A eterna guerra contra si mesmo.

3 O sofrimento termina na aceitação.


Notas iniciais
Novamente perdão por possíveis erros de português.

“A Verdadeira Libertação” era uma nova religião que começou com vídeos no Youtube de seu criador mascarado onde o mesmo apenas expunha ponto de vista sobre as ideias que acreditava ser a verdade sobre o início do sofrimento das pessoas. Temas como depressão, ansiedade, isolamento, bulliyng, vaidade, falácia dos relacionamentos amorosos acabou tornando o canal com maior número de inscritos no país e o vigésimo no mundo. Com o tempo as pessoas começaram a doar dinheiro para o dono que se comprometeu a levar a “palavra” para o maior número de pessoas possível no mundo a fim de ajuda-las, afinal a religião serve exatamente a esse propósito “ guiar a humanidade”.

O templo erguido na capital dos Ventos foi financiado inteiramente por um único fiel que disse ter sido salvo pelo “líder” misterioso da Verdadeira Libertação. O prédio tinha capacidade de abrigar quinhentas pessoas e lembrava mais um auditório ou um teatro do que uma igreja. Na noite de sexta o “líder” tinha marcado presença para endossar algumas palavras e a lotação atingiu sua capacidade máxima.

Alguns críticos e céticos disseram que a “seita” Verdadeira Libertação era meramente um movimento fanático que ganhara adesão usando a fraqueza das pessoas, seu comandante sempre usava uma máscara branca somente com abertura para os olhos incitando a mente das pessoas a acreditarem que ele não era humano, mas um enviado de Deus, um anjo. Quando na verdade diziam que aquilo se tratava de um truque psicológico pois ao não se revelar a face criava um “ar” de mistério fazendo questionar a real humanidade do sujeito.

Esta noite, diante de um público presente e vidrado o líder ia de um lado ao outro na extensa bancada de madeira segurando o microfone bem perto para a voz abafada pela máscara pudesse ser escutada.

— Vamos fazer uma revisão, o cérebro trabalha por associação e repetição. Então gosto de sempre repetir o básico para que ele se torne um alicerce, para que fique gravado no fundo de suas mentes e possam sempre se amparar lá em um momento de dificuldade. Afinal a única pessoa que irá viver com você até o fim de seus dias... será você mesmo.

O líder usava um sobretudo branco por cima de uma roupa militar também branca feita sob medida, sua máscara era do tipo que vinha com um capuz e ao ser colocada escondia a cabeça inteira, parecia um vulto fantasmagórico em meio as fortes luzes do palco.

— Há um momento milagroso e efêmero que, muitos novos, tomamos noção do mundo a nossa volta. Não conseguimos saber exatamente quando, apenas temos nossas primeiras lembranças quando crianças... talvez dois ou três anos. Nessa hora, a energia pura que nos habita ao nascer é corrompida pelas trevas da sociedade corrupta. Mas o que é essa energia? Ela é uma identidade, uma energia parasita que se envolve com a nossa pureza e lá habita. Como é algo da sociedade humana, algo ruim, e negativo essa energia tende a criar as primeiras noções de egoísmo e onde eu a chamo de Ego, por favor, não tem nada a ver com as definições de mestres em psicologia. O ego aqui é essa energia ruim que envolve a nossa pura e a usa para crescer. Então, aos presentes... quem é essa coisa ruim!?

O líder fez a pergunta para uma plateia que respondeu em uníssono:

— Nosso outro eu! – gritou os ouvintes.

— Exato. A massa amórfica se apodera de nossa energia natural e conforme crescemos a usa para se criar nascendo uma versão insana de ser humano. Por que digo insana? Por que esse “eu” criado pela energia ruim é fraco, e em sua fraqueza ele almeja força. Mas se obtiver a força perderá a identidade de fraco que levou tanto tempo para se formar.

O líder continuou andando de um lado para o outro mudando o tom de voz.

— Senhores, confuso não? Peguemos um exemplo bem simples e raso de nossa sociedade deturpada: quero que imaginem uma mulher gorda. Uma mulher com ancas largas, pernas grossas e com acúmulo de massa adiposa por todo o tronco dando a ela um aspecto redondo. Vocês conhecem pessoas assim, não conhecem? Eu já ajudei vários homens e mulheres nesse estado. A questão é: qual o problema em ser assim? Em ter essa forma? Eu lhes digo, nossa sociedade corrompida por essa energia egoica estabeleceu inúmeros parâmetros para nos dividir como raça e esse é apenas o mais ralo deles. Voltando a moça. Ser gorda quer dizer em termos miúdos ter um índice de IMC acima da média, não é pejorativo, não é diminuidor é um fato. Então!

Ele ergueu a voz fazendo os fones quase estourarem.

— Por que essas mulheres sofrem? Por que são angustiadas? Há uma pequena parcela que é genuinamente feliz no seu estado físico, mas sabemos que a grande maioria pensa uma única coisa: emagrecer. Por quê? Problema de saúde? – ele riu – é uma excelente desculpa e ainda que verídica em mínimos casos, elas querem ser magras por que creem que uma cintura fina é mais atraente. Sim, nossa sociedade estipulou que gordas não são atraentes aos olhos do público masculino em geral. Eu vou dizer o motivo dessas mulheres sofrerem... o EGO em suas cabeças as incitam que precisam ser magras para ganhar atenção de um homem ou de uma mulher, o Ego as faz sentir inveja de modelos com número padrão, o EGO provoca a ilusão de autoestima. E sabe o que a nossa energia pura, mesmo envolta pela escuridão ainda brilha, diz? Ela expressa a felicidade por poder comer um bolo de chocolate delicioso, por poder cozinhar tortas e salgados, ela gera felicidade. É gostoso é bom, por que seria ruim?

O líder arfa pesadamente.

— O ego é fraco, ele quer tudo. O ego nessas mulheres injeta a vaidade e a fazem sofrer com dietas e exercícios. Não me entendam errado, exercícios físicos são importantes por que o corpo deve ser funcional, mas isso não significa correr uma maratona ou passar fome em nome de uma imagem ilusória. Eis meu ponto... elas querem comer o que dá felicidade e ao mesmo tempo querem essa forma física idealizada... senhores, isso é uma contradição. Os dois ao mesmo tempo não é possível, mas o EGO quer e a cada nova falha ele se alimenta da frustração e ganha poder para:

O público então responde:

— Se firmar como verdadeiro eu!

— Isso que é sofrimento! É quando você se inunda de emoções negativas como tristeza, frustração, medo e assim reforça a existência desse ser que finge ser você quando na verdade sua verdadeira forma ainda brilha envolta na escuridão desse inimigo. Meus muitos inimigos assim intitulados como “críticos” dizem que eu vendo propostas milagrosas, mas é muito pelo contrário. Tudo o que eu faço é fazer as pessoas olharem para o ego, as forço a observa sua própria escuridão! Eu digo: Nietzsche, se o abismo olhar de volta para você mergulhe nele com sua luz e o revele!

O público começou a ovacionar.

— Uma vez que você encara sua escuridão, que olha para este ser fraco e frágil é fácil destruí-lo! É fácil se libertar de toda a angústia! Para as mulheres acima do peso que me procuraram eu simplesmente as fiz entender a verdade sua fragilidade: o que querem realmente? O que lhes dará felicidade? Iniciar uma reformulação corporal para ganhar uma forma socialmente atraente entorpecida pelo prazer de se ver no espelho ou viver pelos prazeres da comida? Seja qual for o caminho, eu as coloquei na trilha para nunca mais olharem para trás! O sofrimento é uma ilusão! É uma não aceitação da realidade! Aceite a realidade para se livrar do sofrimento!!!!

O público se ergueu aplaudindo de pé.

— O princípio do sofrimento em todas as áreas é a não aceitação do que é. Eu vou iluminar o caminho para a verdadeira libertação que é a aceitação!

***

Zaek puxou uma carta feliz por ser um nove de copas e completar a canastra em sua mão. Ainda sim vencer esse jogo de cartas não satisfaz a frustração por seu trabalho: ficar preso em um cofre no subterrâneo vigiando uma rocha de vidro fosco de cinco metros de diâmetro onde diziam as lendas continha Incipere.

A arma que Egoinis usou para desafiar os três generais.

Após vencer o torneio de lanceiros na província da comandante Liana Zaek acreditou que seria reconhecido como o melhor e ter uma posição de destaque no governo da general, e de fato ela o reconheceu como melhor lanceiro e prometeu um trabalho digno de sua habilidade e confiança.

Ele só não esperava ter de ficar sentado 8 horas por dia em uma câmara no subterrâneo em algum lugar da Terra vigiando uma arma que se mantinha presa ali nos últimos cento e sessenta mil anos. Seus companheiros de vigília parecia não se importar com o tédio do trabalho, pois estavam veemente concentrados no jogo.

Um grupo de elite de 12 guardas imperiais, sendo 4 escolhidos para representar cada um dos três líderes da Divine, fazendo turnos de quatro a cada oito horas de serviço com ordens de proteger e vigiar Incipere arriscando suas vidas se necessário.

Zaek olhou novamente para a rocha de vidro fosco e levantou-se aproximando da peça de superfície irregular, ainda com boa iluminação dentro da câmara não era possível enxergar o seu interior mesmo que o guarda espremesse o olho contra ela.

— Nem tente – disse Goek ainda jogando — você só está aqui há dois anos eu estou a dez e te digo que é impossível olhar dentro da rocha.

— Ao menos você sabe como é essa arma? – perguntou Zaek.

Nessa hora os outros dois guardas pararam de olhar as cartas e ergueram os olhos na direção de Goek. A grande pergunta do milênio era: que tipo de arma seria aquela que estava dentro da rocha a ponto de fazer um simples cidadão como Egoinis conseguir enfrentar os três generais de Divine? Uma espada? Uma lança? Um machado? Uma metralhadora?

— Ninguém além de Liana, Kernel e Yeken sabem, afinal foram eles que venceram Egoinis e selaram a arma dentro dessa barreira de alamandium.

— Mas não acham que é burrice? – disse Kio baixando as cartas – dizem que Egoinis foi preso neste mundo e eles vão e selam a arma no mesmo planeta?

— Não seja idiota – rebateu Goek – Incipere é uma arma que corrompe a alma, Liana e os outros generais não podem tocá-la então a selaram no exato ponto onde a batalha contra Egoinis terminou. O prenderam neste planeta porque a arma é munida da mesma tecnologia bumerangue que a nossa, se ela se afastar demais da mão do portador irá se desintegrar em partículas e retornar para a mão do dono.

Todos concordaram pela lógica.

— Então é por isso que ela foi posta numa fortaleza fortemente segurada dentro de uma cidade onde os humanos guardam ouro... bom mais precisamente bem abaixo afinal estamos seis andares dos cofres onde os humanos concentrando todo aquele metal dourado.

— É arriscado – disse Jaz pela primeira vez naquela noite – se outros humanos tentarem roubar essa fortaleza podem tentar vir até aqui.

— É onde entramos – rebateu Goek – qualquer estranho que vir aqui encontrará a morte certa.

Zaek assentiu com a cabeça quando seus olhos focaram no monitor que exibia imagens do lado de fora. Havia alguém parado rente a porta de 50 centímetro de aço que separava os túneis da entrada da câmara de Incipere.

— Hei... não está cedo para a troca de turno?

Todos olharam para o monitor e uma sensação ruim transpassou a mente de cada um.

O sujeito do lado de fora estava usando um sobretudo preto com capuz e naquela posição não era possível ver seu rosto, imóvel rente a entrada ele apenas mantinha-se ali. Imediatamente os guardas pegaram suas armas tentando entender o que estava acontecendo, como alguém conseguiria passar por toda a segurança de cima sem ativar os alarmes e descer os túneis até lá sem chamar a atenção.

— O que fazemos? – perguntou Zaek.

— Observamos. Não tem como ele passar por uma porta de aço blindado.

Finalmente o espectro se moveu abaixando o capuz revelando uma máscara preta com abertura apenas para os olhos, ele tocou na superfície do metal como se o estivesse analisando. De dentro os guardas se colocaram a postos visualmente energizados pela adrenalina causada pelo invasor.

Após terminar de verificar o sujeito fechou a mão direita em punho ergueu o braço levando o cotovelo para trás e aplicou um soco tão forte que a estrutura inteira da câmara tremeu. Veio um segundo soco, terceiro... no quarto as dobradiças estalaram e arrebentaram as juntas com a parede.

A porta veio abaixo num baque que fez os quatro guardas recuarem um passo.

O estranho mascarado adentrou na câmara olhando para a rocha fosca. Ninguém se moveu, os guardas mantiveram suas posições temendo o que era aquele sujeito e pensando numa tática de batalha, derrubar uma porta de aço daquela maneira indicava que não era humano.

Finalmente o sujeito reparou nos guardas e usando um tom grosso abafado pela máscara apenas disse.

Saiam. Não tenho interesse algum em matá-los, apenas vou levar Incipere.

Foi Goek que conseguiu falar após o choque:

— Seja lá quem for... está cometendo um erro terrível. Essa arma só te trará ruína, se ela não o destruir você terá a fúria de 3 arcanjos o perseguindo!

Conto com isso.

A batalha terminou mais rápido do que deveria se levarmos em conta que eram guerreiro de elite guardando a câmara. Goek, Jaz e Kio estava mortos, seus cadáveres jogados em diferentes cantos do cofre. Zaek ainda estava vivo sentado no chão ao lado da porta derrubada, a lança fincada em sua barriga doía demais e ele sentia o corpo ir esfriando conforme a vida o estava deixando.

O mascarado parou em frente ao rochedo o tocou analisando como antes. Zaek, tossindo sangue tentou rir das pretensões do invasor.

— Isso... isso é alamandium... dez vezes mais resistente que diamante... não... não... não vai conseguir destruir não importa o quão forte seja!

Você sabia, anjo, que há uma diferença muito sutil entre carvão e o diamante? A composição molecular é muito parecida, um rearranjo e um pouco de pressão nas moléculas e é capaz de transformar uma fonte de carbono irrisória no metal mais resistente desse planeta.

O estranho tocou a superfície do rochedo.

O mesmo se aplica ao alamandium.

Aos poucos a densidade do metal foi mudando e os fosco foi ficando lentamente transparente.

A diferença é que alamandium se transforma em cristal.

Estupefato Zaek esqueceu o medo da morte ao ver a rocha ficar completamente lisa e o mascarado precisar de um simples soco para fazê-la explodir em milhares de cacos que voaram por toda a câmara.

Pouco antes de morrer o guarda testemunhou o invasor ir até o centro e pegar Incipere, mas o que mais o deixou consternado era a forma da arma mais mortal já concebida na existência.

— A...aquilo...aquilo é Incipere?

Notas finais
O que acharam?