores que emanava eram as mesmas que seu sedoso pelo tinha, agora ásperos.
Kiara já não prestava mais atenção ao seu redor, paralisada de horror com aquela execução a sangue frio, quando sentiu um forte golpe na cabeça derrubá-la, seguido de uma pata pesada, que quase esmagava sua cabeça. Ela tentou olhar para cima, mas a direção do rosto não a ajudava. A pônei ainda tocou-a algumas vezes; a agressividade dos toques era algo incomodante. Assim que ela finalmente parou, Kiara pôde levantar a cabeça: mesmo sem muitas reações, pôde enxergar uma alicórnio encarando-a com um profundo e hostil olhar. Sua crina, assim como sua cauda, era longa, lisa e rala; parecia outrora colorida, pois agora estava quase desbotada. Seus olhos eram vermelho-escarlates viçosos, seu chifre era longo e afiado como um navalha e suas asas eram grandiosas, se não fosse pela cor de suas penas e pelo: escurecidas e macabras. A alicórnio deu um leve sorriso e começou a falar:
- Era justamente o que eu precisava. DarkLord fez um excelente trabalho em te pegar! – Ela pausou e começou a segurá-la por magia, enquanto a puxava para o laboratório. – Você é grande e forte, além de sua Bela Marca: pode ser o símbolo da criatividade, mas... Você é compatível como a Joia Difusora!
- Eu não faço a menor ideia do que você está falando, nem de onde estou e esse lugar me dá um puta arrepio! Me solta! – Ela gritou, tentando puxar a corrente.
Enquanto tentava sentar-se e segurar-se para ir adiante no laboratório, sua tentativa fora frustrada pela magia da alicórnio, dando-a um choque a deixou atordoada. Kiara caiu zonza no chão e no final, fora arrastada pela macabra alicórnio. Lá dentro, a mesma ocultou o que aconteceria ali: apertando um simples botão perto da janela, ela embaçou-se ao ponto de se tornar opaca. Ali dentro, ninguém mais sabia o que poderia acontecer... Ou o que aconteceu.
Enquanto aquela mesma cena acontecia, o tal DarkLord continuava seu serviço naquele local hostil. Com os Cyborgs desprendendo o corpo desfalecido, ele saía do maquinário para segui-los e certificar-se de que tudo ocorreria como o planejado. Ele plainava pelo local tranquilamente, enquanto ouvia o som dos maquinários e dos Cyborgs andando ou voando pelo local. Por um instante, seus pensamentos passaram longe daquele local: lembrou-se de quando se encontrava perdido, ferido e reprimido pelos outros pôneis, tido como uma criatura maligna sem motivos e que aquela alicórnio foi a única a acolhê-lo e dar onde viver... Se é que aquilo seria vida. Seus galopes eram vagarosos, com sua mente voando em seu passado; mal havia prestado atenção, mas para sua sorte, os Cyborgs fizeram a troca de corpos perfeitamente. O corpo de outrora? Fora levado ao triturador, para assim, acabar a “renovação”. Espinhos, rolos, esmagadores e chamas esperavam pelo antigo cadáver. Os pensamentos do obscuro pégaso ainda estavam em seu passado, quando fora interrompido por um dos Cyborgs; suas orelhas apuradas permitiram a compreensão das falas do robô:
- Senhor, um dos prisioneiros estava tentando fugir durante o descarregamento. Como deseja que procedamos?
-... Qual é a cor dele? – O pônei virou-se, ainda voltando à realidade.
- Azul.
-... Nós temos bastante cor azul! – Ele respondeu com um resmungo. – Pode dar cabo dele! E com gosto... – Pausou com um sorriso malicioso.
- Como desejar. – O Cyborg confirmou e deu meia volta, de volta ao galpão.
O pésago sacolejou a cabeça e seguiu o Cyborg: depois do serviço, ver uma cena de tortura talvez “o animasse”. O pônei azul saiu do galpão tentando soltar-se do Cyborgs em vão, pois os mesmos o forçavam ao máximo. Ele aproximou-se do prisioneiro, que bufou em seu rosto. A crina dourada agora estava bagunçada e seus olhos alaranjados estavam fixados naquele suposto comandante da fábrica. Ambos os dois se encaravam: o obscuro e seu sorriso maligno contra o singelo azul, mas com seu profundo olhar de fúria. Este, não desistiria tão cedo.
- Por que você faz isso? – O azul rangeu os dentes.
-... Esse é meu oficio. E eu gosto disso. – O “pégaso-morcego” riu, assoviando para os Cyborgs o seguirem. – Posso me vingar daqueles que me oprimiram!
- Sacrificando vidas inocentes por causa de uma coisa que aconteceu com você? ... Vidas que não tem nada haver contigo? Ou com seus problemas? – Ele falava pausadamente, tentando livrar-se dos Cyborgs.
O outro respondeu um mero “é” enquanto abria a porta de uma sala; de vista, era claro que a morte aguardava ao pônei azul, pela vidraria quebrada da janela e manchas de sangue pelo local. Ele já não sabia mais no que pensar: em fugir, em remedar ou em aceitar o destino. Apenas um milagre o salvaria; mas o que houve, foi mera coincidência.
Com o eco de um alto bip, seguido de um alarme, os Cyborgs que o seguravam começaram a tremer e logo, a perderem controle dos movimentos. Nesse momento, ele finalmente conseguiu libertar-se, com uma cambalhota que arrastou os Cyborgs e em seguida, os arremessou contra a parede. As máquinas, por mais fortes e reforçadas que aparentassem, partiram-se quase que por completo com o impacto, deixando detritos, pedaços de ferro e engrenagens pelo chão, além de uma imensa mancha de óleo na parede. O morcego não conseguiu ver ao certo a situação de dentro da sala, mas pôde ouvir claramente o impacto e logo percebeu que algo estava errado. Quando chegou para fora, ele notou um vulto azulado saindo da cena de destruição. Claramente, perdeu seu prisioneiro. “A Deadly vai me matar no lugar dele!” ele pensou por um momento, já em pleno voo, atrás do fugitivo, segurando o pânico; quem diria que um simples serviço poderia se transformar em um desastre. Ambos cortavam os ventos pelos corredores, em uma luta pelas suas próprias vidas. O azul já não aguentava mais o trote intenso, quando finalmente teve uma ideia; seu rival não parecia ser bom de curvas. Foi nesse momento que, em uma curva brusca, ele conseguiu despistar o DarkLord, fazendo o mesmo bater de cara na parede. Comemorar? Jamais ali; logo tratou de sair do lugar, mesmo que a patadas lentas. O pégaso obscuro levantou-se minutos depois, zonzo e tentando recuperar-se do impacto. Ele chacoalhou a cabeça, quando uma conveniente voz o chamou: grossa e impactante, o pégaso quase saltou para trás ao ouvir o berro da alicórnio:
- DarkLord! O que aconteceu, seu imprestável? – Ela falava de um rádio, preso na cintura do pégaso.
-... O que houve? O que poderia ter acontecido em qualquer raio de momento: um fugitivo! – Ele reclamou, encarando o rádio.
- Pois então trate de pegá-lo, ou é seu sangue irá cair no lugar dele! – A alicórnio voltou a reclamar, desligando do outro lado logo em seguida.
Agora, DarkLord resmungava e judiava de sua chefe. “Agora que acontece isso; é a primeira vez e essa vadia já reclama?” ele balbuciava enquanto plainava pelos corredores, atrás do fugitivo “Já vi que vou lascar o couro deste viado quando achá-lo”. Distraído, mal havia percebido que voava lentamente e quase que em círculos; Dark só voltou a si depois de outra inesperada situação: a luz dos corredores havia começado a falhar, ao mesmo tempo em que um estranho zunido parecia vir de longe; por último, uma explosão pôde ser ouvida de longe e então, veio um apagão na fábrica. Ele pôde ouvir os gritos dos prisioneiros; alguns assustados, outros surpresos e logo em seguida, gritos que cogitavam uma fuga. DarkLord já não sabia o que exatamente fazer: ir até o local onde poderia ter acontecido a explosão ou tratar para que mais prisioneiros não fujam. Ele aumentou a velocidade, voando pelos corredores, seguindo as vozes dos prisioneiros; ambas as celas e a sala de sua chefe ficavam por perto, o que lhe dava certa vantagem. Assim que ele chegou ao local Dark olhou para os lados, hiperventilado: olhava para baixo, onde se encontrava o alçapão da cela, e para os lados, atrás da alicórnio. Logo, o pégaso focou sua visão no alçapão; alguns pégaso conseguiram arromba-lo para fugirem. Eles já levantavam os outros pôneis, quando DarkLord saltou para cima de um com um coice, derrubando-o em cima dos outros, em um efeito em cadeia.
- Nada de fugas por aqui! – Ele bufou.
-... É o que nós vamos ver! – Os pégaso disseram, quase em conjunto.
Os três que estavam ajudando os outros a subirem pularam cima de Dark, em uma tentativa de lutar contra ele; os que já haviam sido ajudados, agora levantavam os outros, enquanto o pégaso obscuro estava distraído. Entre coices e patadas, DarkLord tentou ao máximo fazer o grupo parar, mas logo os três pôneis conseguiram imobilizá-lo no chão; seu focinho já sangrava e seu corpo doía; talvez agora sentira um pouco do que fazia com os outros pôneis... Um pouco. Ele já imaginava a sua mestre completamente enfurecida pela fuga: com certeza seria punido... Quando, naquele momento de agonia, pôde ouvir vagamente a sua voz, com um tom de medo, para sua surpresa:
“Por que se revoltou contra mim? Eu lhe criei para ser perfeita!”
Eram frases que indicavam um pequeno desastre. Outra explosão fora ouvida no local, mas esta foi mais notória. O motivo? Um corpo saiu voando para perto dos fugitivos. Não um corpo qualquer: o corpo de uma alicórnio. Deadly Colors, morta. Os que ousaram se aventurar no cadáver, viram uma perfuração em seu tórax, que atravessava seu coração por completo; seu olhar pálido e assustado indicava que, seja o que matara ela, era terrível. Todos ali pareceram terem pausado ao verem o corpo caindo, e os que viram a causa de sua morte, ficaram paralisados, imaginando que ela teria sido executada da mesma forma que os outros pôneis, mas não fora; ainda havia sangue escorrendo pela perfuração. O real motivo estava mais próximo dali... E era quase tão tenebroso quanto à própria fábrica.
A passos pesados e longos, uma silhueta apareceu no andar de cima, olhando os que estavam embaixo de forma sinistra. Uma unicórnio de pelagem acinzentada e olhos obscuros, dentes serrilhados e a característica mais marcante e perturbadora: um grupo de sete joias, encrustadas em seu corpo, de tal forma que instigava os que viam de dor e seu sangue ainda escorria por elas. DarkLord pôde sentir os outros pôneis que o seguravam amolecerem as patas e, sentindo-se melhor, tentou-se levantar. Ele não tinha visto direito o que acontecera antes, mas ao tocar-se da situação, ficou tão espantado quanto os outros; sua mestre, morta pela sua própria obra. A unicórnio pulou e desceu até o local, pisoteando com agressividade. Dark, ao vê-la de perto, reconheceu sua bela marca: a imaginação... Mas suas cores estavam desbotadas; aquela alteração fazia parte da “obra”. Quando ela desceu, muitos pôneis já haviam saído trotando dali; ninguém queria fazer parte do trágico final. A unicórnio olhou os que fugiam com certo desprezo, como se eles não valessem a pena gastar sua magia. Contudo, dois ainda ficaram ali... Ambos haviam se encontrado e ambos se odiavam, mas agora estavam focados em um só objetivo; parar aquela possível assassina.
O terrestre azul, Starfall, avançou com a pata para cima dela, que se esquivou com facilidade; Dark ainda tentou aproveitar a brecha da distração para tentar acertá-la por ele, mas ela ainda conseguiu parar o seu golpe. Ambos empurravam-se pelo local, arranhando o chão local com os cascos. Com a unicórcio distraída, Starfall aproveitou-se para acertá-la; com uma voadora na cabeça, derrubou-a no chão. Eles ainda a observaram caída no chão, para certificarem-se que ela não se levantaria. Por um instante, deu-se a perceber-se que haviam a vencido de forma fácil; seus olhos estavam fechados, sua respiração era lenta e ambos julgaram que a unicórnio logo faleceria. Seria assim... Até que eles deram as costas e focaram-se um no outro: ela abriu os olhos levemente, os observando e logo levantou um sorriso. Ambos se digladiaram entre si por um longo tempo; corações disparados, à flor da pele, sedento pelo sangue rival. A cada golpe, um ficava mais furioso que o outro e chegavam aos seus limites a cada minuto que se cedia; justamente o que a unicórnio caída queria...
DarkLord estava chegando ao ápice da raiva. Em um dado momento, ele levou um coice que o jogou para o outro lado da sala. Levantando-se com dificuldade e trêmulo, começou a rir; primeiramente, era baixo e discreto, até que foi aumentando, até tornar-se algo maníaco. Starfall bufava de raiva e havia ficado, de certa forma, confuso ao ver seu inimigo rindo; no meio da dor, das sequelas e do sangue, ele ainda encontrava uma forma de rir? E foi desta forma que o pégaso obscuro tirou proveito de seu rival. Em uma rasante rápida, ele derrubou-o no chão, pisoteando-o com força e ira. Cada golpe era um impacto unicamente terrível para Starfall; o focinho deformando-se, dentes caindo, ossos quebrando, o sangue escorrendo com mais força... E o ápice da dor fora a sua finalização; mesmo com a fábrica completamente desligada, DarkLord arrastou seu inimigo abatido até o maquinário mais próximo, em busca de mais tortura... Uma serra, algo perfeito para ele. Dark observou aquele objeto de corte profundo por um momento, com certa admiração; o prazer poderia ser ainda melhor se fosse feito pelas suas próprias patas.
Jogando o corpo para o alto e com uma rasante, esmagou-o contra a serra. O impacto fora rápido e fatal; Starfall, ao sentir seu corpo quase cortado ao meio, soltou um grito de pânico. Ele ainda tentou respirar em vão; tossia sangue, relutando pela vida, mas em poucos segundos, havia apagado na frente do seu rival... E da unicórnio de outrora. Ela havia retornado atrás dos dois... Mas agora, como sobrara apenas o “pégaso-morcego” de outrora, talvez ele pudesse sentir o sabor do erro que ele cometera ao deixar sua mestre executá-la em seus experimentos. Ele a olhou por um instante, de forma a sentir o que havia por trás daqueles olhos escuros e mortos. Os dois ficaram assim por um longo tempo... Até que DarkLord voltou a rir. Ele, na verdade, não via a mínima graça; via mais ira do que medo ou qualquer outra coisa.
- Acha mesmo que tenho medo de você? – Ele começou a falar, pressionando o corpo de Starfall. – Eu sei muito bem porque Deadly Colors fez isso com você... E sei que você não quer fazer isso!
As palavras dele pareciam em vão; a unicórnio continua encarando-o com um olhar cerrado. Mesmo sentindo a ignorância por parte dela, Dark continuou:
- Quem mandou aquele cavalo sombrio roubar os poderes dela? Se não fosse por ele, ela não teria que se esconder. Ou esconder a nova verdade sobre o arco-íris! O maior pesadelo dela havia se tornado realidade... O que tomou conta dela; foi daí de onde ela tirou essa psicopatia e essa insanidade! – Ele agora explicava com um sorriso no rosto, tal como a loucura por ele descrita que Deadly tinha. – Ela tinha que recuperar seus poderes, mas tinha que esconder que perdera de alguma forma... E às vezes, isso requer uma grande responsabilidade!
Ele continuava falando quase em vão; a unicórnio observava-o em silêncio, mas agora, com certa atenção. Ele continuou falando, descrevendo as execuções, as figuras que trazia para ali, outros que foram usados em experimentos para fazar Deadly Colors recuperar seus poderes, tantas tentativas falhas e inglórios que persistiam àquele local em vão... Às vezes ele ria ao descrever as situações, por mais chocantes e grotescas que fossem e também das execuções, por mais agressivas e dolorosas também. Ela seria a pônei mais compatível não exatamente pela sua bela marca, mas porque o seu pelo branco seria a forma perfeita de descrever o arco-íris; a junção de todas as formas luminosas do arco íris em uma só frequência. Ele não sabia no que falhara: com ela, tudo fora planejado nos mínimos detalhes, ainda mais que outros foram sacrificados antes dela e já tinham experiência o suficiente. DarkLord continuou por um bom tempo, até que finalmente foi parando:
-... Só é uma pena mesmo, que você a essa altura, não está ligando muito para a situação, não é? — Os dois se olharam por mais um instante. – Vamos! Essa não é você, certo?
Nenhum dos dois parecia esboçar diferença pelo outro. Ele continuou pressionando o cadáver do pégaso, até que ela começou a concentrar sua magia. Dark não parecia mais importar-se com seu desfecho; já estava tudo destruído de qualquer forma... E mesmo que saísse vivo, seria punido... Toda sua vida agora, não passava de uma imensa ironia contra a morte. Mesmo assim, ele pensava caso ela continuasse “viva”; já não teria mais graça ver a morte dos outros se não pudesse ver... ou ao menos continuar o serviço de sua mestre, a Deadly Colors. Talvez sim, talvez não, a derrota não era uma opção...
Ela lançou a magia com toda força para cima dele, como se não tivesse notado que DarkLord era ágil; plainando para baixo, o raio acertou o corpo de Starfall, que veio a degradar. Seguindo voo, Dark derrubou a unicórnio no chão, pisoteando-a com as patas traseiras. Porém, empurrando-o com as patas traseiras, ela conseguiu libertar-se; a unicórnio ainda pausou, tossindo sangue, com um tom de rouquidão, quase mudez. DarkLord tentou ataca-la de novo, com uma rasante e, com uma forte patada em seu focinho (respingando sangue pelo local), ele voou de novo para cima e logo percebeu seu ponto fraco; a velocidade de um ataque aéreo poderia ser a chave de sua derrota. Num voo frenético, DarkLord usava toda sua vantagem ao seu favor: freando ou acelerando, ele tentava esquivar-se dos raios, enquanto esperava uma oportunidade para mergulhar e voltar a atacar. Chegou à tal ponto em que, durante um ataque, Dark conseguiu levar algo dela; mordendo-a e agarrando-a com força, a unicórnio chacoalhou-se enquanto tentava fazer o “pégaso-morcego” largar sua cabeça. Os caninos perfuravam o crânio dela e isso lhe causava atordoamento e uma imensa dor... Se não bastasse as dores das torturas de outrora. Deadly mereceu apenas metade do que deveria pagar por ela e por todos... Assim como aquele mísero pégaso. Ela já estava ficando sem forças para relutar; o sangue escorria pela sua cabeça e pelo seu corpo, causando uma anemia. Fora assim quando um último lampejo veio em sua mente, lampejo este que se materializou em magia: um último raio que saiu de seu chifre, atravessando o que pôde para satisfazer sua última tarefa... Cumprida. O raio mágico atravessou o corpo de DarkLord, que futilmente segurava a cabeça com a boca no chifre, fazendo a magia atravessar seu corpo como uma empalada. O pégaso largou a cabeça dela no ato, caíndo no chão com um olhar paralisado; a dor rápida da morte havia dado a DarkLord aquele olhar. A unicórnio riu por um instante, agora compreendendo a graça... Antes de cair junto a ele. Ela não havia escolhido aquele caminho, mas no final, seguiu junto a ele... Como tantos outros que vieram antes dela.
Ninguém sabe mais ao certo o que acontecera naquela fábrica; sem sobreviventes do acontecimento, o local foi mantido como um tabu para os fugitivos. Contudo, ela desaparecera de Cloudstalle, sem ao menos deixar rastros, mas ainda assim muitos contam as lendas sobre o espírito de DarkLord, o assombro, ainda habitar aquele local, buscando por almas tolas, para que pudesse continuar seu legado, em nome da alicórnio amada. Errado? Jamais na visão dele. Tudo era uma questão de visão e gosto, para tal; afinal, sempre haverá pôneis para não sentir falta de outros. Sem ajuda, sem rivais, sozinha; agora ela faria tudo, do jeito dele e sem empecilhos fúteis...
“Vejo você depois, na Fábrica do Arco-Íris... Onde os pesadelos e medos tornam-se reais...”
Notas finais
Enfim, feliz Halloween~
(Ou Noite dos Pesadelos, se preferir...)
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