A eterna guerra contra si mesmo.

6 Ter uma filosofia de vida é fácil, difícil é viver com ela


— Então, se você sair do curso de letras ainda será capaz de fazer um novo vestibular e ingressar na faculdade de direito e termina-la antes dos trinta. Tempo é algo para ser levado a sério, Eren. Embora você seja homem e, por Deus, é a cara de seu avô por isso vai ficar mais bonito enquanto envelhece.

Cacilda dava seu notório sermão em Eren no café da manhã. Era como um ritual do rapaz: levantava, ia ao banheiro, tomava banho colocava uma roupa, descia para comer alguma coisa e ouvir os “conselhos” de sua avó. O tema em geral era sobre o curso, Cacilda não conseguia aceitar ele ter escolhido algo com tão pouco prestígio como letras em vez de uma engenharia, direito ou medicina. Vez ou outra a idosa apelava para mulheres, dizendo que um “moço bonito” como Eren não podia continuar solteiro, e havia as filhas e netas de suas amigas mais próximas que já estavam na idade de namorar.

— Eren? Eren? Está me ouvindo!?

O garoto comia um pão de queijo enquanto rolava a time line no seu celular vendo memes.

— Estou vovó, estou te ouvindo.

— Então, você gosta de escrever e ler, a faculdade de direito seria perfeita. A época do vestibular está chegando...

Ele para de olhar o celular e encara a avó.

— Já estou no quarto período de uma universidade.

Cacilda leva uma mão ao rosto dando ênfase em seu desgosto. Eren estava acostumado com seu ensaio teatral apelando geralmente para alguma doença ou tentando enfatizar que ele um dia ainda iria matá-la de decepção. Assim desenvolveu uma habilidade passiva com maestria a qual se torna imune as maquinações da sexagenária. Ainda sim ele mantém o número da emergência em seu celular caso a doença de mentira se torne verdade e a velha tenha um treco.

Não é que o rapaz não gostava da progenitora de seu pai, amava Cacilda. Só não permitiria tomar uma decisão pelo bem de outra pessoa sacrificando a si mesmo. Parece egoísmo? Sim. Era de fato? Com certeza. Eren não se importava em ser egocêntrico desde que não fosse hipócrita. Para ele o mundo está encharcado de hipocrisia, as redes sociais potencializaram um mundo onde todos levantam a voz para berrar princípios e alegações lógicas e éticas, mas que na vida real não seguem.

Ter uma filosofia de vida é fácil, difícil é viver com ela. Ser probo é uma virtude e todo mundo AMA ser virtuoso, mas na realidade, quando finalmente chega o momento de mostrar tal qualidade a maioria pensa “ninguém vai ver” “ah todo mundo faz isso”. Ou buscam qualquer alegação pífia em suas mentes para justificar um ato corrupto.

Afinal é simples abdicar de uma oportunidade na vida em pró de do conceito abstrato da “virtude”? Não, não é.

Duas buzinadas soam, Eren se levanta dando um beijo na bochecha rugosa de sua avó se despedindo e ignorando tudo o que ela falava. Lá fora estava a carona dele para o campus: jeep renegade preto novinho que seu amigo havia comprado mês passado. Ao abrir a porta Gustavo imediatamente soltou:

— Meu livro vai virar uma série de tv!

Gustavo Henrique Baldo era o melhor amigo de Eren, se conheceram ainda no ensino fundamental e mantiveram um amizade estranha porque era baseada num garoto muito alegre e metido que compactuava com outro totalmente sem sal e com nenhum senso de orgulho. Ambos amavam ler e durante o ensino médio Gustavo escreveu um livro chamado “As mil maneiras de levar um fora” baseado em sua experiência de ser rejeitado por garotas de universidade.

Não era pejorativo dizer que Gustavo é metido, arrogante e até prepotente. Ele nasceu com um poderoso amor próprio, uma autoconfiança que o blindava de qualquer crítica ou depreciação. Eren nunca o viu triste, nunca o viu se lamentar por uma derrota – e foram muitas – e até gostava daquele jeito vívido de ser de Gustavo.

Provavelmente era o único que gostava, pois ser do jeito que era rendeu muitos problemas para Gustavo e o isolamento era um deles, tendo um único porto seguro em Eren que não se importava com as ameaças dos colegas, não ia parar de falar com Gustavo porque fulano ou sicrano não gosta dele. O amigo sempre ia atrás de mulheres um pouco mais velhas, muito bonitas para os padrões da sociedade e até ricas. Ele não gostava de garotas simplórias como suas colegas de classe.

O livro, surpreendentemente, recebeu muitos acessos na plataforma digital onde fora postado e em pouco tempo uma editora fechou um contrato com ele para publicar uma edição física. O sucesso foi estrondoso e com isso o dinheiro.

— Meus parabéns, não vou assistir. Seu livro é um lixo.

Gustavo riu.

— Uma verdadeira ovelha negra como você, meu amigo, dizendo isso é positivo! Afinal você é o oposto do sucesso e da fama.

Seguiram o caminho para a faculdade com Eren ouvindo um animado Gustavo contando todos os detalhes sobre os planos de produção. Os direitos estavam sendo disputados pela Amazon Prime e Netflix e com isso as cifras seriam exorbitantes.

Eren manteve a mesma cara de paisagem e escutou tudo pacientemente até chegarem ao campus, se despediu de Gustavo indo para a aula de português III do professor Reziel, ao terminar seguiu para a lanchonete onde comprou algo para comer e dois copos de café cheios.

Agora estava parado na frente de uma porta de pvc com uma folha de papel A4 grudada nela escrita: “Ao passar por essa porta ofereça um tributo ao deus que provém suas notas e conhecimento.” Com algum cuidado o rapaz conseguiu abrir sem derramar o café e imediatamente foi atingido pelo ar frio e pesado da salinha improvisada do professor Ezequiel. De tamanho retangular, o “ninho” do deus que provém as notas era uma bagunça com uma mesa abarrotada de papéis, canetas, marca textos, pincéis de quadro branco, latas de energéticos vazias. Do outro lado havia uma lousa de porte médio cheia de fórmulas matemáticas as quais Eren não fazia ideia do que significavam, na verdade poderia ser somente riscos que pra ele dava na mesma.

E de pé a frente dela, observando os números como Picasso observava um pintura estava Ezequiel, um homem de uns quarenta anos, magro, braços finos e uma pequena corcunda de tanto andar com a cabeça baixa digitando provas, corrigindo notas e fazendo cálculos.

— Eu sabia que viria até mim, filho. Soube que viria desde o momento em que acordou esta manhã.

Eren arfou.

— Sei, e o fato de eu vir quase todos os dias aqui não era suspeito para você saber que hoje seria igual. – ele ergueu os copos de café – aqui, trouxe combustível.

Ezequiel deu meia volta revelando a face cansada com olheiras e óculos fundo de garrafa com um cordão amarrado na armação. Deu dois pulinhos para se aproximar de Eren, pegou os copos bebendo o líquido preto com uma naturalidade como se bebesse água.

Esvaziou, amassou e jogou em qualquer canto junto com o restante do lixo acumulado no chão de sua salinha.

— Pois bem, já que aceitei seu tributo sou todo ouvidos.

— Não me misture com seus acadêmicos de termodinâmica e cálculo diferencial que vem aqui implorando alguns décimos na nota.

Ezequiel baixou os óculos fundo de garrafa para olhar diretamente para Eren.

— Ao menos implorarem por nota não é tão ilegal quanto as coisas que você me pede.

Eren limpa um canto da mesa jogando uma montanha de papel no chão. Ezequiel não se importava muito com ordem, também não ligava para as notas. Muitas vezes passava acadêmicos de período dependendo do próprio humor.

— Alterar o registro de presença do sistema da universidade é bem ruim.

— Só se for descoberto e você é um gênio, não é? – rebateu Eren – além do mais não estou pedindo para alterar minhas notas, só a presença que os professores lançam no sistema.

Ezequiel ajeita os óculos e cruza os braços.

— Por que não conta logo para sua avó que você arrumou um trabalho? Utilizar um curso integral e adulterar sua presença na universidade é muito dramático comparado ao escarcéu que ela vai fazer.

— Não é por isso. Vovó vai perguntar o motivo de eu ter arrumado trabalho e então vai tentar me subornar com dinheiro.

— E você quer dinheiro para poder ir embora com a mulher da tua vida. Que romântico.

Eren esboça um sorriso tímido.

— Vovó Cacilda vai ficar bem com Sabrina. Depois de muito tempo planejando está quase tudo pronto para eu e Amelíria ficarmos juntos.

Ezequiel balança a cabeça na negativa.

— Sabe, para alguém que sempre viveu sem esboçar muita emoção, alguém com uma passividade suprema como a sua organizar tudo isso por causa de uma mulher é muito contraditório.

Eren pensa em Amerília, pensa na primeira em que se encontraram, em como percebeu que ela era tudo o que mais ambicionou em seu curto período de existência.

— Ela vale a pena.

***

— Gostoso, não é?

Natasha perguntava sempre com um excelente humor e paciência enquanto incitava o homem a aproveitar mais a estadia na cafeteria gourmet no shopping aquela noite. O clima era agradável e o líquido espumante que saboreavam era dos deuses. Quando você aceita fazer parte do projeto de Egoinis, ele lhe dá acesso a uma quantia considerável de dinheiro para eventualidades e operações. Esta noite era uma delas, ainda que dividida em duas partes:

A primeira era ver como Alector reagia em público. No estado anterior era impensável levar o rapaz a um local desses sem uma medicação pesada, mas agora estava tudo bem. Ou quase, pois Alector mantinha uma postura cabisbaixa e bebericava o cappuccino com timidez sempre olhando para os lados atento a qualquer mínima movimentação.

— As vozes... – disse ele – as vozes dizem que não deveríamos estar aqui.

Natasha suspirou. O caso desse garoto era de longe o pior que já tinha visto, só perdendo talvez para o de Eren, pois mesmo com a investida de Egoinis alguns traços da perturbação da energia ruim ficaram nele... com uma diferença muito assustadora. O que Alector era capaz de fazer superava tudo o que ela já tinha visto.

— Certo, elas dizem. Mas agora você as comanda, não é? Você é a voz mais forte e mais alta.

Natasha entendia, todos que foram ajudados por Egoinis sabiam que havia uma eterna guerra contra si mesmo, sua cabeça produz pensamentos que causa prejuízo ao portador, quase como um botão de autodestruição e ainda que seja visível, as pessoas não conseguem não apertá-lo. É como se houvesse uma força maior dentro de cada ser incitando que se machucasse, que se afundasse... que se afogasse.

Por que isso acontecia? Por que alguém escolheria agonia e tristeza em vez da paz? Por que não era possível parar os pensamentos ruins que produzem ações ruins? O que impede cada ser humanos de ter a paz de ser?

Outras pessoas? Então se você fosse um único ser em uma ilha deserta viveria feliz? Não, pois o ser humano é uma criatura sociável. O isolamento total nunca foi uma opção válida para alguém.

— Sim. – disse Alector erguendo a cabeça – sei que é diferente agora, elas me ouvem, me respeitam... ainda sim eu as ouço porque sempre estiveram comigo. Só posso confiar nelas.

Natasha hesitou. Acontecia de vez em quando, Alector parecia enrijecer, ganhar uma naturalidade e confiança que vem daqueles que sabem que são fortes. Ela engoliu seco umedecendo os lábios.

— Pode confiar em nós também, em Egoinis. Ele te ajudou. Nos ajudou.

— Não Natasha, as vozes não confiam nele e eu também não. Porém, é verdade, sou grato ao Ego.

Alector ergue as duas mãos olhando para elas como se as tivesse ganhado a pouco tempo.

—Essa sensação... é indescritível.

— Que sensação?

— De estar vivo. – ele observa as pessoas passarem pelos corredores do shopping – a grande maioria está dormente, eles estão presos em suas cabeças usando a vida com charlatanismo e quando a morte vier, porque sempre virá, elas choram e sentem arrependimento por não terem vivido o bastante... – seu foco volta a Natasha – vou ajudar Egoinis por gratidão de ele ter me libertado de minha própria mente, mas não confio nele.

Natasha suou frio. Alector não era perigoso... só que uma vez libertado ele também não era controlável. Foi um erro trazê-lo esta noite. Mesmo assim não iria recuar, não hoje. Não depois do que Ego disse:

Investiguei um pouco sobre esse tal Eren que vocês querem tanto. E descobri um detalhe realmente fascinante e muito perigoso. Hoje à noite ele vai se encontrar com uma mulher chamada Liana, sigam os dois e observem. Observem muito bem... se em algum momento os dois parecerem ir se beijar impeçam a todo custo! Se Eren firmar uma união com Liana matem-no imediatamente!”

Eis a segunda parte do evento de hoje. Egoinis tinha sido direto e bem enérgico na ordem. Natasha não poderia falhar, ela não aceitaria falhar. Assim, enquanto bebia mais um gole do café seus olhos estavam focados do outro lado do corredor em um restaurante onde Eren se encontrava sentado à frente de uma mulher de longos cabelos azuis com cachos.

Notas finais
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