— Negan, mandou chama-la. — Simon falou assim que abri a porta.

— A essa hora? — Resmunguei esfregando os olhos.

Era madrugada, ate onde eu sabia ele tinha saído para fazer uma emboscada para um novo grupo que havia desafiado ele, matando alguns dos Salvadores.

— Sim. — Bufei e sai pelo corredor.

Não me importei com a roupa que estava vestindo, ou melhor, a falta dela. Meu pijama era basicamente uma camiseta que ia ate a coxa.

Entrei na sala de Negan encontrando ele, seus homens e um novo prisioneiro.

— Preciso que tire a bala dele. — Negan falou.

— Você tem médicos a disposição. Tinha que ser logo eu a ser chamada? — Resmunguei antes de me aproximar do homem.

Rasguei sua camisa e comecei a tratar da ferida. Quando finalmente havia acabado encarei o homem. Ele estava sujo, arrebentado. Mas havia mais. Uma tristeza profunda, um desespero. Uma culpa.

— Leve-o. — Ele mandou e logo o homem foi retirado.

— Então como foi? — Perguntei vendo o taco de baseball com arame todo sujo de sangue e restos mortais de alguém.

— Eles quase se mijaram. — Gargalhou. — Tive que ameaçar o garoto. Ele e esse dai foram os únicos que me encararam de frente, o garoto tem jeito de quem vai ser bom quando crescer. — Sorriu abertamente. — Esse daí me socou, acredita? Muita coragem. Seu amiguinho pagou, ele pagaria de qualquer forma. — Deu de ombros. — Quero ver ate onde vai a coragem desse.

Meu pai estava enganado. Pelas historias que ouvi ate agora, ele nunca dobraria esse ou qualquer outro desse grupo. Eles eram diferentes. E diferente é bom. É tudo o que precisamos.

— Ótimo. Agora vou voltar a dormir. — Bocejei.

Retornei para o quarto passando pelos corredores, ouvi a musica irritante em que os prisioneiros eram torturados.

Lavei as mãos e tirei a camiseta suja de sangue a jogando no cesto da roupa suja, voltei para o quarto só de calcinha mesmo e fui dormir.

Acordei me sentindo mais animada. Queria saber mais do prisioneiro. Estava curiosa com esse grupo novo.

Vesti um body verde claro frente única com detalhe de em v no decote, short jeans e sapato meia pata preto. Penteei os cabelos depois os parti ao meio, puxei um lado e amarrei no alto, depois puxei o outro e amarrei tambem, formando chuquinhas. Meus cabelos eram loiros claros e nas pontas eram coloridas, de um lado vermelho, do outro azul.

Nunca fui uma garota que seguia as regras, vivia na base da adrenalina, corria de carro, lutava em lutas clandestinas, apostava dinheiro em jogos de pôquer. Ganhava meu dinheiro, mas não de forma honesta. Nunca roubei, mas seduzi algumas pessoas e acabei ganhando muitas coisas.

Não me orgulhava, mas vivi uma vida em que não ligava muito para nada. Meu pai treinava o time de baseball ao qual eu participei. Mas ele traia a minha mãe e ela amava ele. Não entendia isso. Achava que era loucura. Amar um idiota como ele. Ela era boa. Queria ter puxado metade do que ela foi, mas não. Puxei o meu pai.

Lucille teve câncer e morreu quando o apocalipse começou. Tive que finaliza-la por meu pai não teve coragem. E desde então seguimos juntos. Vi ele se tornar o Negan, líder dos Salvadores. Não o reconhecia mais. E muitas vezes o enojava. Tinha nojo de tudo que ele fazia. Uma vez tentei fugir, mas seus homens me encontraram. Fui mantida naquela cela com a maldita musica por 2 dias.

Foi o inferno. Então aprendi a atuar, ja mentia muito bem, usei isso ao meu favor. Apoiei meu pai em todas as loucuras dele e por baixo dos panos ajudava as pessoas como podia. Ele não desconfiava de mim, achava que eu tinha enlouquecido com a musica.

Tomei meu café descansada, meu pai passou e beijou meus cabelos antes de se afastar. Depois fui ate as celas para encontrar três salvadores espancando o prisioneiro.

— Me diga seu nome. — Negan mandou esperando que ele dissesse "Negan".

— Daryl. — Ele respondeu firme.

— Hey. — Falei. — Costurei ele de madrugada. Se os pontos abrirem, vou fazer pontos em vocês. — Resmunguei furiosa e Negan riu.

— Eles só estão dando uma lição nele que se recusa a aceitar ser um Salvador. — Negan sorriu. — Não se preocupe, filhota. Vamos cuidar dele direitinho.

Retornei ao quarto, andei de um lado para o outro. Eu tinha que planejar algo rápido. Rápido mesmo.

Ele nunca seria um Negan. Nunca se rebaixaria a isso como todos os outros fizeram. Poderia tortura-lo de todas as formas, ate mesmo marca-lo. Ele não aceitaria. Eu invejava isso. E gostava.

Era de alguém assim que eu precisava.

Estalei os dedos e sorri. Voltei ao corredor. Era hora do show.

Encontrei Negan na sua sala conversando com alguns salvadores.

— Papai. — Falei seguindo ate ele e sentando em seu colo. — Estou tão entediada.

— Então saia para se divertir. — Sorriu.

— Estou pensando em algo diferente. — Sorri abertamente. — Quero o prisioneiro.

— Quer... Por que iria quere-lo? Você pode escolher o homem que quiser.

— Não quero para isso. — Fiz careta.

— Hey, ele é meu prisioneiro. — Dwight falou e eu o fuzilei com olhar.

— Cale a boca, cachorro. Você não manda em nada, ok? Não tem nem o direito de abrir a boca. — Negan riu.

— Essa é minha garota. Pode ficar com ele, princesa. Mas não de folga. Eu ainda quero ele como um Salvador. — Sorri o abraçando.

— Obrigada papai. — Bati palmas e levantei. — Leve-o ate meu quarto. Preciso de alguém para mudar os moveis. — Menti.

Sai da sala e fui ate a cozinha, peguei alguns sanduiches e suco e levei para o quarto, depois consegui algumas roupas.

Retornei ao quarto, agarrei um livro da estante, me deitei na cama e tirei os sapatos.

Dwight largou Daryl dentro do meu quarto e fechou a porta, ele me encarou abertamente, sua expressão mau humorada.

— Não vou ser seu escravo sexual. — Ele resmungou parado a porta.

Sorri abertamente o encarando. Ele estava sujo e todo machucado. Bem machucado. Tinha levado uma boa surra. Mas eu via um brilho ali. Um brilho indomável. Ninguém poderia doma-lo. Ele seguia Rick por escolha dele e nunca seguiria Negan.

E é por isso que eu precisava dele no meu lado.

— Não sou como meu pai que força as pessoas a casar com ele para ter relações. — Sorri. — Não preciso forçar ninguém. É só estalar os dedos que aparece uma fila. Ser filha do Negan tem seu lado bom. — Debochei. — E eu tenho quem eu quiser. E no momento não quero você desse jeito. Quando eu quiser, você vai saber. — Levantei agarrando a sacola em cima da cama e jogando para ele. — Agora. Va se limpar.

Ele agarrou a sacola e observou as roupas depois me encarou as jogando no chão.

— Não quero. Não vou ser brinquedinho de nenhuma patricinha idiota.

— Não sou patricinha, Dixon. Agora vá tomar banho. Você esta fedendo. — Ele ficou me encarado. — Quer voltar para aquela porcaria de lugar e escutar aquela musica infernal?

Ele ficou me encarando e eu retribui o olhar. Não desistiria.

Por fim agarrou a sacola e entrou no banheiro. Fiquei esperando ele sair. Quando finalmente saiu disfarcei a surpresa. Ele era bonito. Muito. E gostoso. As roupas ficaram boas nele.

— Venha comer. — Apontei para os sanduiches em cima da cama.

— Por que esta fazendo isso?

— Isso?

— Sendo boazinha. Não vou cair nessa sua farsa. — Sorri.

— Você quer que eu seja má? — Passei a língua nos dentes o observando. — Posso repensar sobre não querer você daquele jeito. — Observei seu corpo. — Posso amarra-lo a cama e molesta-lo. Garanto que mesmo assim vai achar que eu sou boazinha.

Ele ficou me encarando. Fiquei seria.

— Venha comer, Daryl.

Daryl ficou um tempo me encarando depois veio comer, sentou na cama o mais afastado de mim possível e pegou um sanduiche.

Dobrei minhas pernas e apoiei o livro nas pernas para voltar a ler, ignorando ele e seu olhar.

Quando terminou de comer o mandei trocar os moveis de lugar sem dar muita importância para que lado ele colocava.

A tarde o levei para trabalhar com os outros, ele não tinha medo, nem fazia corpo mole. O que eu o mandava fazer, ele fazia. Retornei ao quarto o deixando com os outros salvadores. Sabia que ele voltaria a apanhar e seria tratado mal. Mas não podia intervir por ele.

— Você quer um empregado? — Negan perguntou observando o quarto. — Você poderia ter qualquer um. — Sorriu.

— Sim, mas eu quero ele. — O encarei e sorri. — Temos isso em comum, querer o que não é nosso. Ele não tem medo de fazer as coisas, a besta do Dwight era dele não é? — Negan assentiu. — Um besteiro. Deve ser caçador. Isso é bom. Faz semanas que quero sair para caçar.

— Você sabe que não precisa caçar, tem o que quiser comer aqui.

— Não chocolate. E estou cansada de ficar aqui dentro pai, a ultima vez que visitei as comunidades foi há semanas, talvez meses.

— Não sei por que gosta tanto de visita-los, são lixo.

— Lixo que colocam comida na nossa mesa.

— E você me faz ficar muito mole com eles. — Sorri.

— Temos todos na palma da mão. Só falta Alexandria.

— Vou visita-los antes do prazo. E você vai ir junto.

— Ótimo. Leve o Dixon junto. Só para mostrar que ele esta vivo, mas acabado. Isso faz as pessoas pensarem melhor. — Pisquei e ele riu.

— Diabólica como o pai. — E fechou a porta me deixando sozinha.

As vezes fingir ser o que não era cansava, tinha fortes dores de cabeça diariamente. E muitas vezes me perguntava se eu realmente era diferente dele. Eu tentava ao máximo ajudar as pessoas, Jesus e Ezequiel tinham a minha ajuda, mas ainda assim, era pouco.

Não os deixavam a salvo do ódio de Negan. Nem mesmo eu estava a salvo.