Notas iniciais
Esta história marca o meu retorno à escrita das fanfictions e tem um peso maior pois aqui escrevo sobre o meu shipper favorito da vida.

As incertezas eram muitas. Não saber o que aconteceria àquelas pessoas enfermas, não saber como se proteger ou se quer como fazer aquilo parar. Tentar entender como começou era ainda mais difícil, porque não se sabia nada a respeito daquele surto. Apenas um monte de gente ficando doente ao mesmo tempo e sendo levadas para um isolamento rigoroso.

Todas as manhãs, era sufocante a atmosfera de medo que se espalhava entre os alunos, sem saber quem seria o próximo a ser levado para longe. Qualquer um estava sujeito à contaminação, aparentemente, não havia um padrão. Eles tentaram alertar para o contato físico, ninguém podia se abraçar ou se tocar, era a ordem. Por isso, andavam sempre a uma distância razoável uns dos outros, o que causava ainda mais insegurança e afastamento social.

Naquela manhã, em específico, havia um burburinho intenso nas mesas do Salão Principal durante o desjejum, especialmente depois que os jornais bruxos foram trazidos pelas corujas através do correio. As manchetes diziam que Hogwarts não era um lugar seguro e que, em breve, reforços seriam enviados pelo Ministério.

Haviam inúmeras teorias de conspiração circulando pelos corredores, durante as aulas ou nas conversas em grupo. Desde sabotagem dos elfos até um plano maligno de ressurreição de Voldemort. Eram tantas absurdidades que ficava difícil ter uma conversa saudável com os colegas. Afinal, dava para responsabilizar alguém?

As aulas transcorreram normalmente naquele dia, como nos dias anteriores. Não havia nenhuma proibição nesse sentido, apenas para as aulas práticas ao ar livre e qualquer outro tipo de atividade que representasse perigo aos alunos, uma vez que o atendimento na enfermaria da escola era restrito aos casos graves da doença. Ninguém mais podia errar o feitiço nas aulas e fazer crescer os dentes do colega ao lado, porque não haveria ninguém para fazê-los voltar ao tamanho normal depois.

Ao final daquela aula, no entanto, os alunos foram surpreendidos com a entrada abrupta de dois professores, impedindo que alguns estudantes deixassem a sala. Havia um misto de curiosidade e temor pairando no ar.

— Todos de volta aos seus lugares, por favor. – disse a professora McGonagall, sinalizando aos alunos para se sentarem, enquanto caminhava a passos largos até a frente da classe.

Atrás dela, vinha a figura imponente do professor de Poções, Severo Snape, caminhando sem desviar a atenção para os lados, enquanto, com a varinha em punho, fechava todas as janelas e persianas, deixando apenas a chama das tochas clareando o ambiente, cujo crepitar do fogo podia ser ouvido tamanho o silêncio que se formou. Uma vez à frente da classe, se posicionou ao lado da professora e guardou a varinha na manga do casaco pesado, só então percebendo que toda a atenção estava voltada para a sua figura negra e impassível.

— Isso tudo era mesmo necessário, Severo? – Minerva sussurrou, apenas para ele ouvir – Não consigo ver nada desse jeito.

— A claridade me incomoda. – respondeu, soltando um suspiro resignado quando acendeu mais algumas tochas ao longo da sala com feitiços não verbais.

— Agora sim, obrigada. – sussurrou, grata. – Bom dia a todos. – cumprimentou os alunos, notando suas caras de temor após entrada tão teatral – Acredito que não seja desconhecido de nenhum dos senhores que nossa escola está passando por um momento difícil em termos de saúde. Muitos estudantes estão sendo acometidos de uma enfermidade de causas ainda desconhecidas e, na posição de Diretora desta escola, tenho o dever de comunicá-los sobre algumas medidas que estarão sendo tomadas para conter o avanço dessa doença e proteger a saúde de todos.

Desde a chegada dos alunos à escola, em primeiro de setembro, até o surgimento do primeiro caso grave da doença, sete dias depois, nenhum pronunciamento havia sido feito por parte da direção. Tudo o que se sabia, até agora, era o que se especulava nos corredores e no pouco que se lia a respeito nos jornais. Agora, no décimo dia do surto dessa doença de origens incertas, finalmente alguém falaria sobre ela.

— Ainda não sabemos como ocorre o contagio da doença, no entanto, sabemos que é eficiente separar os doentes dos saudáveis. Por isso, devo informá-los que as aulas estarão suspensas até segunda ordem, sem exceção. – continuou, mas o burburinho que se formou a impediu de continuar.

Aparentemente, a decisão não agradava a maioria, visto que o ano letivo sequer havia começado.

— Escutem... – prosseguiu a diretora, sendo ouvida dessa vez – Com a suspensão das aulas, esperamos evitar grandes aglomerações, por isso, comunico o fechamento das fronteiras de Hogwarts. Ninguém poderá deixar a propriedade, exceto em casos excepcionais. Quanto à entrada, apenas com autorização.

Uma nova onda de rejeição tomou conta dos alunos ali presentes.

— Isso é um absurdo. – um aluno protestou, levantando-se de sua cadeira para ser visto por todos – Não vamos aceitar isso, o que estão planejando fazer conosco?

— Sente-se, Sr. McTavish. — Minerva ordenou, sem ser obedecida.

— Queremos ir embora agora mesmo! – o rapaz voltou a dizer, um tom ainda mais alto, sendo ovacionado por alguns colegas próximos que acreditavam em seu discurso.

— SILÊNCIO!! – o grito de Snape reverberou pela classe, pondo fim às conversas paralelas.

Normalmente, o tom de voz do professor era baixo, sussurrante e sorrateiro. Nunca antes o haviam visto levantar o tom, nem mesmo em sala de aula. A atitude causou espanto por parte dos alunos, que se ajeitaram em suas cadeiras em respeito à ordem imposta. Sentada na segunda mesa, na fileira central da sala, Hermione Granger finalmente se lembrava de respirar, após segurar o ar em seus pulmões. Sempre tivera fascínio pelo modo como seu professor conseguia impor sua autoridade diante de uma classe barulhenta e mau educada, apenas com uma postura séria e um tom de voz que aparentemente não combinava, suave e cálido. Nunca imaginou que viveria para vê-lo perder a postura.

— Não viemos até aqui para pedir-lhes a opinião, e sim para informá-los das medidas que já foram tomadas. – continuou o professor, agora recebendo toda a atenção necessária

— Com a suspensão das aulas, a partir de hoje, os senhores serão postos em isolamento em suas respectivas casas. Ninguém entra e ninguém saí sem autorização. – Minerva deu continuidade, agradecendo mentalmente ao mestre por ter posto ordem –E qualquer ato de rebeldia será punido de acordo com a gravidade. Devo informá-los que estaremos sendo monitorados pelo Ministério da Magia nos próximos dias, portanto, as punições podem ser mais severas ainda. – deu uma pausa, observando o efeito causado – Atualmente, dezesseis alunos encontram-se hospitalizados em nossa enfermaria, sob os cuidados de nossa equipe. Deste quantitativo, cinco se encontram em estado grave e uma dessas pessoas é nossa querida professora de Adivinhação, Sibila Trelawney.

Após as informações, uma onda de vozes se fez presente, porém em tom mais baixo que outrora, demonstrando que as notícias os surpreenderam.

— Vocês nos trouxeram de volta à Hogwarts para nos matar, foi isso! – Trevor McTavish, o aluno mais revoltado naquela sala, volta a bombardear com palavras.

— Ninguém o abrigou a voltar para Hogwarts, se quer saber. – Hermione o ataca, ferina.

Ela não tinha planejado um retorno letivo com tanta insegurança e perigos, afinal, tinha lutado bravamente ao lado dos amigos para conquistar a liberdade e o direito de viver sem medo.

— Eu fico me perguntando por que essas coisas ruins não acontecem com pessoas iguais a você. – disse o rapaz, se aproximando da mesa onde Hermione estava — Sua metida a espertinha. O que vai fazer agora, descobrir a cura para a doença?

— Eu poderia, facilmente, se usasse a minha inteligência para isso. Ao contrário de você, que se quer tem uma para usar.

— Ora, sua... – as palavras ficaram no ar quando um feitiço silenciador o atingiu.

A cena teria sido engraçada se a situação toda não fosse trágica. Hermione procurou pela pessoa que teria feito o rapaz se calar, e a encontrou quando viu seu professor aproximando-se e puxando o aluno através das mangas do uniforme, apresentando-o à turma como um animal recém abatido.

— As punições começarão a ser aplicadas nesse exato momento. – disse o professor – E vale para qualquer um que tentar ir contra as ordens.

Antes de deixar a sala com o aluno desobediente em seu encalço, Snape direcionou um último olhar a sua aluna, sem expressar nada em específico, mas esperando que ela entendesse que, por hora, havia escapado de uma punição, mas não iria livrá-la numa próxima. A garota lembrou-se de respirar apenas quando a silhueta do mestre sumiu ao longe das portas de carvalho. Com uma última ordem, a diretora pediu a todos para retornarem às suas casas.

Estava claro que não haveria chance de escapar das regras impostas. O isolamento social era, aparentemente, a medida mais certa para evitar o avanço da doença, sendo assim, os alunos finalistas e todos os demais cumpriram a ordem sem mais resistência. Hermione estava inquieta com seus pensamentos a mil, desejando entender melhor as circunstâncias dos fatos. O que seu interior lutava, na verdade, era para apagar a lembrança de um professor autoritário que a olhara de um jeito tão diferente, despertando um misto de sentimentos sem explicações até o momento.

— Harry, Ron... – chamou os amigos – Eu preciso ver a professora McGonagall. Por favor, não me esperem para o jantar.

— Hermione, não é seguro andar pelos corredores, sozinha. Você ouviu o seboso... – Rony disse, sendo repreendido pelo olhar da garota.

— Eu sou monitora chefe, Ronald, eu tenho o direito de andar pelos corredores. Vejo vocês mais tarde e, por favor, vão direto para a Grifinória, tudo bem?

Não sabia se podia realmente confiar nos amigos, afinal, um resto de tarde livre era um convite muito tentador para um passeio nos jardins. Despediu-se dos rapazes e seguiu em direção à sala da Diretoria, o mesmo que fora ocupado por Alvo Dumbledore quando em vida. A sala continuava igual a como se lembrava, nada havia sido modificado, nem mesmo os móveis foram trocados de lugar. No entanto, não havia mais a presença calma do velho sábio mestre por quem tinha tanta admiração.

— O que essa garota faz aqui? – Trevor, o aluno desobediente, a recepcionou assim que Hermione atravessou a gárgula.

— Fique quieto. Ou prefere que eu o cale novamente? – disse o professor, saindo de trás de uma estante, carregando nas mãos alguns fracos e plantas que Hermione não pôde reconhecer, parando para observá-la em seguida.

Aluna e professor se encararam por instantes, até ela perceber que tinha ido até ali com um propósito em mente.

— Gostaria de fazer algumas perguntas à professora McGonagall, senhor. Onde posso encontrá-la? – perguntou.

— Sua professora está ocupada, agora. Todos nós estamos ocupados demais para responder suas perguntas, srta. Granger. – respondeu o homem, rispidamente.

Sempre esteve acostumada com esse tratamento por parte do professor, afinal, foram raras às vezes em que ele a selecionara durante as aulas para responder algumas de suas perguntas, mesmo que fosse a única a saber a resposta. Agora não seria diferente, pensava. Nada havia mudado para ele, evidentemente.

— Sua punição é separar as folhas destas plantas, Sr. McTavish, e acondicioná-las nestes frascos com o máximo de cuidado para não os contaminar com suas mãos imundas. – disse para o rapaz, depositando o material sobre a mesa. – Você tem duas horas para fazer isso.

O rapaz franziu os lábios em sinal de reprovação. Severo, no entanto, agradecia pela oportunidade de designar aquela atividade à outra pessoa, só assim poderia parar um tempo para ler as suas anotações e terminar as pesquisas que vinha fazendo. Porém, uma aluna ainda permanecia parada no meio do salão, bisbilhotando com nítida curiosidade o seu trabalho.

— Tudo bem, faça suas perguntas. – disse, mesmo contrariado, afinal, era o único jeito de se ver livre da moça.

Hermione não entendeu de primeira, tinha sido pega de surpresa. Mas no instante seguinte se tocou que não poderia perder aquela oportunidade. Tirando de dentro da sua mochila um caderninho de anotações e uma pena, além de uma infinidade de coisas que nem sabia porque carregava consigo, aproximou-se da mesa da diretora e depositou seu material sobre ela. Estava nervosa, mas ansiosa para aquela conversa.

— Se vamos ficar em isolamento por tempo indeterminado, acredito que seja importante saber identificar os sintomas da doença, professor.

Não podia negar que era uma questão bastante pertinente, porém, não deixaria claro, isso só elevaria ainda mais o ego de sua aluna, que já era bastante inflado, na sua opinião. Caminhou até a mesa da diretora, apoiando-se com o quadril nela e cruzando as pernas para ganhar equilíbrio. Os braços, automaticamente cruzou à frente do peito, como costumava fazer durante as aulas. Porém, aquela não era exatamente como uma aula.

— Inicia como um resfriado comum. – disse para a aluna, vendo-a voltar-se imediatamente para o seu bloco de anotações – Com tosse seca, espirros e produção de secreção nos pulmões. Normalmente evolui para quadros de pneumonia aguda com febre de mais de trinta e oito graus, podendo apresentar calafrios, confusão mental e até mesmo convulsão. – continuou observando-a anotar as informações freneticamente – Nesse momento, é recomendado procurar ajuda medibruxa, pois o quadro pode evoluir para perda progressiva da consciência.

Hermione rabiscou a última informação em seu bloco e levantou a cabeça novamente para o professor, mas notou que havia uma expressão sombria em seu rosto, determinada pelo cenho levemente franzido. Arrumou uma mecha de seu cabelo encaracolado que caia fora do coque no alto da cabeça, pondo-a para trás da orelha, inconscientemente, e notou a forma como os olhos do professor seguiram o movimento, perdendo-se logo em seguida em algum ponto inespecífico.

— Professor... – chamou a sua atenção, o que demorou alguns breves instantes para acontecer. – E o resto? É só isso?

— O resto, não convém descrever. – disse, com o mesmo tom de voz de sempre.

— Mas é importante que eu saiba... – tentou, porém não conseguiu concluir.

Com um movimento, Severo se afastou da mesa onde estivera encostado e seguiu para trás dela, um pouco desconcertado com a cena que havia representado. Não pretendia demonstrar sua preocupação sobre aquela doença, mas temia que não tivesse sabido disfarçar. Relatar os sintomas, fazia-o lembrar-se do que havia presenciado na enfermaria, até aquele momento.

— A senhorita já pode se retirar. – ordenou, ainda de costas.

— Senhor, permita-me ajudar de alguma forma. Eu tenho algum conhecimento em medibruxaria, especialmente depois da guerra...

— Eu disse para se retirar. AGORA! – esbravejou, virando-se para deixar claro a sua insatisfação.

A reação da aluna foi instintiva, ao se encolher diante do grito proferido pelo professor, fechando os olhos e prendendo a respiração até sentir que ele se acalmara. Não entendia em que ponto havia errado no discurso, estava apenas oferecendo sua ajuda, em troca de um pouco de conhecimento. Quando abriu os olhos, ele não estava mais no mesmo lugar, e sim na mesa diante do Corvino, que estava tão assustado quanto ela.

Só naquele momento, Hermione se lembrou que Trevor ainda estava na sala, e se sentia verdadeiramente envergonhada por ter sido maltratada na frente dele. Vendo que seu professor não diria mais nada, Hermione se pôs a juntar suas coisas novamente dentro da mochila, deixando o bloco de anotações cair sem querer, o que gerou um estalo durante o baque. Snape respirou fundo, percebendo que estava se exaltando com os alunos com muita frequência ultimamente.

Enquanto ouvia o som das coisas sendo grosseiramente jogadas para dentro da bolsa da aluna, Severo passeava os dedos pelo trabalho designado à Trevor. Parecia que estava tudo em ordem, os frascos bem vedados, mas ainda havia muito material sobre a mesa, plantas que já estavam ficando secas. Sua mente vagava por caminhos indiscretos naquele momento, fazendo-o se lembrar de um juramento idiota que havia feito à Alvo Dumbledore alguns anos antes, e que simplesmente não conseguia pôr em prática toda vez que estava diante daquela aluna de mente tão brilhante. Inesperadamente, tocou sem querer em espinhos de uma planta qualquer, distraído como estava.

— Merda. – grunhiu, levando os dedos à altura dos olhos e constatando o erro que cometera.

Rapidamente, seus dedos começaram a assumir uma coloração arroxeada, ressaltando suas veias e pequenos vasos, subindo pelos pulsos e se perdendo dentro das mangas do casaco, ao mesmo tempo em que sentia o latejar do veneno. Balançou a cabeça em desagrado à si mesmo, por ter se auto envenenado, sabendo das propriedades daquelas plantas. Seguiu na direção de uma estante onde vários frascos estavam posicionados lado a lado, mas não encontrava o certo. Hermione notou seu embaraço e, em um lapso de entendimento, reconheceu as plantas que estavam sobre a mesa.

— Hortaliças da patagônia, sim. – disse para si mesma, porém em voz alta. – São venenosas, é claro.

— Venenosas? – repetiu o Corvino, bastante assustado – Essas plantas são venenosas?

— Deixe-me ajudá-lo. – disse a jovem, aproximando-se do professor, porém sendo repelida pelo corpo altivo do homem.

Não gostou daquele comportamento, mas não se intimidou. Moveu-se junto a ele, lendo freneticamente todos os rótulos dos frascos, até encontrar o que era preciso para desfazer a ação do veneno na corrente sanguínea.

— Achei! – disse a jovem, tocando no frasco ao mesmo tempo que o professor, porém com a reação que estava sofrendo, ele não conseguiu segurá-lo e quase o deixou cair.

— Fora daqui, AGORA, McTavish! – esbravejou, sem nem ao menos direcionar-se ao Corvino, que entendeu o pedido e se retirou às pressas.

— Deixe-me ajudá-lo, por favor. – pediu a aluna, novamente, segurando o frasco entre os seus dedos.

— Não é necessário. Deixe a poção sobre a mesa e pode se retirar também. – ordenou, sentindo o latejar.

— O senhor não está em condições de fazer isso sozinho, então, por favor, deixe-me ajudá-lo antes que o veneno faça mais estragos.

Severo precisou de um instante para pensar a respeito, não estava confortável naquela situação, tampouco desejava continuar nela. Observou a moça abrir o frasco contendo a poção, fazendo menção de se aproximar para administrá-la nele. Mas não era tão simples como parecia, porque ele deveria bebê-la.

Aceitando a ajuda, puxou com um pé a cadeira onde Trevor estivera sentado anteriormente, com tanta raiva que quase fez com que ela parasse bem longe. Respirou resignado, afastando o sobretudo da cintura com um movimento rápido das mãos para poder sentar-se com as pernas entreabertas, as mãos apoiadas sobre elas. Não ousou olhar para a aluna um instante sequer, manteve sua atenção distante, porém indicando com a cabeça que ela podia se aproximar. Hermione o fez, embora receosa. Temia que fosse uma armadilha, apenas para ele se divertir gritando com ela novamente.

Percebendo que era seguro, aproximou-se o suficiente para se posicionar entre suas pernas, não perto o bastante para se sentir desconfortável. Levou o frasco na direção de seus lábios, mas notou que ele não estava disposto a abri-los. Não iria insistir, portanto estava quase regressando para trás, desistindo da ideia, quando ele agarrou seu braço repentinamente, forçando o frasco na direção de seus lábios. Virou o líquido todo e o ingeriu sem fazer uma careta sequer. Ao final, permitiu olhá-la por um instante, e viu um pouco de satisfação na face da jovem.

Por experiência, sabia que demoraria apenas alguns minutos para tudo voltar ao normal, mas isso dependeria do quão concentrada a poção antídoto tivesse sido preparada. Como aquela estava ali há muito tempo, não sabia.

— Pegue uma cadeira e se sente. – ordenou à aluna – Até termos certeza que a poção funcionou, é bom que fique.

Hermione se moveu em acordo, puxando uma cadeira próxima para perto do professor. Sentou-se e ficou observando o progresso, que ainda não era visível.

— Como sabia a origem daquelas plantas?

— Eu li a respeito delas em um livro de botânica aplicada, senhor. – respondeu, um pouco sem graça.

— Quando? – quis saber.

— Durante a paralisação das aulas, senhor. – respondeu, quebrando o contato visual.

— Estudos domiciliares? Curioso. – divagou.

Ela não entendeu o que havia de tão curioso naquilo, mas achou melhor não perguntar. Sua expressão, no entanto, falou por si só.

— Achei que estivesse se divertindo mais do que estudando, com o fim da guerra. – Snape explicou, retomando o contato visual.

— Eu também me diverti bastante, na medida certa. – respondeu, sorrindo envergonhada com algumas lembranças que lhe surgiram. — O senhor já está sentindo alguma melhora? – mudou de assunto.

Hermione teve a impressão de vê-lo sorrir com a ponta dos lábios, enquanto sustentava o olhar. Uma sensação estranha percorreu sua espinha, com uma pressão interna nas têmporas. Demorou para perceber, mas então soube que ele estava invadindo sua mente em busca de informações que não lhe diziam respeito. Imediatamente, moveu-o para fora com o bloqueio imediato, não deixando de expressar seu desgosto pela ousadia. Não tinha certeza, exatamente, do que ele havia visto ali, mas certamente algum cabelo ruivo deve ter surgido, foi pega de surpresa. Para Severo, era só a confirmação de que a moça tinha mesmo se envolvido com um dos Weasley’s, e sabia bem qual deles.

— Deixe-me ver seus dedos. – disse, ríspida, puxando as mãos do professor para o seu colo, enquanto analisava com minúcia o progresso da poção.

Severo tentou se afastar, mas Hermione insistiu. Furiosa do jeito que estava, era arriscado arrancar-lhe um braço. O desconforto, no entanto, era visível para o homem, que nunca antes havia permitido ser tocado daquela forma por ninguém. Por sorte, a poção antídoto finalmente começava a fazer efeito e seu progresso era rápido. Em poucos segundos tudo já havia voltado ao normal e pôde afastar-se da aluna.

— Se não sou mais necessária, com licença. – disse Hermione, pegando a mochila que estava aos pés da cadeira.

Naquele mesmo instante, a gárgula se abria para a entrada da Diretora, visivelmente surpresa ao ver Snape e Hermione sentados um de frente ao outro. Só não levantou a dúvida visto que muita coisa ultimamente estava estranha, não valia a pena.

— Boa noite, professora McGonagall. – Hermione cumprimentou-a – Estava a sua procura, mas agora estou de saída.

Fez menção de se retirar, mas foi impedida.

— E como eu poderia ter sido útil, srta. Granger?

— Creio que não seja possível, senhora. Eu estava me oferecendo como voluntária na ala hospitalar, mas vejo que não há necessidade. – respondeu, não deixando de direcionar um olhar astuto ao professor.

— Que excelente iniciativa. Acredito que possamos providenciar alguns afazeres na Enfermaria para a senhorita.

Hermione quase não acreditou no que a Diretora lhe dizia, afinal, visto a reação explosiva do professor, achava que estava terminantemente proibida a participação de qualquer aluno no combate ao surto.

— Não diga bobagens, Minerva. – Snape se levantou de onde estava, aproximando-se da diretora com uma expressão ferina. – Não há condição alguma de arriscar a vida de um aluno que esteja saudável.

— Sim, Severo, mas estamos ficando sem pessoal suficiente. – retrucou a senhora.

— Os reforços estão sendo enviados, não precisamos de alunos atrapalhando nosso trabalho.

— Quando os reforços chegarem, será tarde demais para alguns doentes, Severo.

Hermione ouvia o diálogo um pouco receosa se deveria continuar ali, mas também com alguma esperança de que seu pedido fosse atendido, no final das contas.

— Não vamos colocar a vida dela em risco, Minerva! – disse, categoricamente, levando o dedo à altura do nariz – Isso não está aberto à discussões.

Um silêncio se formou entre eles, um pouco perturbador inclusive.

— Hermione é uma aluna brilhante, responsável...

— Ela fica em segurança! Eu já disse! – grunhiu, novamente instável, acertando um enfeite de mesa com uma das mãos. – Porque insiste nesse assunto? Estou a dias me dedicando a isso tudo, quase não tenho dormido...

— Por que não posso me juntar aos senhores para unir esforços? – Hermione tentou — Eu já provei com as minhas notas, e além do mais...

— Isso é como a guerra que lutamos anteriormente, senhorita. – disse Snape, voltando a atenção para a garota e cortando seu discurso – A diferença, é que nosso inimigo é invisível, mas igualmente imprevisível. Enquanto eu puder decidir, você fica fora disso!

Hermione sentiu a garganta secar na menção feita à guerra, embora já houvesse passado dois anos, mas ainda significava muito a mera lembrança do que causara a todos. Pensar em reviver aquilo tudo só tornava a perspectiva ainda pior.

— Então Alvo estava falando a verdade, afinal... – Minerva divagou, observando o comportamento do professor.

Snape franziu o cenho sem compreender do que a professora falava, mas suspeitava, porém não queria acreditar que o ex-diretor tivera a audácia de conversar sobre seus assuntos particulares com outras pessoas.

— Querida, ouça com atenção. – disse a professora, com um olhar sério para Hermione – Não quero assustá-la, mas o professor Snape tem razão. Não podemos expor a sua segurança sem a menor garantia de proteção. Isso só até termos certeza da gravidade do que estamos lidando.

Hermione suspirou chateada, achava que iria mesmo conseguir um voto de confiança.

— Eu entendo, professora. De qualquer forma, sabe que tem a mim se precisar. – disse a jovem – E lamento muito se causei algum incômodo com o meu pedido, não era a minha intenção.

Com isso, deu uma última olhada em Severo, deixando claro que não havia gostado de tê-lo visto influenciando negativamente nas decisões da Diretora. Afinal, quem ele era para decidir o que era melhor para ela, ou mais seguro, como ele próprio havia dito? Alguém que nunca nem se quer a elogiou depois de uma resposta correta a uma questão complexa, ou, ainda, alguém que só sabia exaltar os seus defeitos, quando todos diziam que ela era a aluna mais brilhante de todos os tempos.

Percebendo que não havia mais o que discutir a respeito, Hermione se afastou em direção à gárgula, sem olhar para trás. Deixou a sala da Direção com a cabeça quente, depois de ter enfrentado seu professor de Poções e, ao mesmo tempo, lhe ajudado com a poção, e, por fim, depois de ter causado uma discussão entre seus professores, por sua causa. Tinha sido uma tola, afinal, achando que precisariam de sua ajuda. Era só uma aluna finalista que, apesar de ter lutado e vencido uma guerra, não podia saber tudo e tinha que ser mais humilde de vez em quando.

Caminhando enquanto pensava nessas coisas, deixou o corpo relaxar junto com a mente, vagando por outras lembranças do seu dia. Mas todos os seus pensamentos voltavam a um único momento: aquele em que se aproximou do seu professor e o fez beber daquela poção, e depois o que sentiu quando tocou a pele exposta de suas mãos. Mesmo depois que estavam livres da reação venenosa da planta, acariciou por alguns segundos e sentiu a pele grossa das palmas, certamente por causa de horas intermináveis mexendo caldeirões ou por causa do calor das chamas que aquecia suas poções.

Sabia que não era certo pensar daquela forma, novamente se repreendia mentalmente pela linha de pensamento equivocada. Era acostumada a fazer isso durante as aulas com o professor, no sexto ano, quando achava que já sabia o suficiente do assunto e se permitia divagar sobre o quão impecável eram as suas vestes, o corte de seu cabelo, os seus gestos sempre calculados e, principalmente, a profundidade do seu olhar sempre que o direcionava a ela. Tinha a impressão de que com ela era sempre diferente, mais demorado inclusive.

Mas, então, surgiram as revelações sobre ele, sobre seu passado, sua história e aquele livro que Harry insistiu em usar o ano inteiro, e se viu perdendo a admiração que tinha pelo professor. Só restavam as dúvidas e curiosidades, depois a decepção por causa da traição. A guerra, depois, fez ela esquecê-lo um pouco, até o dia que o viu ser atacado e quase morto. Esclarecidos os fatos, acompanhou Harry inocentá-lo nos tribunais, mas nunca mais estivera com ele, até aquele regresso.

Passou o caminho todo perdida nas memórias que quando se deu conta já estava no salão comunal da Grifinória sendo recepcionada pelos amigos.

— Hermione, por que demorou tanto? Achei que tinha acontecido algo com você.

— Me deixa, Rony. – respondeu, passando direto e subindo para o quarto. – Quero ficar sozinha.

Já tinha sido repreendida demais por um dia, não ia ficar ouvindo os amigos resmungando, também.

Notas finais
Então? Espero que tenham gostado e agradeço por ter chegado até aqui. Prometo responder a todos os comentários. Obrigada!