Notas iniciais
A história a seguir contém a ala masculina da Fairy Tail sofrendo por assistir a ala feminina arrasando no Tuts Tuts quero ver e não ter coragem de chegar junto. Imagens fortes de sofrimento. (Nah). Boa Leitura!

Gray não gostava muito de boates e ambientes do tipo. Não muito, pelo menos. Ele apreciava um drink ou dois com o pessoal da Fairy Tail, é claro; sempre ficava divertido depois que Gajeel, Natsu e Elfman ficavam alterados e transformavam o lugar numa zona, mas… francamente, boates davam em seus nervos. O calor insuportável, com todas aquelas pessoas suadas se esfregando, o barulho mecânico e repetitivo de uma música pop qualquer que Gray desprezava e não se incomodava em lembrar o nome, pessoas gritando para se fazerem ouvir sobre o ribombar da batida… mas além de tudo, o que Gray mais desprezava eram todas as mulheres e homens que insistiam em perturbá-lo, esfregando-se em seu braço, forçando conversa — na qual Gray realmente não estava interessado, muito obrigado — e transpassando seu espaço pessoal. Gray se sentia lisonjeado, não o entenda mal. Mas era irritante. Eram muitas pessoas, ok? Ele não conseguia nem mesmo assistir a cena cômica que era ver os homens da Fairy Tail tentando não encarar enquanto Levy, Lucy, Erza, Evergreen, Bisca, Kinana, Mirajane e Lisanna rebolavam sob luzes coloridas. Gajeel e Natsu deviam estar sendo especialmente torturados, pensou Gray, porque Lucy e Levy haviam começado a dançar coladas uma na outra e estavam chamando considerável atenção. Gray quase se sentiu mal pelos caras, só de imaginar os dragons slayers mordendo os próprios cotovelos de desejo — mas é claro, Gray não podia rir na cara deles. Não quando uma maldita morena estava sempre enfiando o nariz na frente de seus olhos, tentando desesperadamente bloquear sua visão e fazê-lo escutar o que quer que fosse que ela estava dizendo. Ele estava prestes a pedi-la com educação, será que você pode, por favor, tirar sua mão de cima da minha coxa e me deixar em paz? Mas não foi necessário, porque no minuto seguinte Cana jogava seu braço sobre os ombros da garota e a puxava para longe do rosto de Gray.

— Ora, ora, ora, o que temos aqui — ele a ouviu gritar, sorrindo amarelo para a garota — Você é bonita demais para o velho Gray aqui, não acha, meu bem?

Gray observou a garota abrir a boca e tentar dizer algo, mas Cana a interrompeu.

— Ah, mas não se preocupe, tenho certeza de que vai achar alguém. Continue procurando, sim? Por que não começa por aquele bonitão ali? — disse ela, apontando um dedo para Wakaba, que fumava um cigarro no outro canto do salão.

A garota disfarçou uma careta e virou-se para Cana, alternando seu olhar entre Gray e ela, tentando dizer algo. Cana não podia ligar menos.

— Shhh, tudo bem, Gray não vai se importar, não é, Gray?

Gray balançou a cabeça olhou para a morena, fazendo um gesto de displicência com a mão. A garota pareceu prestes a protestar, mas Cana já estava expulsando-a, segurando-a pelos ombros e empurrando-a em direção a Wakaba.

— Vai lá, garotona, tenho certeza de que ele será todo seu. Bom te conhecer, viu? Tchau!

Com isso, ela deu na garota um empurrão final, mas a morena não foi embora sem antes lançar um olhar desesperado para Gray, que acenou-lhe um tchauzinho. A garota então desistiu, ou pelo menos resolveu esperar até que Cana não estivesse por perto, porque virou-se e continuou dançando, mas não saiu do campo de visão de Gray.

— Essa aí é insistente, hein?

Cana havia se sentado no banco ao seu lado, deixado vazio pela garota, e já segurava um grande barril de cerveja ainda que Gray não tivesse ouvido ela pedir nada.

— É… te devo essa. Obrigado, eu acho.

Cana sorriu piscou, num silencioso “não foi nada”.

— Por que não tenta se divertir? Você tá com essa cara de bunda a noite toda.

Gray deu de ombros.

— Só estou meio cansado daqui.

Cana o olhou de cima a baixo, pensativa.

— Gray, eu vi várias mulheres bonitas se jogando pra cima de você. Não pode estar sendo tão chato assim.

Gray deu de ombros uma segunda vez.

— Nenhuma particularmente interessante.

Nisso, Cana lançou-lhe um olhar cético e incrédulo, desvencilhando uma de suas mãos do barril de cerveja que segurava para apoiá-la no quadril.

— Deixe-me ver se entendi bem. Você está solteiro, é arbitrariamente atraente e jovem, tem a libido reprimida de um homem virgem de 21 anos...

— Como você sabe que…? Quem disse que eu sou virgem?!

— ...e está me dizendo que nenhuma das garotas bonitas deste bar te interessou? E não tem a possibilidade de você ser gay, já vi sua tentativa patética de esconder aquela ereção na praia quando Lucy perdeu o biquíni pela milésima vez…

— O quê?! Cana, eu não...

— ...então, me diz, qual é o problema, amigo?

Gray gaguejou, absorvendo as coisas embaraçosas que saíram tão facilmente da boca de Cana, que parecia não estar minimamente afetada. Finalmente, quando percebeu não conseguir reunir argumentos coerentes para refutá-la, (afinal, talvez, apenas talvez houvesse um pouco de verdade no que ela dissera) decidiu por ignorar a maior parte do discurso e responder à pergunta da melhor forma que conseguiu.

— É só que nenhuma dessas garotas é… meu tipo? Eu sei lá. Por que você se importa tanto, afinal?

O olhar de Cana assumiu um brilho malicioso estranho e ela lhe lançou um sorriso cúmplice que incomodou Gray. Ele detestava sentir que estava por fora de algo.

— O que foi?

Cana riu e voltou-se para o barril em seus braços, virando-o de forma tão grotesca que Gray teve de limpar alguns respingos de cerveja de seu rosto. Ela finalizou o gole com um satisfatório suspiro, virando-se para ele.

— Seu tipo.

— É. Meu tipo.

— E desde quando você tem um tipo, Gray?

Gray deu de ombros.

— Uhum. E qual seria esse tipo?

Gray abriu a boca para responder enquanto pensava, e uma imagem lhe veio à cabeça. Olhos azuis eram bonitos, Gray pensou. Azul o deixava calmo, em paz, e ele gostava de se imaginar deixando-se levar por olhos azuis como o oceano, puxando-o. Ah, e um corpo com curvas acentuadas. Ninguém é de ferro, afinal, e Gray estaria mentindo se dissesse que não apreciava belas curvas. Ele achava muitas mulheres bonitas, mulheres negras, morenas, mas havia algo de especial em garotas de pele pálida como porcelana. Uma pele tão branca que quase parecia correr água no lugar de sangue nas veias abaixo dela, pele como a de…

Juvia, sua mente completou.

Gray travou o maxilar. Virou-se para Cana, que agora exibia um sorriso zombeteiro que ia de uma orelha a outra, e ele cerrou os dentes.

— Eu não tenho que te dizer nada.

Cana continuava a sorrir. Gray sentiu-se extremamente incomodado com o escrutínio daquele olhar, como se ela soubesse de algo.

— O que é?

Cana forçou-se a parar de sorrir.

— Naada, Gray. Nada mesmo. Escuta, por que não dá uma voltinha no telhado? Você não parece estar curtindo muito aqui embaixo e eu ouvi dizer que a vista lá de cima é bem... interessante.

Gray semicerrou os olhos para a morena, ainda tentando entender o que se passava pela cabeça de Cana. Por fim, resolveu aceitar a ideia. Ele não se importaria de um pouco de ar fresco pra variar.

Cana acenou enquanto Gray abria caminho pela multidão em direção ao pequeno lance de escadas num canto escuro por trás do bar, e quando ele estava nos últimos degraus, ouviu-a gritar:

— Ei! — Gray se virou. — Diga a ela que eu mandei um oi!

Gray franziu as sobrancelhas. Ela quem? Ignorou-a. Cana já era meio louca quando sóbria, mas bêbada ela atingia um nível completamente diferente.

Gray empurrou a porta pesada de metal, sentindo o vento frio noturno bater em seu rosto. Talvez fosse o suficiente para fazer uma pessoa normal colocar um casaco, mas não para Gray. Ele enfiou as mãos nos bolsos, perfeitamente confortável em sua camisa polo, com seus braços nus expostos à temperatura quase negativa, e olhou em volta.

Cana estivera certa, era uma vista e tanto. Magnólia estendia-se diante de seus olhos como um tapete de luzes, e a visão lhe tirou o fôlego por um instante. Ao fechar a porta atrás de si, a música estridente no andar de baixo abafou-se, e Gray agradeceu a quaisquer deuses que pudessem existir. Foi só então que ele escutou o murmurar de alguém cantando ao ritmo da canção, tão baixo que Gray limpou os ouvidos para ter certeza de que não o havia imaginado. O som vinha da direção de suas costas, e ele deu a volta na ilha de onde emergiam as escadas que davam para a porta do terraço, apenas para dar de cara com uma figura feminina movendo-se de costas para ele, seu contorno recortado pelo céu noturno e pelas luzes brilhantes da cidade abaixo.

Gray notou, surpreso, que era Juvia, e seu primeiro instinto foi dar um passo atrás.

Veja bem, Gray não a estava evitando. É só que ele havia lhe prometido uma resposta para seus sentimentos, e talvez, só talvez, Gray não havia pensado muito sobre o assunto e não tinha a menor ideia do que dizer ou pensar, e o tempo estava passando e ele sabia que Juvia devia estar ficando impaciente. E, bom, se ele pudesse não ter qualquer tipo de contato com Juvia nesse meio tempo até que ele pudesse pensar numa resposta e numa desculpa por toda a demora, isso não seria a pior coisa do mundo.

Mas então os olhos de Gray processaram o que ele estava vendo, e Gray percebeu-se incapaz de mover um músculo, em choque.

Juvia estava dançando. E não era uma dança graciosa, como uma bailarina seguindo os movimentos fluidos da água, como Gray achou que seria (não que Gray houvesse passado horas imaginando Juvia dançando ou fazendo qualquer outra coisa. Por que ele faria isso? Isso seria estúpido.). Também não era uma dança sensual, com ondulações de quadris e cintura ou nada do tipo. Era simplesmente… bizarro. E, admitidamente, absolutamente adorável. E se Gray não conseguiu impedir um sorriso divertido de tomar seu rosto, ninguém poderia culpá-lo.

É só que Juvia parecia tão imersa, e era tão estranho o jeito que seus braços e pernas se moviam rigidamente, seus joelhos se dobrando em pequenos agachamentos e seus pequenos pés dando passos para o lado e deslizando pelo chão de um lado para o outro. Não havia muita movimentação, apenas pequenos e tímidos passinhos de dança, e era simplesmente tão divertido que Gray não podia arriscar interrompê-la avisando sobre sua presença. E quanto mais tempo ele assistia, mais interessante ficava, e Gray começou a ver um padrão nos movimentos descoordenados. Era realmente intrigante. Mas o momento acabou cedo demais, pois, numa parte especialmente agitada da música, Juvia fez um pequeno giro, e seus olhos cruzaram com a forma imóvel de Gray de pé a alguns metros atrás dela, observando-a. Juvia soltou um grito agudo, levando as mãos à boca.

— Gray-sama!

Superado o susto, Juvia se deu conta da situação em que havia sido flagrada. Seu rosto tingiu-se de vermelho.

— Desde quando você está- o que está fazendo aqui?

A voz de Juvia era comicamente estridente. Gray ficou entre sentir pena e vontade de rir. O que saiu foi uma meia risada, rapidamente escondida em um pigarro.

— Eu vim pra pegar um pouco de ar.

Gray havia decidido fingir que nada havia acontecido, mas ele não podia passar a oportunidade de deixá-la um pouco mais envergonhada. O porquê de sua vontade sadista estava além de sua compreensão.

— O que você estava fazendo, Juvia? — continuou ele, sua expressão séria lutando contra um sorriso.

A mulher cobriu o rosto com uma das mãos com o pretexto de esquentá-la, mas Gray sabia que se tratava de uma tentativa de esconder o rubor.

— J-Juvia, ahn, Juvia também queria, hum, t-tomar ar fresco.

Juvia olhava para todas as direções, menos a dos olhos de Gray. Era adorável.

— Bom, daqui parecia que você estava dançando.

Juvia agora mantinha seu olhar fixo no chão, os olhos arregalados, e ela engoliu em seco.

— Bom, Juvia… — começou ela, deixando o silêncio se arrastar, seus olhos se movendo como se buscassem desesperadamente uma desculpa.

Gray escondeu outro pequeno sorriso, caminhando até ela. Com o canto do olho, viu corpo de Juvia tencionar e depois relaxar quando ele passou direto por ela e sentou-se no parapeito ao lado dela, seus pés balançando metros e metros acima da calçada lá embaixo. Medo de altura nunca fora um problema para Gray. Ele conseguia pensar em coisas muito mais assustadoras que estar a algum lugar acima do chão; por exemplo, uma Erza irritada. Isso com certeza venceria qualquer altura numa batalha de quem aterroriza mais. Ou talvez uma certa garota de cabelos azuis querendo respostas que ele não sabia dar. Isso era assustador também.

Essa linha de pensamento precisa ser cortada neste exato momento, pensou ele. Virou-se para ela.

— Ei está tudo bem. Não sou a polícia da dança nem nada assim. Não vou te prender.

Gray pensou brevemente que se Natsu estivesse ali para ouvi-lo falar algo estúpido como polícia da dança, Cérebro de Fósforo nunca o deixaria em paz pelo resto de sua miserável vida. Gray culpou o fato de estar na presença de Juvia, que sempre o deixava levemente nervoso. Como agir com alguém que passou de sua inimiga a sua stalker, depois amiga e companheira, e então potencial parceira até virar alguém a quem você devia uma resposta sobre seus sentimentos?

Juvia, porém, pareceu relaxar com a piada, e Gray viu-se relaxando também. Ela soltou um riso baixo.

— Está bem, Gray-sama. Mas se você fosse a polícia da dança, Juvia provavelmente levaria uma multa por dançar muito mal, não é?

Gray ouviu as palavras saindo de sua boca antes que pudesse pensar se significaria algo no contexto em que estavam.

— Eu achei adorável.

Juvia olhou-o pelo canto do olho, suas bochechas corando.

— Obrigada.

Gray corou apesar de si mesmo. Ele deveria se sentir envergonhado? Será que Juvia interpretaria como um flerte e pensaria que sua resposta era sim? Ele nem mesmo sabia se sua resposta seria sim, talvez ele não devesse ter dito nada e agora ele estragara tudo…

— Mas claramente Gray-sama tem um péssimo gosto para dança.

Os pensamentos de Gray frearam diante daquela resposta e uma risada escapou de sua boca. Juvia riu com ele.

Gray deu continuidade à conversa, decidindo por ignorar as perguntas incessantes que sua mente lhe fazia.

— É por isso que você está aqui? Tem vergonha de dançar na frente de todo mundo?

Juvia sorriu de lado e deu de ombros, chutando distraidamente uma pedra próxima a seus pés com a ponta da bota de couro.

— Juvia já viu as mulheres da Fairy Tail dançando. Juvia não sabe como competir com aquilo.

Gray bufou.

— E quem liga pro que todo mundo pensa? Você devia só dançar do jeito que quiser. O objetivo é esse, não é? Fazer o que o corpo mandar para acompanhar a música?

Juvia virou-se para ele, sorrindo.

— Gray-sama, Juvia ama a Fairy Tail, mas você não acha que Fairy Tail zombaria de Juvia por dias?

Gray pensou um pouco. Um esboço de um sorriso carinhoso surgiu em seu rosto enquanto encarava as luzes abaixo. Fairy Tail era uma guilda de idiotas, mas realmente tinha um lugar especial em seu coração.

— É, acho que você tem razão.

Juvia virou-se para o horizonte.

— Juvia ficaria envergonhada para sempre. Erza jamais deixaria Juvia em paz.

Por algum motivo, a cena que veio-lhe à cabeça de Erza debochando de Juvia e deixando-a desconfortável era cômica, mas o incomodou profundamente. Era engraçado, e Juvia não se importaria de verdade, é claro, mas parecia errado. Quando Gray a provocava, era hilário, mas era diferente quando outros o faziam. Gray tinha permissão especial, afinal. Porque Juvia… bom, Juvia era…

O quê? Dele? Era assim que ele terminaria a frase? Gray balançou a cabeça, tentando fazer com que os pensamentos fossem embora. Quando ele ficara tão possessivo?

— Eles não deveriam zombar de você assim. — se viu dizendo.

Juvia o olhou como se ele estivesse agindo estranho.

— Gray-sama, Juvia não se importa tanto assim. Juvia está acostumada.

— Bom, você não devia estar. — Gray olhou-a nos olhos — Se isso te incomoda, você deveria dizer algo. Talvez eu devesse dar uns socos neles.

Juvia riu.

— Socar Erza-sama?

Gray engoliu em seco.

— Ok, talvez socar outra pessoa e fazê-la servir de mensagem para a Erza.

Juvia riu novamente. Gray decidiu que gostava do som. Era uma risada agradável.

— Se eu não conhecesse Gray-sama, diria que está com medo.

Gray cruzou os braços, ofendido.

— M-mas é claro, tem que ser muito idiota pra não ter medo dela.

Juvia olhou para o lado por alguns instantes, pensativa. Depois, voltou a encará-lo, e Gray notou distraidamente que seus olhos azuis assemelhavam-se muito ao oceano no pôr do sol quando brilhavam sob as luzes da cidade.

— Gray-sama…

Gray forçou-se a prestar atenção.

— O que foi?

— Gray-sama teria medo de encarar Juvia em uma batalha?

Gray foi pego de surpresa pela pergunta. Pensou um pouco.

— Bom, eu me lembro de ter ficado ansioso na Torre do Paraíso quando te enfrentei pela primeira vez. Quer dizer, você era da Phantom Lord, entende? Isso por si só já era bem assustador. E então eu vi aqueles seus ataques com foices de água… Mas acho que, agora que somos parceiros, eu não tenho mais medo.

— Mas Erza-san é parceira de Gray-sama também, não é? E Gray-sama tem medo dela.

Gray inclinou a cabeça.

— Bom, acho que sim, mas…

— Gray-sama acha que Erza-sama é mais forte que Juvia?

Gray girou sua cabeça para encará-la tão rapidamente que seu pescoço estalou.

— O quê?! Por quê você está perguntando isso?

— Gray-sama tem medo de Erza-sama, mas não de Juvia. Gray-sama acha Juvia fraca?

— Não!

— Por quê Gray-sama não tem medo de Juvia, então?

Milhões de respostas passaram pela cabeça de Gray naquela conversa bizarra. “Você ficou maluca?” foi uma delas. Ou “porque você é apaixonada por mim, não é? Por que eu teria medo que você fizesse qualquer coisa pra me machucar?”. Até mesmo “Bom, você quer que eu tenha medo de você?!”. Mas o que saiu de sua boca, numa voz suave que Gray definitivamente não havia planejado, foi:

— Porque você não é assustadora. Você é…

Incrível. Forte. Corajosa. Absolutamente maravilhosa.

Gray percebeu, de repente, que Juvia havia se debruçado sobre o parapeito, e o rosto dela estava terrivelmente perto do seu, sua expressão transparecendo o quanto estava ansiosa para ouvir o resto da frase.

Gray notou, espantado, que sua pulsação estava acelerada, e martelava contra a artéria em seu pescoço. Gray se lembrava de sentir-se assim apenas em batalhas complicadas, em que estivera entre a vida e a morte, e arquejou. O que estava acontecendo? Por quê ele estava ficando tão alterado apenas por conversar com Juvia? Aquilo era absurdo.

Determinada. Leal. Engraçada.

Juvia ainda o olhava atentamente, seus lábios semipartidos em antecipação, seus seios apoiados sobre os braços cruzados saltando pelo decote do vestido de lã. Os olhos escuros brilhavam sobre os cílios azuis. Gray engoliu em seco.

Linda.

Nos momentos que se passaram, Gray pensou estar passando por uma experiência fora de seu corpo, pois, apesar de ouvir sua própria voz formando aquela última palavra, sua mente não conseguia assimilar que ele a havia dito em voz alta. No entanto, a maneira como as pupilas de Juvia se dilataram e seus olhos se arregalaram era prova irrefutável de que ele havia, de fato, dito aquilo. Um arrepio passou por seu corpo.

Gray não saberia dizer quem iniciou o movimento. Ele lembra-se de sua cabeça se movendo, lentamente, para frente, mas lembra-se também de Juvia inclinando seu queixo para cima e fechando suas pálpebras. Tudo o que sabia era que, em alguns segundos — que pareceram horas -, seus lábios encontraram os lábios frios e molhados de Juvia, os quais, logo que houve o toque, transformaram-se em brasa. As mãos finas e geladas de Juvia encontraram seu rosto quase que imediatamente, aninhando sua cabeça entre elas, e um calor percorreu dos pés à cabeça de Gray, e todo e qualquer pensamento coerente se desvaneceu. Gray sentiu pequenos choques de eletricidade onde os dedos de Juvia encostavam em sua pele, e estes desciam em raios por cada terminação nervosa. Sua cabeça estava girando, e seu fôlego prendeu-se em sua garganta com a intensidade da experiência. O que era ele, um adolescente apaixonado??

Juvia suspirou em seus lábios, e suas mãos guiaram o rosto de Gray para que seus narizes se encaixassem melhor, e sua língua pediu passagem em sua boca. Gray permitiu quase que automaticamente, e sua mão agarrou-se à nuca de Juvia ao mesmo tempo em que a outra circundava sua cintura e puxava-a para perto.

Juvia arquejou, e Gray sentiu o corpo dela amolecer-se inteiramente em seus braços. Passou por sua cabeça o fato de que ele a estava segurando, quase que em seu colo, sentado sobre a beirada de um prédio cuja queda era de três andares, mas então Juvia enroscou os dedos em seu cabelo e deu um puxão leve, e um grunhido deixou sua garganta e levou com ele seus pensamentos.

Gray sentia o desejo instalar-se em cada célula do seu corpo, mas com ele havia algo infiltrando-se em sua mente. Um sentimento forte de pertencimento, de adoração. Uma felicidade elétrica vinda com a certeza de que aquilo era simplesmente certo.

Ele girou o corpo, voltando-se novamente para a segurança do terraço, e desceu do parapeito, com Juvia nos braços. Ele então desnvencilhou-se do beijo, e retomou o ar que não percebera ter perdido num longo fôlego. Seus olhos pareciam grudados aos de Juvia, apenas a alguns milímetros de distância. O hálito quente e molhado dela soprava sobre sua boca, e ele sentiu calafrios. Uau.

Juvia entrelaçou seus dedos nos dele e, sem quebrar contato visual, guiou-o, de costas, até a parede ao lado da porta de onde Gray havia vindo, trazendo-o novamente para perto de si.

Juvia pôs-se nas pontas dos pés e beijou-o novamente, soltando um suspiro aliviado que provocou uma sensação morna e agradável no peito de Gray quando pensou no fato de Juvia se sentir aliviada só por poder estar beijando-o. Um de seus braços envolveu os ombros da maga, enquanto o outro embrenhava-se por suas costas e sua mão segurava delicadamente a cabeça dela. Gray a segurava como se fosse de cristal, como se aquele momento pudesse se estilhaçar a qualquer momento.

Gray Fullbuster nunca fora bom em expressar verbalmente seus sentimentos. Afinal, a única figura masculina que ele tivera como modelo na infancia fora Laxus, e isso já dizia muito. Claro, tivera Lyon também, um garoto frio como gelo. No fim do dia, Gray decidia que o melhor a se fazer era ficar calado e sentir em silêncio; mas, às vezes, na quietude de seu apartamento, todos aqueles sentimentos ameaçavam sufocá-lo, e ele sentia uma necessidade absurda de cuspir tudo. Mas não havia alguém para quem cuspir. E então a solidão apertava-lhe o corpo, e ele reprimia tudo novamente.

Mas ali, com Juvia... Algo parecia diferente. Era como se o gelo que ele moldara por tanto tempo, o gelo que fazia parte de sua rotina, o gelo que praticamente corria em suas veias, enfim encontrasse água morna, e começasse a se derreter. Juvia o amava. Mesmo com todos os defeitos, mesmo quando tratou-a mal, mesmo em seus momentos mais frágeis. Ela o havia visto chorar, havia batalhado até sua quase-morte por ele, havia se jogado na frente de incontáveis ataques para salvá-lo. E a cada vez que o fizera, a cada vez que o amara apesar de todos os pesares, suas maralhas racharam um pouco mais. E com o último beijo, é como se Juvia houvesse dado o golpe final, e suas barreiras tivessem desmoronado de uma vez por todas, e Gray agora derramava-se por completo. Espantou-se ao perceber que esse fato não o incomodava. Não o incomodava nem um pouco.

Ele abraçou-a com toda a ternura que conseguiu, segurando-a firme contra seu peito, e beijou-o com força suficiente para tirar-lhe todo o oxigênio, como se tentasse, com cada toque, agradecê-la por cada vez que ficara ao seu lado.

Juvia desvencilhou-se de sua boca com uma profunda inspiração, tentando recobrar o fôlego. Seus olhos brilhavam como se estivesse experienciando o melhor dia de sua vida, mas tivesse medo de que acabasse.

Foi nesse momento que ocorreu a Gray.

Ele ainda não havia lhe dado uma resposta.

Droga.
O que ele deveria dizer? Deveria ir direto ao ponto? Deveria fazer uma lenta declaração, preparando-a para o gran finale?

Ó céus, e se Juvia percebesse que ele só era interessante enquanto se mantia frio, misterioso e distante?
Ele engoliu em seco.
E se Juvia acordasse um dia e percebesse que havia inventado um sentimento muito mais intenso do que realmente era, e que Gray era apenas outro nakama em quem ela havia tido uma queda? E se Juvia decidisse que sua bagagem emocional era grande demais para lidar?

— Juvia...

Sua respiração era curta e apavorada.

Juvia o encarava completamente confusa, e parecia preocupada.

— O que houve, Gray-sama? — pânico cruzou seu rosto de repente — Gray-sama por acaso se arrepende? Porque foi tudo culpa de Juvia, Juvia pode consertar, fingir que nunca aconteceu se Gray-sama quiser…

— Não!

Gray percebera que sua voz soara muito alta. Respirou fundo e fechou os olhos, tentando acalmar seus nervos. Baixou seu tom.

— Não. Não é nada disso, Juvia, eu não me arrependo de nada. É só que…

Eu acho que amo você.

— Eu não te dei uma resposta. — foi o que saiu de seus lábios.

Juvia o encarou. Piscou uma, duas vezes. E então, riu. Gray franziu o cenho. Uma certa irritação surgiu em seu peito. Ele estava absolutamente agoniado, e ela reagia assim?

— O qué é tão engraçado?

Juvia recobrou a postura, olhando-o nos olhos de novo.

— Gray-sama, Juvia não dá a mínima para uma resposta. Juvia sabe agora que Gray-sama sente algo por Juvia, e é suficiente para Juvia decidir nunca sair do lado de Gray-sama e continuar sempre beijando Gray-sama, sem ter que preocupar com Gray-sama odiando Juvia. Juvia agora nunca vai parar de correr atrás de Gray-sama.

Assim que as palavras deixaram sua boca, ele sentiu seu rosto esquentar.

Gray viu-se, não pela primeira vez, sem palavras. Um sentimento quente e eufórico espalhou-se pelo seu peito, e ele viu-se abrindo um sorriso. Por quê ele havia pensado que Juvia o deixaria? Céus, ela o havia amado desde o momento em que o vira, e nunca colocara condições ou cláusulas para amá-lo. Nunca havia pedido nada em troca. Havia sido leal em cada bendito segundo.

Gray se deu conta do quão sortudo realmente era por ter alguém como Juvia em sua vida.

— Você não precisa mais correr.

E então, deu-se conta do quanto estava sendo estúpido perdendo tempo pensando nisso ao invés de estar beijando-a.

Notas finais
Amém, Cana. Juvia dançando mal>>>Juvia sensual na pista de dança. Espero que tenham gostado! Eu precisava muito de uma AU em que Fairy Tail fosse pra boate e Gray arrasador de corações ignorasse todo mundo porque está apaixonado por Juvia e é o único cabeça de vento o suficiente pra não perceber, porque está em negação. Deixe um comentário! ;)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!