A estrangeira

1 Um loop monotono


Acordei com aquela confusão habitual

Fui olhar a tela do celular para me situar: terça-feira, seis e quarenta e três da manhã. Levantei, passei o café de sempre e fiquei ali mesmo, encostado na pia, dando uma lida superficial no jornal.

"Operação Fronteira Segura expande atuação para cidades do interior de Ohio."

A manchete me fez reler o parágrafo duas vezes. Eles estavam falando de Darnell, ou de lugares exatamente como o nosso. Aquelas cidadezinhas que mal aparecem no mapa, onde todo mundo se conhece pelo nome e onde o maior evento do ano é o churrasco gigante bancado pelo prefeito no aniversário do município.

A matéria explicava que agentes do ICE estariam patrulhando o interior do estado atrás de imigrantes ilegais, usando aquele vocabulário de sempre: operação, segurança nacional, proteção de empregos americanos. Meu pai costumava dizer que, nesse país, se um homem trabalha duro, ele prospera. O velho sonho americano. Mas você cresce e percebe que esse sonho tem endereço certo, e a porta não está aberta para qualquer um. Joguei o jornal no lixo antes mesmo de terminar a xícara, peguei as chaves e saí.

Darnell tem uns quatro mil habitantes, dois semáforos e um Dairy Queen que fecha pontualmente às nove. A caminhada de três quadras até a loja foi silenciosa, sem cruzar com ninguém além do cachorro da senhora Patrice, que me ignorou como faz todos os dias. Chegando lá, destranquei o cadeado, virei o letreiro de plástico para a rua e liguei o ventilador de canto, que já começou com o rangido enferrujado de sempre.

Os dias em Darnell são praticamente todos iguais, eu acredito fielmente que o ponto mais emocionante da minha vida aqui foi o acidente de carro que sofri, e que ironicamente eu nem me lembrava de ter acontecido, os medicos falaram que eu tive amnesia.

Me acomodei atrás do balcão. Estava relendo a mesma página de um livro pela terceira vez sem absorver nada, quando o som de um carro parando lá fora me chamou a atenção. Olhei pela vitrine.

Era uma viatura, e dois agentes de colete tático pesado já tinham descido. Os caras tinham facilmente o dobro do tamanho da mulher de cabelo cacheado e sacola de mercado no braço. Eles a cercavam com uma agressividade desproporcional, o corpo tenso e o peito estufado, como se tivessem acabado de encurralar uma terrorista no meio da rua, e não alguém voltando das compras.

A mulher tentou pescar algum documento dentro da bolsa, as mãos visivelmente trêmulas. O agente da frente não esperou. Ele arrancou o papel da mão dela com violência, um puxão tão forte que quase a desequilibrou. Ele sequer olhou para as informações; só amassou o documento contra a palma da mão, os olhos cravados nela com fúria.

Quando ela deu um passo instintivo para trás, tentando criar algum espaço, a resposta foi brutal. O agente avançou e agarrou o braço dela com um solavanco de arrancar do chão, puxando-a de volta contra a lateral da viatura.

— Você está me machucando! — ela protestou, a voz falhando, tentando puxar o braço de volta.

O cara não disse nada. Apenas apertou mais forte, a mão gigante fechando como um torno no pulso dela, enquanto o parceiro levava a mão à altura do cinturão de utilidades, fechando qualquer rota de fuga.

Larguei o livro em cima do balcão. Foi quando ela olhou pela vitrine, cravou os olhos em mim e disse o meu nome em alto e bom som.

— Robert. Fala pra eles que sou sua esposa.

Saí da inércia antes de pensar no que estava fazendo. Abri a porta da loja e dei um passo para o concreto da calçada.

— Ei. Larguem ela. — Minha voz saiu muito mais firme do que eu esperava. — É minha esposa.

Os agentes se viraram para mim, surpresos. Ela me olhou também. E eu fiquei ali, parado na porta do meu próprio negócio, tentando processar o fato de que tinha acabado de mentir para a polícia por uma mulher que eu tinha a mais absoluta certeza de nunca ter visto na vida.