A elite em chamas: Primeira parte
3 Situações
As manhãs na padaria, eram sempre repletas de pessoas de todos os tipos e gostos, as mesas sempre estavam cheias para o café da manhã, clientes por toda parte, em muitas ocasiões durante aquele horário, não havia mesas disponíveis para clientes recém-chegados. Por mais simples que fosse o estabelecimento, a localização da padaria era boa e de fácil acesso para os trabalhadores na região, e moradores locais.
Era um grande desafio para o primeiro dia de Glutar Zigler, mas para ele aquela situação não era nada intimidadora, pois estava sempre disposto a enfrentar novos desafios, para ganhar dinheiro. Glutar já estava pronto e uniformizado, com sua caneta em mão, um pequeno caderno de anotações e seu senso avaliativo pessoal, pois a cozinha do local era mais semelhante a uma balada noturna, só que tudo era bem reservado, mesmo porque os consumidores não tinham visão geral sobre a cozinha. Os funcionários costumavam fumar nas beiradas das janelas abertas, porém sempre do lado de dentro, além dos berros, palavrões eram ditos continuamente sem preocupações. Mas Glutar só estava interessado em exercer sua função para ganhar sua renda, voltar pra casa e descansar para obter disposição ao dia seguinte.
—Olá! Gostaria de saber se ao invés de ficar aí parado, bancando o crítico... Por que não vai para o salão, anotar alguns pedidos hum? -Perguntou o gerente responsável pelo turno, que surgiu repentinamente surpreendendo Glutar.
—Ah sim claro! Me desculpe irmão, eu só estava tentando conhecer melhor o pessoal e o lugar-Respondeu Glutar.
—Vai ter muito tempo para conhecer tudo. Mas, por enquanto preciso que faça seu trabalho, imediatamente! -Ordenou o Gerente responsável.
—Beleza estou indo agora-Respondeu Glutar, calmo e totalmente disposto.
Glutar estava se saindo perfeitamente bem, para um iniciante, ele era eficaz e bom de memória para decorar as mesas e os clientes que haviam pedido. O lugar estava cheio, com alto som de falatório na ambiência, alguns pedidos demoravam a ser entregue por conta do excesso de comandas, falta de funcionários e falta de empenho. Glutar parecia ser o único focado em tentar acalmar os clientes desapontados com o serviço, disposto a manter tudo organizado sem deixar com que os clientes partissem. A escala de funcionários estava reduzida, os poucos que trabalhavam não tinham sagacidade e foco em apressar produção na cozinha, mas Glutar decidiu se atrever em tentar acelerar tudo, vestindo um avental e com seu jeito acelerado, fritando salgados, preparando vitaminas e sucos naturais. De repente Glutar parecia ter ganho quatro braços, sua intromissão na área que não havia sido designada para a posição dele, deixou alguns de seus companheiros de trabalho na cozinha, irritadiços com sua maneira de querer acelerar as coisas por ali.
—O que pensa que está fazendo cara? -Indagou o gerente, que havia deixado o balcão de atendimento, para tentar entender a atitude precipitada de Glutar.
—Estou fazendo um suco de laranja. Se quiser um pouco vai ter que esperar-Debochou Glutar, enquanto imitava o ruído sonoro do liquidificador, que ele usava para produzir o suco.
—Devia estar fazendo o que te designei a fazer! Anotar os pedidos só isso! -Disse o Gerente, que parecia estar abismado com a audácia do novo funcionário.
—Todos os pedidos já foram anotados, não há clientes novos, porque não tem mais lugar disponível. Temos casa cheia, mas pode esvaziar tão rápido quanto encheu. O que os clientes querem agora é comer, amigo! Sei que meu atrevimento e vir até aqui, incomodou todo mundo por esta área da cozinhanha! –Justificou Glutar, mais uma vez debochando, ao errar de propósito de a pronúncia da sua última palavra-Mas ou eu fico lá tentando fazer o inútil, ou fico aqui tentando impedir que haja um desperdício de comida em massa! Porque aquele povo lá no salão, não vai mais tolerar esses atrasos inconvenientes. Mesmo que vocês estejam desanimados ou cansados, tudo que fizerem hoje vai ser em vão, se todos lá resolverem ir embora!
Um silêncio momentâneo tomou conta de toda área da cozinha, após o desabafo de Glutar, foi daí em diante que todos resolveram pegar o embalo, acelerando os processos para que nenhum cliente saísse insatisfeito, sem pagar por todos os pedidos.
—Ok novato! Faça o que tiver que fazer para mantê-los aqui, mas depois vamos conversar-Disse o gerente, voltando a supervisão do balcão satisfeito com a justificativa de Glutar.
Aos poucos e na ordem durante o fim da tarde, todos os clientes recebiam seus pedidos após rompante de Glutar, que além de ter partido a cozinha para ajudar no preparo das comandas, distribuía os alimentos pelas mesas, assumindo diversas funções em apenas algumas horas de início. O caos foi se desfazendo lentamente, clientela saia satisfeita, pedidos haviam sido distribuídos corretamente e tudo foi voltando ao padrão que sempre deve ser. Glutar higienizava as mesas do salão após a retirada dos clientes, varria o chão, recolhia os restos e organizava as cadeiras nas posições certas, plenamente grato com si próprio, pelo dia produtivo e bem corrido. Com seu jeito espontâneo e brincalhão, Glutar cantarolava seu rock durante suas funções pelo salão, para que todos pudessem ouvir sua alegria.
—Muito bem novato! Você se mostrou bem mais eficiente do que o Will descreveu... Mas acho que precisamos deixar claro algumas pendências, ordens que precisam ser ouvidas durante meus plantões-Disse o gerente, que interrompeu a cantoria de Glutar.
—Obrigado Will é um amigo muito querido pra mim, vou estar sempre grato a ele por isso. E eu concordo com o senhor, precisamos conversar sobre algumas coisas-Declarou Glutar, que já havia terminado de organizar as cadeiras.
—Muito bem... Agora deixe que o August atenda os clientes que chegarem, vamos ao meu escritório ali nos fundos-Ordenou o gerente.
—Só um minutinho!! -Exclamou um homem conhecido de Glutar, que surgiu de surpresa entrando na padaria, chamando a atenção de todos presentes ali.
—Brock? -Disse Glutar, espantado e surpreendido pela aparição do homem que estava acompanhado de mais três comparsas, que aparentavam ser uma quadrilha.
—Eu mesmo! Achei que nunca mais iria te achar maninho! Foram longos três anos, pagando pelo seu crime né? -Disso o homem identificado por Glutar, como Brock.
—Crime? Você já foi preso? -Questionou o gerente, que estava confuso com a situação.
—Não se faça de desentendido, você estava ciente da minha prisão! -Respondeu Glutar para o gerente, que parecia querer arranjar um pretexto de se desfazer dele-Quanto a você Brock! Cai fora, aqui não é o lugar nem o momento para querer vingar alma do seu irmão traficante de pessoas!
—Você matou meu irmão naquela luta! Não me interessa o que ele fazia, ou deixava de fazer! Alguém vai ter que pagar pela dívida dele e esse alguém é você meu caro companheiro! -Disse Brock, que aos poucos se aproximava de Glutar, esboçando um perverso sorriso, com seus comparsas logo atrás dele.
Com cautela o gerente ordenou que um de seus funcionários que estavam ali, reparando no confronto de Glutar, para solicitar gentilmente, a retirada de alguns poucos clientes que estavam no local. E rapidamente esses clientes saiam, pois todos os residentes conheciam a fama de Brock e seu trio pelo bairro. Enquanto o confronto acontecia naturalmente, no centro do salão de refeição dos clientes, na padaria.
—Dívida? Eu não tinha nenhum tipo de vínculo monetizado com seu irmão! Você só pode ter deixado o resto que sobrou do seu cérebro, ser corroído pelas drogas né? -Debochou Glutar, com seu jeito brincalhão, soltando leves risadas destemidas de frente com Brock.
—Ele me devia quinze mil euros, que estava juntando pra me pagar! Mas você o matou e ainda estou aqui, sem meu dinheiro! Foi daí que eu soube que é o mané Zigler, ia começar trabalhar por aqui hoje! -Disse Brock, ainda intimidando Glutar, expressando olhares sérios e comprimindo os lábios pra dentro.
—Olha só rapazes... Aqui não é o local apropriado, para resolver os conflitos pessoais de vocês! Por isso peço, que os dois se retirem e resolvam lá fora-Disse o gerente, que estava presenciando tudo, e preocupado com bem-estar do estabelecimento.
—Cala essa boca otário! Meu assunto é com o mané Zigler! -Exclamou Brock, que apontou o dedo na cara do gerente, que estava quase ao lado Glutar.
—Ah meus pêsames pela sua frustração. Mas acho que a única saída que você tem por enquanto, é montar o jogo do copo e contatar seu irmão pelo universo além tumulo, daí você cobra ele e tudo se resolve facilmente. Mais um dia volta a raiar e os passarinhos voltam a cantar-Debochou Glutar, com uma hilária expressão, demonstrando não se sentir intimidado.
—Você é um belo comediante né Zigler? Pois aí vai uma, que eu vou me acabar de rir! Você vai ter que arcar com essa dívida! Até por que ele não pode pagar, por sua causa... Nada mais justo, que você pague certo? -Afirmou Brock.
—Isso sim realmente foi bem engraçado! -Respondeu Glutar, abismado enquanto soltava umas leves e rápidas gargalhadas.
—Não vai achar tanta graça, quando eu resolver cobrar do meu jeito!
—E qual jeito seria? -Questionou Glutar, que desfez sua expressão de deboche, encarando fixamente Brock, com seu olhar de fúria.
—Ele me devia quinze mil euros, mas já se passou muito tempo e os juros foram correndo... Por isso, hoje você me deve vinte mil-Disse Brock, tentando amedrontá-lo, mas o gerente e os funcionários demonstravam mais medo que Glutar.
—Eu não vou pagar! Não tenho esse dinheiro, e nunca te daria essa quantia para amenizar sua frustração, de não ter recebido nada até hoje. Isso era entre você e ele! -Disse Glutar, sem demonstrar e nem sentir fraqueza, diante o confronto de olhares.
—Você tem trinta dias para me pagar o que deve! Esse é o prazo! Ah e você vai pagar sim, sabe por quê? Sua namoradinha portuguesa pode acabar se envolvendo nessa conta! E você não querer que isso aconteça, não é? -Disse Brock, com um tom de deboche.
De repente as palavras ditas por Brock, faz com que todo o sangue de Glutar aqueça de uma forma ruim. Sem se importar com o local onde estava, com as consequências e com o que poderia dizer em seguida. Glutar surpreende todos acertando um forte soco na bochecha de Brock, que com o impacto da força, causada pelo ódio que ele transpirava naquele instante. Brock foi praticamente arremessado em cima de umas das mesas, que estava bem próxima a ele, partindo todo o material de madeira do móvel, derrubando tudo que estava em sobre ela. Rapidamente os comparsas de Brock o auxiliava, para que ele levantasse na intenção de executar o breve revide, devido ao contra o golpe que lhe foi aplicado prematuramente. Todos ficaram impressionados com a atitude inusitada Glutar, alimentada pelo ódio repentino que sentiu, mas Brock já estava disposto a dar o contragolpe, ao se colocar novamente de pé, com a ajuda de seus companheiros no local. Glutar já sabia que aquilo não iria ser perdoado, ou ia intimidá-lo de alguma forma, por isso permaneceu na mesma posição em que ele estava, aguardando o revide. Revoltado com a lesão em seu rosto causada por Glutar. Brock partiu pra cima tentando lhe acertar um soco, mas nenhum atingia seu alvo, por conta da capacidade veloz de Glutar, em desviar de todas as sequencias rápidas que tentavam a qualquer custo, devolver sua reputação de destemido e perigoso. Foi quando de repente, Brock sacou de sua pistola apontando direto para Glutar, no intuito de limpar sua imagem, que por alguns segundos havia sido manchada por um soco bem-sucedido. Os funcionários correram pra cozinha, para tentar zelar por sua segurança caso haja uma possível bala perdida, por conta de um possível deslize.
—Fique quieto Zigler, se não quiser levar uns furos!! -Exclamou Brock, apontando a arma e fazendo um sinal com a cabeça para que seus comparsas, imobilizasse Glutar.
—Você é um covarde verme, como seu irmão! -Disse Glutar, furioso com a atitude covarde que Brock impôs, enquanto dois dos comparsas o agarraram pelos braços.
Brock decidiu se aproveitar do momento oportuno no qual colocou Glutar, devolvendo o golpe no mesmo canto do rosto, com a mesma precisão e vontade.
—Pra você aprender que por aqui... Quem reina sou eu! Só não te mato aqui agora, porque você me deve vinte mil euros, a partir de hoje! -Disse Brock, que logo em seguida ordenou que seus comparsas o largassem Glutar no chão.
Os quatros partiram do local rindo e debochando da situação que deixaram Glutar, que estava caído sobre o piso, sentindo-se humilhado, sem vontade de se reerguer em pé, com seus olhos fechados, imaginando possíveis possibilidades que poderiam acontecer com Kirka. Mas durante seu episódio de pensamentos mútuos, enquanto estava deitado ao chão, acabou sendo surpreendido com as repentinas palavras declaradas pelo seu gerente.
—Você está na rua Zigler! Esse pessoal é da pesada e podemos ter problemas futuros, por conta dessa sua dívida. Sinto muito, obrigado e boa sorte!
Kate Higgins já estava com sua ansiedade aflorada, só de pensar na possibilidade de rever uma joia de família, de um incomensurável valor significativo para ela. Sua falecida mãe Natasha, havia entregado a ela, no dia exato do atentado fatal que sofreram, tornando esse objeto a última lembrança do último momento em que Kate, gravou com seus olhos a imagem de sua mãe. Mas no cair da noite de sexta, no mesmo dia em que Kate descobriu sobre o paradeiro do colar perdido. Linda Kungan foi obrigada a ser internada em um hospital público às pressas, no mais próximo da região, devido a sua doença pulmonar, desenvolvida por conta do excesso de nicotina. Kate seriamente atordoada com a situação inusitada, por qual ela ainda não tinha conhecimento, acompanhou Linda até a emergência do hospital, partindo em rota rapidamente com um taxi solicitado. A alguns anos atrás, Linda a antiga babá de Kate, enfrentava um vício por conta do excesso de cigarro que ela sempre costumava consumir, mas durante alguns longos períodos que foram se passando, sem se importar com sua saúde, ela consequentemente adquiriu uma agravada disfunção respiratória. O tratamento só poderia ser amenizado, com uso de medicamentos limitados, que por sua conta não tinham um preço acessível para o hospital e paciente dependente, sendo assim totalmente inacessível para orçamento de Kate, na situação atual.
Linda já havia sido internada e entubada, por causa de sua repentina crise respiratória, após a conversa entre Kate e Rosalyn sobre a averiguação do colar. Enquanto Kate caminhava pelos corredores brancos, do andar onde Linda estava recebendo oxigênio por tubos internos, intermediando sua situação, que poderia se agravar. Ela pensava constantemente, sobre como poderia pagar por esses medicamentos, para tirá-la da internação. Kate já havia se informado com o médico, sobre todos os detalhes, causas e tratamentos da doença, que Linda não tinha notificado a ela, durante alguns poucos anos que conviveram juntas, após a queda Argos. Ela logo começou a se questionar, sobre qual poderia ser o motivo de Linda ter omitido esse relato importante. Kate também já estava ciente, sobre a informação da doença crônica que Linda carregava, podendo levar um certo tempo para ressurgir, mas que sempre poderia voltar, não importa qual seja o período espera. Todas essas revelações e situações inesperadas de uma vez em um único dia, deixou a mente de Kate, deslocada sobre o excesso de informações, porém ela não era do tipo que se desesperava facilmente, e nem deixava suas emoções muito expostas, sempre mantendo seu invejável equilíbrio emocional. Linda estava desacordada em seu estado de internação, não podendo dialogar com ninguém, por uns minutos Kate se mantinha focada em aprimorar suas ideias, sobre qual possibilidade ela poderia recorrer a uma ajuda financeira, para suprir os gastos dos medicamentos necessários para revitalizar a saúde dos pulmões, de sua mãe de consideração. Foi daí que uma ideia surgiu. Kate decidiu ligar para um antigo conhecido, com uma influência financeira estável, que residia pelas redondezas da área nobre Nova York, disposta a pedir socorro, para salvar a vida de Linda.
—Oi Pavel. Aqui quem fala é Kate Higgins, to precisando de uma ajuda e... Você disse que eu poderia te encontrar, quando precisasse-Disse Kate, durante sua ligação efetuada, sentada em um dos bancos de espera do corredor hospital.
Após a conversa, Kate partiu do hospital rapidamente sem anunciar sua saída, para seguir a rota do endereço que foi passado a ela, durante conversa pelo seu aparelho telefônico, na expectativa de conseguir a ajuda que Linda necessita.
Ao chegar em seu destino, Kate pediu gentilmente ao porteiro do prédio anunciasse a sua chegada, para que ela possa subir ao apartamento do homem conhecido por ela. O porteiro simplesmente pediu que Kate aguardasse uns segundos, enquanto ele solicitava a autorização do morador do prédio, pelo interfone. Kate havia chegado ao local de taxi, pelo endereço que foi lhe passado, mas ela se empenhava muito em passar despercebida pela portaria do prédio, sem com que ela fosse revistada, entregando sua arma de fogo, uma pistola de calibre quarenta e cinco, escondida em um eficaz bolso interno de sua jaqueta. Disfarçadamente enquanto assobiava, Kate analisava as posições e aspectos dos seguranças monitores do prédio, sem pressentia-los com a oportunidade de desconfiança. Como uma perfeita ex-agente desgarrada, de um império de assassinos e agentes secretos, Kate era incrivelmente concentrada, em manter qualquer aparência necessária, para concluir suas buscas e necessidades, importunas ou não. Quando o porteiro finalmente retornou da cabine de monitoramento, logo autorizou sua entrada.
—A senhorita pode subir, mas por exigência do senhor Law. Vou ter que solicitar uma vertiginosa revista, me desculpe o constrangimento. Mas é um procedimento que devo seguir-Declarou o porteiro, de uma forma estranha, como se estivesse com segundas intenções com Kate.
Após a fala do malicioso porteiro, que aparentava ser um senhor, já na casa dos cinquenta anos de idade. Kate logo apanhou a oportuna situação para si, unicamente pra se beneficiar da oportunidade de subir ao apartamento sem com que houvesse uma revista, pois andar armada era de lei para sua própria segurança.
—Eu entendo dos procedimentos... Mas será que o senhor, não poderia me quebrar esse galho? Só por hoje? Ham? -Perguntou Kate, se insinuando tornando a situação favorável para o porteiro, sem gestos para não chamar a atenção.
—Acho que por hoje, não teria problema. Uma senhorita tão bem portada e bela como você... Não é do tipo que entraria com algum objeto suspeito-Disse o porteiro, totalmente convencido das seduções discretas de Kate.
—Mas é claro que não. Olhe só pra mim, como é que poderia oferecer riscos a um indivíduo? -Disse Kate, enquanto ajeitava a gravata do senhor porteiro, com seu olhar penetrante e bem convincente.
Sem mais declarações, o senhor porteiro permitiu a entrada de Kate, sem anteriores revistas, facilitando a intenção dela.
Pavel Law de trinta e oito anos de idade, era um homem bem-sucedido no ramo de exportação de joias preciosas, e obviamente um velho conhecido de Kate. Durante anos, Pavel era responsável por todo o sistema de negociação e contratos ocultos em Argos, praticamente um homem da extrema confiança de Cajemiros Barn, durante a ascensão do império secreto. Um homem elegante, com um chamativo porte físico, de barba bem atrativa e bem definida e um belo par de olhos pescadores, capaz de fisgar qualquer peixe. No entanto, Kate nunca se quer ameaçou se prender em seu anzol, mesmo sendo ela seu principal alvo de pesca, pois ele sempre deixava em aberto sua fissura em querer obtê-la ao seu lado.
—A joia mais preciosa, que ninguém pode fabricar ou replicar! -Declarou Pavel, ao contemplar a entrada de Kate em sua sala, após seus seguranças particulares, abrirem a porta.
—Por favor. Não me venha com essas suas bajulações assustadoras-Respondeu Kate, enquanto admirava a elegância dos moveis, e o tamanho da área que a sala tinha, parecendo ser maior que apartamento.
—Sabe muito bem, que não estou te bajulando. Não tenho motivo pra isso, a única coisa que desejo é você... Comigo-Declarou Pavel, ao abrir os braços para abraçá-la, ao mesmo tempo ordenando a retirada de seus dois agentes do cômodo.
—A única pessoa que eu quero ao meu lado agora. Está em um leito de hospital, com tubos de auxílio penetrados, recebendo oxigênio e lutando pela estabilidade de seus pulmões. Para conseguir sobreviver. E se depender de mim, ela vai! -Exclamou Kate, que se desviou do gesto receptivo de Pavel, sentado em uma poltrona de couro de urso pardo.
—É verdade, me desculpe por isso. Sei o quanto você é incansável em atingir seus objetivos, com sua destreza e habilidade de uma assassina de aluguel. Principalmente depois de ter conseguido matar todos os contribuintes, do assassinato de seus pais-Disse Pavel, que já estava sentada em uma outra poltrona de couro, no centro da sala.
—Então vamos logo ao assunto. Preciso de grana-Disse Kate, sem nem esperar por uma pausa entre o assunto dos dois, com seu jeito carrancudo.
—Eu sei disso. E você sabe que pra mim um pedido seu, é uma ordem-Disse Pavel, enquanto recebia um copo completo com uma dose de whisky com gelo, por uma garota de programa, que havia surgido da direção da cozinha.
—Sua namorada? Ou sua empregada?
—Por quê? Por um acaso você se importa?
—Na verdade só estou curiosa, porque ela está com vestimentas de serviçal-Respondeu Kate, durante sua avaliação em observar a fantasia sensual, que a mulher vestia.
—Ninguém que importe, mas a propósito. Esqueci de pedir sua dose, porém não se preocupe ela vai trazer agora mesmo-Disse Pavel, de uma forma suspeita, após solicitar que a mulher retorne com a dose de Kate, emitiu uma forçada tosse, cobrindo a boca com sua a mão.
—Obrigado, mas não vim pra beber. Vim perguntar do dinheiro. Lembrando que será um empréstimo, muito em breve irei devolver tudo.
—Eu não tenho dúvidas disso, minha joia. Mas será que você ao menos poderia me conceder a honra, de compartilhar esse momento de apreciar um belo whisky?
—Se isso for rápido, e se puder apressar uma de suas empregadas-Disse Kate, com seu sarcasmo ao se referir a garota de programa.
—Você sabe que eu trocaria todas essas mulheres... Por você né? -Declarou Pavel, ao tomar um gole de seu whisky, esboçando um sorriso maroto.
—Uau! Que privilégio, meu príncipe. Sabe que se fosse da minha parte, eu te trocaria por uma mísera dose dessa aí... Aliás, acho que eu te trocaria por um copo de água, de um boteco-Debochou Kate, rindo com seu jeito, não muito exagerado, quase imperceptível de se notar.
—Que romântica! Me derreti agora! -Disse Pavel, abismada com a falta de interesse de Kate.
Uma outra mulher logo surgiu na sala, vestida com peças de lingerie sensuais vermelhas, carregando uma bandeja dourada, com o copo da dose de Kate. A mulher serviu Kate, deu um beijo no canto dos lábios de Pavel e logo retornou à cozinha.
—Muito obrigada, mas isso vai ser bem rápido. Eu parti do hospital sem avisar, e sem previsão de retorno as enfermeiras. Por isso eu vou matar essa dose e... -Disse Kate, que de repente deixou de completar sua frase seguinte, ao observar precisamente a bebida do copo em sua mão.
—Eu sei que está com pressa, entendo. Mas vamos beber com calma também né, só te peço uns minutinhos de sua companhia-Disse Pavel, que aguardava ansiosamente o momento em que Kate tomasse o primeiro gole.
—É incrível como ainda consigo me espantar, com a falta de empatia humana-Declarou Kate, ao formar um sorriso de lábios fechados, encarando Pavel.
—Porque abordou esse assunto ag... -Foram a palavras de Pavel, interrompidas por uma inesperada rajada de whisky em seu rosto, além dos cubos de gelos que atingiram algumas partes de sua face.
—Acha mesmo que depois de tudo que passei... Me sobrou alguma espécie de ingenuidade, em deixar de notar que você ia me dopar, pra me sequestrar e me obrigar a casar com você? -Disse Kate, após ter arremessado toda a dose de whisky em seu copo, na direção do rosto de Pavel.
—Você realmente é muito louca! De onde foi que tirou essa ideia? -Perguntou Pavel, surpreso com a astucia de Kate, enquanto secava seu rosto, com um lenço que estava guardado em seu bolso.
O gelo só afunda! Quando há uma substância presente no líquido. E ele afundou! Mas você achou que um detalhe desse, iria passar despercebido, pelo meu senso de desconfiança. Você é muito pretensioso, com total falta de empatia pelos os sentimentos e necessidades das pessoas. Você ia ter coragem de me sequestrar, deixando minha mãe à deriva em um hospital, sem ter ninguém para acompanhá-la! Idêntico ao seu finado companheiro Caj! -Exclamou Kate, sem sentir medo pela consequência de sua atitude, caminhando lentamente para ficar de frente a Pavel, na intenção de intensificar o confronto.
—Eu como sempre, subestimando sua capacidade. Deveria imaginar, que ia descobrir minha façanha. Mas não imaginei que se importava tanto com aquela mulher. Afinal, ela nem é sua mãe de verdade-Disse Pavel, praticamente confessando suas intenções, de cara colada com olhos revoltados de Kate.
—Eu já vou indo. Não quero sua ajuda, não quero mais ter conhecimento de sua existência. Adeus! -Disse Kate indignada, dando as costas para Pavel e caminhando até a porta.
—Quem disse que eu ia perder meu precioso tempo, sequestrando você?
—Essa não seria a primeira a vez que tentou! Vai se fazer de demente também? -Disse Kate, que se virou de volta para olhá-lo, formando outro sorriso fechado de deboche.
—Não tem medo de que eu mande meus homens, te levar pra minha casa isolada em Los Angeles, neste instante? -Perguntou Pavel, pleno de seu poder em conseguir realizar seus atos.
—Na verdade não! Estou armada, você deveria saber que eu ia dar um jeito de subir aqui, com minha pistola. Acho que você também sabe, que sou perfeitamente capaz de lhe dar com sua dupla de subordinados, armada com apenas uma pistola. E duvido que você vá querer despertar toda essa atenção dos vizinhos para si, depois de escutarem uma troca de tiro-Afirmou Kate, que fez um sinal de despedida levando dois de seus dedos até sua testa, abrindo a porta e saindo sem fechá-la.
Sem se importar com ocorrido, Kate caminhou até o elevador, queimando neurônios sobre outra possível forma, de arranjar a grana dos medicamentos de Linda. Mas enquanto ela aguardava pela chegada do elevador, um dos agentes particulares de Pavel, foi abordando-a de surpresa, foi nesse momento que rapidamente, Kate sacou de sua arma, mirando direto na tesa dele.
—Calma eu vim oferecer ajuda, ouvi a conversa-Disse o agente, assustado com a veloz reação de Kate, com suas duas mãos erguidas em posição de rendimento.
—Oferecer ajuda? E quem seria você e por que me ajudaria?
Chegando ao restaurante, Rosalyn Barkhan se informa com o anfitrião sobre o estado de sua reserva. Após receber a confirmação, Rosalyn se dirige até sua mesa, enquanto reparava em todo estilo e decoração do local, também acabou notando os olhares julgadores das outras pessoas presentes. A noite parecia estar agradável, o ambiente era elegante e refinado, com ramos de flores nos vasos das mesas, mas as pessoas de outras mesas sussurravam entre si, sobre o estilo da roupa que Rosalyn vestia. Mesmo que não houvesse nada errado com as roupas que Rosalyn usava, não era um estilo apropriado para ocasião, mas ela não estava intencionada em desfrutar da noite, com uma bela refeição. Pois sua ida era apenas para esclarecer algumas dúvidas. E só uma pessoa poderia ajudá-la em obter as respostas concretas.
Angélique Muscov, uma mulher de quarenta e sete anos de idade, que abriu seu próprio negócio depois de se refugiar em outro país, após a queda de Argos. Ela casou-se com um empresário renomado em Toronto, que logo a presenteou com um estabelecimento, que hoje administra com muita paixão e responsabilidade. Na época Angélique exercia seu cargo de treinadora, responsável pelo desenvolvimento e disciplina das crianças recém-chegadas, mas conseguiu se camuflar depois de ter fugido, pelo simples motivo de já saber qual seria o destino de Cajemiros Barn. Se tornando uma informante infiltrada, de grande importância para o momento. Angélique, viveu exatos trinta e quatro anos de sua vida, aos serviços de Caj em Argos, também havia sido raptada de seus pais biológicos na Rússia, mas não concordava com os métodos disciplinares e intensivos, nas pessoas que passavam por todo o processo desenvolvimento. Mas ela se acanhava em pensar na possibilidade de se tornar uma desertora, tendo pleno conhecimento da ira de Caj. Quando todo o pesadelo havia finalmente chegado ao fim, Angélique tentou se livrar de tudo que poderia interligá-la, sobre toda a eficaz perícia da polícia dos estados unidos. Foi quando alterou toda a sua documentação de identificação civil, se mudando definitivamente para o Canada, se livrando de toda prévia acusação, ao mesmo tempo sobressaltando toda sua aparência física.
Ao se sentar, Rosalyn pediu para que um dos garçons chamasse a proprietária do estabelecimento, mas o rapaz questionou o porquê de seu pedido inusitado. Rosalyn justificou, que seria uma breve conversa de reencontro, pois já havia combinado tudo com ela por telefone, ao efetuar a reserva.
—Fico muito feliz em ver, que você conseguiu seguir em frente depois de tudo. Adorei o lugar e toda recepção-Disse Rosalyn, ao rever Angélique, que estava surpresa sem saber de sua chegada.
—Então era você? Foi você quem me ligou fazendo a reserva, Rosalyn Barkhan? -Perguntou Angélique, ainda pasma em vê-la.
—Pois é. Não pude me identificar, tendo ciência dos riscos que eu poderia correr, da sua incrível habilidade de se esquivar e fugir de mim-Respondeu Rosalyn, com sua taça de cristal em mãos, erguendo para ser servida do vinho, pelo garçom.
—Não fujo de você Barkhan. (Ofegou) Só estou tentando me livrar de pessoas, que possam me envolver em situações passadas e sigilosas-Disse Angélique, após sentar-se na cadeira da mesa de frente para Rosalyn.
—Isso é um sinônimo de fugir. Por muito tempo, tentei fugir do meu passado, dos horrores que cometi, para suprir as necessidades de poder financeiro... De um homem que não tinha compaixão pela essência humana. Mas o passado faz parte da gente, não temos como nos esconder da nossa própria consciência. E saber viver com isso, é saber seguir em frente-Disse Rosalyn, antes de dar o primeiro gole em seu vinho de cortesia por Angélique.
—Uau! Você decorou tudo isso, no caminho pra cá? -Perguntou Angélique, com sarcasmo, mas sem expressar.
—Escrevi de caneta no pulso-Debochou Rosalyn.
—Continua com seu senso de humor natural né? Sabe Barkhan... Depois de tantos anos me submetendo a ser o que fui forçada a ser. Hoje me sinto mais realizada, por estar tornando esse meu velho sonho, uma realidade. Agora estou aqui, tocando meu próprio negócio, obtendo meu dinheiro de uma forma honesta, sem sentir que estou torturando alguém, psicologicamente ou fisicamente-Desabafou Angélique, enquanto também recebia sua dose de vinho, para acompanhar Rose.
—Eu compreendo perfeitamente. Volto a mencionar minha profunda felicidade, em saber o que você conquistou aqui, Angélique. Não existe maneira mais sensata de seguir em frente, do que tocar seus sonhos. Eu sempre tinha a sensação em meu coração, de aquilo não era o que você queria. Sendo diferente de todos os outros treinadores. Nos seus aspectos em agir, condicionar e tratamento com as pessoas. Era do tipo que sempre tentava camuflar suas vontades, de acudir as crianças, que chegavam a sua posse. Sempre notei clemencia em suas atitudes, mas que não poderia se expor totalmente. Sei que foi tão vítima, quanto qualquer um de nós-Disse Rosalyn, com seu tom de compreensão na voz.
—Sempre me culpei por ter auxiliado as pessoas, a acabarem com a vida delas. Mas não podia demonstrar fraqueza, sentimentos de ternura ou falta de profissionalismo. Perante os outros companheiros, da total confiança de Caj. Ainda bem que durante um tempo, acabei encontrando meus métodos de treinamento, para não me sentir tão culpada. Mas vamos cortar o papo furado... Você não veio até aqui, para falar sobre meus traumas! -Disse Angélique, ao deixar de degustar seu vinho.
—Exato! Vim porque preciso da resposta, que você pode me fornecer-Declarou Rosalyn, ainda bebendo, sem deixar de manter o foco.
—Pois então pergunte. Hoje estou com a casa cheia, e não posso me ausentar por muito tempo.
—Só de olhar em volta, posso imaginar que sim. Serei breve, deixei minhas filhas em cas... -Disse Rosalyn, ao ser interrompida inesperadamente por Angélique.
—Filhas, é verdade! Você conseguiu se desprender de Argos, pelo simples sentimento materno. Claro que você não ia abdicar de suas filhas, a vida apropriada de um ser humano-Disse Angélique, após ter cortado Rosalyn no diálogo.
—Obvio que não! Acha mesmo que eu ia ser capaz de distribuir o futuro das minhas filhas, nas mãos de um demônio em pele humana?
—É uma justificativa bem plausível. Com certeza é um belo motivo, para cortar laços e ir sumir do mapa, para lutar pelo estar de um filho.
—Foi o mesmo motivo que a Natasha usou para fugir? -Perguntou Rosalyn, que notou a repentina mudança na expressão física de surpresa, no rosto de Angélique.
—Não entendo sobre o que está se referindo, Rose-Disse Angélique, ao tentar disfarçar sobre seus conhecimentos no assunto, desviando o olhar para o canto.
—Não faça a desentendida comigo. Lembre-se que todos nós passamos por terapias intensivas, de avaliações comportamentais. Graças esse belo benefício gratuito que os funcionários recebiam, consigo notar no seu comportamento... Quando está mentindo, e quando está se esquivando de uma pergunta. Sabe que não precisa mentir pra mim, a Natasha era sua melhor amiga e eu sei disso também-Declarou Rosalyn, que já havia entendido a suposta reação dela.
—Ela era sim! (Ofegou) A Natasha foi a melhor coisa que me aconteceu naquele lugar-Respondeu Angélique, tapando os olhos com sua mão, como se quisesse se esconder e não querer admitir.
—Faço de suas palavras, as minhas! Os únicos momentos bons que passei e que tive a dádiva de desfrutar da minha infância, foram durante minha mentoria com a Natasha! -Disse Rosalyn, de uma forma acelerada, na pronúncia de suas palavras.
-Ela era extraordinária. Mas foi por esse motivo sim, se é isso que precisa saber. Natasha Higgins, foi a favorita e logo depois, a maior decepção do Caj. Ela elaborava seu plano minuciosamente, sem alavancar suspeitas, com sua inteligência sutil. E eu, a ajudava nesse processo-Confessou Angélique.
—Meu Deus. Então ela escapou, pela mesma razão que a minha. A Natasha estava gravida, agora tudo começa a fazer a sentido-Disse Rosalyn, parcialmente área, enquanto raciocinava sobre as informações absorvidas.
—Felizmente, ela conseguiu descobrir tudo, a tempo de planejar sua fuga. Sei que ela se refugiou no sul do Brasil, levando o Druda junto com ela. Sei também que ela utilizou o método, que uns desertores conseguiam usar, para se camuflar. Hackeando nossos chips internos de localização, para facilitar a cirurgia de remoção. Impedindo que eles explodissem
—Por acaso, você saberia me dizer... Se obteve o conhecimento sobre o sexo da criança? -Perguntou Rosalyn, demonstrando fingir não saber sobre a verdade, sabendo que provavelmente Angélique poderia mentir a respeito.
Por alguns instantes, Angélique se calou, decidindo retomar sua taça de cima da mesa, voltando a degustar o vinho. Ela olha para Rosalyn, com seriedade em sua expressão, ainda se mantendo quieta.
—Era uma menina. A filha da Natasha, era uma menina chamada Katelyn. Que além de ter ficado sob minha custódia de condicionamento... Ajudou você a matar o Caj –Respondeu Angélique, depois de ter se calado por alguns instantes, raciocinando se deveria contar a verdade.
—Kate Higgins. Meu Deus a filha da Natasha, me ajudou a assassinar um tirano. Então o colar é mesmo dela. Esse tempo todo eu conhecia a filha da Natasha, sem saber que ela existia, mas isso é... É loucura-Disse Rosalyn, perplexa com toda a confirmação de sua dúvida.
—Pois é! Sabe eu passei por uma situação, muito desconfortável com aquela garota. Caj a intermediou pra mim na época, testando minhas emoções. Procurando uma brecha, no intuito de averiguar se eu iria tratá-la, de uma forma mais acolhedora, que as outras crianças da minha planilha de treinamento. Por isso tive que ser dura com ela, mas as vezes me atormentou por isso-Desabafou Angélique, rodeando a boca da taça, com seu dedo indicador.
—Era bem do feitio dele mesmo, usar essas práticas. Mas isso era tudo que eu precisava saber, para não tomar uma decisão errada-Respondeu Rosalyn, se levantando da cadeira, aparentemente já satisfeita com as declarações de Angélique.
—Decisão errada? Do que está falando?
—Nada importante. Agora eu preciso ir embora, fico muito grata pela sua atenção. Também quero que saiba, que foi um prazer revê-la novamente e pra alguém de quarente e sete anos... Até que você não está nada mal-Disse Rosalyn, se despedindo com um aperto de mão.
—Fico lisonjeada. Realmente pareço ter uns vinte e quatro...
—Não exagera.
—Você também está linda, com um formoso corpo e um belo corte de cabelo. Lembro quando você era ruiva, seu cabelo parecia um pasto ressecado e...
—Ok Angélique, não to com tempo pra trocar esculachos, boa sorte nessa sua nova etapa e... Até a próxima-Disse Rosalyn, que logo em seguida caminhou rapidamente em direção a saída, agradecendo o garçom.
Na rota pra casa, Rosalyn estava tomada por pensamentos e ideias, sobre todo o relato de Angélique. Foi difícil imaginar que sua treinadora, a única pessoa que ela idealizou como uma figura materna, havia fugido pela mesma razão que intencionou Rosalyn. Mas com tudo esclarecido, Rosalyn finalmente já tinha o que precisava, para enviar o colar no endereço de Kate nos Estados Unidos.
Ao desembarcar do taxi, de longe Rosalyn avistou algo estranho em sua casa, ao reparar na falta de iluminação externa pela janela e em seu quintal. Exaltada, ela corre para entender melhor o que estava ocasionando a falta energia, abrindo a porta sem delicadeza, entrando destinada obter resposta.
—Senhora Barkhan! Eu pensei em ligar pra senhora, mas não queria estragar seu encontro-Disse a babá das crianças, ao tentar se justificar.
—Encontro? O que acha que eu tive, um jantar romântico? O que está acontecendo aqui? -Perguntou Rosalyn, com alta velocidade na pronúncia, como se precisasse respirar.
—Vieram suspender a luz senhora Barkhan! Eu tentei convencê-los, mas disseram que a nova indústria que assumiu a distribuidora. Não tolera mais atrasos, na quitação do pagamento-Respondeu a babá.
—Não posso acreditar nisso! Mas que droga! Eu preciso voltar a manter contato, com meus clientes. Meu Deus, amanhã cedo vou ligar na companhia elétrica, para solucionar todo esse problema-Disse Rosalyn, enquanto caminhava pela penumbra da sala, com as fracas luzes emitidas pelas chamas das velas, na procura por Lire e Corina.
—Oi mãe! -Disse Lire, que surgiu correndo da direção da cozinha, diretamente abraçando a cintura de Rosalyn.
—Oi minha pétala... Tudo bem? -Disse Rosalyn, extasiada com a abraço da pequena, que logo em seguida a pegou no colo.
—Estou sim, a Lucy deu sorvete pra gente. Mas por que ta tudo escuro mãe? -Perguntou Lire, no colo de sua mãe, com sua inocência na voz, deixando Rosalyn comovida em tentar procurar uma resposta.
—Porque hoje é dia de acender a vela, para a fada do fogo. Acabei de te dizer isso, lembra? -Disse Corina, que respondeu à pergunta no lugar de sua mãe, ao sentar-se no sofá da sala, com sua vasilha de sorvete e uma colher.
—Essa fada do fogo existe mãe? -Perguntou Lire, enquanto saboreava sua porção de sorvete.
—Existe sim, ela precisa da vela. Agora quero que termine logo seu sorvete e vá se deitar, esta bem? -Respondeu Rosalyn, despreocupada em tentar responder à pergunta inocente de Lire. Focada somente em como irá escamotear sua dívida, com a companhia elétrica.
—Eu já vou indo então senhora Barkhan. Como a senhora já adiantou meu pagamento, já irei chamar um taxi-Disse a babá, apanhando sua bolsa e se despedindo das meninas.
—Tchau Lucy e muito obrigada mesmo por hoje, se eu pudesse te daria mais do que já te dei, mas infelizmente eu...
—Tudo bem senhora eu entendo. Não se preocupe com isso. Adeus e qualquer coisa me avise, se eu puder ajudar.
Rosalyn acompanhou as meninas até o quarto, com o flash de luz de seu aparelho celular, iluminando o caminho. Chegando lá, Rosalyn auxiliava Lire e Corina, a se preparem para descansar, com todos os cuidados e atenção.
—Vou cobrir vocês duas e vou colocar um colchonete velho sobre o chão daqui. Vou passar a noite com vocês aqui hoje. Só preciso ir buscá-lo no meu quarto-Disse Rosalyn, depois de terminar de cobrir as meninas, que já estavam deitadas, cada uma em sua cama de solteiro.
—Mãe! Obrigado-Disse Corina, de repente interrompendo os passos de Rosalyn, que já estava indo buscar o colchonete.
—Obrigado? Pelo que filha? -Perguntou Rosalyn, surpresa com o agradecimento repentino de Corina.
—Não sei explicar mãe, mas preciso te agradecer. Boa noite, te amo.
—Boa noite meu amor. Também te amo, e sou eu que tenho que agradecer.
Já em casa, Itam Mehmet se trancou em seu quarto, decepcionado com a oportunidade que havia perdido. Além de não ter sido efetivado, para trabalhar na empresa de construção residencial, também foi dispensado do cargo temporário de auxiliar, que ele já estava ocupando, antes do encontro com o assessor chefe. Itam estava sentado ao chão, encostado sobre a beirada da cama, observando uma foto antiga, emoldurada e pregada na parede ao canto da janela, foto essa que registrava um momento de sua infância ao lado seu pai, em meio ao pasto repleto de ovelhas. Itam analisava precisamente o sorriso gratificante, estampando no rosto de seu pai, enquanto se recordava dos momentos bons que viveram juntos, na época em que Amnut Mehmet era um homem renomado, saudável e cheio de alegrias pra distribuir. Logo em seguida, se iniciaram os sentimentos de culpa, Itam ainda se culpava pelo estado psicológico atual de seu pai, pelo fato do assassinato de seu cunhado, que realmente havia resultado na crise que tiveram que enfrentar. Mesmo que ele já tenha pagado pelo preço, ao ser encarcerado por doze meses, Itam ainda sentia que essa é era uma dívida exorbitante, na qual por enquanto ele ainda não poderia quitar. Quem poderia imaginar que um ato de amor e cuidado, poderia causar tanto impacto na vida de uma família inteira, mas infelizmente na Turquia, tirar a vida de alguém, era um ato repugnante e imperdoável, mesmo sendo por uma causa nobre, de salvar a vida da irmã mais nova. As pessoas desacreditavam da possibilidade de um marido, matar a esposa durante seus atos disciplinares. Por essa triste razão, Itam poderia ter que carregar esse legado de assassino injusto e intrometido, por um longo período de sua vida.
De repente Voyla, iniciou suas batidas persistentes, na porta trancada do quarto de seu irmão Itam, mas por uns segundos, ele permanecia na mesma posição em que estava, ignorando os chamados. Quando Voyla ameaçou arrebentar a porta, Itam rapidamente se levantou, abrindo a porta e voltando exatamente para o lugar onde ele estava sentado.
—Você vai ficar aqui trancado, sem dar notícias pra gente do que aconteceu? Até porque você passou por nos duas, direto pra cá. Sem dizer uma palavra, até agora! -Questionou Voyla, após fechar a porta do quarto, sentado na borda cama, ao lado de seu irmão.
—Desculpa eu... Estava precisando ter um momento a sós comigo-Respondeu Itam, focando seu olhar, na ponta dos dedos de seus pés.
—Mas por quê? Por favor, me conte o que houve-Disse Voyla, com um tom de calma na voz, colocando sua mão, sobre ombro de Itam.
—Perdi o emprego, foi isso que aconteceu-Respondeu Itam, ainda afligido.
—Perdeu? Allah! Como assim? Mas por quê? -Perguntou Voyla, confusa com a resposta.
—Porque eu sou um psicopata, é por isso Voyla! Seu irmão é um criminoso, que ainda deveria estar na prisão! -Declarou Itam, que se enfureceu de repente, ao esmurrar o chão duas vezes seguidas, com sua mão.
—Pare com isso, por favor! Você não faz ideia do quanto isso me chateia! Eu me sinto muito mais culpada que você nessa história, quando te vejo assim! Tudo isso que está acontecendo com você, foi por minha Culpa!
—Sua culpa? Foi eu que matei ali! Você foi uma vítima, não teve culpa de nada! -Exclamou Itam, se comprimindo e escondendo seu rosto entre seus braços, na posição em que ele estava.
—A culpa foi minha sim! Que escolhi viver a vida errada, com a pessoa errada! -Respondeu Voyla, reprimindo à vontade chorar, que se colocou de pé na frente Itam, que ainda estava sentado ao chão.
—Mas fui eu quem tirou a vida dele. Sem nem imaginar, que junto com a dele, tirei a dos nossos pais também-Disse Itam, ainda escondido entre seus braços cruzados.
—Estou começando a achar... Que ele deveria ter tirado a minha-Declarou Voyla, que aparentemente também já estava com o mesmo estado emocional de Itam.
Após o repentino desabafo de sua irmã, Itam voltou a exibir sua face, olhando direto para ela, aflorando um leve sentimento de arrependimento. Só que antes de Itam decidir consertar a situação, Voyla já havia se retirado do quarto, triste e sentindo-se igualmente culpada. Voyla costumava controlar suas emoções, mexendo nas presilhas de flores, cravadas em sua longa e volumosa trança. A situação havia se invertido, pois dessa vez era Itam quem batia na porta trancada, no quarto de Voyla, pedindo para que ela permita sua entrada. Mas já estava obvio que por enquanto, aquilo não ia adiantar.
—O que mais você quer hein? -Perguntou Amnut, que surgiu inesperadamente em pé e de pijama, atrás de Itam, durante o momento em que ele ainda persistia em entrar para consolar Voyla.
—Pai? -Questionou Itam, incrédulo sem compreender a aparição surpresa de seu pai.
—Quer arruinar a vida dela, mais do que já arruinou? Gostaria muito de saber quanto tempo mais você precisa, pra terminar o estrago que fez! -Indagou Amnut, que parecia estar com suas mãos trêmulas de fúria.
—Estrago? Pai eu amo todos vocês, estou disposto a fazer qualquer coisa por vocês-Respondeu Itam, consternado e arrastando suas palavras na pronúncia, devido a sua intensa tristeza.
—Por Allah! Não me venha se fazer de coitado agora!
—Meu marido por favor, respeite nosso filho e os sentimentos dele! -Disse Gulia, a mãe de Itam, que resolveu intervir no surto repentino de seu marido.
—Por um acaso ele respeitou nossa família, quando decidiu ter um surto, matando um homem durante seu ensinamentos? -Disse Amnut, que estava com seus olhos arregalados de raiva, durante seus desabafos.
—Ensinamentos pai? Ele ia matar minha irmã afogada em um aquário. Voyla não precisa de ensinamentos, ela já foi muito bem educada pelo senhor Pai-Respondeu Itam, com uma fraqueza em sua pronúncia, intensamente consternado com as palavras de seu pai.
—Está enganado! Eu não tive tempo de aplicar os bons ensinamentos e costumes adequados a vocês dois... Pois eu só pensava em dinheiro e em ovelha! Não é à toa que elas sabiam se comportar! -Disse Amnut, botando pra fora todas as suas opiniões intensivas.
—Já chega! Nunca mais compare meus filhos, a suas ovelhas! -Exclamou Gulia, com o tom elevado na voz, irritada com os desabafos de Amnut.
—Está tudo bem mãe. Às vezes é bom a gente dizer o que sente-Disse Itam, visivelmente abalado e chateado com as declarações de seu pai.
—Se você tem tanta consideração assim por sua família... Deixe de ser uma criança inconsequente, e desatenta aos valores de uma família Turca. Tente acordar pra realidade, assumindo o erro que cometeu. Você já é um homem. Comece a agir como um-Disse Amnut, ao finalizar sua fala, sem expressar arrependimento, se virando e voltando a caminho de seu quarto.
Gulia ficou paralisada com o desconforto da situação, ela encarava Itam, com um olhar de piedade.
—Não de atenção as palavras de seu pai meu filho. Allah sabe o que faz, e ele soube exatamente o que fez... Quando te guiou a salvar a vida de sua irmã-Disse Gulia, tentando acalentar a tristeza de seu filho Itam.
—Não precisa se justificar por ele mãe. Eu senti a verdade, em cada palavra dita. Não se preocupe comigo, por favor vá checar se está tudo bem com ele-Disse Itam, caminhando cabisbaixo na direção da porta de saída.
Itam sentou-se em cima de uma grande pedra deformada, mas não muito alta, que ocupava um pequeno espaço na colina de sua casa, onde antes de tudo acontecer, costumava ser o pasto de ovelhas de seu pai. A vista ali era estonteante, presenteando todos com a visão das grandes e famosas montanhas com casa subterrânea da Turquia. Também era possível admirar a vila vizinha, onde ocorria a expansão das obras, mergulhar no formoso céu azul e no maravilhoso crepúsculo do final da tarde. Era o melhor ponto de reflexão para Itam, que costumava sentar-se ali para ouvir seus pensamentos profundos, enquanto deixava seus olhos se renderem a bela vista. Por vinte minutos, Itam permanecia sobre a rocha, se torturando e usando como arma, as sinceras palavras de seu pai. Itam não costumava chorar, apenas se deprimia, até porque para ele, chorar só funcionava para declarar sua fraqueza e desistência, e ele não se permitia desistir. Quando de longe, ele avistou Voyla, caminhando devagar em sua direção, enquanto usava a mão como cobertura para proteger os olhos da luz do sol.
—Eu ouvi tudo do quarto! -Disse Voyla, se aproximando de Itam.
—Não quero falar sobre isso-Declarou Itam, ao fechar os olhos, deitando seu rosto para cima na direção do céu.
—Queria tanto que tudo isso acabasse. É tudo culpa min...
—Também não estou a fim de voltar a debater, sobre quem é o culpado-Disse Itam, ao barrar a fala de sua irmã.
—Tá certo. Não vamos mais falar sobre isso. Vamos falar sobre, daqui pra frente-Disse Voyla, após se apoiar no encosto da pedra, ficando próxima de seu irmão.
—Acho que o melhor que tenho a fazer agora, pelo bem do papai. É ir embora-Disse Itam, voltando ao seu estado deprimido.
—Embora? Só pode estar ficando louco né? Acha mesmo que ir embora, vai ajudar o papai a deixar de ser machista e sem noção? -Perguntou Voyla, abismada com a declaração de seu irmão.
—Vou pra Istambul. La na capital pode ser que eu arranje algo bom, um emprego, uma renda para ajudar aqui em casa. Daí eu vou enviando o dinheiro todo mês.
—Você não vai a lugar algum! Itam, precisa compreender que isso é um teste, que Allah está lhe aplicando! Você não pode simplesmente dar as costas pra tudo, e fugir como um covarde.
—Eu não sou covarde! Estou fazendo isso, para garantir a saúde do papai. Não posso continuar decepcionando ele dessa forma.
—O papai está assim, por culpa dele mesmo! Ele se acha no direito de jogar toda a culpa da falência dele em você, mas em grande parte isso é culpa dele! Um homem tão experiente quanto ele, fraquejou na hora de lutar pelo conceito dos filhos, por valorizar mais o que a sociedade impõe sobre a gente... Do que defender nossos direitos, atitudes e ternura pelo próximo. E você é o oposto disso. Não admite que nada nem ninguém tente nos controlar, ou tirar nosso direito de amar acima de tudo. É por isso que eu te amo tanto.
Itam agarra sua irmã, no mesmo instante em que ela termina seu comovente discurso, apertando as costas de Voyla, com expressivo abraço de carinho retribuído.
—E eu te amo, porque você sabe prender a respiração, em um aquário! -Debochou Itam, em voz alta, ecoando pelos campos da colina.
—Ai! Minhas costas! Você é um belo palhaço sabia? Isso não teve graça, achei desnecessário-Disse Voyla, ao se desprender dos braços de seu irmão.
—Eu te amo, porque você é única. E insubstituível em minha vida! -Declarou Itam, após beijá-la na testa.
—Então vai parar com essa ideia maluca né?
—Ótimo. Vou ver se a mamãe precisa de ajuda com o jantar-Disse Voyla, retribuindo o beijo na testa da mesma forma.
Após a retirada de sua irmã, Itam ainda permaneceu sobre a pedra, convencido em manter a ideia de ir embora para outro estado.
—Eu tenho que fazer isso, pelo bem de todos vocês. Terei que ir sem despedida e sem aviso prévio-Disse Itam, para si próprio, em um tom de voz equilibrado.
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