Viemos para o dia quinze de março de dois mil e dezoito, dia que poderia ter um imenso significado na vida de Glutar Zigler. Três dias após sua inscrição, Glutar já não estava mais tão esperançoso, sobre o resultado de sua decisão, no dia em que assistiu o anúncio sobre o troneio, na televisão. Desde desse momento, Glutar saia pelas ruas e avenidas de Londres, em sua busca aflita por um emprego, para seu objetivo principal. Que era quitar sua dívida injusta, cobrada por um dos mais temidos bandidos da região. Mas suas buscas foram em inconclusivas, pois infelizmente, devido ao seu histórico de ex-presidíario, Glutar ainda não tinha recebido retorno, de nenhuma das empresas, no qual se candidatou. Seu maior afligimento atual, era saber que os dias se passavam cada vez mais depressa, diminuindo o prazo de pagamento, de sua dívida forçada. Kirka Monteval, era seu maior tormento em saber que ela estava correndo perigo, se ele não conseguisse os vinte mil euros, antes do fim do prazo. Neste Dia, Glutar havia saído de casa as sete e meia da manhã, caminhando pelo lojas, de alguns bairros próximos da capital, enquanto Kirka, que estava de folga do trabalho, aguardava sua volta pra casa.

Com seu jeito brincalhão e espontâneo, ao abrir a porta de casa, Glutar reproduz com assovios, um som semelhante ao de um passarinho selvagem. Totalmente tranquilo, sem deixar com suas dificuldades, abalassem sua estrutura emocional, e seu habitual bom humor. Sua mãe Bridgit Zigler, estava fumando na janela, na área da cozinha, enquanto parecia se comunicar por seu telefone, em voz alta e com sequências de gargalhadas que ela expressava, durante o diálogo com sua colega por aparelho. Enquanto Glutar observava sua mãe, logo ele notou o som do chuveiro ligado, no banheiro que dava acesso pela cozinha, notando que era Kirka quem estava se banhando, enquanto caminhava em busca de algo para se alimentar. Era uma e vinte e cinco da tarde, normalmente o almoço já deveria estar servido na mesa, mas isso não fez se ele importar muito, o que o realmente o decepcionou, foi encontrar apenas um pacote de biscoito aberto, no armário da estante e um resto de leite na geladeira. Bridgit dialogava em voz alta, como se não se importasse em incomodar alguém ao seu redor, tragando seu cigarro, banhando a cozinha de fumaça, focada em seu telefone. Glutar sai da cozinha indo se sentar no sofá da sala, com o saquinho de biscoito e seu copo de leite puro, sem açúcar, esboçando um sorriso meigo e disfarçado, como se não estivesse contente por situação, mas necessitava formar um sorriso, para agradar si mesmo.

—Oi meu amor! Então, como foi? -Perguntou Kirka, que surgiu na sala já vestida, com seu costume de se vestir no banheiro mesmo.

—Oi minha portuguesa! Ah não sei como dizer... Acho que, teremos uma boa notícia em breve. Já caminhei por repletos cantos por aí a fora, mas dessa vez sinto que a loja de donuts, gostou de mim-Respondeu Glutar, enquanto mastigava seus biscoitos, largado pelo canto do sofá, assistindo a televisão.

—Eu também tenho certeza, de que algo bom virá por aí! Aliás, me perdoe por não ter feito algo para almoçarmos, acabei dormindo demais, eu estou tão sobrecarregado no trabalho que...

—Eu sei disso meu amor. Fica tranquila, está bem? -Disse Glutar, que cortou a fala de Kirka, antes dela conseguir terminar sua justificativa.

Glutar em seguida olha para sua namorada de pé que estava encarando-o, com um olhar apaixonado, e ele logo esboça um sorriso cômico e namorador, chamando-a para que ela se juntasse a ele, no sofá. Kirka capta o sinal e parte rapidamente para beijá-lo. Bridgit, ainda se mantinha forte em seu tom de voz incomodo, mas Glutar preferiu não iniciar um debate desnecessário, aumentando o volume da televisão.

—Acabei lembrado de uma coisa! -Disse Kirka, que deitou sua cabeça, sobre o colo de Glutar.

—Que ainda não tomei banho? Eu sei acordei com muita pressa, hoje de manhã! -Debochou Glutar, entretido no noticiário da tarde.

—Não seu bobo! (Risos) Lembrei que hoje é o dia do pronunciamento ao vivo, da organizadora chefe do torneio-Disse Kirka, tomando o controle remoto das mãos de Glutar, colocando no canal que costuma cobrir as informações sobre o evento.

—Ei ratazana! Me devolva isso, ou vai sofrer as consequências graves, por seus atos! -Debochou Glutar, ao tentar retomar de volta o controle remoto, porém Kirka se esquiva já trocando canal.

—Calma, achei que estava empolgado? E com as expectativas altas! -Disse Kirka, que se aquietou no sofá, sentando-se ao lado de Glutar.

—Na verdade, no dia eu estava sim... Mas agora já não dou tanta importância assim, afinal de contas... Por que entre as milhões de pessoas no mundo, eu seria uma delas? -Questionou Glutar, tentando se aplicar um choque de realidade, enquanto jogou seus biscoitos dentro do copo de leite.

—Credo! Você e essa mania de fazer sopa de leite, com biscoito! Você tem tanta chance de ser escolhido, quanto todas outras que serão! -Debochou Kirka, que estava preferindo embarcar na onda de Glutar, sobre as mínimas chances de ser selecionado.

Toda a programação transmitida na televisão naquele momento, havia sido interrompida pelo pronunciamento ao vivo, da organizadora chefe do tornei da chama. O som das batidas dos tambores, junto a música de fundo, tomava conta de toda região da sala, devido ao aumento do volume da televisão.

—Eu vou buscar uma colher, pra misturar melhor minha minha poção! Há! Há! Há! -Debochou Glutar, desinteressado pelo pronunciamento.

—Só não te peço pra buscar uma pra mim, porque isso que você faz, é estranho à beça! -Declarou Kirka, que estava contente em imaginar, que o nome de seu namorado, não será dito pela televisão.

De repente Kirka sentada no sofá, Bridgit dialogando ao telefone e Glutar que deixou seu copo de leite despencar ao chão da cozinha. Se espantam pelo som da pronúncia perfeita do nome e sobrenome de Glutar, antes de seu país de origem.

Glutar havia ficado literalmente congelado, perdendo por uns instantes, suas forças para segurar seu copo de leite, o derrubá-lo após ter escutado claramente, seu nome como um dos selecionados. Alguns cacos se espalharam pelo chão da cozinha, um deles desenhando um leve corte em seu pé, pois Glutar estava calçado com uma sandália com umas aberturas em cima, que facilitou a penetração de um dos cacos estilhaçados do copo. Ele ainda estava integralmente em estado de choque, paralisado tentando retomar seu movimento e sua percepção de dor, pois ainda não havia notado seu corte acima do pé.

Bridgit ainda no mesmo canto da cozinha, próxima da janela, desligou seu telefone sem se despedir de sua colega, no outro lado da linha, igualmente pasma por ter ouvido o nome de seu filho, pela transmissão da televisão. Bridgit confusa, foi caminhando cuidadosamente até a sala, na intenção de esclarecer o que pensava ter ouvido.

Kirka, não desgrudava seu olhar da tela da televisão, obtendo a mesma reação que Glutar, congelada se nem ter capacidade de piscar seus olhos, tentando voltar pra realidade. Pois aquela situação não era exatamente a que ela estava esperando. Quando decidiu tentar retomar sua lucidez, Kirka iniciou uma sequência de respirações profundas, quando finalmente foi virando sua cabeça lentamente, para observar o estado em que Glutar estava. Os dois se encontraram em olhares confusos, tentando compreender o que havia acabado de acontecer, mas Glutar ainda não se moveu, de queixo caído, movendo apenas seu globo ocular. Bridgit foi única capaz de se mover inteiramente, se deslocando do local, onde havia levado o mesmo choque que os dois.

O pronunciamento já havia chegado ao fim, mas todos ali ainda agiam, como se o tempo em sua volta, tivesse parado por todo o mundo. Bridgit a fim de ouvir respostas, questionava disparada, sobre o que estava acontecendo. Foi quando Glutar, despertou de seu transe imediato, caminhado até a sala, com seus dedos do pé manchados de sangue, porém em mínima quantidade.

—O que foi que aconteceu? -Perguntou Bridgit, de pé na sala, de frente pra televisão.

Glutar e Kirka, ainda se encaravam como se tentassem estabelecer uma conexão mental, sem enxergar Bridgit, entre eles, completamente confusos, com a notícia.

—Eu gostaria de saber também mãe, mas... Mas... Era Kirka quem estava assistindo, só ouvi meu nome, da cozinha-Respondeu Glutar, que ainda fixava seu olhar intrigado em Kirka.

—Então será que alguém, poderia me dizer... O que houve, e por qual razão, também ouvi seu nome pela televisão? -Perguntou Bridgit, ainda aflita por uma resposta.

—Glutar Zigler. Inglaterra. Foi o que ouvi a organizadora chefe, falar na Tv... Durante o... O... (Gaguejo) Pronunciamento-Respondeu Kirka, devagar em sua pronúncia, enquanto também olhava profundamente nos olhos de Glutar.

—Meu Deus... Então você foi selecionado! Meu filho, isso é... Isso é maravilhoso! (Gargalhadas) -Exclamou Bridgit, que ficou contente em saber da resposta, para sua dúvida.

—Não poder ser... Tem... Tem algo errado! Deve ter outro Glutar Zigler, por aí né? O país é grande, são muitos habitantes! Não é possível! -Disse Glutar, em estado de choque, que esfregava seus dedos ente os lábios, para aliviar sua ansiedade.

—Na verdade é perfeitamente possível sim. Mas pra termos absoluta certeza, precisamos revisar sua caixa de entrada, no e-mail. Eu ouvi Hectelia, dizer no final do discurso... Que todos convocados, receberiam e-mail informativo, sobre todas as instruções a serem seguidas, até o primeiro dia de integração... Assim que a transmissão encerrasse-Disse Kirka, ainda sentada no sofá, mantendo a exata posição em que estava.

—Então, o que devo fazer agora? -Perguntou Glutar, sem rumo.

—Vá pegar meu notebook, no nosso quarto-Respondeu Kirka, ainda com a expressão confusa.

—Eu tenho certeza, de que é você mesmo, filho! -Disse Bridgit, exultante.

Enquanto Glutar ia na busca pelo notebook, em seu quarto, Kirka murmurava “Como isso é possível?” Em repetidas vezes, enquanto encarava a televisão, que já transmitia outra programação.

—Aqui! Olha você, porque ainda não sei o que fazer-Disse Glutar, entregando o notebook, nas mãos de Kirka, ainda no sofá.

Ao abrir a caixa de entrada, do e-mail de Glutar, na intenção de achar a mensagem sobre a convocação, Kirka acaba obtendo a resposta, que ela temia em receber naquele instante.

—É isso! Está confirmado! Aqui diz “seja bem-vindo Glutar Zigler! Temos o prazer de informá-lo, sobre sua responsabilidade em comparecer, no dia vinte de março, deste ano... Na nossa instalação casulo, no endereço indicado logo abaixo, localizado no centro de Londres, capital de seu país. Por isso segue abaixo, algumas informações extras e indispensáveis, para deixá-lo ciente de todos nossos procedimentos, até o seu primeiro dia de integração. Também anexamos, o arquivo de seu contrato de fidelização e ciência de nossas cláusulas de quebra de contrato, e outras regras imprescindíveis. O senhor também irá receber um prazo integrado, de quarenta e oito horas para desistência, até nossa equipe alocar outro candidato, em seu lugar. Mais uma vez, meus parabéns! De Hectelia Lambert” Meu Deus! É isso! -Declarou Kirka, ao ler a informação central, na mensagem enviada pela organizadora chefe.

—Então é isso! Eu fui convocado! -Respondeu Glutar, que começou a despertar um sentimento de orgulho próprio.

—O prazo de desistência, é de quarenta e oito horas-Disse Kirka, ao fechar a aba aberta, da página do e-mail de Glutar.

—Dane-se o prazo! Eu vou!

Após os acontecimentos do dia de sua inscrição, Katelyn Higgins foi se atormentava cada vez mais, sobre como poderia arranjar uma forma fixa de ganhar dinheiro, para pagar o aluguel de seu imóvel, e suprir as necessidades de Linda Kungan. Outra grande preocupação, era seu colar, que Rosalyn Barkhan havia prometido enviar para entrega, o mais rápido possível, porém alguns dias já tinha se passado, desde o dia da promessa. Kate ainda aguardava ansiosamente pelo dia em que teria de volta, sua maior relíquia de memórias sobre seus pais, mas seu maior aborrecimento atual, era saber como redefinir toda sobre atuais circunstâncias, após a queda de demandas, de seus serviços autônomos de entregas por aplicativo. Kate possuía uma motocicleta, para fazer suas entregas em domicílio, pelas solicitações do aplicativo de entrega, que tinha em seu celular, mas seu automóvel apresentava alguns defeitos, que só poderiam ser reparados com um orçamento alto, mas por enquanto isso não era possível. Muito menos, suas participações secretas, nas disputas de rachas de motocicletas ilegais, pelas ruas noturnas da cidade.

Na tarde do dia quinze de março de dois mil e dezoito, as uma e dezesseis da tarde, no bairro do Harlem, área pobre de Nova York. Kate fazia companhia para Linda, na sala assistindo a televisão, enquanto saboreava alguns amendoins. Um por um, Kate pegava cada amendoim da embalagem que estava ao seu lado no sofá, jogando cada um deles para o alto, conseguindo pegar todos com sua boca, graças a sua agilidade e reflexo avançado. Não deixava um sequer escapar, mas Linda já estava começando a se agoniar com sua mania, mas de uma forma preocupante.

—Acho que a senhorita, já poderia parar com isso né? -Perguntou Linda, que se distraiu com Kate, preocupada.

—Fica tranquila! Isso é moleza, eu fazia muito isso pra passar o tempo em... -Disse Kate, que interrompe o término de sua frase involuntária, para evitar se recordar do passado.

—Em? Quando estava presa, naquele lugar horrível? -Perguntou Linda, que parecia já saber sobre o que Kate, iria dizer.

—Não... Eu ia dizer, em casa. Quando eu era criança, pra me distrair. Você melhor que ninguém, se lembra, que eu era filha única né? Não tinha muitas coleguinhas, por isso pra mim, era uma distração bem criativa-Respondeu Kate, que se esparramou no sofá, voltando a apanhar seus amendoins com a boca.

—Queria tanto, que você parasse com isso! Sabe meu maior desejo, era ouvir você desabafar... Colocar pra fora todo o seu ódio, tudo que te faz mal. Ou pelo menos ir buscar um profissional, pra te ajudar-Disse Linda que se aproximou de Kate, com o auxílio de sua cadeira de rodas.

—Colocar o que pra fora? Eu não tenho todo esse ódio, que a senhora deduz, que eu tenho. Houve um período, que eu tinha sim... Mas isso foi antes de conseguir apagar do mapa, todos os envolvidos na tarde em que meus pais foram assassinados. Depois disso eu prometi que seria diferente, sem ódio e sem desejos por vingança, ou algo do tipo! Ah! E quase não temos dinheiro pra pagar o aluguel, a senhora ainda quer, que eu procure um psiquiatra? -Perguntou Kate, ainda com seu método de catar amendoins com a boca.

—Não é sobre esse tipo de ódio, que me refiro... É sobre o ódio que precisar sair pra fora, precisa sentir liberdade de ser compartilhado, sem ter medo de demonstrar fraqueza ou...

—Ou vitimismo? Pois é né? Acho que não tenho esse direito de me vitimizar, depois do que a senhora e muitos mundo a fora, passaram... E ainda passam! -Respondeu Kate, completando a frase de Linda, antes da própria conseguir terminar.

—Porque essa mania de achar, que não tem direito de sofrer? Kate você foi treinada, pra ser uma máquina... Mas você não é filha! Você era uma criança! Você é um ser humano, que tem o direito de chorar, expressar seus problemas, como todos os outros! -Exclamou Linda, olhando Kate diretamente nos olhos, com uma expressão de inconformidade.

—Porque eu não tenho... E ponto! -Respondeu Kate, rápida e suave e sua resposta, voltando a atirar seus amendoins.

—Ok! Tudo bem, então se é assim... Vou tentar não tocar mais nesse assunto com você, mas uma coisa eu lhe digo... Você vai se engasgar! -Disse Linda, que se afastou cum sua cadeira, voltando ao lugar próximo da televisão, em que ela estava antes.

—Com minha reclusa, em querer me expressar? -Debochou Kate, determinada em terminar seu pacote de amendoim, usando seu método com a boca.

—Não... Atirando esses amendoins pro alto, de boca aberta e deitada ai! -Respondeu Linda, que voltou acompanhar sua série diária.

—Eu estava pensando e... Acho que eu deveria ligar para Rosalyn novamente, perguntando sobre o envio do meu colar-Disse Kate, querendo quebrar o gelo do clima.

—Acho que deveria aguardar mais um pouco. Esses processos de envios internacionais, geralmente são demorados e complexos. É só ficar calma e esperar mais um pouco. Já passou tanto anos, sem ele... Mais alguns dias, não irão ser fatais né? -Disse Linda, ainda no foco de sua série.

—Verdade né? Eu posso esperar mais um pouco. Agora que sei com quem está, fico mais tranquila e paciente. Confio na Barkhan-Respondeu Kate.

Mas sua série acabou recebendo uma pausa inesperada, para a exibição do pronunciamento oficial, do torneio da chama. No momento em que o anúncio se iniciou, linda tem que lhe dar, com uma forte sensação estranha em seu peito, como um leve incomodo. Parecido com um aviso sobre o que estava prestes a ocorrer, durante a transmissão ao vivo, do pronunciamento dos convocados, da nova edição do torneio. Porém Kate estava despreocupada com seus amendoins, e aparentemente nenhum pouco entusiasmada, sobre a possibilidade de ser selecionada para participar do evento, depois de sua inscrição, a três dias passados. Mas ouvia perfeitamente o som da música oficial, acompanhado pelos intensos sons dos tambores, na arena do pronunciamento, reproduzido pela televisão. Suas expectativas sobre a sua seleção, reduziram muito durantes os dias que se passaram, mas Linda ainda parecia estar incomodada com algo coisa, durante a transmissão. As duas se silenciaram, para conseguir ouvir o que a organizadora chefe, tinha a dizer durante seu pronunciamento, mas Kate não deixava seu ato de consumir seus amendoins, em apanhá-los com a boca, pois já estava sem expectativas sobre sua participação.

Foi quando Kate realmente acabou se engasgando, após ter escutado perfeitamente, a pronúncia completa de seu nome e pais de origem em seguida, ditado por Hectelia Lambert, na televisão. Com amendoim ainda estático em sua garganta, Kate desnorteada se levanta do sofá, caminhando perdidamente até a cozinha, na busca alarmante por um copo de água. Rapidamente Linda se desloca do canto em que estava, com a velocidade de sua cadeira de rodas, chegando até a pia da cozinha da cozinha, antes de Kate. Completamente aflita, Linda enche um copo de água, quase o transbordando o recipiente em sua mão, desatenta por sua ação necessária, de desengasgar Kate, que havia se estacionado no canto da parede da cozinha, se sentando no chão, sem conseguir manter seu percurso. Impossibilitada de reagir e de se locomover até, devido ao seu bloqueio de passagem de ar em sua traqueia, por conta do amendoim ainda imóvel. Kate estava relutante em sua tentativa de chegar até a pia, mas sua sequência de tosses involuntárias, para despistar o amendoim, inibia sua necessidade de caminhar até seu destino, na busca pelo copo de água. Porém toda essa situação preocupante, durou apenas alguns segundos, após Linda afligida pelo ocorrido, levar o copo completo de água para Kate. Linda ligeiramente com sua cadeira de rodas, conseguiu entregar o que Kate, urgentemente necessitava naquele instante, a fim de desobstruir a passagem de sua garganta, para que ela retornasse ao seu estado de estabilidade. Kate pega o copo, ingerindo todo o líquido, com suas mãos fracas e trêmulas, aliviando enfim, sua sensação atordoante de se livrar daquele importuno amendoim.

—Eu disse que iria se engasgar! Viu o que aconteceu! Meu Deus, que bom que eu ainda tenho esse pique, de manusear essa cadeira! Meu Deus Kate, você está bem? -Perguntou Linda, de frente pra Kate, ainda se recuperando da adrenalina que enfrentou.

—A senhora ouviu, o que eu ouvi? (Ofegante) -Perguntou Kate, incrédula, mas ainda recuperando a respiração, enquanto ainda não havia se levantada.

—Ainda não consegui acreditar... Mas acho que ouvi sim-Respondeu Linda, formando uma expressão de angústia, sobre a possibilidade de Kate ter sido convocada.

—A organizadora chefe... Ela disse meu nome, ouvi claramente ela dizer! (Ofegante) -Disse Kate, aos poucos ficando estagnada, olhando para o copo em sua mão.

—Mas isso não quer dizer nada! Não significa que você tenha sido convocada, afinal... Existem milhares de Katelyn, espalhadas pelo país! -Declarou Linda, querendo disfarçar a situação eminente.

—Higgins? Acha que existem milhares de Katelyn Higgins, por aí? -Declarou Kate, ainda em estado de paralisia, movimentando apenas os lábios e as pupilas.

—Não sei... Só sei que não é você! Agora se levante e vá tomar um ar fresco! -Ordenou Linda.

Porém Kate, já estava convicta de que havia sido o nome dela, a ser dito pela organizadora chefe do torneio, durante o pronunciamento, mas precisava verificar de uma forma mais conclusiva. Logo ela se dispõe a levantar-se de onde estava, para apanhar seu aparelho celular, que estava em cima do criado mudo da sala. Linda não estava querendo aceitar, que poderia ser mesmo ter sido Kate, uma das quatro pessoas, convocadas a participarem do torneio, no momento da transmissão. Usando sua cadeira de rodas, Linda segue Kate até a sala, para entender o motivo de seu rompante afobado.

—Com certeza deve ter alguma notifi... -Disse Kate, que ao tentar completar a frase, se assusta após ter acessado a caixa de entrada, de seu e-mail.

—O que... O que houve? -Perguntou Linda, que também estava visivelmente abalada, com o que estava acontecendo.

—Chegou... A notificação do torneio pra mim. Fui mesmo convocada a participar. Meu Deus! -Respondeu Kate, inconformada com a confirmação concreta de sua dúvida, após ter lido o texto central da mensagem.

—Ótimo! Eu sei que tem quarenta e oito horas, pra declarar desistência. E sei que você será sensata o suficiente, para tomar a decisão certa-Disse Linda, confiante de que Kate faria, o que acha que deve ser o correto a ser feito.

—Tem razão... Eu já sei o que devo fazer. Porém suspeito, que não é o que a senhora, gostaria de ouvir-Declarou Kate, após lentamente se sentar no sofá.

—Ah Deus não! Kate por favor, não!

—Sei que pode ser uma decisão arriscada, mas sob as circunstâncias atuais... Essa é a melhor oportunidade, que eu ganhei agora! Então não tenho como desperdiçar!

—Ah não Katelyn! Isso quer dizer que?

—Quer dizer que, não irei declarar minha desistência... Porque eu vou!

Com os dias frios em Toronto, uma forte epidemia de gripe, havia atingido a região do bairro onde Rosalyn Barkhan e suas duas filhas residiam. Quase metade dos residentes de Danforth, havia contraído esse vírus, mas os sintomas eram apenas de leve gripe comum, no entanto um pouco exaustiva para os infectados. Os principais sintomas eram, febre, dor no corpo e congestionamento nasal. Infelizmente Rosalyn, contraiu esse vírus e durante três dias, ficou impossibilitada de sair pelas regiões da cidade, na busca intensiva por um emprego. Os problemas de Rosalyn, só se estendiam a cada dia que se passava e sua gripe inoportuna, surgiu pra dificultar ainda mais sua situação. Mas pro seu alívio, Corina e Lire Barkhan, não contraíram o vírus, que motivou Rosalyn a não manter muito contato próximo das pequenas, pois para algumas pessoas, o vírus poderia ser mais intenso, porém não letal. Foi desse ponto em diante, que sua irmã Evelyn entrou em ação, se oferecendo a cuida das crianças, porém Rosalyn não concordou com a proposta feita, se dispondo a resolver todos os fatores importantes, para os cuidados diários das meninas, que logicamente já estava acostumada fazer.

Só que no dia quinze de março de dois mil e dezoito, Rosalyn aproveitou a tarde tranquila e fria, para ficar de repouso na cama de seu quarto, vendo televisão, acompanhada por uma caixinha de lenços de papel descartável. As treze em ponto da tarde, sua filha mais nova Lire, já estava na escola, entretanto sua mais velha Corina, insistiu em se ausentar da aula, para ficar em casa cuidando das necessidades de sua mãe. O que nenhuma das duas esperavam novamente, era mais uma visita repentina de Evelyn, mas Corina recebeu sua tia em casa em casa de bom agrado, pela gratidão em ter recebido o auxílio que necessitava, para inscrever sua mãe na nova edição do torneio. Após permitir a entrada de sua tia em casa, Corina a informou de que sua mãe, estava no quarto de repouso, por conta da epidemia de gripe no bairro. Evelyn insistiu em vela, para tentar fornecer ajuda de alguma forma possível, mas Corina discordou da ideia, pois não seria um bom momento para as duas dialogarem. Evelyn se surpreendia cada vez mais com a sensatez de sua sobrinha, por isso decidiu não subir ao quarto de sua irmã, para visitá-la, até porque somente o fato de ter visto sua sobrinha novamente, já estava de bom tamanho para ela. Corina havia preparado sua famosa porção de cereais com leite e maçã, que Rosalyn adorava, tudo já estava servido em uma bandeja de madeira, pronto pra ser entregue para sua mãe. Corina pediu licença a sua tia, para que pudesse entregar a refeição de sua mãe, daí então Evelyn, logo perguntou se poderia aguardar o retorno da pequena, para que pudessem conversar sobre o ato secreto, de inscrição, que fizeram a três dias atrás. A pequena concordou em deixá-la na sala, para esperar sua volta, mas convencida a não notificar sua mãe, enquanto apanhava a bandeja, de cima da mesa, e ia a caminhar das escadas, até o andar dos quartos da residência.

A gripe deixou Rosalyn, indisposta e visivelmente abatida devido seu resfriado e congestão nasal, enquanto estava acompanhando a programação exibida, pela televisão de seu quarto, sentada e com as costas apoiadas sob a cabeceira da cama. Rosalyn usava dois cobertores longos, para se manter aquecida do frio da cidade, enquanto Corina devagar lutava para empurrar a porta do quarto, com suas mãos ocupadas, por estar equilibrando a bandeja. Ao vê-la, Rosalyn esboça um leve sorriso de orgulho, pela determinação de sua filha, em passar pela porta do quarto, para levar a bandeja até ela. Corina caminhava cuidadosamente até sua mãe, para não deixar cair a vasilha, com o cereal, acompanhada por uma pequena porção de maçãs picotadas e uma flor singela, no canto da bandeja para decorar.

—Nossa, mas estou me sentindo uma realeza! Tudo isso é pra mim? -Perguntou Rosalyn, que esticou suas pernas, para que Corina colocasse a bandeja, sobre elas.

—Você merece tudo bom, mãe! Agora coma tudo, e sem frescura por gentileza! -Debochou Corina, enquanto se sentava na cama, após ter entregado a bandeja para sua mãe.

—Acho que não merecia vocês duas, em minha vida sabia? Mas pode deixar que vou comer tudo, tudo! -Disse Rosalyn, ao dar a primeira colherada, em seu cereal com leite.

—Aproveitando esse momento maravilhoso, mãe e filha... Tem uma coisinha, que queria te contar mãe-Disse Corina, mexendo nos cobertores disfarçadamente.

—Sobre? -Perguntou Rosalyn, evitando falar muito, enquanto degustava seu cereal, assistindo a televisão ao mesmo tempo.

—Sobre a tia Evelyn. Ela está lá na sala, sentada na cadeira da cozinha... Tipo agorinha, nesse momento-Respondeu Corina, arrastando suas palavras ditas, acanhada com uma possível bronca prevista.

—Sua tia? Aqui? Fazendo o que? -Perguntou Rosalyn, sem deixar de perder o foco na sua alimentação, e sua programação assistida.

—Ela veio tentar visitar a gente, outra vez. Deixei ela entrar... E ela perguntou de você-Respondeu Corina, ainda com receio de levar uma bronca.

—Pra todos os efeitos... Estou extremamente doente e impossibilitada de recebê-la. Combinado né? -Perguntou Rosalyn, que estava sem a menor vontade de ver a fuça de sua irmã, no estado em que estava.

—Combinado! Mas ela ainda está... -Disse Corina, ao tentar completar a frase, quando notou o aviso na televisão, sobre o pronunciamento da organizadora chefe do torneio.

—Ela ainda o que, Corina? -Perguntou Rosalyn, que estranhou a distração de sua filha, ao desviar sua atenção pra televisão.

—Mãe o controle remoto? Achei! Eu tenho que aumentar o volume e senhora precisa assistir! -Disse Corina, visivelmente empolgada com a abertura do pronunciamento, agarrada ao controle remoto.

—Mas que entusiasmo é esse? Por que eu tenho que assistir, a essa baboseira? Isso é só mais uma oportunidade de ganhar audiência, em cima do sofrimento dos outros, constrangendo as pessoas e etc... -Declarou Rosalyn, que apanhou um punhado de lenço de papel, para seu limpar seu nariz.

—Qual é mãe! Por favor, só assiste!

Mesmo estranhando o comportamento e a insistência de sua filha, Rosalyn decide acompanhar o pronunciamento ao vivo, junto com o foco absoluto de Corina, enquanto terminava sua refeição. Rosalyn não tinha a menor noção, sobre o feito de sua filha, mesmo após os dias passados, Corina não havia notificado sua mãe, sobre a decisão de inscrevê-la sem seu consentimento próprio. Mas o intenso entusiasmo de Corina, implantou uma leve suspeita em sua consciência, durante o discurso ao vivo.

Ela ainda assoava seu nariz, em mais um punhado de lenços de papel, quando por um instante de espanto intensivo, Rosalyn não conseguia entender o porquê seu nome e pais de origem, havia sido dito pela organizadora chefe, durante o discurso. Naquele momento, Rosalyn deixou escapar de sua mão os lenços de papel, que ela usava para higienizar seu nariz, deixando cair sobre a bandeja de sua refeição. Corina saltou da cama, transbordando alegria e felicidade, após ouvir atentamente o nome de sua mãe, ter sido selecionado durante o discurso de convocação, ao vivo para o mundo. A pequena pulava sobre suas duas pernas, no chão do quarto, exalando contentamento, logo em seguida fazendo uma performance icônica, demonstrando sua felicidade intensiva. Mas Rosalyn não enxergava a alegria de sua filha, por estar cegada pelo espanto de não fazer a mínima ideia, sobre qual seria a possibilidade, de ela ter sido convocada a ser uma integrante, da trigésima elite do torneio. Atordoada, Rosalyn joga os cobertores de lado, colocando a bandeja em cima do criado mudo, próximo de sua cama, sem nem ter devorado as maçãs picotadas, de sua refeição. Ainda emocionalmente incapaz de questionar a alegria de sua filha, Rosalyn pega seu aparelho celular, procurando a notificação oficial, que todos os convocados costumam receber, após o pronunciamento. Foi quando Rosalyn, se espantou definitivamente, ao ter lido a confirmação em seu e-mail, mas essa informação esclarecida, ainda não foi suficiente para Rosalyn, ficar lucida sobre os acontecimentos atuais.

—Corina filha, por favor... Não estou me sentindo bem-Declarou Rosalyn, que se sentou no chão quarto, para tentar abafar sua tontura repentina, por conta do choque emocional.

—Mãe! Meu Deus, eu vou chamar a tia Evelyn! -Exclamou Corina, que desfez seu ato de comemoração, devido a situação em que sua mãe se encontrava, naquele instante.

Corina correu afligida até a cozinha, para pedir auxílio a sua tia, que por sorte ainda aguardava o retorno dela. Quando Evelyn notou as chamadas de Corina se aproximando, rapidamente correu passando por cima de qualquer objeto a sua frente, para entender o que havia ocorrido. Quando Evelyn finalmente chegou ao quarto, logo reparou que Rosalyn massageava sua cabeça, com os dedos de suas duas mãos, entre seus cabelos, na tentativa de aliviar sua tontura, ainda sentada ao chão. Sem perder tempo, Evelyn corre até sua irmã, se agachando ao chão ficando colada ao lado dela, auxiliando Rosalyn, cuidadosamente a se deitar ao chão, usando um método eficaz de alívio sobre a tontura.

Corina estava extremamente preocupada com sua mãe, mas a pequena não achou outro jeito de ajudá-la, sem ter que solicitar socorro de sua tia.

—Deite-se, ficando de costas retas! E agora, também preciso que respire e inspire devagar. Ok? -Disse Evelyn, que ajudou Rosalyn a erguer suas costas sobre o chão, devagar.

Após quinze minutos terem se passado, com a ajuda de sua irmã, Rosalyn se coloca sentada novamente, posição anterior em que estava, quando sentiu a forte tontura, que a debilitou por alguns instantes. Quando Corina e sua tia, perceberam a recuperação de Rosalyn, as duas juntas formaram uma expressão de arrependimento, devido a situação alarmante. Evelyn sentou-se na borda cama, e Corina se manteve em pé, desviando seu olhar, para os cantos do quarto.

—Alguém sabe me informar... Por que Hectelia Lambert... Pronunciou meu nome em alto e bom tom, durante o discurso de convocação na tv? -Questionou Rosalyn, ainda sentada ao chão, enquanto encarava as expressões estampadas, nos rostos da duas.

—A culpa foi minha! -Declarou Evelyn, que disparou sua fala, na frente de sua sobrinha-Eu cheguei aqui na sexta feira a tarde, quando você tinha ido ao supermercado... Enchendo a cabeça de Corina, com uma ideia absurda, de que você poderia participar desta edição do torneio! Eu sinto muito Rose! Mais uma vez... Interferi na sua vida, sem ter esse direito! Me perdoe!

Corina ficou inteiramente abismada, com a falsa declaração de sua tia, assumindo toda a culpa pra ela. Porém Rosalyn, parecia não estar tão surpresa, quanto sua filha, após a fala de sua irmã.

—O que? Claro que não! Isso é mentira! Mãe foi eu que induzi a tia, a me ajudar! Eu não entendia muito bem sobre todas as coisas, que precisavam ser feitas para sua inscrição, foi por isso que eu aproveitei a volta dela aqui no dia... Eu a trouxe até aqui, no seu quarto, para pegar todos os seus documentos e fotos, para enviar pro site. Eu disse que a senhora, faria parte disso mãe... Então fui até o fim por você! Isso foi tudo culpa minha! -Disse Corina, confessando todo seu plano elaborado, enquanto Rosalyn, olhava para ela, só que desta vez com um olhar surpreso.

—Corina, eu não posso acreditar nisso! Você fez tudo isso, em poucas horas que sai de casa? -Perguntou Rosalyn, incrédula com a confissão.

—Desculpa mãe. Mas já está feito, eu ia te contar depois, mas a senhora teve uma reação completamente diferente do que eu imaginava-Disse Corina, inquieta entrelaçando seus dedos uns aos outros.

—O que esperava filha? Que eu pulasse de mãos dadas, junto a você? Ai meu Deus! Quais foram as fotos, que você enviou?

—Bom uma delas tinha que ser de corpo inteiro, então... Mandei aquela sua foto, de biquíni, quando fomos a praia no meu aniversário do ano passado-Respondeu Corina, com medo da reação de sua mãe.

—Isso deve ser alguma pegadinha, né? Ok! Tenho mais uma dúvida, como foi que declaração, minha situação financeira? -Perguntou Rosalyn, ainda inconformada.

—A senhora esqueceu o celular aqui em casa, no dia-Respondeu Corina.

—Eu mandei todas as suas informações bancárias, para a verificação. Quando peguei em seu aplicativo-Disse Evelyn, visivelmente envergonhada, sobre suas declarações.

—Meu Deus! (Pigarro) Vocês duas fizeram tudo isso? Evelyn sua sobrinha é uma criança, com ideias absurdas e você ainda tem coragem, de tomar essa atitude por mim? Francamente! -Disse Rosalyn, ao se pôr de pé novamente, parcialmente recuperada.

—Eu sei disso! Fui completamente infantil, ao me deixar ser influenciada por uma criança! Me perdoe é que... Ela estava tão disposta a tentar, que eu nunca iria imaginar, que você seria convocada! -Respondeu Evelyn, que também se levantou do local em que estava, seguindo os passos de Rosalyn, pelo quarto.

—Meu Deus e agora? -Questionou Rosalyn, para si mesma, parecendo não estar ouvindo as palavras de sua irmã.

—E agora a senhora vai! Por que não mãe? A senhora luta tanto pelo nosso bem-estar, todos os dias, não tem pessoa mais perfeita pra participar disso, do que você mãe! Suas lutas, são a prova de que todo dia, a senhora é capaz de vencer um desafio, um obstáculo e uma etapa na vida... Desde que o papai morreu! Por que não tentar? Existe oportunidade melhor do que essa? A senhora me viu aqui na cama, empolgada, eu estava rezando por isso! Mãe não sei como... Mas eu estava sentindo no meu coração, que essa é sua chance e olha só o que aconteceu hoje! Não dá pra jogar isso fora, mãe! Não dá-Disse Corina, que por alguns instantes silenciou sua mãe e sua tia.

Corina havia sido intensa em suas declarações, e Rosalyn notou isso perfeitamente, com uma extensa quantidade de orgulho, mas ao mesmo tempo confusa e indecisa.

—Eu tenho dois dias... Pra declarar em carta, minha desistência-Disse Rosalyn, enquanto expressava convicção em suas palavras.

Naquele momento, Corina sentou-se na cama, decepcionada e também já estava convencida sobre a suposta desistência de sua mãe, enquanto Evelyn se aproximou da pequena, para tentar conformá-la.

—Porém! Não irei fazer isso! Porque eu vou!

Durante esses três dias que se passaram após, após o dia de sua inscrição. Os nervos de Itam Mehmet, só aumentavam a cada segundo de espera, entretanto seu pai Amnut Mehmet, não compartilhava do mesmo entusiasmo que seu filho. Que já estava de opinião formada, sobre a inscrição de Itam, para o torneio e que suas expectativas eram um completo desperdício de tempo, na sua busca por um emprego. Porém Voyla Mehmet, alimentava ainda mais as expectativas do irmão, disposta a sempre apoiá-lo de todas as formas possíveis, por conta de sua eterna gratidão, pelo ato de Itam, em arriscar a vida dele, para salvá-la. Sua mãe Gulia Mehmet, parecia estar um tanto indecisa, sobre qual seria o lado mais sensato a ser apoiado, seu receio era que Itam poderia estar agindo de forma precipitada. Mas ao mesmo tempo, sentia que seu filho poderia estar agindo de forma certa, sobre sua decisão, devido a devoção que a família tem pelo Deus “Allah” Depois que Itam, declarou ter recebido um sinal divino de seu Deus.

No dia quinze de março de dois mil e dezoito, Itam e sua irmã Voyla, estavam juntos na sala de sua casa, acompanhando a programação turca, demasiadamente empolgados, aguardavam o pronunciamento da organizadora chefe do torneio. O relógio marcava, uma hora e cinco minutos, e os dois estavam visivelmente inquietos, no aguardo do transmissão ao vivo. Desde que entrou em depressão, já era de costume seu pai não sair do quarto, para socializar com a família, sempre deitado sobre a cama, com a porta de seu quarto fechada. Mas neste dia em questão, a porta de seu quarto estava escancarada, na intenção de poder acompanhar a seleção dos convocados, sem precisar sair de sua cama, para interagir com seu filho.

—Viu a porta aberta? -Perguntou Voyla, para seu irmão, que estava próximo a ela no sofá.

—Eu reparei sim, mas... Duvido que ele vá se manifestar de alguma forma, caso meu nome seja dito na televisão-Disse Itam, querendo evitar falar de seu pai, a fim de não estragar seu momento.

—Eu concordo, mas sei que temos a mamãe! Seja qual for o resultado... Ela vai estar do seu lado! Aliás... Quer água? Vou beber um pouco-Perguntou Voyla, que se levantou para ir à cozinha, enquanto Itam aguardava a chamada pro pronunciamento.

—Não pexinha. Muito obrigado, pela gentileza! -Respondeu Itam, ainda com seus olhos vidrados na televisão.

Gulia estava na cozinha, tomando conta dos preparativos do almoço, enquanto Voyla já havia chegado até pia da cozinha, se aproximando dela, para apanhar um copo com água, para si.

—E o seu irmão? -Perguntou Gulia, enquanto estava focada, picando uns legumes, com auxílio de uma faca grande.

—Está lá na sala. Empolgadíssimo! Como se já soubesse, que vai ser convocado. E pra falar a verdade... Também acho que ele será-Respondeu Voyla, após ter ingerido mais da metade da água, de seu copo.

—Sabe minha filha... Tenho medo de que ele possa, se decepcionar. Era pro seu irmão estar procurando um emprego, para de fantasiar essas coisas... Fazendo isso, ele só cria mais motivos, pra seu pai falar e julgar! -Disse Gulia, sem perder o foco, durante seus preparos.

—Mãe, a senhora já parou para analisar... Que desde que tudo que o Itam enfrentou na cadeia, depois de ter sido preso injustamente, por legitima defesa. E depois de toda essa rejeição, que ele tem passado, com o papai... Já teria motivos suficientes, pra entrar em depressão também? -Questionou Voyla, que se apoiou na beira da pia e de braços cruzados, ao lado de sua mãe.

—Alahala! Você não pode fazer esse tipo de comparação, minha filha! -Respondeu Gulia, de uma forma surpresa.

—Mãe eu sei disso... Acontece, que você precisa tentar perceber que o papai, pode ter se tornado um homem um pouco egocêntrico. Depois de ter entrado em depressão. Tem que admitir mãe. O papai mudou, mas ele não pode culpar a doença, pela sua arrogância... Com o filho que ele tanto amava! -Declarou Voyla, com um peso na pronúncia de suas palavras, como se estivesse evitando não dizer, tudo que havia dito.

—Não diga baboseiras, Voyla! Seu pai nunca, vai deixar de amar vocês dois! Tudo que ele fez e tenta fazer até hoje, foi por vocês! Então não diga besteiras, a essa hora do dia! -Disse Gulia, ainda sob seu foco incrível, para terminar o almoço no prazo certo.

—Está bem, não digo mais nada então! Mas no fundo, a senhora também já notou, a falta de compreensão e empatia dele por mim e principalmente... Pelo Itam! -Declarou Voyla, que logo após, foi caminhando de volta pra sala.

—Eu só quero, que tudo volte ao normal minha filha-Disse Gulia, de uma forma murcha e desagradável, sem olhar para sua filha, como se quisesse tentar se esconder.

As palavras de sua mãe, soam de uma forma dolorosa para Voyla, que interrompe seus passos no meio de sua caminhada até a sala, para ir de volta até ela reconfortá-la. Mas de repente sua tentativa de amenizar a tristeza de sua mãe, é falha após as duas serem surpreendidas, pelos gritos contentes de Itam, que soaram por todos os cômodos da casa. Aflitas com os gritos, as duas disparam junta até a sala, para desvendar o motivo dos berros repentinos, mas após darem de cara com Itam, saltitando sobre o acolchoado do sofá.

Itam estava muito contente, como a muitos e muitos dias, não se via. Gulia estava confusa, diante da visão do momento alegre de seu filho, mas Voyla já estava com um sorriso de orgulho, desenhado destacadamente em seu rosto, como se ela já tivesse noção, da comemoração de seu irmão. Itam cantarolava e dançava em cima do sofá, como se não tivesse previsão pra finalizar sua comemoração. Porém Gulia, ainda não entendia o porquê dessa felicidade expressiva.

—Itam, filho! Mas o que está havendo aqui? Por que está pulando no sofá assim? -Questionou Gulia, diante de seu filho, observando seu ato de comemoração.

—Mãe!! Eu fui...

—Ele foi convocado! -Respondeu Amnut, surgindo na sala, completando a resposta de seu filho, para Gulia.

Naquele momento todos ali presentes na sala, esboçaram estarem muitos chocados, sobre a intromissão de Amnut, na resposta que deveria ser dita por Itam. Principalmente Itam, que parou sua sequência de saltos comemorativos no sofá, ao notar que sal pia, havia saído do quarto.

—Eu ouvi perfeitamente de meu quarto... Quando Hectelia, disse o nome, o sobrenome e o país de nascença do nosso filho, Gulia! -Disse Amnut, enquanto dava passos lentos, até ficar de frente para seu filho.

—Pois é né pai... Eu disse que havia recebido um sinal divino de Allah, naquela madrugada. E o senhor pra variar... Duvidou de mim, pai-Disse Itam, que ficou em postura, de pé sobre as almofadas do sofá, sem mostrar desconsolo pra seu pai.

—Não pense que estou orgulhoso. Ainda acho que Allah, não compactua com esse tipo de infantilidade! -Respondeu Amnut, convicto de suas palavras, mas de uma forma seca em se expressar.

—Infantilidade por quê? Hein pai? Queria muito entender, o porque tudo que eu faço... O senhor já decreta como infantilidade, imaturidade! Não tem logica pai! Olha a oportunidade, que eu recebi! Quem poderia imaginar, que diante de tantas pessoas no mundo, que se inscreveram... Eu seria uma das quatro, que foram convocadas? Se isso não é uma dadiva de Allah... Então não sei em que tipo coisa, o senhor acredita! -Disse Itam, de forma intensa, disposto a não deixar seu pai, sugar suas alegrias.

—Eu acredito no que Allah, coloca de frente aos meus olhos! Ao meu dia a dia! Mas vá e frente! Siga suas intuições, ou o que quer que seja, essas suas ideias! Mas depois, encare as consequências, assumindo toda a culpa! -Disse Amnut, com um tom de indignação.

—Allah! Por favor marido! Pare com essas discussões! -Disse Gulia, após ter voltado velozmente da cozinha, após ter tirado as panelas, de seu forno de barro a lenha.

—Eu não direi mais nada... Até o dia em que ele se arrepender! E voltar suplicando perdão, pelos seus atos-Declarou Amnut, que logo em seguida, caminha de volta para seu quarto, olhando pro chão.

Itam não leva em consideração as palavras de seu pai, descendo de cima do sofá para ir dar um abraço intenso em sua mãe e irmã, ao mesmo tempo. Contentes e orgulhosas, as duas apertam as costas de Itam, durante o gesto carinhoso, e cada um beija o respectivo lado das bochechas dele.

—Eu sabia! Que noticia maravilhosa, Allah! Meu irmão, eu nunca duvidei de você! Você merece toda a felicidade e conquista, que o mundo pode te proporcionar, nessa vida! -Declarou Voyla, imensamente contente por seu irmão.

—Allah realmente, é muito único e majestoso em sua vontade! E que ela seja feita, meu filho! Mas me diz uma coisa... O que vai ser agora? Você irá? -Perguntou Gulia, após ter desfeito o entrelaço de seus braços em seu filho.

—Agora mãe! Agora se inicia algo novo, na nossa vida! Pois foi por vocês, que tomei essa decisão... E será pela reconstrução, da nossa família... Que eu vou!