A filha da Noite
2 Mundo desabado
—Ela… é uma hárpia…— Falei lentamente. Não conseguia acreditar naquilo. E ao mesmo tempo conseguia. Contraditório, não?
—Cuidado, Sophie. Nomes tem poderes, você não pode sair por aí falando eles.— Falou o garoto do martelo. Eu não sabia exatamente como tudo estava acontecendo… o martelo dele estava… pegando fogo mas não derretia. A hárpia estava se levantando e ele retornou a posição de combate. Joelhos levemente flexionados, a perna direita pouco mais atrás que a esquerda. O martelo ainda pegava fogo, mas não parecia queimar o garoto. Ele avançou contra a nossa inimiga antes mesmo que ela pudesse raciocinar e golpeou sua lateral, ela voou antes de ser atingida novamente. Estava ficando esperta. “Como ele vai conseguir? Aquele martelo parece pesado. Aquilo é bronze, com certeza.” pensei. Queria fazer algo para ajudar, mas não via como, ou porque. Minha cabeça ainda estava muito confusa, mas não conseguia tirar meus olhos da ação a minha frente. Ele se movimentava rápido, parecia andar em zigue-zague, fazendo a hárpia errar cada golpe contra ele. Ele apareceu atrás dela, girou o martelo e com uma parte negra desferiu um golpe certeiro nas costas dela. Então ele levantou o martelo e pensei “Ele irá agir como o Thor e irá aparecer vários raios e…” meu raciocínio foi cortado quando o martelo tomou forma de uma espada de bronze com uma ponta esbranquiçada, cerca de 45 cm, com cabo de couro vermelho que ele cravou nas costas da hárpia, atravessando e fazendo-a tornar-se… areia. Ao menos eu achei que fosse areia. Como a minha mente vagou em parte da ação, não soube dizer com exatidão o que houve ali a não ser por esses poucos detalhes. Então ele, ainda arfando, olhou pra mim. Seus olhos brilhavam de um tom surpreendente de mel com canela.
—Sophie…
—Como você fez aquilo? O seu martelo ele.. ele… virou uma espada? Porque ela virou areia? O que é você? Como sabe o meu nome e porque seu martelo virou um chaveiro?— Falei. Ele deu um passo em minha direção. _ Não! Não se aproxime! Não…— Corri. Corri em direção a minha casa ouvindo ele chamar o meu nome. Aquele rapaz desconhecido que me protegeu e agora vim me dar conta de não ter agradecido, que ingrata eu era. Corri com toda a força que tinhas nas pernas. Eu precisava chegar em casa. Precisava ver o meu pai. Precisava do seu abraço. Ele era a única coisa real no meio de tudo isso… eu não podia estar louca. Ainda ouvia a voz do desconhecido, ele não poderia estar tão perto. Eu corria rápido; as nuvens estavam ficando escura, ameaçando chover. Dobrei a esquina e meu corpo paralisou de pânico. Apenas uma palavra vinha em minha mente. “Não, não, não… não.. !” Meu corpo parecia levar um choque de eletricidade e eu corri ainda mais determinada. A nossa casa estava pegando fogo, meu pai estava lá. Ele só sairia amanhã… mas meu coração tinha esperança que ele tivesse ido comprar qualquer coisa é ainda estivesse vivo mas assim que cheguei perto do fogo, eu perdi as esperanças. A casa havia literalmente caído. Não havia mais aquela construção onde cresci, apenas pilhas de madeira pegando fogo. Cai de joelhos, tomada por um aperto, uma dor forte em meu peito. Meu pai era a única família que eu tinha e acabei de perder tudo. Milagrosamente, uma carta materializou em minhas mãos caídas no colo.
— Para Sophie… _ que diabos estava acontecendo? A carta apareceu na sua mão e mesmo com tudo aquilo soando misterioso e mágico demais, rompi o lacre de cera e comecei a ler a carta.
“ Querida Sophie, boa noite.
Bem, não está sendo muito boa, eu devo admitir, mas tenho uma boa notícia. Seu pai está vivo.
Não posso enviá-lo para você... porque... ele se tornou uma estrela, podemos assim dizer. O amava muito e gostaria que ele permanecesse ao meu lado. Você deve estar pensando “Mas o quê?” e isso me faz sorrir. Responderei suas perguntas uma a uma, com calma e com o tempo. Por hora você precisa ser forte e seguir Eric até o acampamento de verão.
Você precisa ir, Sophie, pois corre muito perigo e certamente nós, eu e seu pai, não queremos perder você.
Sei que você nunca me viu, mas sempre a visitei. Em seus sonhos, na sua escola, quando você era uma bebê... embalei você nos braços quando chorava desesperadamente. Lhe reclamarei assim que chegar ao acampamento. Por hora, limpe suas lágrimas, levante-se e peça desculpas ao Eric e vá seguir sua viagem. Conversaremos mais. Explicarei tudo.
E antes que você abra a boca para perguntar o que aconteceu agora, lhe adiantarei a resposta de sua possível primeira pergunta: O que você é.
Você é uma semideusa.
Filha de um mortal com uma deusa.
Isso lhe explica muita coisa, não? Lembre-se de suas aulas de mitologia, as histórias contadas por seu pai e suas experiências quando criança. Venha me ver.
Eu te dou força, minha filha.
Filha da noite.
Espero que goste do presente. Com amor, mesmo que custe acreditar,
Mamãe.”
Mamãe? Mamãe? Não, definitivamente eu estava louca. Ou não pertencia a esse mundo, ou... Parei para pensar. Algo dentro de mim pareceu despertar e aceitar essa ideia com facilidade, embora minha mente estivesse resistindo. Quando eu era menor, parecia ouvir as corujas, gostava da noite, lia muitas histórias de mitologia porque meu pai disse que seria essencial. Aconteceram muitas coisas estranhas e perigosas, mas aparentemente não me machucava seriamente. Eu realmente era uma semideusa. E o presente que a minha mãe me deu era um pingente em formato de estrela. Quando toquei o pingente, ele se transformou em uma espada prateada, com um brilho tênue. Como se a luz da lua estivesse refletindo na espada, mas na verdade emanava dela. "Como faço pra isso voltar a ser um pingente?" Mas foi só em pensar no pingente que a espada retornou ao formato do meu presente.
Tomei a minha decisão.
Levantei do chão em frente a minha antiga casa, agora incendiada. Virei para trás pois sabia que ele estaria ali. E lá estava ele, encostado em uma parede, me olhando com cara de preocupada. Mas, embora por fora eu estivesse acabada... Sentia fogo em meus olhos. E vi a compreensão e o sorriso de canto dele.
Eu era uma nova Sophie.
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