A fada que o escreva

7 A sétima maldição


Notas iniciais
Olá, gostaria de agradecer muito aos comentários, fico muito feliz de ler cada um ♥ Tenham uma boa leitura!

Não pense mal de mim pelo que vou a dizer a seguir.

Ele era velho. E não que eu quisesse me gabar ou algo do tipo, mas eu já enfrentei uma vampira (possuída), lidar com aquele médico seria fácil.

Dante concordou em ficar nos esperando no primeiro andar, então segui o senhor pelas velhas escadas que rangiam e ameaçavam quebrar a cada passo. Minhas tosses já não eram mais nem encenadas, pois a quantidade de poeira ali era surreal.

Chegamos ao segundo andar composto por quatro camas de madeira separadas por cortinas e arrepiei-me ao ver que os lençóis que algum dia foram brancos encontravam-se rasgados e manchados. Imaginei que Adão havia estado em alguma daquelas camas e torci para que não fosse a suja de sangue seco.

— Então, meu jovem, pode me dizer… – ele fechou a porta lentamente. – Por que você está com Poeira Ametista no rosto?

Arregalei os olhos e paralisei no lugar. Descoberto em menos de cinco minutos! Meu coração acelerou-se de desespero, contudo, meu cérebro ordenou que eu tivesse calma.

— Posso ser velho, mas não sou cego. – o senhor apontou para seus olhos. – E aquele também não é o seu tutor, é? O que dois forasteiros mentirosos fazem no meu consultório?

Recuei alguns passos e rangi os dentes. Queria fechar os olhos e reestabelecer minha respiração, todavia, senti que a menor piscada podia ser fatal.

— Não é o que você está pensando. – engoli em seco.

Ele estava bloqueando a porta. Meus olhos passearam de soslaio, encontrando uma janela aberta a pouco menos de dois ou três metros de mim.

— Pode não ser. Mas uma coisa eu digo: os que entram aqui, nunca mais saem os mesmos. – colocou os braços atrás das costas e assentiu. – Enrico, está acordado? – exclamou.

— Sim, Dr. Becker. – uma voz arrastada soou detrás de uma das cortinas.

— Esse não vai ser usado no experimento. Mande-o para o seu bordel. – o doutor ordenou.

Um grito esganiçado ficou preso em minha garganta e eu quase tropecei em meus próprios pés ao tentar me afastar ainda mais do velho. Cerrei os punhos e analisei novamente a sala.

— Outro garoto? – a cortina se abriu. – Estão faltando garotas.

Era magrelo e banguela. O mesmo homem que me ouviu falando mal de sua cidade, entretanto, ele não ia me reconhecer.

— Ei, eu vi você hoje cedo! – franziu o cenho e apontou para mim de modo acusador.

Aparentemente, Dante tinha razão em que rapazes de cabelo verde eram facilmente reconhecidos.

— É melhor se afastarem de mim. – me arrependi amargamente por não ter levado meu sobretudo. – Ou eu vou pular por aquela janela! – berrei tão alto que minhas próprias cordas vocais pediram socorro.

— Se quebrar algum osso, terá de ser tratado aqui. – Dr. Becker falou calmamente.

— Nem morto. – franzi as sobrancelhas.

Em uma súbita onda de coragem, corri em direção a janela e faltando poucos centímetros para alcançá-la, joguei-me pelo parapeito de olhos fechados. O vento bateu em meus cabelos e meu estômago embrulhou-se ao imaginar que cairia na dura calçada e não poderia fazer nada além de fugir com dor.

Porém, o que aconteceu foi diferente. Caí sobre algo macio e firme. Abri os olhos lentamente, percebendo que estava suspenso no ar a uma distância segura do chão.

Escutei o som de uma respiração e ao buscar sua fonte, avistei Dante de cabeça erguida, observando a janela de onde eu havia me jogado. Alguns podiam achar que o segundo andar nem era tão alto assim, mas olhando de baixo eu tive vontade de desmaiar.

— Espera, como conseguiu me segurar a tempo? – indaguei incrédulo, enfim reparando que estava sendo segurado pelos braços fortes do exorcista.

— A fadinha escreveu “eu vou pular por aquela janela”. Imaginei que só podia ser você. – Dante colocou-me no chão. – Agora corra com as próprias pernas.

E foi o que eu fiz. Corremos sem sequer olhar para trás e entramos feito um raio na pousada, sabendo que estaríamos escondidos por pouco tempo. Enquanto recolhíamos nossas coisas, contei a Dante sobre a conversa no segundo andar e ele me contou o que descobriu.

— A passagem para o subsolo fica sob o balcão. O móvel está gasto nos pés e a névoa se concentra lá.

— E como vamos entrar? Já sabem que somos mentirosos e os disfarces não vão funcionar. – vesti meu sobretudo e amarrei os cabelos. – Nosso destino nessa cidade é fazer parte de um experimento ou virar prostitutos.

Dante agarrou sua insígnia e analisou-a por um tempo com um semblante perdido.

— Existem dois tipos de névoa que servem para localização: a preta, que significa morte e a púrpura, que significa possessão. Acredito que exista outra passagem para o subsolo, uma fora da loja. Devo conseguir achá-la me guiando pela névoa, mas seria mais fácil se eu também conseguisse ouvir os murmúrios.

Desviei o olhar e soltei um pigarro de constrangimento. Eu sequer havia pensado em uma maneira de cumprir minha parte do trato. Não tinha dinheiro para pagar um médico excelente ou um mago excepcional.

— Temos pouco tempo para resolver isso e deixar a cidade. – falei temeroso. – Se pudesse ouvir, encontraria mais rápido?

Dante afirmou sério.

— Os murmúrios são diferentes dos burburinhos comuns da cidade.

— Então… – pressionei os lábios. – Tente me usar. Eu posso ouvir para você.

Assim que leu o que Sybelle escreveu, o rapaz arregalou os olhos e disparou:

— Ficou maluco?! Você não passou pelo treinamento de exorcista! Isso pode ser traumatizante para pessoas comuns!

Sybelle também ficou indignada. Gesticulou e esbravejou, tentando a todo custo me dizer que aquilo era loucura. Às vezes ela fazia o papel do Gaspar.

— Eu só preciso ouvir, não é? – fitei-o de maneira determinada. – O trabalho de exorcista ainda é seu, sabia? – dei um sorriso contido e encolhi os ombros.

Eu o deixei surpreso. Notei isso pelo jeito como suas sobrancelhas se ergueram e as palavras não saíram de sua boca entreaberta. Na verdade, até mesmo eu fiquei surpreso. Sempre tive um parafuso a menos, entretanto, não esperava que fosse aquela peça faltando que me desse tanta coragem.

Dante respirou fundo e caminhou até mim com suas botas pesadas afundando no piso de madeira. Tendo uma distância quase inexistente entre nós, o rapaz prendeu sua insígnia em meu sobretudo, causando uma breve sensação de frio em meu corpo.

— As insígnias dos exorcistas também servem como crucifixo. – balbuciou e colocou a mão sobre o meu peito. – Vai afastar os espíritos de você.

Balancei a cabeça em afirmação e a mantive levantada, não me deixaria abalar por um friozinho.

— Suichiro Whitlock, sob a mão de Dante Vulpecula, você recebe parte da sétima maldição do exorcismo: o fardo de ouvir as lamentações das almas que não aceitaram seu destino. Se concordar, deve pagar com sangue.

Não havia nada naquele quarto além do exorcista. Era impossível desviar os olhos de sua imagem ou pensar em qualquer outra coisa que não fossem suas palavras. Em meio ao transe, mordi meu lábio inferior fortemente e um pequeno fio vermelho escorreu desde minha boca até meu queixo.

— Temos um pacto. – Dante ditou e empurrou a mão em meu peito.

Tive a sensação de que meu coração atravessou minhas costas e que minhas costelas foram partidas uma a uma. O ar faltou em meus pulmões e o calor abandonou meu corpo, deixando tudo absurdamente gelado e cinza.

Algo espesso e quente ficou preso em minha garganta, então tossi para expulsar aquilo e acabei manchando de vermelho o sobretudo de Dante enquanto meu corpo assustadoramente fraco pendia em seu tórax. Ele não falava, contudo, eu conseguia ouvir coisas. Eram murmúrios, lamentações e sussurros. Cada um deles adentrando a minha cabeça e negando-se a sair.

— Está ouvindo? – Dante apoiou-me em seus braços e colocou-me de pé.

— S-Sim. – pressionei a cabeça entre as mãos e curvei-me.

Todas as pequenas vozes misturaram-se e transformaram-se em um furacão dentro de minha mente. Vozes. Vozes. Vozes. Não entendia nenhuma e talvez nem quisesse.

Completamente zonzo e sem o controle de meu corpo, arfei e fui pego por uma vontade de chorar. Soltei um grunhido de dor misturado a incredulidade e forcei-me a permanecer levantado, por mais que aquela tontura quisesse me jogar no chão.

— Podemos desfazer o pacto quando quiser. – ele tocou minhas costas, preocupado.

Afastei-me e agitei a cabeça em negação.

— V-Vamos achar a entrada primeiro. – rangi os dentes.

Dante torceu a boca, subiu seu capuz e me ajudou a colocar o quepe que eu guardava em minha maleta, já que não conseguia fazer nada além de me contorcer. Assim, deixamos a pousada tendo olhos nas costas e cultivando a maior cautela do mundo.

Eu não fazia ideia de que direção as vozes vinham, mas tinha certeza de que elas eram mais altas em algum ponto. Dante tratou de procurar por algum sinal de névoa, encontrando-a novamente na parte de trás do consultório.

Não deveríamos estar ali, era perigoso demais. Quando pensei em dizer isso a Dante, meus olhos se arregalaram e os braços caíram ao lado do corpo, completamente sem vida.

— Ali. – sussurrei encarando um casebre caindo aos pedaços na calçada oposta. – Os murmúrios mais altos vêm dali.

Dante assentiu determinado e puxou-me para o casebre, tendo todo o cuidado que não tive para olhar para os lados. A porta estava destrancada e mesmo que não estivesse, seria fácil derrubar aquele ninho de cupins.

Uma grossa camada de sujeira formava-se no chão, exceto sobre o alçapão próximo a uma das paredes. Os raios de sol invadiam o lugar pelas fendas das tábuas e iluminavam as partículas de poeira que flutuavam no ar.

— A névoa aqui é fraca. Em outras circunstâncias, imaginaria apenas que os donos morreram aqui e não que isso fosse uma passagem. – Dante abaixou-se e com um pouco de esforço ergueu o alçapão.

Meus ouvidos zuniram, obrigando-me a cobri-los e ranger os dentes. Aquelas vozes estavam desesperadas para serem ouvidas e eu desesperado para deixar de ouvi-las.

— Está na hora de me devolver a maldição. – o rapaz fez um gesto com a mão, chamando-me.

Engoli em seco e com dificuldades para me manter de pé, ajoelhei-me ao seu lado. Dante expirou, colocou a mão em meu peito outra vez e bradou em um tom que me fez estremecer:

— Nosso pacto está encerrado.

E empurrou-me, expulsando a energia ruim que me consumia e devolvendo o calor ao meu corpo. Meu coração voltou a bater normalmente e eu puxei todo o ar que pude para encher meus pulmões. Minhas costelas já não doíam mais e eu podia mexer-me com liberdade.

As vozes se cessaram, trazendo paz ao meu ser.

— Bem melhor. – suspirei aliviado e sentei-me sobre as pernas.

— Você se saiu bem. – Dante retomou sua insígnia. – Algumas pessoas costumam entrar em surto com essa maldição.

Deixei um resmungo de surpresa escapar e perguntei boquiaberto:

— Por que não me falou isso antes?

— Você não iria mudar de ideia, iria? – ele jogou seu corpo para dentro do alçapão, alcançando uma escada.

Sem uma resposta para dar, o segui e fechei o alçapão torcendo para que ele se abrisse quando voltássemos. Antes que a última fresta se extinguisse, espiei o interior do casebre, focando-me na porta pela qual passamos e balançando a cabeça negativamente para espantar o pensamento de que haviam nos seguido.

Ao saltar do último degrau, nos encontrávamos em um túnel de pedra que cheirava a mofo. Uma corrente de ar soprou em nossos rostos e o único som ouvido era o de pequenas patinhas passeando entre nossos pés.

Contive um arrepio e puxei um de meus colares de cristal para iluminar nosso caminho. Dante ia na frente passando uma das mãos pela parede e virando a cabeça ora ou outra.

Eu ainda estava um pouco tonto por causa da maldição e talvez tenha escutado um barulho acima de nossas cabeças. Ou talvez fosse minha imaginação.

Nossos passos nos levaram até um feixe de luz amarelada que escapava por debaixo de uma simples porta. Dante passou o braço por minhas costas e pressionou-me “delicadamente” (na medida em que alguém daquele tamanho podia ser delicado) contra a superfície de madeira.

— Ouça. – ordenou em um sussurro.

Encostei o ouvido e as mãos na porta. Nada. Absolutamente nada, sequer o som dos ratos caminhando. Afastei-me e fitei Dante e Sybelle (que não estava mais brava e sim séria), esperando por um comando.

— Se estiverem nos procurando lá em cima, esse lugar provavelmente está vazio. – ele ponderou. – Vamos entrar.

O rapaz franziu as sobrancelhas, suspirou pesadamente e agarrou a argola preta que era a maçaneta, abrindo-a devagar em um rangido tortuoso. Ao ter a visão do que a porta escondia, nossos corpos travaram e os olhos quase saltaram dos rostos.

Um círculo vermelho preenchido por símbolos estranhos estendia-a por todo o chão de pedra escura, rodeado por velas que queimavam e derramavam sua cera em frente a uma antiga mesa onde repousavam alguns livros e pergaminhos chamuscados.

Aquele lugar cheirava a podridão.

— É aqui. – Dante assentiu.

Notas finais
O que significa esse lugar que eles acharam? Vamos conferir semana que vem. Beijos. —Creeper.