A escolhida
1 Capítulo 1
Notas iniciais
"Porque você ainda corre? Não se cansa nunca? Não perca o seu tempo fugindo, junte-se a nós..."
— Nunca! — A menina gritou o mais alto que pôde. Seu folego estava acabando, seus ferimentos deixavam um rastro de sangue por onde ela passava, dando uma grande vantagem aos monstros que a perseguiam.
Eles podiam sentir o cheiro do seu sangue. A vontade de capturar a sua presa aumentava, a adrenalina, acelerava e a saliva dos monstros enchiam suas bocas. Eles também podiam sentir o seu medo. Sim, a menina já havia perdido as contas de quantas vezes aquele pesadelo havia se repetido.
Mas ela se recusaria a aceitar o seu "destino".
Espinhos com a suas pontas sujas de veneno foram lançadas em sua direção. Provavelmente uma das varias armadilhas daquela mansão. A menina deitou no chão, fazendo os espinhos atingirem as feras que a perseguiam; algumas caíram mortas no chão, e as outras começaram a saborear o seu "aperitivo" para depois experimentar o prato principal.
A menina aproveitou a distração para se levantar. Sem olhar para trás continuou a correr pelos corredores escuros, onde só os seus passos e o barulho daquelas feras devorando a carne daqueles que haviam morrido podiam ser ouvidos.
Depois de muito tempo correndo, e percebendo que agora já estava muito longe de onde as feras estavam, ela cometeu um erro que a mesma considerava mortal. Parou, encostando-se a parede fria da sala de jantar, abraçou seu ursinho de pelúcia com força e fechou os olhos.
Quantas vezes já teve que fugir? Quantas vezes já desejou morrer ali mesmo, por monstros ainda piores que já causaram vários cortes em sua pele?
Quantas vezes já procurou a saída? Ela mesma nunca teve tempo para contar.
Algo a fez voltar para a realidade. A menina sentiu algo perfurando a sua barriga, junto a uma dor que era pequena comparada ao que já havia sentido.
Seus olhos abriram, se dirigindo a causa da sua dor. Então pode ver o ursinho que estava em seus braços sendo perfurado com uma faca, fazendo apenas a ponta da mesma atingir a assustada menina.
Largando o ursinho no chão, pôde ver que o corte era realmente pequeno. O seu sangue havia sujado o ursinho, mas aquilo não era o mais importante agora.
Hesitando por um momento, olhou para a sua frente. A escuridão da noite não a permitia ver a face da criatura, apenas a luz da lua refletido em suas facas.
Ela pegou uma das cadeiras mais próximas a si e jogou contra a grande janela ao seu lado. Mas como em todas as outras vezes, ela não se quebrou, e nunca se abriu.
— Pronta para aceitar o seu destino? — A criatura perguntou com a sua voz distorcida, em seguida deu a sua típica risada, que ecoou por toda a sala.
— Não. — A menina sorriu enquanto olhava para a janela. — O seu tempo acabou.
A luz do sol começou a invadir aquele cômodo, fazendo a criatura gritar de dor, e logo depois desaparecer.
O sorriso de antes ainda tomava conta do rosto da menina; o dia era o único momento em que ela podia cuidar dos seus ferimentos, ou ate mesmo comer e dormir, pois à noite aquelas criaturas atacavam, aproveitando qualquer distração da presa indefesa.
Saindo daquela sala e andando pelos corredores, pôde ver a beleza daquele lugar. Os rastros de sangue haviam desaparecido, e não restava mais nada de todas aquelas feras.
***
Em uma sala escura e distante dali, olhos atentos observavam cada passo daquela menina. Cada cômodo, corredor, quarto. Tudo poderia ser visto por aquelas telas que eram os olhos e ouvidos dele, mas o seu foco principal era "ela", que mesmo depois de tanto tempo ainda o conseguia surpreender.
— Mestre, é tão chato... Odeio ficar trancada nessa salinha. Eu quero ação! Se me deixasse sair eu mesma pegaria aquela...
— Calada! — O homem gritou, não tirando os seus olhos da tela. — Digo, não é necessário. Vocês são preciosas demais para que eu possa perder.
— Não somos tão fracas assim, mestre. — Outra voz se fez presente. — Admiro a sua insistência, mas... Não seria mais sábio desistir dela?
— Impossível. — O homem suspirou, e passou a olhar as suas preciosidades, que estavam ao seu lado. Sempre estiveram...
— Entendo...
— Mas eu não! Já estou cansada de espera-la se decidir! Ela não vê a oportunidade que tem? O poder que pode ter, se aceitar? Se ela não quer com certeza tem quem queria! — Uma delas falou, irritada.
— Presumo que a questão não seja exatamente ela "se decidir". Acho que essa possibilidade já não passa mais em sua mente. De certa forma eu a entendo. Ela é apenas uma criança assustada, não sabe quando parar. Para ela, fugir é a única opção.
— Vocês tem razão. — O homem falou com a cabeça baixa, fazendo as duas se assustarem. — O tempo já está acabando, eu não posso mais esperar.
— Isso quer dizer...?
—... Que teremos visitas? — Ela falou animada
— Sim. Irei providenciar que eles cheguem rápido. Eu preciso descansar e me preparar para a cerimonia.
— Então vamos poder...
— Sim. — O homem sorriu para elas. — Cuidem para que eles fiquem acomodados... E que apenas sobre uma pessoa...
Aquele que será o meu escolhido.
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