A festa do pijama
1 A noite das garotas
Os preparativos estavam prontos; havia chá, lanchinhos variados, tudo do bom e do melhor, visto que quem havia organizado tudo fora Yaoyorozu.
A moça penteava os cabelos longos, que quando soltos chegavam à cintura. Separava mecha por mecha, escovando-os com delicadeza e precisão, desembaraçando os fios. Sentada sobre a cama enquanto os pés balançavam no ar. Agora estava a espera de suas amigas de classe, as meninas da 1A.
Todas sabiam o horário marcado, por fim, encontraram-se à porta da casa dos Yaoyorozu, tocando a campainha enquanto esperavam ansiosas pela recepção calorosa de Momo. Demorou um pouco mais do que esperavam, ou a ansiedade que faz o tempo passar de modo diferente para quem atendia a porta, e para quem esperava a recepção.
O sorriso fora de fato caloroso, os cílios encontravam-se quando ela sorria demais, os olhos semifechados passavam à Momo uma aura leve, serena e extremamente amigável.
Mina fora a primeira a entrar, tal como se fosse a dona daquela extravagante casa. Nos ombros a mochila em rosa neon semi transparente que deixava ver que carregava ali mais que seu pijama. Foi seguida timidamente por Asui Tsuyu, que lhe segurava a mão. Momo mantinha a porta aberta, recostada nela enquanto as amigas entraram uma a uma, por último, Uraraka que havia, novamente, se deslumbrado com o tamanho da porta, com o jardim que dava à casa, com absolutamente tudo.
Yaoyorozu notava o brilho distinto naquele olhar deslumbrado, a boca semiaberta como se o impacto fosse maior que o suportável pelo corpo pequeno. As mãos delicadas que colocavam as mechas de cabelo atrás da orelha; completamente em transe.
— Uau, Momo! Isso aqui parece ainda maior do que da última vez que vim aqui. — O tom era mesclado entre uma exclamação alta no “uau”, e o restante seguindo a linha de uma confidência.
Yaoyorozu apenas sorriu, aquele risinho levemente agudo enquanto tapava a boca com a mão em punho, movendo a outra no ar, em sinal para que Ochako não dissesse mais nada.
— Vamos meninas! Temos tudo organizado no meu quarto para uma festa do pijama inesquecível — comentou subindo as escadas, sendo seguida de perto, dessa vez a primeira a encabeçar a fila era Ochako, seguida por Jirou, Mina e Asui. O grupo não estava completo, faltava uma, esta que, de fato, não só não estava visível, simplesmente não pudera ir.
No quarto o deslumbramento foi total, não só de Uraraka, mas de Mina que se jogou na cama enquanto exclamava o quão macia era, Asui olhava o amplo espaço, Jirou comentava o quanto a acústica ali era boa, obviamente previa algum ensaio ali, não sabia do quê, mas conseguia imaginar. E Ochako sentia-se pobre. Sem mais. Apenas constatava como havia diferença entre ela e sua amiga de classe.
— Você pensou em tudo mesmo, ein, Momo! — Mina aproximou-se da mesinha com as guloseimas, doces e chás eram vistos sem esforço a adornar a mesa caprichada. — Vou ficar enorme de gorda assim!
— É só não comer tudo. — Jirou comentou enquanto rolava os olhos, sentando na cama e tirando a mochila do ombro. Não havia diferença nenhuma entre sua roupa habitual e a de dormir, claro, para dormir não usava couro, então jaquetas eram cortadas do visual, mas preto? Estampa de bandas? Exatamente iguais!
— Poderia ter falado que eu ficaria linda, mesmo gordinha! — Mina parecia mesmo magoada, Jirou não notou, Tsuyu sim. Com seus sons bem parecidos com os de sapo à beira da lagoa, aproximou-se de Mina, sorrindo tímida e dizendo exatamente o que ela queria ouvir.
Num curto espaço de tempo, quase ínfimo, nada mais era ouvido, que não a troca de roupas. Cada qual em seu espaço imaginário, que demarcava o limite de intimidade, trocaram-se quase de costas umas para as outras, não que houvesse ali o que mostrar ou esconder, visto que o máximo de nudez era ficar de peça íntima.
Momo não precisou se trocar, estava pronta, cabelos penteados e hidratante caro em dia!
— Momo, que cheiro é esse?! — Ochako notou, talvez pela proximidade entre elas, tendo sido a primeira a se aprontar com o pijama simples de calça de moletom de estampa de bichinhos e uma regatinha lisa num tom de rosa clarinho. Os cabelos soltos, o cumprimento impedindo que fossem presos facilmente, que não as mechas mais longas que colocava atrás da orelha, como agora.
— Hm?! Que cheiro? — perguntou enquanto pegava os cabelos e cheirava-os, erguendo o braço logo depois para cheirar a essência do hidratante, levando para que Ochako cheirasse também.
— É gostoso, é docinho. — Ochako comentou segurando o braço de Yaoyorozu com ambas as mãos, como se temesse qualquer afastamento.
Não tardou para que o novo aroma em Momo atraísse a atenção das demais colegas de classe que estavam ali para uma noite das meninas, de uma em uma, todas cheiraram o braço de Momo, deixando-a a um passo de se sentir constrangida. Curiosamente havia se sentido quente, mas isso fora quando Ochako a tocou.
Curtiram o chá, haviam colchões macios espalhados por todo o quarto de Momo, dormiriam juntas para que fizessem o que garotas faziam, conversassem até altas horas, aproveitado o final de semana livre, fariam tratamentos faciais, as unhas, ou o que mais chamasse a atenção do grupo, que no fim optou por filme clichê onde o mocinho se apaixona pela mocinha e nada mais são que quase grandes inimigos declarados.
— Beijar parece tão fácil. — Mina se prontificou, ajoelhando-se no colchão macio, zoneando o lençol que o cobria. — É só abrir a boca e… — olhou para a tela, tentava identificar o que vinha a seguir, logo depois do abrir a boca. — esfregar a língua na da outra pessoa. — A careta fora iminente, não teria como não fazê-la depois da constatação a qual chegou sozinha.
Um ou outro “ew” fora ouvido, Jirou fazia careta e parecia arrepiada. Asui olhava para a língua, esticando-a parcialmente para que ficasse visível facilmente.
— Você vai precisar tomar cuidado ou vai acabar tendo mais língua sua do que da outra pessoa na boca durante o beijo. — Mina comentou olhando para Asui e sua língua esticada.
Não tardou para que um travesseiro voasse em sua direção, Jirou mirou com precisão, acertando em cheio o rosto de Mina.
— E você para não derreter ninguém durante o beijo.
Riram, Momo tapava a boca porque ria alto, Ochako estava vermelha feito um tomate, mas ria também. Divertiam-se mais naquela implicância do que durante o filme, ou a tentativa de passar cremes verdes no rosto a base de algas, Asui mais lambia do que passava.
— Deveríamos praticar.
— Hm?!
— É praticar! Como vamos saber como beijar, se nós nunca beijamos? — Para Mina, tudo aquilo parecia óbvio. Deveriam praticar, oras!
— E você quer o quê, frutas? — Jirou comentou, um tanto mais interessado no rumo do assunto. Ochako estava vermelha que só, tímida enquanto abraçava o corpo. Momo não estava muito longe no quesito vergonha.
— Bocas! Temos cinco bem aqui. Se organizar direitinho, todo mundo beija!
Poderiam jurar ter ouvido um “kero~”, baixinho, quase envergonhado. Tsuyu estava atenta, os orbes pareciam seguir o rosto de cada uma das meninas ali naquele quarto. A música dos créditos do filme embalava o momento, e num rompante de coragem, Jirou ajoelhou-se no colchão e selou os lábios aos de Mina. Um singelo selar, não havia língua em desatino para fora da boca, era singelo, quase casto.
Mina não tardou à, quando desvencilhada dos lábios de Jirou, a tocar o rosto de Tsuyu e beijá-la logo em seguida, da mesma forma como fora beijada há pouco. Os olhos fechados, os lábios prensados aos da amiga, perdendo a cena de Jirou fazendo o mesmo com Momo, deixando Uraraka como espectadora dos beijos, nervosa pensando que logo seria sua vez de ser beijada, isso, claro, se ela não recusasse aquela loucura.
Teria.
Deveria.
Era certo recusar aquele desatino em massa, mas queria. Cessou qualquer reserva quanto aquilo quando fora Momo quem se aproximou, tocando seu rosto e passando o polegar sobre sua bochecha enquanto os dedos seguiam para sua nuca, trazendo arrepio e um som surpreso aos lábios partidos.
Não foi mais que um selar, assim como os trocados pelas outras meninas que agora trocavam também risinhos como se tivessem pisado na lua, ou algo grandioso assim. Foi breve, mas para Uraraka foi o tempo perfeito. O calor dos lábios e sua maciez, o cheiro adocicado que exalava da pele de Momo, não deteve sequer a mão ao tocá-la na cintura, querendo que aquele selar virasse um verdadeiro beijo, igual aquele visto há pouco na tevê.
Quando afastaram-se não tinham espectadoras, não quando as meninas trocavam informações do que sentiram durante o beijinho. Momo e Ochako puderam apreciar o olhar uma da outra, gravar os detalhes enquanto ajeitavam os cabelos atrás da orelha, igualmente tímidas. Submersas numa experiência só delas, numa troca de duas pessoas que se sentiam iguais. O despertar do interesse, este por algo mais que só encostar os lábios.
— Vem cá, será que os meninos praticam entre eles também? — Mina questionou jogando-se de bruços no colchão, despertando uma nova onda de risadas entre as meninas, dando um pouco mais de privacidade às mãos que se tocavam suavemente enquanto Uraraka e Yaoyorozu sorriam cúmplices ao novo interesse. E no momento, definitivamente não era sobre o treino dos garotos, e sim sobre, quem sabe, mais alguns beijos entre elas.
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