A filha de Euterpe
1 Paris, 1998
Notas iniciais
Espero realmente que você goste do que irá ler logo abaixo.
A noite era úmida em Montmartre, especialmente pela região ser localizada no alto de uma colina que oferecia aos amantes mais apaixonados uma bela vista da cidade de Pais porém Robert não era um homem apaixonado.
As ruelas charmosas e arborizadas eram preenchidas por homens e mulheres das mais variadas funções ; os cabarés e café fervilhavam toda madrugada. ''A noite é uma criança'', ele pensava toda noite que fugiu do internato de Música e ia tocar seu violino em bares charmosos ou em cabarés modesto.
Várias moças já haviam caído em sua conversa de artista boêmia e o rapaz já era conhecido por sua lábia e incontestáveis talento para música. Seu violino e ele mesmo eram os únicas coisas que Robert amava.
Era o caçula de uma família rica e mesmo que esse fato não fosse dito pelo mesmo, era logo percebido pelos trajes finos que usava e pelo porte elegante e esbelto. Um rapazola de 20 anos muito alourado com olhos verdes-esmeralda e um fino bigodinho.
O rapaz seguia seu caminho em direção ao Moulin Rouge afim de tocar, conseguir o favor de alguma rapariga e tomar o bom vinho quando avistou a cena em Le Mur des Je t’Aimeque que mudaria sua vida dali pra frente.
Lá estava uma jovem muito delgada, aparada com as costas no muro, com longos cabelos prateados que tocavam o chão e enfeitados com uma coroa de flores azuis que tocava a canção mais linda que já ouviu que ia a frente e bailava os passos da esquerda pra direita de maneira tão fluída que parecia que mal pesava.
A canção parou quando os passos da estranha donzela pararam bem perto do homem que ficou embasbacado com tamanha beleza: as faces da donzela eram divinas e ele não poderia explicar direito a razão de tê-la tomado a mão e sorrido. Precisava levar aquela donzela a cama o mais rápido possível.
Enquanto martelava o jeito mais galanteador de se referir a ela, a mesma andava de volta para o muro e lhe dava as costas.
— Você gostou da minha música? — A voz mais melodiosa possível era dela e ele a acompanhou meio enfeitiçado.
— Por favor, eu preciso saber seu nome.
No meio do caminho ela parou e virou em direção do rapaz, o que foi fulminante porque naquele momento ele soube que estava apaixonado. Uma sensação tão fulminante que ele se ajoelhou embasbacado.
A moça apenas riu e levou a flauta de volta aos lábios e recomeçou a música que parecia ter um efeito hipnótico porque o coração do jovem acalmou-se e ele sentiu-se flutuar com aqueles sons divinos.
Ele não soube quando tempo ficou ali de joelhos mas quando a música terminou, ela estava nua na sua frente com os braços abertos.
Nunca soube como pode fazer amor no chão com aquela donzela e não se sentir envergonhado, mesmo que estivesse numa madrugada e o local vazio.
E ele soube que aquela não era uma donzela humana mas sim a própria música personificada.
— Você sabe quem sou. — Ela falou quando a aurora rompeu e a moça ainda permanecia deitada em seus braços.
— Uma deusa.
— Uma Musa, seu bobinho. — Falou como se estivesse dialogando com uma criança, fez beicinho e beijou-lhe os lábios.
Quando acordou, já era manhã real e se não fosse a coroa da Musa deixada sobre seu violino juraria que tudo aquilo não passou de um sonho.
Após esse encontro, Robert nunca mais foi galanteador ou boêmia mas sim, um rapaz dedicado ao estudo da música e melancólico demais porque ele esperava que um dia reencontraria sua amada, Euterpe e isso não demorou muito.
Em exatamente nove luas, a musa lhe esperava no seu quarto de conservatório trazendo consigo uma cesta.
— Minha Senhora. — Ele só pode se ajoelhar no momento que a viu, trajava o mesmo vestido verde longo e tinha os olhos num roxo brilhante.
— Meu querido... — Ela falou num tom suplicante tirando a cesta do colo e pondo sobre a cama, o conteúdo da cena guinchou num choro de bebê.
Ele foi até seu encontro e ajoelhou-se mais uma vez porque a paixão que sentia voltou com todas as forças e essa sensação lhe quebrava todas as forças.
— Minha Musa.
—Meu amado. — Beijou-lhe os lábios num gesto muito trêmulo e logo tirou o recém-nascido da cesta, era um bebê menina e estava nua.- Nossa.
O rapaz segurou o bebê que tinha os olhos com cores diferentes, penugem pálida igual a mãe e rosado.
— É um adeus, não é? — Lágrimas já botavam dos olhos esverdeados do homem quando falou tal frase.
A Musa apenas assentiu, tocou o topo da cabeça do bebê e beijou os lábios do homem.
—Adeus.
E como um sopro se desfez como um sonho translúcido deixando o homem em lágrimas e a recém-nascida sozinhos no quarto.
Fale com o autor