A epidemia
5 Às ordens
Notas iniciais

Severo terminava de servir seu desjejum quando notou que Hermione sequer havia tocado na própria refeição. Tentou disfarçar a sua curiosidade, pensando se de repente ele não era o culpado pela aparente falta de apetite da moça. Respirou fundo e levantou o olhar até encontrar o dela, que tentou desviar antes de ser pega de surpresa.
— Não sente fome? – ele perguntou, largando os talheres no prato.
Hermione não respondeu.
— Tem tomado a poção imunis diariamente? – ele perguntou novamente, apoiando os cotovelos na mesa.
— Sim. – ela se limitou a dizer.
Severo analisou a expressão dela após sua afirmação, buscando alguma reação que demonstrasse o contrário.
— Vejo que não está mais usando o curativo. – ele comentou – Espero que sua queimadura não esteja mais incomodando.
— Não incomoda. – ela respondeu, duramente, escondendo o braço embaixo da mesa.
Ele não deixou de notar a atitude dela, e se sentiu indesejado naquela conversa. Voltou-se para o seu desjejum, mas o interrompeu novamente quando notou que ela ainda se mantinha na mesma posição de antes.
— Eu gostaria que se alimentasse adequadamente, Srta. Seu organismo precisa estar saudável e forte para que a poção imunis o mantenha protegido.
— Eu sei disso.
— Então por que não experimenta se servir também? – ele questionou, apontando com o garfo para as opções sobre a mesa.
— Porque tem algo que está me incomodando. É sobre ontem.
Severo sentiu a tensão percorrer seu corpo à menção dos acontecimentos do dia anterior. Não esperava que ela fosse querer abordar aquele assunto tão cedo, e não sabia se teria muitos argumentos para justificar aquele incidente no laboratório. Pigarreou para conseguir falar com mais clareza e retirou os braços de cima da mesa.
— Coma primeiro, isso é mais importante.
— É isso que está me incomodando. Notei que não deu importância à minha pesquisa, sequer disse se poderíamos submetê-la ao Ministério.
Por essa ele não esperava, afinal, achava que ela iria questioná-lo sobre o ato impulsivo que resultou naquele beijo inesperado, o qual ele ainda tentava compreender. A preocupação dela, no entanto, era com as pesquisas que tinha desenvolvido.
— Podemos falar sobre isso depois, Srta. – ele respondeu, após alguns segundos de silêncio – Agora coma.
— Eu como quando estiver com fome. – ela soltou em um acesso repentino de raiva, pegando-o de surpresa – Isso é irritante, pra mim já deu.
Com um movimento mal calculado, seu braço esbarrou contra a própria caneca de café e derramou todo o líquido sobre a toalha da mesa que, por sorte, absorveu. Ele a observava atentamente.
— O que é tão irritante? – ele quis saber, deixando de lado toda a sua comida.
— Essa sua mania de ficar me dando ordens o tempo inteiro. Sabe, é por isso que as coisas não estão dando certo entre a gente.
— Não existe nada acontecendo entre nós. – ele se apressou em dizer, mas ela se quer deu ouvidos.
— A cada ordem, cada vez que me diz o que tenho que fazer, não percebe as coisas que tenho feito por conta própria, e então não valoriza o meu trabalho. Como ontem, por exemplo.
Severo suspirou, um pouco aliviado por saber que ela só estava se referindo às pesquisas, o resto todo não tinha importância para ela, aparentemente.
— Não vamos falar sobre ontem durante uma refeição.
— Está vendo? Já está dando ordens, de novo. Você nunca me escuta.
— Eu estou escutando, agora.
— Agora já é tarde para querer me ouvir, eu não pretendo falar mais nada. – ela concluiu, desviando seu olhar do dele e se levantando logo em seguida.
Fez questão de arrastar a cadeira sem a menor sutileza, e se retirou para o banheiro, trancando-se ali. Olhando-se no espelho, viu que suas maçãs do rosto estavam rubras devido o pequeno ato de raiva, e pensou se aquele comportamento deveria ter sido evitado. Estava há tão poucos dias trabalhando na enfermaria, e não entendia como podia estar tão afetada pela convivência com o seu professor. Não tinha se dado conta disso até aquele exato momento, e quase podia jurar que o nível de intimidade entre eles já tinha se tornado assustador.
Hermione só deixou os aposentos quando teve certeza de que ele já tinha saído. Iniciou seus afazeres na enfermaria sem ele por perto, e teria sido perfeito se ela não tivesse se deparado com um prontuário que a deixara em dúvida. Suspirando cansada, se arrastou através dos corredores em direção ao laboratório, onde achava que ele estaria.
Não se surpreendeu quando o encontrou debruçado sobre a bancada preparando ingredientes para uma poção. Sabia que sua presença já havia sido notada, pois viu quando ele inclinou a cabeça levemente para o lado e retomou o trabalho logo em seguida. Mas ele não disse nada, e não a impediu de se aproximar, também.
— Com licença. – ela pediu, encostando na bancada ao lado dele – Gostaria de saber como devo proceder com o paciente deste leito.
Severo continuou com o corte preciso dos ingredientes, mas aos poucos ia diminuindo a força aplicada, até interromper a atividade e deixar a faca que usava de lado. Olhou de relance para o pergaminho que ela depositava sobre a bancada, mas não se deteve por muito tempo.
— Eu poderia lhe dizer o que fazer com esse paciente, mas isso soaria como uma ordem. – ele disse, sem fitá-la – Temo que você não saiba reagir muito bem à ordens.
Hermione segurou o ar nos pulmões, incrédula de que estava ouvindo aquilo. As formalidades tinham sido esquecidas por ele.
— Por acaso, está zombando de mim? – ela perguntou, mudando o peso do corpo para a outra perna
— Não, não estou zombando de você. – ele respondeu, virando-se para ela – Não misture as coisas quando estamos trabalhando.
— Você já misturou tudo quando invadiu a minha privacidade. E depois, sempre estamos trabalhando nesse lugar.
— Se quer tanto fazer por conta própria, me diga você mesma o que seria melhor para esse paciente. – ele disse, apontando para o pergaminho sobre a bancada.
Hermione permaneceu em silencio, mas sustentou o olhar de seu professor. Não tinha ido até ali para isso, afinal.
— Vamos! – ele a apressou – Diga alguma coisa. É a sua vez de ditar as ordens por aqui.
— Eu não sei. – ela admitiu.
— Se esforce. – ele insistiu, empurrando para ela o prontuário – Estou esperando uma ordem.
— Pare! – ela quase gritou com ele – Está me deixando nervosa. Não consigo pensar desse jeito.
Severo parou de pressioná-la, observando-a. Não tinha a intenção de provocar uma nova discussão entre eles, e acabou se arrependendo de tê-la enfrentado, porque ela parecia de fato muito transtornada.
— Então, agora percebe? – ele começou, aproveitando o momento para passar uma lição – É exatamente assim que faz eu me sentir quando não me deixa pensar direito. Dar ordens vai muito além de simplesmente dizer o que você deve ou não fazer, mas também o que é melhor para você. E eu me preocupo com isso. Mas vejo que é desnecessário, você já sabe o que é melhor para si mesma.
Dizendo isto, Severo se afastou após um rápido olhar, não querendo ficar para ver a expressão que ela iria esboçar com as revelações que havia feito.
— Eu não estava me referindo ao trabalho, mais cedo. – ela argumentou. – Eu não me importo de receber ordens para o trabalho.
— Eu achei que tudo aqui fosse sobre trabalho, você mesma disse ainda há pouco. – ele disse, virando-se para poder observá-la reagir – Não há tempo para assuntos pessoais, não é mesmo? Espero que não pense que isso é uma ordem, mas você deveria ir fazer seu trabalho, e me deixar fazer o meu.
Hermione não deixou de demonstrar seu desagrado com os rumos daquela conversa, não queria a inimizade de seu professor, mas também não iria fingir que estava contente com aquele tratamento. Percebendo que não conseguiria mais nada dele, afastou-se da bancada e deu as costas, em direção à saída. Soube que ele tinha voltado ao trabalho de antes quando ouviu o som da lâmina cortando os ingredientes novamente.
— A propósito... – ele disse, detendo-a no batente da porta – Continue com o tratamento anterior, pois os resultados foram positivos para esse paciente.
Hermione suspirou, quase amassando o pergaminho entre os seus dedos. Teria sido tão mais simples se ele simplesmente tivesse dito isso desde o início, mas não, ele tinha que enfrentá-la antes. Não conseguia se acostumar com essa personalidade intensa e confusa do seu professor.
Aquele resto de manhã transcorreu de modo calmo, sem grandes intercorrências na enfermaria. O que tornou mais fácil o convívio entre eles, pois não precisaram estar na companhia um do outro até o final da tarde, quando os elfos trouxeram um café e torradas para o lanche e eles se juntaram à mesa para fazerem a refeição juntos. No entanto, o mesmo silêncio de mais cedo se instalou entre eles, e dessa vez nenhum dos dois ousou iniciar qualquer conversa para desfazê-lo.
Mais tarde, naquele mesmo dia, Hermione estava terminando de arrumar os frascos nos armários de poções, dentro de uma salinha onde só cabia uma pessoa, quando ouviu os passos do seu professor se aproximando. Já era noite lá fora, e o céu parecia nublado, uma leve brisa gelada adentrava pelas frestas das janelas indicando uma noite fria.
Quando pensou ter ouvido um pigarro, estranhou, especialmente porque nada foi dito depois disso. Virou-se imediatamente na direção da pessoa que estava às suas costas, e foi surpreendida por uma mão grande, esguia e suja apertando-lhe o pescoço e empurrando-a contra o armário. Era Argo Filch, o zelador.
— Eu sabia. – ele disse, mostrando seus dentes podres por trás do lábio fino e ressecado — Peguei a senhorita no flagra, como nos velhos tempos, não é mesmo? – seu olhar era assustador e Hermione não se lembrava de já ter estado tão perto dele alguma vez — Pretendia sabotar as poções do professor Snape, não era, sua alunazinha intrometida?
Por um minuto inteiro, Hermione não compreendeu o que estava acontecendo ali. Não sabia como ele havia entrado na enfermaria se as portas estavam fechadas e se sua entrada era terminantemente proibida.
— Não, isso não é verdade. Eu só estava... – ela foi dizendo, mas se deteve quando se lembrou de que não podia contar a verdade sobre seu trabalho.
— Bem que ele me avisou sobre você. Sim, ele me disse que você ia tentar se intrometer nos negócios da enfermaria.
— Ele quem? – ela quis saber, franzindo o cenho diante da ideia de ter alguém falando sobre ela aos outros.
— Não interessa. – o zelador concluiu, movendo seus dedos do pescoço dela e agarrando-a pelo pulso para garantir que não fugisse dele. — Snape vai saber sobre sua tentativa de sabotagem.
Um engano terrível estava sendo cometido, e Hermione podia desfazê-lo, bastando contar a verdade. Mesmo assim, duvidava que aquele homem iria acreditar nela, já que tinha se aproximado com tanto desprezo e tentado machucá-la. Hermione tentou puxar o braço para longe do homem, mas ele não reduziu o aperto. Mais uma vez, ela tentou escapar das garras dele, mas o seu gesto o fez perder a cabeça e empurrá-la para trás com mais força.
O que se seguiu foi uma sucessão de acontecimentos: os frascos de poções balançaram ameaçadoramente nas prateleiras, mas por sorte nenhum deles caiu; os joelhos de Hermione cederam e rapidamente ela foi de encontro ao chão; seus braços bateram em caixotes de madeira que estavam ali e sentiu um puxão nas costelas.
— Solte-a, agora, Argo. – a voz de Severo ressoou através do cômodo minúsculo.
— Senhor, essa intrometida estava tentando...
— Eu disse para soltá-la, não me faça repetir isto mais uma vez. – Severo dizia com firmeza no tom, sentindo as veias em seu pescoço saltando tamanha a raiva que estava daquele homem atrevido — Antes de tomar suas próprias conclusões, consulte-me.
Notando a ira estampada na face do mestre, Filch a soltou contrariado. Com a cabeça abaixada e encarando os próprios sapatos, ele se manteve calado.
— Agora escute, não quero mais os seus serviços. – Severo disse — A partir de agora, irá fazer a guarda dos terrenos da escola e peça à Hagrid para assumir seu lugar.
O zelador se mostrou descontente com a medida, deixando transparecer em uma careta repleta de dentes sujos. Em seguida, ele se retirou, percebendo que não era mais bem-vindo. Ali de baixo, Hermione acompanhou com os olhos as botas do homem afastando-se através do corredor, e se repreendeu mentalmente por ter confundido aquele som com os das botas de Snape.
— Consegue se levantar sozinha? – Severo lhe fez sair do transe em que se encontrava.
Hermione ergueu a cabeça para poder olhá-lo melhor, agora parecia ainda mais alto que antes. Suspirou, jogando um fio de cabelo para longe com um assopro de leve. Estava um pouco envergonhada pela situação em que se encontrava agora.
— Vamos, eu vou ajudá-la. – ele disse, abaixando-se para poder igualar a altura, mas complementou, quando notou que ela não demonstrou reação – Se me permitir.
Naquela posição, sentada no chão gelado praticamente sobre caixotes de madeira, cara a cara com Severo, Hermione se lembrou da tarde de ontem, quando estiveram tão próximos a ponto de sucumbirem a um desejo que fora plantado entre eles, vindo de seus subconscientes. Tinha sonhado com aquele beijo na véspera de ter acontecido, e se lembrava de ter ficado balançada com aquela possibilidade, mesmo que irreal.
Mas ainda assim, não queria pensar naquilo, simplesmente porque eles não estavam interessados um no outro. Pertenciam a posições sociais distintas, realidades adversas e não combinavam em nada, ou quase nada, porque devia haver uma coisa ou outra em que eram muito parecidos e concordavam. Nesse universo de indagações e suposições, Hermione se deu conta de que estava delirando acordada e ele continuava a observá-la, com os joelhos dobrados e uma mão estendida para que ela se apoiasse.
— Nós não temos a noite toda, espero que saiba. – ele disse, erguendo uma sobrancelha para deixar claro sua confusão.
Um pouco envergonhada, aceitou a mão que ele lhe estendia e segurou-a com força para conseguir se erguer daquele chão com a ajuda dele. Uma vez de pé, soltou-o imediatamente e levou ambas as mãos às costelas, sentindo uma queimação. Que situação aquela, pensou.
— Isso deve estar doendo, suponho. – ele disse, notando a expressão que ela fazia.
— Só um pouco.
Mas não era só um pouco, Hermione sabia. Estava doendo bastante, e quando sentiu uma fisgada mais forte nas costas, inclinou o corpo, quase encostando contra os frascos nas prateleiras novamente. Por sorte, Severo foi mais rápido e a afastou do armário a tempo, puxando-a pelos cotovelos até colidir com seu próprio corpo. A sala era pequena e apertada, a aproximação era inevitável.
— Eu tenho uma poção que pode resolver isso. – ele disse, soltando-a para poder alcançar um frasco na estante. – Está aqui, em algum lugar. – ia procurando com os dedos, afastando os rótulos para conseguir identificar as poções – Você tem adquirido mais ferimentos depois que começou a trabalhar aqui dentro do que se estivesse lá fora. – ele divagou, inconsciente de que estava quase abraçado à ela, pois o nariz de Hermione quase podia encostar em sua clavícula. — Estou começando a duvidar se foi uma boa ideia aceitar sua ajuda. E a me sentir culpado, também.
— Isso não foi nada, vai melhorar logo. – ela respondeu, percebendo que o som saia abafado.
Enquanto Severo procurava pela poção, Hermione sugou o ar algumas vezes para controlar as dores que vinham em espasmos, e numa dessas vezes sentiu o aroma de ervas. Então aquele era o cheiro dele, afinal, e só agora ela se dava conta, porque antes estava tão irritada e envergonhada após o beijo, que só quis poder fugir. Agora, ela não tinha para onde ir, e podia apreciar aquele momento o quanto quisesse sem ser acusada de nada.
— Onde diabos eu guardei essa poção? – ele resmungava, revirando as prateleiras com os olhos e os dedos.
— Veja se não está lá em cima. – ela disse, no que ele seguiu seu conselho.
Para alcançar as prateleiras mais altas, ele precisou ficar na ponta dos pés, e assim Hermione sentiu o corpo dele mais próximo. Evitando ser esmagada por ele, sua mão inconscientemente espalmou sobre seu peito, num gesto discreto para garantir alguma distancia de seus corpos. Severo não pareceu notar, porque continuou resmungando sobre não encontrar a poção.
— Eu desisto. – ele disse, por fim, afastando-se de uma vez – Vou precisar prepará-la para você.
— Não é necessário. – ela disse depressa, sentindo-se consciente agora – Como se parece, essa poção?
— Incolor. Não tem como saber se ela não estiver rotulada.
Lembrando-se de algo, Hermione voltou a se agachar para ter acesso às prateleiras mais baixas. Antes do zelador aparecer e criar todo aquele caos, ela estava organizando os frascos, e se lembrava de poções incolores. Estava certa, aquela estava lá mesmo. Levantou-se e mostrou a ele o frasco, no que ele balançou a cabeça em confirmação e indicou que podia beber da mesma. O alívio pareceu quase imediato, o que a deixou bastante contente e grata. Na cabeça de Severo surgiram algumas dúvidas, afinal, será que ela sabia o tempo inteiro que a poção estava naquela prateleira e não nas de cima?
— Tem algo que queria me contar? – ele disse, quando notou que ela ficou calada.
Hermione ergueu o olhar para ele, e relembrou as coisas que o zelador tinha lhe dito.
— Filch falou que alguém o havia avisado sobre mim, que eu tentaria me intrometer... – foi dizendo, mas ele a interrompeu.
— Não dê ouvidos àquele homem, ele nunca foi muito de se levar à sério. Agora vá se lavar e se deitar, precisa descansar também.
Severo não se deu conta, como nunca se dava, mas estava fazendo exatamente aquilo que Hermione vinha discutindo com ele durante todo o dia: dando-lhe ordens. Mas estas, em específico, ela seguiria sem reclamar, porque era tudo o que estava precisando naquele momento. Assim, Severo lhe deu passagem para que ela deixasse o armário e a acompanhou com o olhar até vê-la sumir de vista. Voltou-se para a bagunça deixada no armário e com a varinha arrumou o que pôde.
As coisas tinham acontecido tão depressa, que Hermione não tivera muito tempo para absorver tudo. Em um momento estava ali, sozinha, no momento seguinte estava sendo ameaçada pelo zelador que deveria ser amigável, mas não era. Por sorte, agora ele estava bastante encrencado, pois Severo não o perdoara. Aquilo, por sinal, era outra coisa que iria atormentá-la pelo resto da noite, pois tinha visto como seu professor ficara irritado com o zelador. Com tantas coisas para pensar e refletir, Hermione foi se deitar depois de um banho quente e de vestir o pijama mais confortável.
O que parecia tarefa fácil, se mostrou desafiadora, pois mesmo muito cansada e um pouco dolorida pela aventura da noite, ela simplesmente não parava de rolar na cama. De um lado, para outro, tentando adivinhar o que seu professor estava fazendo naquele momento. Cuidando de algum doente? Administrando poções? Ou preparando poções? Ou cochilando numa poltrona, como tinha visto uma vez que precisou sair para procurar água? Que diferença faria, afinal, cada um tinha uma responsabilidade e sempre revezariam nas tarefas. Nunca iria dividir aquele quarto com ele, numa noite como aquela, por exemplo.
Não estava pensando em nada inapropriado, não, estava apenas imaginando como seria despedir-se dele, algum dia, e cada um se dirigir para a própria cama. Quando acordasse no meio da noite, com sede ou com frio, e virasse para o lado, poderia vê-lo embrulhado nas cobertas. E, quem sabe, entendê-lo melhor, sem toda aquela postura rígida que ele se acostumara a sustentar, dia após dia.
— Inferno. – ela resmungou, jogando as cobertas para o lado. – Desse jeito não vou dormir mesmo.
Sua cabeça não parava de rodar em ideias, pensamentos, suposições, especulações e Severo Snape. Levantou-se da cama, calçando as pantufas e cobrindo os ombros com um casaco que ia até os joelhos, mas sem fechá-lo na frente. Seguiu até o sofá, em frente à lareira que já estava acesa, e sentou-se ali para se esquentar e, ao mesmo tempo, esfriar a cabeça. Não soube quanto tempo passou ali, mas ao invés de parar com os pensamentos, só conseguiu expandi-los para temas diferentes. Percebendo que a noite de sono estava perdida, puxou para o colo alguns pergaminhos da sua pesquisa e se pôs a trabalhar nela. Estava tão submersa nessa atmosfera, que não notou quando o assento ao seu lado foi ocupado por ele.
— Assustei?
— Um pouco. – ela respondeu, com um sorriso discreto e amigável nos lábios, descruzando as pernas que antes estavam dobradas sobre o sofá. – Está calmo lá fora?
— Um pouco. – ele respondeu, encostando as costas contra o encosto do móvel, e perdendo seu olhar no crepitar do fogo. – Talvez o leito quatorze receba alta nos próximos dias, precisamos refazer seus exames para ter certeza.
Hermione concordou com a cabeça, contente com a notícia pois conhecia a aluna que ocupava aquele leito, era uma Grifinória sextanista.
— No que está trabalhando nesses papeis? A sua pesquisa? – ele perguntou.
— Sim. Estava com dificuldade para dormir e decidi concluí-la.
— Você não dormiu nada, ainda? – ele quis saber, se ajeitando no sofá.
Ela só balançou a cabeça, negando. Severo desviou o olhar para a lareira e inclinou o corpo para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos e arrastando os dedos pela face.
— Está cansado, não é? – ela observou-o – Nós podemos trocar nossos horários de descanso de vez em quando.
— Não, eu estou bem. – ele disse, voltando a posição para o normal de antes – Já estou acostumado com noites em claro, mau-dormidas e trabalho sob pressão. Você, no entanto, sentiria falta de uma boa noite de sono numa cama de verdade.
— Eu poderia me acostumar também. E seria temporário, só até o fim da epidemia.
— Vamos manter as coisas como estão, eu prefiro. – ele disse, e pôs fim aquela discussão.
Ele estava certo quando dizia que estava tudo bem.
— O que são essas anotações? – ele perguntou, quase alcançando com os dedos um pequeno pedaço de pergaminho que lhe chamou a atenção.
Hermione foi rápida e tirou o papel de seu alcance.
— Eu estava pensando se não poderia enviar um recado aos meus amigos.
Ela esperou pela reação tempestiva do professor, mas ele apenas a analisou em silêncio, olhando do pergaminho de volta para ela diversas vezes. Por fim, desviou para a lareira e disse:
— Não gosto da ideia. Eles ainda acham que está doente.
— Não pretendo desfazer a mentira, só quero agradecer pelo presente de ontem.
Severo a analisou novamente, mas estava disposto a não criar uma nova razão para discutirem.
— Vá em frente.
Hermione não disfarçou o contentamento, e rapidamente largou os pergaminhos na mesa de centro e se pôs de pé. Caminhou até a janela e afastou o vidro para abri-la, sentindo uma brisa gelada forte vindo de encontro a ela. Com um assovio, chamou uma coruja que não demorou a pousar no parapeito da janela. Estava tarde para enviar recados, mas não podia deixar que o professor mudasse de ideia pela manhã. Severo se ajeitou no sofá e observou enquanto ela amarrava o pergaminho nas garras da coruja, uma bastante espalhafatosa, por sinal.
O vento gelado entrava no quarto e fazia seus corpos estremecerem, mas ao contrário dele, Hermione tinha um casaco, que ele achava desnecessário que estivesse aberto, porque assim só aquecia os braços. E por baixo do casaco, ela vestia um pijama vermelho e dourado, da Grifinória, é claro. As calças de moletom tinham listras e ele não gostava de roupas que tivessem listras, de qualquer tipo que fossem, pois sentia vertigem. Por isso só usava texturas únicas. Ou era preto, ou era branco ou era cinza. Quase nunca ousava uma cor diferente. Mas também gostava de vermelho, e era a cor da camiseta que ela usava embaixo daquele casaco. Vermelho com um enorme leão na frente. O leão ele dispensava, mas o vermelho era uma cor que ele apreciava.
— Vem uma tempestade por aí, professor.
Severo recobrou a consciência e se deu conta de que estava divagando sobre as cores do pijama de sua aluna, quando devia estar apenas descansando para voltar ao trabalho. Viu quando a coruja bateu asas e deixou penas para trás. Um vento soprou mais forte e Hermione fechou o casaco para se aquecer, em seguida fechou a janela.
— Noite fria. – ela disse, quando viu que estava sendo observada.
— Sempre dá para se aquecer um pouco. – ele disse, levantando-se logo em seguida.
Severo caminhou até a sua cama, abaixando-se e retirando debaixo dela algo que deixou Hermione um pouco intrigada. Quando voltou para o sofá, ela já estava acomodada novamente, e ele carregava uma garrafa de vinho nas mãos e dois copos.
— Você bebe? – ele perguntou, sentando-se ao lado dela novamente.
— Eu poderia?
Severo pensou, analisando a situação. Agora sabia que ela era maior de idade e não estava em horário de trabalho, também.
— Não seria eu quem lhe entregaria. – ele disse, oferecendo-lhe um copo.
Hermione aceitou, um pouco sem graça, mas alcançou o copo e segurou-o enquanto era servida. Esperou que ele fizesse o mesmo consigo e, depois que a garrafa fora depositada na mesa de centro, deu o primeiro gole no liquido. Era saboroso e aqueceu quando desceu por sua garganta.
— Só não conte nada à professora Minerva. Da última vez, ela me repreendeu por dias.
Hermione riu, ajeitando-se no sofá, com as pernas dobradas sobre o assento.
— Com razão, é claro. – ela disse – Quem guarda garrafas de vinho debaixo da própria cama, afinal?
Severo lhe direcionou um olhar repleto de diversão, um sorriso tão pequeno nos lábios que quase não poderia ser percebido. Isto era algo que ela não via com frequência em seu professor: sorrisos. Mas ele sempre encontrava uma forma de demonstrar algum divertimento.
— Não deveria beber mais que um copo, professor. Está em horário de trabalho.
— Eu precisaria de muitos copos para sentir qualquer coisa, Srta. – ele disse, dando um novo gole em sua bebida – E você, quantos corpos desse acha que aguenta?
— Não sei, não costumo beber. – ela riu com a própria fala, porque só então se deu conta de que a probabilidade de aquilo dar errado era real.
Severo desviou a atenção toda para ela com aquela revelação. Estava um pouco arrependido da ideia, agora.
— Então vamos estipular um limite, sim? Dois copos, e eu guardo a garrafa.
— Tudo bem, eu talvez só beba este mesmo.
Hermione saboreou o aroma de sua bebida antes de um novo gole, e sentiu-se repentinamente mais leve. Que boa ideia tinha sido aquela. Permaneceram em silêncio, apreciando suas bebidas em silêncio, até uma questão ser levantada.
— Acha que essa epidemia vai acabar logo, professor?
Severo se deteve, pensando a respeito. Era difícil saber, mas também se pegava pensando muito nisso.
— Eu espero que sim. – ele respondeu. – Mas se demorar, o vinho nós já temos.
Ela riu com a piada, embora ele nem tenha notado a graça de sua afirmação.
— O que tinha no seu recado? Aquele que mandou pela coruja?
— Nada demais. Eu só agradeci pelo chocolate e pela rosa. – ela disse, perdendo o olhar no fogo – Era linda, a rosa.
Severo notou que ela mergulhou intensamente em uma corrente de pensamentos.
— Não era de verdade, você sabe. – ele disse, chamando a atenção dela de volta.
— Não era? Mas parecia tão real.
— Não há roseiras em Hogwarts, e mesmo que houvesse, o acesso lá fora está proibido. Foi transfiguração.
Hermione permaneceu em silêncio, curiosa com a questão levantada, porque ela não tinha cogitado que fosse uma rosa falsa. Não fazia diferença para ela, de todo modo.
— Veja. – ele disse, depositando o seu copo sobre a mesinha e alcançando sua varinha – Accio pena.
Quando ele convocou uma pena da coruja que estivera ali ainda há pouco, Hermione se pôs a observar com atenção o que ele pretendia fazer com ela. Com um aceno rápido da varinha, a pena começou a rodopiar entre eles, ganhando uma forma diferente. Então como uma espécie de explosão, deu lugar a uma rosa igual àquela que ela havia recebido, mas não tinha podido ficar. Severo agarrou-a no ar quando a mesma perdeu a flutuabilidade.
— Transfiguração. – ele disse, para provar o que tinha dito.
— É linda, também.
Hermione alcançou-a com os dedos, com cuidado para não encostar nos espinhos, mas como era transfigurada, notou que eles não feriam. Analisou cuidadosamente e sorriu lembrando-se do que Harry escrevera no bilhete.
— Rony não é bom em transfiguração, então alguém deve ter feito isso para ele.
— Então foi o Weasley quem lhe presenteou. – ele não perguntou, mas concluiu.
— Os dois. Mas a rosa foi ideia do Rony, Harry me disse.
Severo se limitou apenas a concordar de leve com a cabeça, recuperando seu copo e bebendo do seu vinho. Hermione pensou ter visto um traço de desconforto na mudança de comportamento dele, mas rejeitou essa ideia porque da última vez tinha achado que ele sentia ciúmes dela toda vez que colocava Rony em alguma conversa. E isso não podia ser verdade.
— Se não me disser o que está pensando, não terá suas respostas, professor. – ela disse, vendo-o tão quieto.
— Mentes ociosas geram dúvidas indiscretas.
De repente, ela temeu tais dúvidas, mas ainda estava curiosa.
— Vamos lá, pergunte. – ela o incentivou a dizer algo.
— Por que não ficou com o Weasley depois da guerra?
De fato, uma pergunta bastante indiscreta. Hermione respirou fundo, incerta de ter aquela conversa com ele.
— Nós ficamos juntos, na verdade. Durante um tempo apenas. – respondeu – Durou pouco, porque me decepcionei muito com ele.
Severo não disse nada, não tinha o direito de opinar. Deixou que ela se sentisse confortável para explicar melhor.
— Não tínhamos tanta coisa em comum quanto pensávamos.
— Compreendo. – ele disse – E suponho que ele ainda tente reconquistá-la?
— Às vezes. – ela concordou, intrigada – Como sabe?
— Não sei. Eu supus e você confirmou. Ele lhe presenteou com uma rosa, afinal.
— Você também. – ela disse, de repente, ainda segurando a rosa transfigurada nos dedos.
Seus olhares de repente se encontraram, em um misto de curiosidade e constrangimento. Ela não tinha pensado muito a respeito quando disse aquilo.
— É diferente, comigo. – ele disse, pisando em um terreno novo, porém sem receio – Eu nunca a tive antes, então reconquistar não seria a palavra adequada.
Hermione entendeu a colocação, mas se sentiu envergonhada com a possibilidade de ser dele, em algum momento. Se ajeitou desconfortável sobre o sofá, e desviou a atenção por um momento, pensando em como mudar de assunto, mas sem perder o fio da conversa.
— Vocês, homens, são todos iguais. Depois que pisam na bola conosco, tentam nos reconquistar. Aposto que já fez isso alguma vez, também.
— Eu não estou certo disso. Você disse “pisar na bola”?
— É uma expressão trouxa. – ela percebeu que tinha o deixado confuso – Significa fazer algo errado, nos decepcionar, eu quis dizer...
— É, então sim, eu já fiz muito. Já decepcionei muitas pessoas antes.
— Mulheres? – ela quis saber, sentindo-se repentinamente curiosa para ter aquele diálogo.
— Sim, quase todas com quem já estive.
Hermione não tentou disfarçar seu estranhamento por aquela afirmação, pois parecia cruel que ele tenha causado tanto mal a tantas mulheres. Estaria sendo sincero, realmente? Severo notou a reação dela.
— Eu nunca me comprometi com nenhuma mulher com quem tenha me envolvido antes. Isso já é uma grande decepção, porque elas sempre esperam por algo que não posso oferecer a elas.
Ela refletiu sobre aquilo, esvaziando seu copo de vinho, no que ele notou e voltou a preenchê-lo. Como tinham combinado, seriam dois copos para ela apenas. Aproveitou para encher o seu também.
— Eu nunca estive com mais ninguém além do Ronald. – ela confessou, dando um longo gole em seu vinho para disfarçar a vergonha diante da revelação.
Dessa vez, foi ele quem se deteve para refletir a respeito. Se sentia um pouco mal agora. Teria sido o segundo a beijá-la, também? Não, claro que não, não fazia sentido pois se lembrava de pelo menos dois rapazes em Hogwarts com quem a viu acompanhada: o búlgaro e aquele McLaggen.
— Eu teria facilmente me contentado em estar com uma única pessoa se as circunstâncias na minha vida tivessem sido diferentes. – ele aproveitou para admitir, já que ela tinha sido tão sincera com ele – Agora, isso não é mais possível.
— Sabe o que mais me incomodou quando me beijou? – ela o desafiou a responder, já que estavam abrindo o jogo sobre suas vidas particulares.
— Eu já lhe pedi desculpas sobre isso, foi um ato totalmente impulsivo e... – ia dizendo, mas foi interrompido.
— E eu já aceitei suas desculpas.
Disso ele não sabia, achava que ela ainda estava furiosa com ele, visto o jeito que o tratara o dia todo.
— Não, não sei o que lhe incomodou quando a beijei. Poderia me dizer?
— Eu tive a sensação de que podíamos ter feito mais que aquilo, naquele momento, ali mesmo. – ela disse, sem saber de onde tirava tanta coragem para confessar aquilo – Mas acabei reagindo daquele jeito.
— Com violência, você quer dizer. – ele deixou escapar um riso pelo canto dos lábios.
— Me desculpe por aquilo.
— Quando foi a última vez que esteve com... você sabe com quem? – ele não conseguiu colocar um nome naquela frase, mas depois se arrependeu da pergunta, porque era pessoal demais – Não precisa responder, se não quiser.
— Já faz tempo. Rony tinha dificuldades em ser fiel, então eu me cansei dele.
— Ele fez isso com você? – Severo parecia surpreso e indignado.
— Muitas vezes. Eu não sei se conseguiria confiar em outra pessoa, por causa disso.
— Nem todos serão iguais a ele, fique tranquila.
Hermione bebericou do seu vinho novamente, sentindo que estava ficando um pouco tonta, mas uma sensação boa que ela não queria parar de sentir.
— E você? – ela quis saber, notando um sorrisinho se formar em seus próprios lábios – Serei eu a única a ficar constrangida nessa conversa?
Severo deixou um riso escapar entre as narinas.
— A última vez foi antes do início das aulas.
— Caramba. – ela exclamou, quase derramando o vinho de seu copo, atitude que não passou desapercebida por ele – Só faz algumas semanas que retornamos para o castelo. Vamos, me dê um nome. É alguém que eu conheço?
Hermione ia dizendo e se aproximando mais dele no sofá que dividiam, um pouco animada demais para obter aquela informação.
— Não, definitivamente, ninguém que você ou qualquer aluno conheça. – ele respondeu – Acho que já podemos parar com o vinho, não é mesmo?
— Não, ainda é cedo para pararmos. – ela disse, descruzando as pernas e fazendo menção de se inclinar para alcançar a garrafa e encher seu copo novamente.
— Não vou deixar que faça isso, Granger. – ele disse, parando-a com a mão sobre a sua.
— Tem razão. Eu acho que vou para a cama.
Por alguma razão, não estava mais tão animada depois de saber tantas informações pessoais sobre ele. No momento em que foi se levantar, seu pé esquerdo tropeçou contra o direito e seu corpo cambaleou ameaçadoramente. Por sorte, seu copo estava vazio e nenhum acidente aconteceu, mas obrigou Severo a segurá-la pela cintura para evitar um desastre.
No entanto, Hermione inconscientemente agarrou-o pelos ombros e arrastou-o junto com ela de volta para o sofá. Com um movimento rápido, Severo conseguiu cair sentado ao lado dela, e não sobre ela, como teria sido. Mas os braços da moça ainda contornavam seus ombros e ele se viu ameaçadoramente próximo de sua face.
— Já pode me soltar, você está segura agora.
Ajudando-a a separar-se dele, Severo guiou os braços dela para o seu colo, cuidadosamente. Hermione conteve um acesso de riso que ameaçou deixar escapar, quando percebeu que ele estava sério. Para Severo, parecia óbvio que o álcool tinha causado aquilo tudo, e se sentiu um tolo por ter permitido que ela bebesse com tão pouca experiência.
Mesmo que estivessem novamente acomodados ao sofá, ainda estavam muito próximos, o que permitiu que Hermione alcançasse as mãos dele nas suas. Aos poucos, seus dedos iam subindo, traçando um caminho, percorrendo uma extensão de pele exposta do antebraço de Severo, sentindo a textura da pele, dos pelos. Ele não se opôs ao carinho, mas se questionou internamente se era ético permitir que aquilo continuasse.
— Eu não estou bêbada.
Severo franziu o cenho diante da afirmativa, dita sem nenhuma cerimônia.
— Você leu minha mente?
— Eu conseguiria, se tentasse? – ela foi retórica, erguendo o olhar para ele – Sua mente é mais inacessível que seu corpo, pelo que estou notando.
— O que quer dizer com isso?
— Que ainda não fugiu do meu toque. – ela disse.
— Prefiro manter seus dedos ocupados, do que livres para me acertarem um tapa, novamente.
Ambos deixaram uma risada de leve escapar. Agora que tinham acertado suas diferenças, era engraçado se lembrar daquele inconveniente. No entanto, ainda não estava claro para eles o que estava acontecendo naquele exato momento, pois nunca antes tinham se permitido tanto contato.
— Você estava indo se deitar. Mudou de ideia? – ele perguntou, esperando por uma reação dela.
— Tem razão. Eu vou para a cama, e você pode voltar para o trabalho.
Severo se repreendeu internamente por ter feito uma pergunta tão estúpida, pois só conseguira fazer com que ela se afastasse dele. Dessa vez, Hermione levantou do sofá calmamente, sem tropeços, e se encaminhou para a sua cama vendo-o se afastar dela, embora muito lentamente. Ele não estava muito disposto a deixá-la ainda, mas não via muitos motivos para continuar, também, especialmente porque já era tarde e ela não tinha dormido nada ainda.
— Talvez eu esteja um pouco tonta, sim.
Severo tinha acabado de dar-lhe as costas quando ouviu ela dizer. Virou-se no mesmo instante e observou-a sentar-se na cama retirando o caso dos ombros e depositando-o em uma mesinha ao lado.
— Então porque não aproveita que já está na sua cama e descansa? Vai fazer bem.
— Eu não estou cansada.
Ele se aproximou dela novamente e sentou-se ao seu lado na beirada da cama, meio de frente e meio de lado para o corpo dela. Severo ainda se surpreendia com o modo como se preocupava com a saúde e o bem-estar da jovem, muitas das vezes em exagero.
— Mas você precisa descansar, Granger. – disse, levando uma mão em direção à face dela, afastando de lá os cabelos que cobriam seu rosto.
O gesto não foi pensado, mas também não se repreendeu pela ousadia. A reação dela foi a melhor possível, pois fechou os olhos e aproveitou o contato. Na cabeça de Hermione só havia um vazio agora, pois seus pensamentos estavam todos longes, vagando pelas sensações que seu corpo estava promovendo.
— Eu deveria voltar ao meu trabalho agora. – Severo quebrou o silêncio, mas com sua voz arrastada, inebriado pela circunstância.
— Tem alguém precisando de você lá fora?
— Não, mas...
— Então fica, e vamos terminar aquela conversa. – ela disse, abrindo os olhos para encontrá-lo olhando-a muito intrigado.
Os dedos de Severo escorregaram pelas laterais do rosto dela e fizeram um carinho em sua orelha antes de voltarem para o seu colo, onde seguraram as mãos dela fortemente. Seu peito arfava diante da possibilidade de algo novo e inusitado estar acontecendo entre eles, pois ainda tinha dúvidas se devia permitir ou não.
— O que mais quer saber? – ele perguntou.
— Por que me beijou, professor?
Severo fez uma careta quando recebeu aquela pergunta, e se apressou em explicar quando ela se movimentou desconfortável.
— Não me chame de professor quando eu estou dividindo a cama com você, tocando em você e imaginando milhares de formas de continuar a fazer isso sem parecer que estou me aproveitando da situação. – ele deixou um sorriso brincar no canto de seus lábios para dar algum ar de diversão a sua colocação, e relaxou quando viu Hermione sorrir também – Eu não tenho uma resposta para a sua pergunta, porque eu não tinha pensado naquilo até ter feito.
— Isso nunca tinha acontecido com a gente antes. – ela comentou.
— Com os homens, os interesses surgem de muitas formas. Basta um olhar, um toque, um gesto mais feminino...
— Está dizendo que seu interesse por mim foi físico? – ela não tinha certeza se deveria se sentir ultrajada com aquela constatação, ou lisonjeada.
— Talvez. – ele disse, incerto se estava pisando em terreno novamente perigoso – Mas eu não raciocinei claramente naquele momento...
Severo não teve tempo de concluir sua fala, pois foi interrompido quando ela se levantou de joelhos e se aproximou ameaçadoramente, apoiando-se nos ombros dele. Pensou que ela estivesse com algum problema e se colocou ereto para ajudá-la no que fosse preciso, mas essa não era exatamente a grande questão, pois ela só queria invadir o espaço dele para deixá-lo ainda mais deslocado.
— Amanhã, quando me perguntar por que eu fiz isso, eu vou dizer que não raciocinei claramente, também... – ela disse, mas ele ficou confuso.
A confusão de Severo não durou muito, pois ela o alcançou com seus lábios em um beijo casto, a princípio, apenas para testar a textura, o sabor e a temperatura. Percebendo que ele não demonstrou resistência e sim, bastante receptivo, provoco-o com uma passada rápida da língua, deixando um rastro úmido pelo caminho, desde o centro até a lateral dos seus lábios. Foi a vez dela de se sentir confusa, quando notou que ele não abriu passagem para ela, em seus lábios.
Quando ela estava quase se afastando dele, sentiu ser segurada firmemente pela cintura, enquanto a outra mão dele preenchia toda a lateral do seu rosto, forçando-a a encará-lo olho a olho. A escuridão na íris dele nem de longe representava o que ele estava sentindo, pois agora havia luz dentro dele. Seu corpo estremeceu com aquele contato, imaginando o quão facilmente ele poderia manuseá-la e ela apenas cederia. Com o olhar, eles poderiam traçar uma conversa inteira e se entenderiam sem nenhuma dificuldade, mas era com os lábios que eles queriam ter aquele diálogo.
Um novo beijo ganhou forma, com novos movimentos, novas sensações e um gemido de pura satisfação. A cama agora parecia pequena perto do desejo crescente que estava surgindo, da pressa em demonstrar que só o beijo não era suficiente. Rapidamente, ele conseguiu devolvê-la sentada para a cama e se posicionou entre as pernas dela, tomando cuidado para não sufocá-la com seu peso, nem assustá-la, pois era isso que mais temia. Quando o ar se tornou escasso, eles precisaram diminuir o ritmo, aprendendo a apreciar o contato com mais sutileza e serenidade.
Severo precisava se lembrar que tinha que ir com calma com ela. Não era como as mulheres que era acostumado a sair, a se relacionar nas tabernas escuras e nos quartos frios das estalagens bruxas, onde buscava companhia para aplacar seu desejo por sexo, puramente sexo. Só então ele se deu conta de que nem mesmo sexo conseguiria ter com ela, afinal, se ela, que era jovem, atraente, e desejada pelo mundo bruxo – e trouxa -, só tinha estado com uma única pessoa, como poderia permitir que ele a tocasse mais do que aquilo?
Percebendo que uma dúvida havia se instalado na mente de Severo, vendo o modo como ele passou a olhá-la, Hermione supôs que ele estava em dúvida se o que estavam fazendo era correto, ou se ela iria a qualquer momento jogá-lo para longe, ou estapeá-lo novamente. Não era sua intenção, no entanto pois estava consciente de que tinha dado início aquilo tudo. Na posição em que se encontrava, sob o corpo dele, não podia fazer muito, mas fez questão de acariciá-lo na face com a ponta dos dedos, tomando cuidado para não deixar nenhuma marca com as unhas um pouco compridas. Só queria que ele soubesse que ela apreciava cada instante que estavam tendo.
Os dedos dela seguiram um caminho, descendo pela lateral do pescoço dele, afastando o colarinho da camisa para tocar na pele macia. Escapou seus dedos até alcançar os primeiros botões daquela peça tão grossa, mas encontrou dificuldade no processo. Percebendo, Severo cuidadosamente alcançou os dedos dela com os seus e os guiou para a lateral do seu rosto, onde tinham iniciado aquele trajeto. Ele próprio iria abrir os botões, porque tinha experiência em fazer aquilo todos os dias. Hermione ia acompanhando com os olhos, atentamente, admirando a destreza com que ele executava a tarefa.
Não estava claro até onde iriam com aquilo, mas o pouco de contato que tivessem já seria suficiente para ambos. Hermione se concentrou em escorregar os dedos novamente, descendo pelos ombros descobertos, pela clavícula, pelo abdômen, perdendo-se na cintura do homem que nunca antes vira despido, nem o mínimo possível. Sua admiração foi interrompida quando ele capturou seus lábios novamente, com mais pressa que antes. Cada pequeno pedaço de pele que Hermione tocava, era uma reação nova e diferente que subia pela espinha dele, aumentando seu desejo e sua falta de raciocínio.
Ela quis mostrar que ele podia brincar com a pele dela, se quisesse, pois não seria injusta de privá-lo de toda a diversão. Esticou o pescoço para permiti-lo caminhar com os lábios através dele, depositando beijos molhados que iam sem caminho definido. Hermione suspirou, sentindo um arrepio na espinha, também, e uma necessidade sem precedentes de impedi-lo de sair de perto dela. Dessa vez, foram os dedos dele que acariciaram a pele dela, descendo pelos ombros, afastando as alças finas da camiseta, as laterais de seus seios, ainda cobertos. O arrepio gerado provocou uma reação imediata, forçando-a a abrir os olhos para ter certeza de que estava vivendo aquilo.
Por um instante, Severo achou que aquele seria o derradeiro desfecho daquela situação, quando os olhos dela penetraram nos seus num misto intenso de sentimentos, impossíveis de serem interpretados. Mas não, ela só se movimentou embaixo dele, meio inconsciente do efeito que aquilo causou no corpo dele, que reagiu imediatamente, e com um gesto ligeiro ela conseguiu se desfazer daquela camiseta que o impedia de vê-la melhor. Ainda havia uma peça íntima cobrindo os seios de tamanhos perfeitos, mas tinha demorado tanto para chegar até aquele estágio, que só aquela visão bastava para provocá-lo.
Severo buscou pelo olhar dela para ter certeza de que ela estava segura quanto àquilo, e quando o captou, não precisou de muita especulação para ver neles a determinação dela em continuar. Daquele momento em diante, os gestos se tornaram precisos, nos pontos certos que lhe davam o prazer que tanto buscavam. Os dedos se confundiam dentro das roupas, se perdiam nas linhas do corpo, se detinham tempo suficiente para arrastar um gemido dos lábios. Os beijos não se limitavam apenas aos lábios, mas a todos os pedaços de pele que podiam alcançar.
Com um sutil movimento, Severo fez com que ela se sentasse na frente dele, de costas para ele, e com isso pôde enchê-la de beijos e carícias no pescoço, nos ombros, nas costas. Aproveitou para desfazer os fechos da peça intima que lhe cobria o busto, e revelou os seios dela, os quais ele capturou com as mãos para sentir e se saciar. Ela gostou da atitude e se movimentou contra o corpo dele, pedindo por mais carícias. Ele a colocou de frente para ele e apreciou a visão antes de cobri-la com o próprio corpo.
Hermione só então se deu conta do tamanho do desejo dele, quando o sentiu entre suas pernas. Por um instante achou que seria capaz de pedir para ele parar, mas achou que seria uma grande covardia fazer isso naquele ponto em que chegaram. E depois, não era essa a sua vontade, de todo modo. Ela levou as mãos até o cós da calça que ele vestia, sinalizando que podia retirá-la se quisesse. Ele entendeu o gesto e o fez, sentindo-se aliviado em poder libertar seu desejo, mas receoso de como ela reagiria diante do óbvio. O que ele não tinha se dado conta era que ela não apenas já tinha reagido a isso, como também tinha se livrado da própria calça enquanto ele se despia. Agora não era mais as listras do pijama dela que o incomodava, e sim a vontade de acabar com aquilo de uma vez por todas.
— Eu quero você, agora mesmo. – ele deixou a súplica escapar por seus lábios.
Ela não disse que sim, mas também não o rejeitou. Aquilo bastou para que ele a penetrasse sem cerimônia, com urgência, arrancando-lhe um gemido e fazendo-a arquear o corpo em nítida satisfação. Ela podia ter estado na cama com apenas um homem, mas isso não a tornava menos atraente, menos fogosa, nem menos experiente. Hermione ia movimentando-se com ele, seguindo o ritmo e o acelerando perto do seu orgasmo. Ele sabia reconhecer o momento, e sabia como ajudar a tornar o prazer mais intenso. Hermione contorceu-se, satisfeita com a sensação de relaxamento, e observou-o modificar a própria expressão quando ele também atingiu o gozo. Estava feito.
A respiração de ambos agora estava entrecortada, e gotas de suor despontavam de suas têmporas, entre os seios dela, tornando óbvio que ele não era uma pessoa tão fria, como em seu sonho. Ela deixou um sorriso moldar seus lábios, depois de um beijo delicado e demorado que fora depositado neles, indicando o quanto ele estava satisfeito com o que ela lhe proporcionara. Seus corpos se separaram, mas ela o interrompeu quando o viu buscando as peças de roupas ao lado.
— Não vai ficar?
— Preciso voltar para o trabalho. – ele disse, correndo um dedo pelos lábios vermelhos que ainda queria beijar – Mas você deve descansar.
Hermione não sabia se era certo se sentir daquele jeito, meio rejeitada de repente, porque ele não estava indo para tão longe, afinal, mas também o queria perto dela. O que tinha acabado de acontecer não era um romance, estava longe de ser, mas era isso que a preocupava agora, pois nunca tinha vivido um caso que não fosse um romance antes. Tinha que dizer alguma coisa? Não sabia nem como se comportar.
— Você vai ficar bem? – ele perguntou, já vestido com as calças.
Ela se limitou a balançar a cabeça dizendo que “sim”, apenas. Mas como saberia se ficaria bem se nunca tinha ficado daquele jeito antes, tão exposta diante de alguém que não se daria nem ao trabalho de deitar a cabeça em seu peito depois de lhe proporcionar tanto prazer.
Severo aceitou que o gesto era sincero e, com um último carinho nas maçãs do rosto dela, se afastou da cama, terminando de abotoar os botões da camisa à medida que ia partindo para longe. Hermione puxou as cobertas sobre o corpo e virou-se de lado, fitando o sofá onde tudo tinha começado: o bilhete para os amigos, a conversa com seu professor, o vinho que lhe fora servido, o flerte que resultou naquela tórrida transa. Sorriu, porque tinha mais motivos para sorrir do que lamentar o fato de estar sozinha agora.
“If I lay here, if I just lay here
Would you lie with me
And just forget the worl”
Snow Patrol, Chasing Cars
“Se eu deitasse aqui,
se eu apenas deitasse aqui
Você deitaria comigo
E esqueceria do mundo?”
Snow Patrol, Chasing Cars
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