Bulma retornou ao palácio entrando pela cozinha se aproveitando da movimentação para entrar sem chamar atenção, mas a cozinheira mais senhorinha a esperava:

—Sua acompanhante está desesperada...— Disse a Velha.

— Aconteceu alguma coisa?

—Seu pai queria falar com você e não te encontraram no quarto.

—Eu só fui dar uma volta nos jardins.—Mentiu ela.

—Sei...—disse Uranai com desconfiança.— Vá até a sala dele, veja o que ele quer logo, antes que você se meta em encrenca.—Alertou a cozinheira.

Uranai era uma velhinha a quem Bulma se apegara desde pequena, a Velha muitas vezes ajudara a encobrir as fugas da menina espevitada de cabelos azuis. Inclusive a cabana da floresta pertencera a ela no passado, antes dela vir morar no palácio.

Bulma alisou seu kimono e seguiu rumo a sala onde seu pai costumava se reunir para tratar dos assuntos importantes, antes de entrar ela se olhou no espelho para ver se não estava descabelada ou com o rosto corado pelo sol.

Quando finalmente tocou a maçaneta, ouviu alguém conversando com seu pai, a voz masculina parecia falar sobre assuntos sérios.

-Não encontramos o corpo do invasor.-Disse o homem.

-Então você acredita que ele conseguiu fugir mesmo ferido. — Seu pai questionou.

-Acho improvável, ele estava sangrando demais.

- Será que enviarão outro no lugar?- A voz de seu pai pareceu preocupada.

Ele era um foragido.

O estômago de Bulma despencou ao ouvir que o homem a quem salvara deveria estar morto. E o pior, fora ela quem salvara. Ela caminhou apressadamente até seu quarto, seu cérebro girava , o que faria agora?

Um foragido e pelo visto, inimigo do palácio.

—Burra!burra!

Ela se xingou ao entrar em seu quarto, amaldiçoando-se por ser curiosa.

Mas, ela já sabia que não adiantava se martirizar o malfeito já havia sido feito e agora ela teria de resolver.

Eles buscavam um corpo, ou vestígio dele.

Passada a hora do almoço onde ela finalmente viu seu pai o tranquilizando de que apenas andava nos jardins do castelo. Ele a advertiu sobre os perigos de andar por aí desacompanhada, e ela fingiu veementemente que tinha medo e consciência dos riscos.

Mal terminou o almoço, ela pôs seu plano para funcionar.

Conseguiu uma roupa masculina e separou mais um pouco de comida para o guerreiro e antes que sua dama de companhia notasse a sua má intenção ela escapuliu para sua cabana. Dessa vez ela saiu bem apressada. O guerreiro ficou confuso ao vê-la ali.

—O que foi? Está surpreso ao me ver?— Ela perguntou.

—Pensei que não fosse aparecer mais hoje.

O rapaz notou que ela parecia um pouco desconfiada, o olhava de lado, como se o estudasse desconfiada.

—O que você tanto me olha?— Ele quebrou o silêncio de repente a deixando desconcertada.

Ela parou o que estava fazendo de repente, desconcertada pela pergunta.

— Não é nada.— ela limitou-se dizer.

A cabana emergiu novamente num silêncio total, somente a movimentação de Bulma organizando a comida e as vestes para o guerreiro.

— O que veio fazer aqui?

Bulma parou novamente e o olhou, só agora se deu conta de que estava de fato agindo estranho com ele.

E se ele desconfiasse que ela sabia que ele era um guerreiro foragido?

Talvez tentasse matá-la, pensou ela.

—Me desculpe, é que precisarei ser breve.— Dirigiu-se a ele. — Vim aqui porque preciso te banhar e trocar suas roupas, pois estão sujas de sangue.

Ele piscou forte tentando digerir o que ela falara.

—Você o que?— Ele perguntou sem aceitar o que ouvira.

—Vim te banhar e trocar essas suas roupas, estão fedendo.—ela disse tampando o nariz e fazendo careta.

—Você não vai me tocar, se é isso que está pensando.

— Ótimo, então fique aí atraindo moscas e outros insetos...

Ela saiu da cabana por alguns instantes, ele imaginou que ela fora embora, mas não demorou a aparecer de volta com um balde com água.

—Eu já disse que não te deixarei me tocar.— Ele repetiu.

Bulma não se conteve e ajoelhou ao seu lado o olhando quase na mesma altura.

— Escute aqui, mocinho, você não está em condições de mandar em nada, mal consegue ficar de pé, e outra eu não vou me aproveitar de você se é o que está pensando.— Disse ela dando uma piscadela.

O rosto do guerreiro ficou vermelho como um camarão e sua respiração pareceu presa na garganta.

Aquela garota definitivamente era alguém incomum, ele se deu conta, parecia não ter a mínima noção de perigo, e nunca abaixava a crista.

Ela pegou panos limpos e com o balde por perto começou os cuidados, quem a visse ali pensaria que sabia exatamente o que fazia.

Primeiro cuidou da face dele, limpando pequenos resquícios de sangue, deslizou suavemente as vestes de luta rasgadas expondo o peitoral ferido, o toque suave da mão dela o fazia se retesar, a respiração pareceu ficar presa no peito, ele tentou fingir pra ele mesmo que era por conta da água fria, mas era impossível ser isto, pois onde ela tocava queimava.

Foi algo rápido, mas na mente dele pareceu uma eternidade, ela o ajudou a colocar as novas vestes e colocá-lo novamente em uma posição confortável.

Ele notou que ela juntava as roupas dele para levar consigo e estranhou aquela movimentação.

— Pra que vai levar a minhas roupas ?—Ele questionou.

—Vou lavá-las no vilarejo.

Algo no tom de voz dela o fez sentir que ela estava mentindo, mas antes que ele pudesse questionar mais ela se despediu dele o deixando sozinho.

Ele sabia que naquela tarde ela estava diferente, mas não conseguiu extrair o porquê, e aquilo de fato o deixara intrigado .

Será que ela descobrira a sua identidade?

Será que ela o entregaria?

Se tivesse forças iria atrás dela... Mas seu corpo ainda não tinha forças pra se pôr de pé.

O que ela faria com as roupas dele?

Mal sabia ele o verdadeiro motivo para ela levar aquelas roupas.