A floresta do oeste

1 A floresta do oeste


Todos no vilarejo conheciam a regra.


Não importava a idade.


Antes mesmo de aprenderem a plantar arroz, antes de decorarem os nomes dos rios ou das montanhas ao redor, as crianças ouviam o mesmo aviso.


Nunca entre na floresta a oeste.


Era uma lição repetida por mães enquanto preparavam o jantar, por pais ao voltarem da caça, por avós junto à fogueira nas noites de inverno.


Algumas crianças riam.


Outras perguntavam por quê.


Os mais velhos nunca sorriam ao responder.


Porque, muito antes de seus avôs nascerem, muito antes de o próprio vilarejo existir, já se contava sobre o senhor daquela floresta.


Um demônio branco.


Diziam que seu pelo era tão claro quanto a neve recém-caída e que seus olhos brilhavam vermelhos como brasas acesas na escuridão. Alguns juravam que ele caminhava sobre duas pernas, vestindo sedas dignas de um imperador. Outros afirmavam que sua verdadeira forma era a de uma besta colossal, grande o bastante para fazer as árvores vergarem apenas com sua passagem.


Havia quem dissesse que suas garras cortavam montanhas.


Que sua voz fazia os pássaros abandonarem os céus.


Que um simples olhar era suficiente para fazer um homem esquecer o próprio nome antes de morrer.


Ninguém sabia ao certo quais histórias eram verdadeiras.


Talvez todas fossem.


Talvez nenhuma.


Mas havia algo sobre o qual não existia discussão.


Os cavalos se recusavam a seguir pela trilha do oeste.


E até os yokais menores mantinham distância daquele lugar.


Era como se a própria natureza reconhecesse que aquelas terras já possuíam um soberano.


Com o passar dos séculos, a história deixou de ser apenas um conto para assustar crianças.


Transformou-se em tradição.


Depois, em respeito.


Por fim... em lei.


Ninguém entrava na floresta a oeste.


E aqueles que, por arrogância ou curiosidade, ignoravam o aviso...


Raramente voltavam para contar o que haviam visto.


Naquele ano, porém, a fome falou mais alto que o medo.


As chuvas chegaram cedo demais.


Vieram fortes, incessantes, transformando os campos em lama e levando embora meses de trabalho. As plantações apodreceram antes da colheita. Os rios transbordaram, e até os peixes pareciam ter desaparecido.


Restou a caça.


Durante semanas, os homens do vilarejo partiram todas as manhãs em busca de cervos, javalis e coelhos. No início, a floresta ao leste foi suficiente. Depois, a caça tornou-se escassa. Os animais pareciam sentir a presença humana e migravam para regiões mais profundas.


Cada dia voltavam com menos.


Até que chegou a vez de Hayato.


Era um caçador experiente, pai de duas crianças pequenas. Conhecia cada trilha da floresta permitida, cada riacho, cada árvore marcada pelos caçadores das gerações anteriores.


Naquela manhã, saiu de casa antes do amanhecer.


Sua esposa não precisou dizer nada.


O pouco arroz que restava mal seria suficiente para mais dois dias.


Ele apenas assentiu, pegou o arco e desapareceu entre as árvores.


As primeiras horas renderam apenas silêncio.


Nenhum cervo.


Nenhum javali.


Nem mesmo pegadas recentes.


Então, finalmente, encontrou rastros.


Grandes.


Frescos.


Seguiu-os em silêncio.


Depois de quase uma hora, uma flecha bastou. O cervo tombou entre as árvores.


Hayato soltou um longo suspiro de alívio. Aquela carne alimentaria suas duas crianças por vários dias. Sorriu pela primeira vez em muitos dias.


Foi enquanto amarrava o animal às costas que ergueu a cabeça.


Foi só então que notou o silêncio.


Percebeu que não reconhecia mais nenhuma árvore.


Nenhuma trilha.


Nenhum riacho.


Apenas as altas hastes de bambu.


O sangue gelou.


Conhecia aquele lugar.


Ou melhor…


Conhecia as histórias sobre aquele lugar.


Deu meia-volta imediatamente. A trilha havia desaparecido. À sua frente havia apenas bambus.


Atrás dele, mais bambus.


À esquerda.


À direita.


O silêncio ao seu redor era sufocante.


Nem pássaros.


Nem insetos.


Nem o vento.


Hayato caminhava sem direção.


Ou pelo menos era essa a sensação.


Tentava marcar mentalmente os bambus por onde passava, riscava alguns troncos com a ponta da faca, memorizava pedras e raízes. Poucos minutos depois, tudo parecia exatamente igual outra vez.


Caminhou em linha reta durante vários minutos.


Quando tornou a olhar para o lado…


O mesmo tronco riscado estava outra vez diante dele.


Franziu a testa.


Não era possível.


Mudou de direção.


Contou cinquenta passos.


Sessenta.


O mesmo corte feito por sua faca estava diante dele. Recém-feito. Como se a floresta tivesse girado ao seu redor.


O suor escorria por sua testa, embora o ar da floresta fosse frio.


Respire.


Continue andando.


Encontre a saída.


Era o que repetia para si mesmo.


Então ouviu.


Uma voz.


Baixa.


Suave.


Alguém cantarolava uma melodia simples, daquelas que mães ensinam aos filhos durante as colheitas.


Hayato parou imediatamente. Seu coração pareceu esquecer como bater.


Lembrou das histórias que diziam que espíritos imitavam vozes humanas para atrair viajantes perdidos. Outros contavam sobre fantasmas de crianças que conduziam os curiosos para a morte.


Sua mão apertou com força o cabo do arco. A razão mandava fugir.


Mas fugir para onde?


Engolindo o medo, avançou na direção da canção. Cada passo era mais cauteloso que o anterior.


A vegetação começou a se abrir.


A luz do sol atravessava as folhas altas, formando manchas douradas sobre uma pequena clareira.


E ali... havia apenas uma menina.


Não devia ter mais que oito ou nove anos.


Os cabelos negros caíam até a metade das costas, presos apenas por uma fita simples. Vestia um quimono de tecido claro, já um pouco gasto nas barras, mas limpo e cuidadosamente remendado, como se alguém tivesse se preocupado em preservá-lo apesar do tempo.


Sentada sobre a grama, cantarolava distraidamente enquanto entrelaçava pequenas flores silvestres em uma delicada coroa.


Parecia completamente alheia ao mundo. Como se estivesse no quintal de casa.


Hayato permaneceu escondido atrás de um bambu, incapaz de compreender o que via.


Uma criança.


Sozinha.


No coração da floresta que ninguém ousava atravessar.


Não havia medo em seu rosto.


Nem pressa.


Nem sequer olhava ao redor.


Era simplesmente... uma menina brincando.


Por um instante, Hayato baixou a guarda, então a menina ergueu a cabeça de repente.


Sorriu para alguém.


Mas não para ele.


— Senhor Sesshoumaru... olha o que eu fiz.


Hayato sentiu um arrepio percorrer sua espinha.


Ela não estava sozinha.


O corpo de Hayato travou.


Até aquele instante, sua atenção estivera inteiramente voltada para a menina. Foi só quando ela se levantou que seus olhos seguiram a direção de seu sorriso.


E então ele o viu.


O enorme cão branco permanecia deitado alguns metros atrás dela.


Imóvel.


Tão imóvel que, por um momento, parecera apenas uma elevação coberta de neve. Agora, porém, os olhos rubros estavam abertos.


Hayato esqueceu como respirar.


A criatura era gigantesca.


Seu dorso ultrapassava facilmente a altura de um homem adulto. O pelo branco reluzia mesmo sob a sombra dos bambus, tão alvo que parecia não pertencer àquele mundo. Listras escarlates marcavam-lhe o rosto e o corpo como cicatrizes antigas, enquanto duas faixas púrpuras contornavam as pálpebras, tornando ainda mais profundo o brilho ameaçador dos olhos.


As patas dianteiras eram largas como troncos de árvores. Cada garra afundava na terra sem qualquer esforço, comprida o bastante para atravessar um homem de um só golpe. Quando entreabriu a boca, Hayato viu fileiras de presas longas, curvas e perfeitamente brancas.


Dentes feitos não para caçar.


Mas para dilacerar.


Era ele. O demônio branco.


Hayato quis correr.


Seu corpo, porém, recusava-se a obedecer. As pernas tremiam tanto que mal conseguiam sustentá-lo.


A menina, alheia ao terror que dominava o homem escondido entre os bambus, caminhou alegremente até o gigantesco inu-yokai.


— Ficou pronto! — anunciou, erguendo a pequena coroa de flores.


O enorme cão baixou lentamente a cabeça.


Não havia pressa em seus movimentos.


Nem agressividade.


Apenas uma calma quase solene.


A menina sorriu, apoiou-se delicadamente sobre o focinho colossal e, na ponta dos pés, começou a prender pequenas flores entre o pelo branco e sedoso. Algumas tranças finas já haviam sido feitas ao redor das longas mechas que caíam junto às orelhas, cuidadosamente entrelaçadas com pequenas flores do campo.


— Essa daqui combina com você... — murmurou para si mesma, concentrada em seu trabalho. — Ah... essa também.


Os dedos pequenos deslizavam pelo pelo do maior predador que Hayato jamais imaginara existir.


E a fera...


Permanecia completamente imóvel. Aceitando pacientemente cada enfeite, como se aquilo tivesse alguma importância.


Hayato não conseguia compreender.


As mesmas garras capazes de partir árvores ao meio repousavam a poucos centímetros da menina. As mesmas mandíbulas que poderiam arrancar sua cabeça com um único movimento estavam agora tão próximas dela que bastaria um gesto involuntário para pôr fim à sua vida.


Mesmo assim...


A menina ria baixinho enquanto ajeitava mais uma flor entre as tranças. E o grande demônio branco fechou lentamente os olhos.


Hayato não sabia quanto tempo permaneceu escondido.


Talvez alguns instantes.


Talvez uma eternidade.


O suficiente para perceber que, apesar de toda a sua fama, o grande demônio não demonstrava qualquer intenção de ferir a menina.


Pelo contrário.


Quando uma das flores escorregou de sua trança, a enorme criatura inclinou discretamente a cabeça, facilitando que ela a recolocasse.


Quando a criança terminou seu trabalho, deu um passo para trás e sorriu, satisfeita.


— Agora ficou bonito.


O grande inu-yokai apenas a observou em silêncio.


Então, pela primeira vez desde que Hayato chegara, seus olhos vermelhos voltaram-se diretamente para o homem escondido entre os bambus.


Não havia raiva.


Apenas um aviso.


Eu sei que você está aí.


Hayato sentiu o coração parar.


Ajoelhou-se imediatamente, a testa tocando o chão.


Esperou pelo golpe.


Pela dor.


Pela morte.


Os segundos passaram.


Nada aconteceu.


Quando reuniu coragem para erguer um pouco a cabeça, viu apenas a imensa cauda branca desaparecendo em meio a mata.


A menina caminhava ao lado da criatura, cantarolando a mesma melodia de antes. De vez em quando dizia alguma coisa, como se conversasse com um velho amigo. O enorme cão seguia em silêncio, diminuindo o passo sempre que ela parava para admirar uma flor ou uma borboleta.


Já distantes, entre as sombras da floresta, Hayato piscou. Por um breve instante, a gigantesca silhueta branca pareceu encolher entre as árvores.


Onde antes caminhava a fera, agora seguia um homem de longos cabelos prateados, vestindo sedas brancas que balançavam ao vento. A menina segurava a barra de sua manga enquanto continuava a falar alegremente.


Até que ambos desapareceram na floresta, como se jamais tivessem estado ali.


Hayato jamais soube dizer se aquilo realmente acontecera ou se seus olhos, cansados pelo medo, haviam lhe pregado uma última peça.


Então…


Um pássaro cantou.


Hayato ergueu a cabeça lentamente.


O vento voltou a atravessar as folhas. Pela primeira vez desde que se perdera, ouviu o zumbido de insetos entre a vegetação.


A floresta respirava outra vez.


Quando deu alguns passos à frente, encontrou uma trilha.


Era a mesma por onde acreditava ter entrado.


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Hayato encontrou a saída pouco antes do anoitecer. Ninguém acreditou em sua história.


Alguns disseram que a fome o fizera delirar. Outros juraram que ele inventara tudo para esconder o fato de ter desobedecido à tradição.


Hayato não discutiu.


Durante toda sua vida nunca deixou de ensinar a mesma regra aos filhos e a seus netos.


"Nunca entrem na floresta a oeste."


Não porque tivesse medo.


Mas porque algumas verdades pertencem apenas à floresta.

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