A estrangeira
3 Um plano maluco.
O silêncio voltou a tomar conta da loja, mas, dessa vez. O rangido do ventilador no canto parecia subitamente ensurdecedor.
Eu encarei Ingrid por um longo tempo. Ela sustentou o olhar, as mãos ainda agarradas à borda do balcão.
Aos poucos, a gravidade do que eu tinha acabado de ouvir começou a se infiltrar na minha cabeça. Atravessei a loja a passos largos, fui até a porta de vidro, virei o letreiro de Aberto para Fechado e tranquei o cadeado por dentro. Puxei a persiana de plástico para baixo com um puxão ríspido.
— Robert... — ela começou.
— Espera. — Levantei a mão, interrompendo. e passei as mãos pelo rosto, esfregando os olhos. — Deixa eu ver se eu entendi. Eu acordo, venho abrir minha loja, minto na cara dura para dois agentes federais armados para salvar uma desconhecida e, cinco minutos depois, descubro que acabei de me tornar cúmplice ativo de um crime federal de verdade?
Ela abaixou a cabeça, engolindo em seco.
— Eu sinto muito. Eu estava em pânico. Quando eles me pararam, eu sabia que se fosse para a viatura, era direto para um centro de detenção e depois deportação. Eu vi a sua loja. Vi você pela vitrine. Foi instinto de sobrevivência.
— Instinto de sobrevivência — repeti, soltando um riso seco e sem humor. — Você tem noção de que eu posso ser preso? eles vão ficar de olho.
Começei a andar de um lado pro outro, ainda não acreditando que eu tinha me envolvido naquele vespeiro.
—Darnell tem quatro mil habitantes. Se você sair por aquela porta agora e for para qualquer outro lugar, amanhã de manhã a cidade inteira sabe, e à tarde a viatura bate aqui de novo com um mandado.
— Eu sei.
— Você sabe? — disse a ela com ainda mais indignação na voz.
Fui para atrás do pequeno espaço do caixa. Eu precisava limpar alguma coisa, ocupar as mãos. Me estiquei para pegar o pano de microfibra que eu sempre deixava escondido embaixo da prateleira de chicletes, mas, antes que meus dedos alcançassem o local, Ingrid se inclinou sobre o balcão, pegou o pano exatamente onde ele estava escondido e me entregou.
Peguei o pano no reflexo, sem pensar. Comecei a esfregar uma mancha invisível do balcão
— Então o que a gente faz agora? — perguntei — Porque se o ICE está na região, você não pode simplesmente voltar para casa como se nada tivesse acontecido.
— Eu não tenho para onde voltar — ela disse, a voz baixa, mas firme. — O lugar onde eu estava alugando um quarto... a dona viu a reportagem da operação ontem à noite e me mandou embora. Estava com medo. Eu estava na rua desde a madrugada.
Parei de esfregar o balcão. Joguei o pano de lado e soltei um suspiro longo, sentindo o peso daquela terça-feira esmagar a minha espinha. Olhei para ela. Havia exaustão nos olhos dela, uma sombra escura de noites mal dormidas, mas também havia uma determinação absurda.
— Tá. — Ela disse quebrando o silencio, dando um salto. — O jornal disse que essa operação de varredura no interior vai durar pouco tempo...cerca de um mês. — completou.
Ingrid me olhou, esperando. Ela não precisou dizer a ideia em voz alta. O silêncio entre nós fez o trabalho sujo.
— Você está sugerindo... — comecei, testando as palavras para ver se elas soavam menos insanas em voz alta — ...que nós precisamos sustentar essa loucura. Que você precisa ficar aqui. por um mês...Comigo?!.
— Olha Robert — ela disse chegando mais perto. —Eles não podem provar que não somos casados se eu estiver morando na sua casa, dormindo sob o seu teto, vivendo a sua rotina. — Ela deu um passo mais perto do balcão. A voz dela perdeu o tom de desespero e assumiu um tom prático assustadoramente rápido.
— Darnell é pequena. se formos um casal comum e entediante de cidade pequena... o ICE não tem jurisdição para invadir sua casa sem uma prova de fraude. Em trinta dias, a operação acaba. Eles vão embora. E eu sumo da sua vida.
A proposta pairou no ar. Era um absurdo completo. Um homem sensato, o Robert de ontem, teria destrancado a porta e mandado ela tentar a sorte em outro lugar. Mas eu me lembrei da mão gigante daquele agente apertando o pulso dela. Lembrei de como o sistema operava.
E, por algum motivo que eu não conseguia decifrar, a ideia de mandá-la embora parecia... errada. Havia algo no jeito que ela me olhava, algo naquele olhar me desarmava completamente.
Olhei para o relógio na parede. Sete e quinze da manhã.
— Onde estão as suas coisas? — perguntei, derrotado.
Ela piscou, surpresa pela minha capitulação rápida.
— Minhas malas estão escondidas atrás da lixeira do Dairy Queen. Eu deixei lá antes de ir ao mercado comprar alguma coisa para comer.
Balancei a cabeça. Fui até o caixa, tirei algumas notas e peguei as chaves do meu carro no bolso.
— Vai buscar suas malas. Vou manter a loja fechada por mais vinte minutos. Você entra pelos fundos, coloca tudo no porta-malas do meu carro e entra de novo.
Ela abriu um sorriso pequeno, o primeiro sorriso real que eu vi nela.
— Obrigada, Robert. disse ela agarrando meus ombros
— Não me agradece ainda. — Caminhei até a porta e destranquei o cadeado para ela sair. — Nós temos trinta dias para convencer a cidade mais fofoqueira dessas bandas de que somos casados e apaixonados. E eu nem sei o seu nome.
Ela parou na porta, o vento frio da rua bagunçando os cachos escuros. Ela olhou para trás, direto nos meus olhos, com aquela mesma intensidade que me fez mentir para os federais meia hora antes.
— É Ingrid — ela disse.
E então saiu apressada pela calçada, me deixando sozinho em uma loja vazia, com a sensação de que a minha vida pacata estava a um fio de acabar.
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