A escolha
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Então, na verdade, essa é a mesma que postei um tempo atrás. Acontece que ela era uma one e eu quis dividi-la, mas achei melhor postar a one mesmo.
Daí, apaguei a antiga e posto essa, agora completa.
Boa leitura!
- O que estamos caçando mesmo? – Annabeth se virou para a filha de Zeus, uma garota de cabelos pretos curtos e repicados, e olhos da cor do céu.
- Um lobo. – A garota respondeu meio mau humorada indo pegar sua flecha que estava presa em uma árvore. Por instantes, Thalia teve o animal na mira, mas errou.
- Por que um lobo? – Annabeth perguntou. As três garotas estavam em uma missão em conjunto.
Fazia parte da nova política diplomática entre os Acampamentos grego e romano. Reyna suspirou pesado. Romanos não se davam bem com arco e flecha. Não era... Bem, não era o jeito romano de lidar com as coisas. Mas ela tinha de fazer isso. Fora um pedido irrecusável.
- Lupa. – A pretora grunhiu. – O lobo faz parte de sua alcatéia e, por isso, ela pediu-nos para procurá-lo.
- E você recorreu à Thalia e as caçadoras? – Annabeth perguntou enquanto se sentava numa pedra. As garotas estavam rodando aquela floresta há dias, sem sucesso algum.
- Na verdade, Jason quem fez isso. – Reyna respondeu desviando o olhar dos cinzentos de Annabeth. – Por mim, não recorreria a vocês.
- Por puro orgulho. – Thalia decidiu sair de seu silêncio e voltou seus olhos azuis para Reyna. Havia um desafio explícito neles.
- Roma lida com seus problemas sem precisar de ajuda, Grace. – Reyna disse rispidamente e Thalia fechou o cenho. Era possível ver raios se formando nos olhos azuis da garota.
- Isso não tem nada a ver com Roma! Isso tem a ver com você e sua teimosia! – De repente, Thalia se dirigiu com passos duros até Reyna. Annabeth mal teve tempo de impedir.
- Ei, parem vocês duas! – A loira se interpôs entre Thalia e Reyna. O que estava acontecendo ali? Aquelas duas pareciam prestes a atacarem uma a outra. – Estamos numa missão!
- Vou montar a barraca. – Thalia grunhiu se afastando das duas.
- Eu faço a primeira vigília. – Reyna rosnou.
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Enquanto a fogueira ardia e suas companheiras de missão dormiam, Reyna tratava de polir sua espada à luz do luar. Ela não podia se deixar perder o controle daquele jeito, mas Thalia.. Thalia mexia consigo. Mais do que qualquer outra pessoa, a caçadora mexia consigo.
Desde a primeira vez que Thalia visitara o Acampamento Júpiter, Reyna sabia que ela seria um problema na sua vida. O jeito rebelde de Thalia não combinava com toda a disciplina do lugar. E sua personalidade forte foi só mais um motivo para a pretora se apaixonar. Sim, se apaixonar.
Reyna decidiu tirar aqueles pensamentos. Era o melhor a fazer. Thalia já fizera sua escolha: ela não quebraria os votos que fez à Ártemis. Naquela noite, um tempo atrás, sob as estrelas do Acampamento Meio-Sangue, Thalia deixou claro isso. E Reyna não era mulher de implorar ou pedir duas vezes.
Um barulho vindo das matas ao redor fez os pensamentos de Reyna se dispersarem. Rapidamente, a pretora se pôs de pé e em guarda. Ela não queria acordar Thalia e Annabeth a menos que fosse muito necessário.
A romana podia sentir que estava sendo observada. Ela girou, tentando identificar onde poderia estar seu inimigo. Ela sabia que ele estava em algum lugar.
- Apareça! – Reyna grunhiu e logo da escuridão uma forma negra e grande o suficiente para destruir um prédio avançou.
A pretora rolou e se pôs de pé. A má notícia? Reyna reconheceu seu inimigo. Era um cão infernal. A boa notícia? A fera e Reyna fizeram barulho suficiente para acordarem as outras garotas.
Thalia já saiu disparando flechas enquanto Annabeth ajudava Reyna. Só agora a pretora havia notado que as garras do bicho passaram de raspão por seu ombro.
- O que um cão infernal está fazendo aqui? – A loira gritou enquanto Thalia se desviava do monstro e o acertava com suas flechas.
- Ele tem o filhote de Lupa! – A caçadora respondeu. Reyna percebeu que ela não agüentaria por muito tempo e decidiu fazer uma coisa estúpida.
O cão realmente tinha o filhote. Ele estava em seu dorso. Reyna não quis saber como o lobo foi parar ali. Será que o cão infernal estava achando que o filhote era dele? Sem pensar duas vezes, a pretora se atirou sob a fera e conseguiu cortá-la superficialmente.
O bicho não gostou nem um pouco e voltou suas atenções para Reyna. Bem a tempo. Enquanto a romana tentava se desviar das investidas do cão infernal, Thalia conseguira pegar o filhote.
- Temos de abatê-lo! – Annabeth gritou.
Mas o cão não parecia mais tão interessado assim nas outras duas e, sim, em Reyna. A pretora decidiu afastar o bicho do grupo.
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A cabeça de Reyna doía. Lentamente, ela abriu os olhos e tentou reconhecer o local onde estava. Imagens da batalha com o cão infernal lhe invadiam. Ela se lembrou de terem salvo o filhote de Lupa, se lembrou de Thalia atirando flechas no monstro. De Annabeth o abatendo. E, novamente, lembrou-se de Thalia.
- argh! – A pretora grunhiu enquanto tentava se levantar. Quando foi se apoiar em um dos braços, seu ombro latejou de dor. Ela se arriscou a dar uma olhada no ferimento e ele não parecia muito bom.
- Isso só pode ser algum tipo de brincadeira. – A pretora ouviu alguém resmungar no que agora ela conseguiu reconhecer como uma espécie de ilha. – De muito mal gosto por sinal.
Reyna viu uma figura feminina, de cabelos castanhos trançados, envolta num vestido simples, se aproximar. A garota se ajoelhou do lado da pretora e a encarou um tanto confusa e nervosa. Reyna gostou da cor dos olhos da menina. Tinham uma tonalidade castanho claro, quase mel.
- Isso é algum tipo de brincadeira? – A garota murmurou olhando para os céus. – Uma garota agora? É sério isso?
- Desculpe-me. – Reyna tentou chamar a atenção da garota que parecia atormentada com sua presença ali. – Mas, onde estou?
- Aqui é Ogígia. – A garota lhe disse carrancuda e, por fim, após um momento de indecisão, decidiu ajudar Reyna.
A garota passou um dos braços de Reyna por seu ombro e ajudou a pretora a caminhar até uma caverna. Havia um cheiro bom emanando de todos os cantos da ilha. Reyna notou flores das mais variadas cores,e árvores. Era uma espécie de paraíso. A pretora tentou se lembrar do nome. Certeza que já o ouvira outras vezes.
A moça ajudou Reyna a se sentar numa cama improvisada. Aos poucos, ela ajudou a pretora a retirar sua armadura. Reyna gemeu de dor quando ela terminou de tirar o que restara da ombreira. O sangue, apesar de seco, inundava a ferida. Reyna resmungou e a outra decidiu quebrar o silêncio.
- Ogígia. Onde Odiss
- Ulisses. – Reyna cortou a garota que pareceu, de repente, notar melhor sua armadura. Reyna viu o olhar da garota pousar em seu braço, onde estavam tatuados o símbolo de Belona e as iniciais S.P.Q.R. A expressão da outra era indizível. Indecifrável. Mas, de uma coisa Reyna tinha certeza, a outra não estava nada contente.
- Você é... Romana? – A garota disse ‘romana’ como se fosse um insulto.
- Sim. Filha de Belona. – Num pulo a garota se levantou e, novamente, começou a esbravejar com os céus.
- Isso não tem graça! Não tem a menor graça! Não é divertido! Por que? Além de uma garota, ela é romana?
Reyna já estava cansada daquilo. Ela tentou se levantar, mas se viu muito fraca. A outra garota a amparou e a ajudou a se deitar. Só então a pretora notou certa dor nos olhos cor de mel.
- Por que está tão brava comigo? – Reyna decidiu perguntar. Ela não sabia se a garota era amiga ou inimiga. E as atitudes dela não ajudavam a pretora a se decidir.
- Não com você. É só... – A garota suspirou pesado enquanto limpava o ferimento de Reyna.
- Você não precisa fazer isso. – A pretora disse e segurou a mão da garota com mais força do que pretendia. Ela viu a outra ruborizar. – Me desculpe.
- Eu tenho que fazer isso. – A garota retirou sua mão, mas continuou seu trabalho. – É minha punição. Meu castigo.
- Eu posso cuidar desse ferimento sozinha. Obrigada. – Reyna disse, áspera. Ela não iria ser um fardo. Não condizia com o estilo romano.
- Aqui é Ogígia. Todo herói que cai aqui, cai porque os deuses assim o determina. – A garota disse, impaciente e triste. Era como se ela estivesse acostumada a cuidar de semideuses moribundos por um bom tempo.
- Como assim? Cai?
- Odisseu, ou Ulisses. Percy Jackson. Até um garoto magricela, Leo Valdez. Entre outros. Todos já caíram aqui quando em dificuldade. É meu dever ajudá-los.
- Há pouco você disse castigo. Espere, Percy e Valdez? – De repente, Reyna se sentiu atingida por um raio. Ulisses. Ilha. Percy e Leo? Ela ouvira essas histórias. Se aquela garota fosse quem ela pensava, Reyna não saberia o que fazer.
- Você os conhece? Claro que os conhece. Eles são os ‘grandes’, agora. ‘Os heróis da grande profecia.’ – Puro amargor era a voz da garota. – Bando de mentirosos se você quer saber.
- Você é... – A voz de Reyna falhou quando a garota apertou o curativo em seu ombro. – Calipso?
- Prazer. – A garota disse com uma voz cansada. – E você, romana, é?
- Reyna. – Reyna se sentiu envergonhada por ainda não ter se apresentado. Ela encarou Calipso com toda seriedade. – Reyna Arellano, pretora do Acampamento Júpiter, quinta coorte, filha de Belona.
- Você deveria descansar agora.
Reyna imaginava que não deveria. Ela tentava se lembrar de Calipso, do mito de Ulisses, mas a pretora sentia um cansaço e fraqueza incríveis. Talvez fosse resultado da perda de sangue. Talvez porque não se sentia realmente ameaçada por Calipso. Seus instintos estavam mais calmos agora. Relutante, a pretora deixou-se vencer pelo sono.
Pela segunda vez naquele dia – bem, Reyna não sabia precisar como o tempo passava ali em Ogígia – a pretora acordou com um cheiro bom vindo de um outro canto da caverna. Parecia ensopado. Aos poucos, ela se levantou da cama improvisada. Sentiu seu ombro latejar um pouco, mas ignorou a dor.
Ela se pôs em direção ao cheiro. Não sabia o quão faminta estava. Reyna viu Calipso cozinhando alguma coisa. Seu semblante parecia triste. A pretora conhecia aquele olhar. Era o mesmo olhar que ela tinha quando se lembrava de Thalia.
Reyna engoliu seco. Aquela era a Calipso. Castigada pelos deuses por se aliar aos titãs durante a primeira guerra entre os olimpianos e Cronos. E era um castigo deveras cruel. A cabeça da pretora latejava. Somente os heróis caíam ali. Não as heroínas, certo? Mas o fato dela estar ali já derrubava essa teoria. De repente, a garota se virou para Reyna e deu-lhe um sorriso gentil.
- Você está aí. – Ela lhe dissera, mascarando toda a sua face triste. Aquilo incomodou Reyna. – Fiz algo pra você comer.
- Obrigada. – Reyna disse firme.
(....)
Os dias passaram tranqüilos. Calipso lhe explicou que o tempo, sim, passava de forma diferente em Ogígia. Ela lhe contou quando Percy e quando o garoto piadista dos sete, Valdez, caíra ali. E,sim, ela era a primeira garota a encontrar a ilha.
Quando seus ferimentos estavam todos recuperados, algo em torno de uns quatro dias, Reyna decidiu começar a procurar uma forma de ir embora. Ela conhecia a lenda. Calipso não se apaixonaria por ela. E, provavelmente, os deuses deviam estar se divertindo tanto da situação que não a buscariam tão cedo.
Enquanto a pretora cortava uma das árvores para fazer uma barca – sim, ela lera o que Ulisses fizera – ela sentia cada vez mais raiva. Dos deuses, por não terem cumprido seu trato, de Percy e de Leo por não terem ficado, de Thalia por ter a ignorado. De todos. Reyna estava tão absorta em sua tarefa que não percebeu Calipso se aproximar.
A pretora só ouviu o barulho de algo se quebrando em contato com o chão. Assustada, ela se virou para encontrar uma Calipso com uma expressão indecifrável no rosto. Raiva? Decepção? Desespero? Reyna não sabia dizer.
- O que você está fazendo? – Calipso gritou com ela.
- Dando um jeito de ir embora. – Reyna respondeu amarga. Em situações normais, não toleraria ninguém gritando com ela, mas Calipso cuidara de seus ferimentos e lhe dera abrigo. Não seria justo.
- Então... – A voz da outra garota ficou fraca. Reyna olhou para ela e viu pequenas lágrimas se formando. – Você vai me abandonar também?
Reyna não entendeu. Por dias, ela vinha conhecendo Calipso, mas a garota não dera nenhum sinal de que queria que ela ficasse ou algo do tipo. Não que Reyna pretendesse, mas, a todo instante, Calipso murmurava algo sobre os deuses estarem rindo delas, sobre Reyna ser uma garota, sobre Reyna ser uma romana e enfim. Era como se, apesar da hospitalidade, Calipso quisesse que ela fosse embora.
- Você não queira que eu fosse embora? – Reyna perguntou e Calipso correu até ela, a abraçando.
- Sua idiota! – Calipso manteve seus olhos focados nos de Reyna. – Você conhece meu mito!
- Mas.. – Reyna estava prestes a argumentar quando sentiu os lábios quentes da garota sobre os seus.
Por um instante, a pretora quis afastá-la, mas não conseguiu. Ela deixou suas mãos desviarem pelo corpo esguio até chegarem à cintura e trazerem Calipso para mais perto. Como resposta, a garota acariciava os fios de seus cabelos e massageava sua nuca.
Havia desespero naquele beijo, Reyna sentiu. Mas não só por parte de Calipso. Por parte da pretora também. Ela estava cansada de seus amores não correspondidos. De Jason, Percy, de Thalia. Entre outros. Ela se entregou ao beijo de Calipso e ponderou, por instantes, se queria mesmo ir embora.
(...)
Aos poucos, Reyna voltou a se aconchegar ao corpo quente e esguio de Calipso. Ela trouxe a garota para mais perto, aspirando o perfume de seus cabelos. Fora da caverna, Reyna pôde ver parte da noite toma conta do céu. Deveria estar frio, mas a lareira no fundo dos aposentos e o abraço que dividiam mantinham a pretora aquecida.
Reyna plantou um beijo no ombro nu de Calipso, recordando-se da tarde que acabara de ter com a outra. Os beijos cálidos e desesperados, os gemidos sufocados, os corações acelerados. O rubor nos rostos, o suor, tudo. Tudo fazia Reyna sentir seu peito mais leve como nunca havia sentido antes.
A pretora sentiu o corpo junto ao seu tremer levemente. Ela depositou mais um beijo longo no ombro, deixando um rastro molhado na pele alva de Calipso. Estranhamente, a garota se encolheu mais. Reyna se preocupou.
- Calipso? – Ela chamou a garota, que respondeu com um soluço abafado. Reyna tenta virá-la para si, mas só encontra resistência. – Ei, o que houve?
Reyna insiste. Ela não estava acostumada com negativas. Ela percebeu Calipso virar para si em desespero e, ainda mantendo-as abraçadas, esconder seu rosto na curva do pescoço da pretora.
Reyna apertou ainda mais Calipso contra si, num gesto protetor. A pretora se pôs a acariciar os fios castanhos e sussurrar algumas palavras doces, encorajando a garota a falar, mas sabia que o melhor era esperar.
- Você... – A voz de Calipso saiu fraca e entrecortada. – Eles virão te buscar.
- Eles quem? – Reyna perguntou, fazendo Calipso a encarar.
A pretora limpou o vestígio de lágrimas no rosto bonito e depositou um beijo casto nos lábios trêmulos. Após um longo silêncio, Calipso conseguiu encarar Reyna de volta. A pretora se perdeu naqueles olhos cor de mel.
- Os deuses. É o meu castigo. Você é uma pretora, cheia de deveres e...
Reyna cortou Calipso com um beijo. Ela trouxe a garota para mais perto, sentindo todas a curvas dela. A pretora ouviu um gemido escapar dos lábios de Calipso e aprofundou o beijo, massageando a língua da garota com a sua.
Desejo percorreu o corpo de Reyna. Ela queria tomar Calipso ali, no chão da caverna, pelo resto da noite. Queria aliviar a dor da garota que vinha sendo abandonada por heróis época após época. E, claro, também queria aliviar a própria dor que vinha sentindo por não ser amada.
Ela não precisava refletir mais. Sua decisão já estava tomada. Ao se separar dos lábios doces de Calipso, a pretora lhe ofereceu um sorriso aberto.
- Nova Roma vai ficar bem sem mim. – Calipso não pareceu entender bem suas palavras.
- Isso quer dizer... – Reyna percebeu que a garota temia terminar a pergunta.
- Quero ficar com você. Não vou te abandonar, nunca. – Reyna prometera e encarou Calipso com o olhar mais forte e determinado que tinha.
Um sorriso aliviado percorreu a face da garota. Calipso voltou a se agarrar em Reyna e lhe encher de beijos. E, enquanto a noite caía em Ogígia e os risos de Calipso preenchiam a caverna, a pretora sabia que tinha tomado a decisão correta.
Notas finais
Beijão!
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