A filha do diretor
15 Capítulo 14
Notas iniciais
Acordei mais cedo hoje. Fiz minhas higienes matinais rapidamente e tomei café. Paris deve estar dormindo ainda. Maravilha! Ainda tenho alguns minutos de paz. Depois de tomar o café da manhã, saí da cabana. Vou aproveitar os minutos que tenho antes que a ruiva acorde e as atividades comecem.
É difícil arrumar alguma coisa para fazer por aqui. Alguma coisa interessante, quero dizer. Para começar, aqui não tem internet. Eu não sou dependente da internet nem nada assim. Na verdade, eu mexo bem pouco, mas isso seria uma coisa interessante para se fazer, uma vez que aqui não é permitido usar celular (regras impostas pela diretora) e não tem televisão. Estamos totalmente isolados do mundo. Em compensação, temos uma bela vista aqui.
Logo na entrada, um grande lago com águas escuras nos recepciona, cercado por um vasto campo de gramas bem aparadas. Seguindo a curta e estreita estrada de terra da esquerda, chegamos à área das cabanas que, bem, não é lá essas coisas, mas não é tão ruim. As cabanas formam semicírculos, um deles em volta do lugar onde fazemos a fogueira. São mais ou menos 50 cabanas (levando em conta que somos 90 alunos e ainda tem professores, diretores, etc...), não sei ao certo. À direita, começa a mata, que se estende até por trás das cabanas, chegando a parede limite mais à esquerda. Voltando ao lago, seguindo a estrada de terra da direta, chegamos a melhor parte de todo o acampamento: a área de esportes. Ainda não fomos liberados para sequer chegar perto daquela área, mas… Lembra dos dois primeiros dias? Então. Nós meio que invadimos o lugar de madrugada. Não lembro muito bem do lugar (só fomos lá uma vez, e não tivemos tanto tempo assim), mas lembro que tem um quadra de vôlei e uma piscina.
O sol já estava ficando alto quando eu voltei para cabana. A maioria das duplas já estão fora das cabanas aguardando a ordem dos professores. Paris está escorada no batente na porta da nossa cabana, de braços cruzados, aparentemente me esperando.
– Onde você estava? — Ela perguntou.
– Por aí. — Respondi sem vontade, e passei por ela, entrando na cabana.
– A diretora estava perguntando por você.
– Ok. — Me joguei no sofá.
– O que deu em você hoje? Ficou estranho do nada.
– Nada não, Paris.
– Tudo bem então. — Ela parou na minha frente. Me olhou de cima a baixo, como se me comesse com os olhos. Por incrível que pareça, isso estava começando a me incomodar.
– Cuidado com a baba, ruiva. — Ela abriu um sorriso malicioso.
– Acho que temos um tempinho antes das atividades começarem.
Dessa vez eu que a olhei de cima a baixo. Ela vestia uma saia rosa clara rodada extremamente curta, blusa branca de alça colada no corpo, seus pés estão descalços. Os cachos ruivos caem rebeldes sobre os ombros, o que a deixa extremamente sexy. Voltei meu olhar para o seu rosto. Ela morde o lábio inferior de forma provocadora.
Antes eu não pensaria duas vezes, mas agora… Eu não sei. Alguma coisa me faz pensar se eu realmente deveria. Porém, essa coisa não me impediu de levantar do sofá e puxá-la para mim, a envolvendo num beijo intenso. Pude sentí-la sorrir no meio do beijo. Paris brinca com os meus cachos, como das outras vezes, enquanto eu a puxo pela cintura acabando com o espaço entre nós. A ergui e ela envolveu minha cintura com as pernas. Carreguei-a até o sofá e a joguei lá. Acho que vocês podem imaginar o que se seguiu.
Fizemos o raio das atividades. Não demoramos tanto a terminar, como das outras vezes. Não dissemos quase nada. Não era preciso. Mas no meio disso tudo, uma coisa me preocupa: se antes de acontecer alguma coisa a mais ela já era insuportável, como vai ser daqui para frente? Ainda tenho esperança de que o que ela teve seja tudo o que queria, e que me deixe em paz a partir de agora. Não é que não tenha sido bom, mas, caramba, a garota é um chiclete!
Fomos um dos primeiros a voltar para a cabana. Paris não se insinuou em nenhum momento, o que é bom. Ficamos na cabana sem trocar nenhuma palavra. Eu lendo e ela fazendo coisas com o cabelo, pele e, novamente, as unhas. Depois de terminar de ler, fui encontrar com os caras no lago.
...
– Então rolou? — Zac perguntou.
– Já disse que sim, Zac. — Respondi pela milésima vez.
– Mas como foi? Ela…
– Zac, eu não vou dar detalhes!
– Tudo bem, tudo bem. — Disse erguendo as mãos em sinal de rendição.
– Então, quem são as duplas de vocês? — Perguntei, tentando mudar de assunto.
– Alysson. — Peter respondeu. — Como nos velhos tempos. — Eu tive vontade de socar a cara dele até que ficasse inconsciente.
– O panaca aqui. — James disse se referindo a Zac.
– Ei! — Zac protestou.
– Sarah. — Foi a vez de Anthony falar.
– Ethan. — Ross disse por último.
– Ethan? — Questionei. — Má sorte.
– Você nem imagina. O cara é um prego!
– Faço uma ideia. — Comentei.
Quando voltamos para área das cabanas, percebi um movimento estranho. Algumas pessoas, uma pequena multidão, forma um semicírculo ao redor da cabana, que eu tenho a impressão de ser a da Alysson.
– Você é um idiota! — Ouvi Alysson gritar. Impulsivamente, corri para o local e me infiltrei no meio das pessoas para ver e entender o que estava acontecendo.
– E você é uma vadia! — Cheguei a tempo de ver Kyle cuspir essas palavras.
Alysson não deixou barato: retribuiu as palavras com, não um tapa, mas um soco bem no queixo de Kyle. E não foi fraco, não. Kyle pôs a mão no local atingido e massageou um pouco. Quando ele tirou a mão, pude ver que estava vermelho arroxeado. É, Alysson é mais forte do que parece. Mas Kyle não demorou a se recompor. O pessoal parecia estar gostando do ‘’show”, mas eu… Aquilo estava me incomodando.
– Está perdendo a noção do perigo, Alysson? — Ele a encarou por um tempo.
Me pergunto onde estariam os diretores, professores e todos aqueles que se dizem responsáveis por nós.
Kyle ergueu a mão e cerrou os punhos, e pode ter certeza que não é para fazer carinho na Alysson. Sem aguentar mais ficar parado assistindo, me intrometi e acabei levando o soco pela Alysson.
– É sério que você ia bater numa garota?! — Eu disse enquanto verificava se o canto esquerdo do meu lábio inferior estava sangrando.
– E desde quando isso é da sua conta, Cachinhos Dourados? — Kyle provocou.
– Desde que você se meteu com ela. — Indiquei Alysson com um movimento de cabeça.
Para falar a verdade, isso não é da minha conta, nem nunca vai ser. Eu só estou me intrometendo mesmo porque é muita covardia bater em mulher. Não estou aqui especificamente pela Alysson. Não, isso seria loucura.
– Ah, então você vai apanhar por ela? Bom saber. — Ele não deu tempo nem para que eu respirasse, já partiu para agressão.
Levei um soco de direita, aparentemente, no mesmo lugar onde o outro atingiu. Outros dois ainda me atingiram antes que eu me recompusesse e reagisse. Já que estava no chão mesmo, dei uma rasteira nele e Kyle caiu. Mas quando eu levantei, ele já estava de pé novamente e tentou me socar, mas eu desviei a tempo. Atingi um, dois, três, quatro socos seguidos em seu nariz. Ele deu alguns passou para trás, mas não caiu. Parecia meio tonto. Me aproximei para finalizar o trabalho, mas ele estava atento. Chutou minha costela direita. Uma dor aguda me atingiu em cheio, mas se eu caísse agora, tinha certeza de que ele faria um estrago muito pior no meu rosto. Consegui voltar a minha posição normal e soquei seu estômago. Ele, instintivamente, curvou o tronco. Envolvi seu pescoço com o braço esquerdo e continuei socando sua barriga com o punho direito. Quando senti minha energia se esgotando, o soltei e dei um último soco em seu rosto, fazendo-o desabar de vez no chão.
Só agora, parado, observando Kyle gemendo de dor no chão, percebo que estou ofegante e sinto dor em músculos que eu nem sabia que existiam. Meu rosto está extremamente dolorido e aquela dor aguda, quase insuportável, ainda está presente nas minhas costelas. Me viro e vejo uma Alysson espantada. Ouço alguns sussurros, mas não entendo sobre o que falam. Mas sei que é sobre o que acabou de acontecer. Comecei andar até a minha cabana. As pessoas abriram espaço para que eu passasse, evitando tocar em mim. Entrei e me joguei na cama, todo sujo, empoeirado, talvez com sangue no rosto, mas extremamente cansado e dolorido e, definitivamente, sem nenhuma (NENHUMA!) disposição para sair dessa cama e fazer qualquer coisa pelos próximos 20 milênios.
Ouvi alguém entrar no meu quarto como um furacão, fazendo barulho. Como se minha cabeça já não estivesse doendo o bastante.
– Homem quase morto jogado na cama. — Murmurei — Barulhos não são bem-vindos.
– Desculpa. — Ouvi uma voz familiar, mas estou dolorido demais para me virar e ver quem é. — Vou pegar o kit de primeiros socorros no banheiro. Não se mexa.
– Como se eu pudesse. — Resmunguei.
Alguns poucos minutos depois, sinto alguém se sentar na minha cama, bem em frente ao meu rosto. Abro os olhos e vejo Alysson. Não me surpreendi com ela ali, até fiquei feliz de ser ela e não Paris.
– Voltei. — Aquela mesma voz anunciou. Mas ela não saiu da boca de Alysson. Logo Sarah entrou no meu campo de visão. — Então, vamos brincar de médico? — Abri um sorriso divertido.
– Não pense besteira, Scott. — Alysson disse — A gente só vai jogar álcool nos machucados do seu rosto.
– Tudo bem. Só tentem não me matar.
– Não prometo nada. — Sarah disse. E foi aí que eu comecei a ficar com medo.
…
E começou a época divertida nesse raio de acampamento. A época dos esportes e jogos que pessoas normais gostam de praticar e jogar. E já começa muito bom: paintball logo de cara. Agora sim esse acampamento está rendendo alguma coisa. Finalmente alguma coisa boa! Estamos reunidos perto do lago, onde a diretora falou conosco nas outras vezes. Os times estão sendo divididos para começarmos logo com isso. Aqueles que querem jogar, estão sendo divididos em dois times. Os que não quiseram, estão sem fazer nada, ou o que bem entenderem. Como boa parte dos alunos aqui é sem vida, ficaram uns 15 alunos para cada time. Estamos divididos assim:
Primeiro time: Eu, Sarah, James, Zac, Kyle, Lucca, Pedro, Shaw, Megan, Nicole (não é a Nicolle do Peter. Eu lembro de os meninos me falarem sobre ela no primeiro dia de aula), Rosie, Suzan, Leah, Paige e Alexa.
Segundo time: Anthony, Ethan, Lily, Peter, Ross, Jordan, Patrick, Enzo, Rafael, Nathan, Ella, Cléo, Abbie, Tobias e Alysson.
Não conheço a maioria dessas pessoas, só as pessoas que eu falo frequentemente, os namorados de Sarah e Alysson, e algumas meninas que eu lembro do início das aulas, quando os caras estavam me “apresentando” as gatas do colégio: Megan Wate, Nicole Albuquerque e Rosie Collins. O resto, só lembro de ter visto um ou outro na escola, mas de nome… Totais desconhecidos. Mas isso não importa agora. Vamos jogar e ganhar esse negócio.
Estou animado demais? Talvez. Mas quem liga? Ninguém. Então, vamos começar logo com isso.
Vestimos os uniformes (meu time é o vermelho, o outro, azul), pegamos as armas e entramos na mata. Sim, vamos jogar na mata. Isso vai ser demais! Ficamos com o campo esquerdo. Como a maioria estava com cara de mosca morta, e nós só temos 3 minutos para encontrar um esconderijo pra bandeira, eu tomei a liderança e dividi as posições do nosso time:
– Rosie, Suzan e Pedro: vocês acham um bom esconderijo para bandeira e ficam na defesa ao redor dela. Nicole, Lucca, Leah, Zac e Sarah, vocês ficam entre a bandeira e o campo adversário e os impedem de prosseguir. James, Kyle, Shaw, Megan, Paige e Alexa, vocês vem comigo pro ataque. — todos assentiram. — Alguma objeção? — perguntei. Ninguém disse nada. — Tudo bem. Só mais uma coisa: — me olharam com expectativa — fiquem vivos.
– Jogos Vorazes, sério? — disse Lucca com desdém.
– Não temos tempo pra discussão! — exclamei — Vamos! — logo todos estavam em seu devido lugares.
Senti o olhar furioso de Kyle sobre mim a todo tempo. Ele não havia dito nenhuma palavra até agora. Ele parecia relativamente recuperado da surra que recebeu, e disposto a revidar. Mas tenho certeza de que essa raiva toda não vem só da surra que eu dei nele, mas do fato de a namorada dele ter cuidado dos meus ferimentos, e não dos dele. Sim, Alysson Cooper cuidou dos meus ferimentos.
*Flashback on*
– Pode deixar que eu assumo daqui, Sarah. — Alysson disse.
Sarah a olhou um pouco desconfiada. Bem, até eu desconfiei. Acho que qualquer um acharia estranho Alysson querendo ficar a sós comigo… no meu quarto. Está certo que as condições não são favoráveis para qualquer tipo de “divertimento”, mas mesmo assim…
– Tem certeza? — Sarah perguntou. Alysson apenas assentiu. — Tudo bem, então. — ela reprimiu um sorriso. — Tentem não se matar. — e saiu do quarto.
Eu sabia o que ela estava pensando: Alysson finalmente vai ceder. Eu também esperava por isso. Afinal, eu acabei de defendê-la num grande ato de cavalheirismo.
Ela permanecia sentada na beira da cama, e passava algodão nos machucados do meu rosto, concentrando-se nos mesmos, sem nunca olhar nos meus olhos.
– Sobre o que aconteceu… — ela começou — O Kyle… Eu… Me desculpe. — disse por fim.
– Desculpar? — perguntei — Isso é algum tipo de piada? — ela me olhou diretamente nos olhos.
– Acho que não. — disse com a testa franzida.
– Aly, você não fez nada. — eu disse. Só depois de alguns segundos percebi que a tinha chamado pelo apelido. — Kyle é um babaca. Ele ia bater em você! — alterei minha voz.
– Eu sei, mas…
– Mas nada! Eu posso não ser o melhor cara do mundo, mas não admito homem que bate em mulher! — pude ver o canto de seus lábios erguer-se em um sorriso de canto.
Ela continuava passando o algodão no meu rosto, olhando para todos os lugares que não fossem meus olhos. Um momento de silêncio seguiu-se, até que ela o quebrou:
– Você está horrível!
– Como é? — perguntei erguendo um sobrancelha.
– Seus machucados. — ela explicou. — Seu rosto está horrível.
– Garanto que Kyle está pior. — e o assunto acabou de novo. Eu fiquei realmente sem saber o que falar, até o presente momento — E garanto que ele está pior ainda por não ter uma morena passando algodão no rosto dele.
Alysson abriu um largo sorriso. Estranhei num primeiro momento. Normalmente, ela rolaria os olhos e me chamaria de idiota. Mas não foi o que aconteceu. Ele continuou passando algodão. Estávamos ali há o que? Meia hora? Ela não cansava de olhar para os tais ferimentos, e eu, com certeza, não me canso, muito menos me incomodo, com a proximidade dela.
– Acho que isso já está bom. — comentei.
– Talvez. — ela rebateu e sorriu. — Você não precisava ter feito aquilo.
– Eu sei. — respondi. Ela não estava mais passando o tal algodão, e já não olhava mais para os machucados, mas não se afastou nem um milímetro. — Foi puro impulso.
– Scott Miller, você está me saindo melhor do que encomenda.
– Hum… Ponto pra mim. — eu disse sorrindo. Ousei envolver sua cintura com o braço esquerdo. Ela sorriu com o movimento. Aproximou-se ainda mais, seu nariz tocou o meu.
– Eu até te beijaria agora — ela disse -, mas você não está em condições no momento. — levantou-se e saiu. Ah, essa garota adora me provocar.
*Flashback off*
É, pois é. Não sei direito o que isso significa. Essa garota é complicada demais. Não sei se Kyle sabe do papo do beijo, mas se sabe, é mais um motivo para ele querer me matar.
Voltando ao paintball:
Quando conseguimos invadir o campo adversário, só havia 3 de nós: eu, Kyle e Alexa. James, Shaw, Megan e Paige morreram no meio do caminho. Ainda temos chance.
Otimismo é tudo!
No fim das contas, perdemos. Mas foi um bom jogo (e eu não morri!).
Na fogueira, a única coisa sobre a qual se comenta é o jogo. O pessoal faz piadinhas e tudo mais, mas eu não me importo. Até entro na brincadeira. Toquei algumas músicas no violão, as quais todo mundo cantou junto. A essa hora, muitos já foram dormir. Mas eu continuo aqui. Não tenho sono, nem vontade de ir para a mesma cabana que Paris, que deve estar dormindo.
Meu celular vibrou, anunciando a chegada de uma nova mensagem.
“Como foram as coisas com a Alysson? — Sarah”
“Quase foram — Scott”
“Pensei que você fosse irresistível — Sarah”
E depois de alguns segundos:
“Foi o que eu ouvi por aí — Sarah”
“Estou chegando perto. Alysson é diferente das outras garotas — Scott”
“Mas e você e o Ethan? Como estão? — Scott”
Temi estar invadindo a privacidade dela, mas não queria mais tocar no assunto “Alysson”.
“Estamos bem. Só alguns problemas de casal. — Sarah”
“Problemas de casal? — Scott”
“É. Você sabe. Ele anda um pouco distante. — Scott”
Mais pessoas saíram da fogueira. sobraram apenas eu, Sarah e mais 3 garotas que eu nunca vi na vida. Tomei a liberdade de me levantar e sentar ao lado de Sarah. Acho que conversas desse tipo não se pode ter por mensagem, quando se tem a possibilidade de tê-la pessoalmente.
– Fala a verdade, Sarah. — eu comei a dizer — Por que está com ele? — ela me olhou estranho, talvez por eu estar indo direto ao assunto.
– Eu o amo, Scott. — ela disse apenas, num tom de voz que me fez lembrar uma criança.
– Mesmo com tudo o que ele te faz? Sarah, eu não acompanho seu relacionamento, mas pelo pouco que eu já vi, sei que ele te faz mal. — essa conversa está estranha, principalmente para mim. Quero dizer, não é o tipo de conversa que eu tenho todo dia.
– Ele é assim mesmo. Esquentado, estressado… Mas é uma boa pessoa.
– Tão bom que deve te bater. — ela enrugou a testa.
– Bater?
– Pelo jeito que ele segurou seu braço quando nos falamos na praça, é o que eu deduzo. — ela negou com a cabeça.
– Não, não. Ele nunca faria uma coisa dessa.
– Tudo bem, então. Cuidado para não se machucar. — depositei um beijo em sua testa, a fazendo sorrir. Me levantei e andei em direção a cabana, mas o barulho de vozes vindos detrás das cabanas me chamaram atenção.
Andei até a fonte das vozes e me deparei com Paris e Alysson no meio de uma discussão.
– Eu não faço ideia do que você está falando. — Alysson disse. Eu permaneci escondido.
– Ah, isso você não sabe? Mas ficar agarrada com o Scott na minha cabana você sabia direitinho, não é? — Paris rebateu.
– Agarrada? Ficou louca? — Alysson gritou. — Eu só fui agradecer!
– Mas com segundas intenções.
– O que? Eu não…
– Escuta bem, Alysson. — Paris a interrompeu — Eu só vou dizer uma vez: fica longe dele, ou vai sofrer sérias consequências.
– E você acha que eu tenho medo de você? — Alysson respondeu com desdém.
– Não me subestime, Aly. Já te humilhei uma vez, e não é o fato de você ser a filha do diretor que vai me impedir de fazer de novo.
A raiva de Alysson é visível. Percebo que ela está se segurando para não voar no pescoço de Paris. Até que seria interessante ver uma briga delas, mas… não hoje.
– Você acha que ainda pode me afetar com aquela historinha do Peter? Me poupe, Paris. — Alysson tentava manter sua voz firma, sem sucesso. Por mais que dissesse que aquilo não a incomoda mais, está escrito em sua testa que ela ainda se sente, nem que seja um pouco, incomodada com tudo isso. E não é pra menos.
– Bom, acho que não causaria o mesmo efeito se fosse com o Kyle, já que, como ele mesmo disse, você é uma vadia. — Paris sabe onde cutucar a onça pra provocar.
– Você não disse isso. — Alysson disse com os dentes cerrados.
– Ah, eu disse sim. — ela tinha um sorriso maléfico nos lábios — Vadia. — repetiu lenta e pausadamente, como se saboreasse cada sílaba.
E foi aí que a Alysson avançou para cima da Paris. Seu primeiro alvo: os cachos rebeldes de Paris. Quando elas começaram a gritar, percebi que as pessoas das outras cabanas estavam acordando, despertei do meu transe e fui separar as feras.
– Ei, meninas. Parem com isso. — eu estava puxando Alysson pela cintura, tentando tirá-la de cima de Paris. — Vocês estão acordando todo mundo.
Elas continuaram dando arranhões e puxões de cabelo uma na outra enquanto gritavam. Eu já posso ouvir murmúrios vindo em nossa direção. Preciso pensar rápido. Como eu separo essas duas? Olhei em volta procurando alguma coisa que pudesse me ajudar, e avistei uma mangueira. Isso deve servir. Larguei Alysson, liguei a mangueira e molhei as meninas. Vou morrer depois de fazer isso? Provavelmente. Mas o mais importante agora é poupar a Alysson de outro escândalo.
Elas me olharam furiosas. Estremeci com o olhar, mas pelo menos elas se separaram. Levantaram-se lentamente. Paris observou indignada o estado em que eu a deixei. Alysson por sua vez, não se importou tanto assim. Apenas bufou e foi para a sua cabana.
– O que deu em você? — ela gritou.
– Foi o único jeito de separar vocês. — dei de ombros.
– Olha a minha roupa, meu cabelo… Aarrgh! — rosnou e entrou na cabana. Só que eu ainda não acabei. Vou acabar com essa história com a Paris de uma vez por todas. Já está passando dos limites.
– Paris. — chamei já dentro da cabana. Ela saiu da porta de seu quarto e se juntou a mim na sala, ainda com as roupas molhadas. — Que papo era aquele de “fica longe dele”? — ela ficou desconcertada por um tempo, mas logo disse:
– Nada com o que você deva se importar.
– Acho que eu tenho que me importar com assuntos que me envolvam.
– Quem disse que…
– Eu ouvi a discussão toda. — a interrompi. Tudo bem, talvez não tenha escutado toda, mas ela não precisa saber disso.
– Bom, nesse caso…
– Você está ficando maluca?! Quando foi que você recebeu o direito de afastar as garotas de mim? — ela abriu a boca pra responder, mas eu continuei — Você não é a minha dona, Paris. Nós não temos nada, nem vamos ter. Vê se me deixa em paz.
– Scott… — disse com uma voz meio falha.
– Não. Sem essa de “Scott”. Minha paciência com você já acabou faz tempo. — minha voz está alterada. Respirei fundo com a intenção de me acalmar. — Eu tenho tentado ser legal com você, mas dessa vez você passou dos limites. — dito isto, a deixei sozinha na sala e entrei no meu quarto.
Tudo bem, eu posso ter feito escândalo demais, mas eu não aguento mais nem olhar pra ela. Paris está insuportável há muito tempo, mas falar como se eu fosse propriedade dela… Isso já é demais. Não me prendo a ninguém exatamente por isso. Prevejo uma convivência terrível nessa cabana a partir de hoje. É, temos muitos e longos dias pela frente.
Amanhã as atividades valendo ponto voltam ao normal, mas até onde eu sei, teremos mais atividades e jogos de lazer. As atividades serão tranquilas de fazer. Paris nunca faz nada mesmo, a falta de comunicação não vai fazer diferença. Quanto a Alysson, eu não faço ideia do que ela está pensando agora, não sei como ela se sente em relação ao que a Paris disse sobre mim, e não estou disposto a perguntar. Pelo menos não agora, porque provavelmente acabaríamos brigando,e não estou com cabeça pra mais uma briga. Chega de briga por enquanto.
Saí do quarto alguns minutos depois, tomei um banho e me joguei na cama, com a cabeça latejando de dor.
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