A filha do diretor
25 Capítulo 24
Notas iniciais
– Alysson? — Sarah perguntou. — Alysson é uma aposta?
– Não. Alysson era uma aposta.
– O tempo verbal não muda nada, Scott! — E foi aí que eu tive vontade de contar tudo a ela. Contar sobre Peter, sobre as ameaças, o “novo acordo”... Mas eu simplesmente não posso correr o risco de colocá-la em perigo maior.
– Sarah, presta atenção. Isso foi antes. Agora tudo mudou. Eu gosto da Alysson de verdade. Você sabe disso.
– Você me usou esse tempo todo para ganhar uma maldita aposta! — gritou. Pude ver de relance, lágrimas traçando um caminho molhado em suas bochechas.
– Sarah… — Fiz menção em tocá-la, mas ela me impediu.
– Não, Scott. Mesmo você sabendo de tudo o que a Aly passou…
– Eu não sabia naquela época. Depois que eu soube, as coisas mudaram, Sarah. Eu te conheci, conheci melhor a Alysson. Eu não estou com ela por causa da aposta. — afirmei, mesmo que lá no fundo quisesse que isso fosse mentira.
– Então a aposta acabou? — pergntou. — Você desistiu? — Eu posso mentir, posso dizer a verdade, ou contar meia verdade.
– Não. Eu não desisti. — optei pela última alternativa.
– Por que? Você não disse que a Alysson era uma aposta? Por que continua com isso então?
– Tem muitas coisas em jogo, Sarah.
– E, por acaso, essas coisas são mais importantes do que a Alysson, a confiança dela? — Suspirei pela milésima vez no dia.
– Você não tem noção. Talvez não seja mais importante que a Alysson, mas ela jamais me perdoaria se eu abrisse mão dessas coisas. E eu também não. — Eu nunca me perdoaria se alguma coisa acontecesse com você.– Escuta, Sarah, eu te contei isso por um motivo.
– Qual motivo? — perguntou, antes que eu pudesse continuar.
– Eu não conseguia, não consigo, mais mentir para você.
– Mas continua a mentir para a Aly.
– Eu não estou mentindo para ela. Eu gosto mesmo da Alysson, como nunca gostei de ninguém. Isso é uma coisa que eu nunca senti antes.
– E por que continua com a aposta? Por que contou isso logo para mim? Por que não abre o jogo com a Alysson? Por que, Scott? — gritou, enquanto eu baixei a cabeça.
– Eu não posso responder todas as suas perguntas, mas… Você sabe porque eu te contei isso. Eu acabei de dizer — falei calmamente. — Eu preciso que confie em mim. Estou fazendo isso para o seu próprio bem.
– Para o meu bem? O que eu tenho a ver com isso?
– É melhor você não saber, por enquanto. Só confia em mim, está bem? Acredite que eu não vou machucar a Alysson, nem vou deixar que ninguém machuque, nem a ela, nem a você.
…
Desde a conversa, Sarah está diferente comigo. Não a culpo por isso. Ela me prometeu que guardaria segredo, mas está me evitando, se distanciando cada vez mais. Não conversamos mais, por mais que eu tente falar com ela. Eu sabia que havia a possibilidade de eu me arrepender de ter contado, mas não sabia que o arrependimento viria tão rápido. Por outro lado, me sinto aliviado de ter tirado parte do peso da mentira de cima de mim. Agora só falta resolver as coisas com a Alysson e a Sarah me perdoar, coisa que eu espero que aconteça logo. Sinto falta dela.
Falando na Alysson… Estou começando a me acostumar com esse sentimento, mas, ainda assim, estou tentando reprimí-lo ou diminuí-lo. Não sei se essa dita paixão é tão grande e devastadora quanto dizem os livros e filmes, mas não quero que ela cresça e evolua. Já está ruim do jeito que está. Não preciso de problemas maiores dos que eu já tenho. Mas a ansiedade que sinto quando acordo e vejo que ela me mandou uma mensagem, ou a frustração de quando não recebo nenhuma mensagem ou ligação, e até mesmo a felicidade em ver o seu sorriso, ou a paz que sinto ao ouvir a sua risada… É tudo inevitável, incontrolável. Às vezes, me pego pensando se eu realmente quero controlar ou destruir isso.
Talvez eu queira sentir, só não tenha coragem.
Li uma vez, em algum lugar, que a paixão é uma selva que, embora totalmente explorada, sempre há novos perigos para descobrir. E eu não sei se quero descobrir esses perigos.
Alysson voltou no domingo, dia 27. Três dias… Três dias e meu prazo acaba, a aposta acaba. Apenas um encontro, ou algo a mais? O desprezo da Alysson ou a culpa por ver meus amigos machucados? De uma coisa eu sei: eu não gostaria de estar no meu lugar.
Último dia do mês, quarta-feira. Todo mundo me pressionando por causa da aposta… Menos o Peter. Ele nem me dirigiu um mísero olhar desde a nossa última conversa. Não sei se devo ficar aliviado ou preocupado com isso. Talvez preocupado… Com Peter, não se pode baixar a guarda.
Prometi a mim mesmo que decidiria hoje a noite, durante o encontro, se vou avançar com as coisas e fazer o que Peter pediu. Não vou forçar nada. Vou deixar as coisas acontecerem. Se for para dormir com a Alysson, não será por ameaças, nem aposta. Será porque ambos queremos. No encontro de hoje, eu vou esquecer tudo isso. Vou apagar da minha memória toda pressão que me colocam, toda ameaça, todo deboche… Tudo o que tem a ver com a aposta. Esse encontro será um verdadeiro encontro. Afinal, eu não estou aqui por causa da aposta. Não mais. Descobri que, apesar da minha estupidez, eu sou capaz de sentir alguma coisa, que não seja atração, por uma mulher.
Estacionei o carro em frente a casa de Alysson e pensei se deveria buzinar, mandar uma mensagem, ou ir até lá e tocar a campainha, correndo o risco de encontrar com o diretor.
Eu sou o “namorado” dela. Eu tenho que falar com o pai dela.
Saí do carro e andei até a porta, tocando a campainha em seguida. Aquele “ding-dong” tão familiar ecoou pelo ambiente, até ser interrompido por passos. A porta se abriu, revelando uma Alysson simplesmente espetacular.
– Alysson Cooper… E eu pensei que você não poderia ficar ainda mais incrível — elogiei.
– Você também não está nada mal.
– Tive que caprichar. Não posso fazer feio diante de uma milady. — Fiz uma pequena reverência.
– Menos, Scott. Menos — ela disse rindo.
– Seu pai se encontra? — perguntei. Ela negou com a cabeça.
– Saiu com a minha mãe. Foram passar uns dias na casa da irmã dele, que está doente. Parece que é grave.
– E você não foi?
– Não sou muito ligada a esse lado da família. E já faltei muitos dias de aula…
– Ah, sim. Compreendo.
– Para com isso!
– Com isso o que? — perguntou, claramente confuso.
– Com essa formalidade.
– Ah, tudo bem. Desculpa. Foi sem querer. — Ergui as mãos em sinal de rendição.
Entramos no carro e seguimos para a primeira parte do nosso tão esperado encontro.
– Cinema, Scott? Sério?
– Estou esperando há dias que você tire minha carência — argumentei. Ela bufou.
– Você é um idiota às vezes, sabia?
– Sabia. Vivem me dizendo isso. Agora vamos, se não vamos perder o início do filme.
– Como se você estivesse preocupado com o filme — murmurou.
– Em parte — disse dando de ombros.
O filme foi… Eu não lembro. Na verdade, nem sei qual era o nome do filme. Pude ouvir algumas risadas durante a sessão. Talvez fosse de comédia, ou uma comédia romântica. Ou só um filme idiota. Não importa. Mas foi uma sessão bem interessante, eu garanto. Alysson não reclamou em nenhum momento. Sei que ela queria isso tanto quanto eu. A pena é que o filme não era tão longo, mas aproveitamos bastante.
Entramos no carro novamente, mas não chegamos ao nosso destino tão rápido dessa vez. O trânsito até o centro estava caótico. parece que todos resolveram sair hoje, o que me impressiona bastante, uma vez que hoje é quarta-feira.
– Então… — Alysson começou. — Acho que isso não estava nos planos, não é?
– Não, não estava — respondi, com uma pontada de raiva.
Ouvi Alysson soltar uma risada, e a olhei brevemente.
– O que? — perguntei.
– Hum? Nada.
– Qual é a graça? — questionei novamente.
– Você. Está tão nervoso. Chega a ficar fofo. — Abri um sorriso ao ouvir suas palavras.
– Não sei se fofo é a palavra certa para me definir.
– E não é. Só estou dizendo que, no momento, você está fofo. — Ficamos em silêncio por um tempo.
Estava concentrado na estrada a minha frente, e naquele mar-de-carros, quando senti lábios irem de encontro a minha bochecha. Olhei para Alysson, que fitava algo do lado de fora do carro, pela janela do seu lado. Ela virou para mim, como se notasse que eu a observava, e abriu um sorriso tímido, o qual eu não pude evitar retribuir.
– Me lembre de ficar nervoso mais vezes — eu disse, e Alysson virou o rosto novamente.
Ela fica uma graça envergonhada.
…
– Eu não acredito nisso! — quase gritei. — Como assim eu perdi a reserva?
– O Senhor chegou quase uma hora depois do horário reservado. Eu sinto muito — o atendente me respondeu.
– Cara, você viu como está o trânsito hoje?
– Vi sim, Senhor. Mas eu não posso fazer nada. Todas as mesas já estão ocupadas. Eu sinto muito.
Olhei para Alysson. Esta tinha um sorriso gentil no rosto.
– Tudo bem, Scott. Vamos para casa. A gente volta aqui qualquer dia. — Assenti e a segui até o carro.
A noite não vai acabar assim. Eu disse que planejaria tudo melhor do que ela imaginava, e eu vou fazer isso. Talvez não seja o melhor que ela espera, mas é o melhor que eu tenho para oferecer no momento.
– O que está fazendo? A nossa casa é para a esquerda — Alysson disse, após eu virar para a direita.
– Eu sei — respondi. — Confia em mim.
Ela não disse mais nada.
Estacionei numa praça, que está completamente vazia. Já vim aqui algumas vezes. É enorme, bem iluminada, tem extensos campos de grama bem aparada, bancos por todo canto e costuma ser bem movimentada, o que não é o caso de hoje.
– Eu vou demorar um pouco — avisei, antes de sair do carro. — Espere no carro e não se preocupe. — Ela assentiu, relutante. — Relaxa. Não estou te sequestrando, nem nada do tipo. — Ela forçou um sorriso, mas permaneceu calada.
Saí do carro e segui para uma pizzaria que tem aqui perto. Sim, vamos comer pizza. Encomendei uma espanhola. A preferida da Alysson. Paguei uma quantia a mais para que fosse feita antes das outras.
30 minutos depois eu estava com uma pizza e uma garrafa de coca. Não cheguei a entrar no carro, apenas fiz sinal para que Alysson saísse. Quando viu o que eu carregava, abriu um sorriso divertido.
– Sério? — Foi tudo o que ela disse.
– Seríssimo — respondi. — Vamos. Conheço um ótimo lugar para devorarmos isso aqui. — Ela soltou uma risada, daquelas que eu amo ouvir.
Caminhamos por uma boa parte do parque, até chegar onde eu queria: uma escultura estranha e curiosa. Por que eu quis vir aqui? Não sei. Talvez porque seja o único lugar que eu realmente conheço nessa praça. E, bem, tem escadas em volta da escultura gigante, onde podemos nos sentar, então…
– Tem algum problema em sentar na escada? — perguntei, já que está de vestido e tal. Ela bufou.
– O que você acha? — E sentou num dos degraus em resposta..
– Por isso que eu gosto de você — falei, mas paralisei em seguida. É estranho falar isso em voz alta. Alysson está sorrindo.
– Ah, então, o Sr. Miller gosta de mim?
– Possivelmente. — respondi. Ela assentiu, ainda sorrindo. — Servida? — Abri a caixa de pizza.
– Com certeza!
Devoramos a pizza, literalmente. Nunca vi uma garota comer tanto! Elas geralmente tem uma coisa, que eu costumo chamar de frescura, mas ela usam outra palavra. Charme? Glammour? Eu não sei. Algo assim.
Alysson está com o tronco inclinado para trás, apoiada nos cotovelos, olhando para o céu. Segui seu olhar, e encontrei um céu feito total e unicamente de pontinhos brilhantes.
– São lindas, não é? — ela quebrou o silêncio.
– São — concordei.
– Às vezes, eu fico pensando sobre isso. As estrelas são a luz de uma explosão que ocorreu à anos luz de nós, certo? — Nenhum de nós desviou o olhar do céu.
– Certo — afirmei.
– E se alguma vida foi destruída por causa dessa explosão? Seria egoísta da nossa parte apreciar a beleza delas?
– Não sei — admiti. — Talvez essas vidas entendam. Quer dizer, olhando do nosso ponto de vista, elas são uma beleza natural.
– Sim.
– Quando você olha para uma estrela, é quase impossível não apreciá-la. Olha só para elas. São… deslumbrantes!
– Realmente. Talvez você tenha razão.
– Talvez.
– Mas eu sinto muito pelas vidas que se foram por causa dessas explosões.
– Entendo.
– E, se o planeta Terra explodisse, eu não sei se me sentiria confortável em saber que as pessoas apreciam a causa da minha morte.
– Seria como apreciar um veneno — falei sem pensar.
– Algo assim — ela disse.
– Acho que eu ficaria feliz. — Essas palavras fizeram com Alysson me olhasse. — É. Sabe… Acho que saber que minha morte causou a felicidade de alguém não seria tão ruim. Ainda seria ruim, porque, bem, eu estaria morto. Mas alguém, em algum lugar à anos luz de nós, estaria sorrindo ao olhar para o reflexo da minha morte. — Finalmente a olhei. — Macabro, eu sei.
– Não. — Ela sorriu. — Não parece tão ruim. Tudo bem, talvez seja um pouco macabro. Mas, mesmo assim, não parece tão ruim. Um pouco de felicidade brotando no meio da dor e do caos.
– É.
– Se eles puderem nos ver agora, talvez também estejam felizes. — Assenti e voltei a olhar para o céu.
– Um pouco de felicidade no meio da dor de do caos.
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