Após completar dezoito anos de idade, Glutar Zigler, um habitante da velha Londres. Foi sentenciado á três anos de prisão, por fazer parte de uma luta clandestina, na qual sem intenção, matou um dos seus adversários, durante uma das disputas do torneio, sendo pego em flagrante no ato. Pois na época a polícia estava se aprofundando nas investigações, para encontrar a organização, que era responsável por gerenciar e lucrar por cima do evento ilegal.

Glutar não vivia uma situação muito boa, devido à pressão de seus pais, justamente por não ter conseguido se firmar em um emprego, pois exigiam que ele sustenta-se a casa e as necessidades de todos na residência. Seu pai era um homem despreocupado, viciado em álcool, enquanto sua mãe só queria saber do dinheiro fácil sem esforço e da boa vida. O rendimento que supria as necessidades de todos, era ganho no evento de luta clandestina, no qual Glutar, em boa parte das disputas, saia como campeão, levando um prêmio significativo em dinheiro pra casa. Nessa mesma época em meados de dois mil e dezoito, Glutar já estava incluso, em um longo relacionamento com Kirka Monteval. Uma jovem que aos seus dezessete anos, deixou tudo pra trás em Portugal sua terra natal, para planejar uma nova etapa de sua vida em Londres. Kirka acabou conhecendo e se apaixonando por Glutar, chegando ao ponto de morar juntos de seu par, junto de sua sogra e sogro sob, a mesma residência.

O sentimento de Kirka por Glutar, era intenso e verdadeiro, algo recíproco pois os dois se amavam a ponto de passar por todos os obstáculos e dificuldades, por amor. Durante o encarceramento de GLutar, Kirka ainda estava vivendo na mesma casa que seus sogros a pedido de seu namorado, porque seus sogros necessitavam de ajuda, pra se manter na residência. Porém Kirka não se sentia à vontade na ausência de Glutar, a todo momento pensava em desistir de tudo e partir dali, rumo a uma nova jornada.

Durante todas as terças e sextas, Glutar recebia visita de sua namorada Kirka, no presídio onde estava sob tutela. Kirka levava mantimentos e produtos de higiene pessoal, para entregar ao seu namorado. Mesmo passando pelo desconforto de ser revistada, Kirka nunca deixava de cumprir com sua promessa, de entregar tudo que ele precisasse.

Glutar Zigler era alto com um metro de oitenta de altura. Seus cabelos eram castanhos em um tom mais escuro, bem encaracolados, sedosos e volumosos. Seus olhos acompanhavam a mesma tonalidade que seu cabelo, seu porte físico era magro, mas nem tanto, era basicamente um magro na média, com a musculatura bem definida. Glutar praticava exercícios físicos gradualmente.

Kirka tinha dezenove anos de idade na época em questão, com um metro de sessenta e oito de altura, apenas um ano mais velha que Glutar. Era uma jovem de belos cabelos lisos, com uma franja curta cobrindo toda a sua testa. Seu cabelo atingia a altura dos sovacos de cor preta, um pouco a mais da metade pra cima, branco da metade pra baixo e sempre estava preso, com algumas mechas da frente, que ela puxava pra trás e firmava com uma presilha. Sem esquecer de suas grandes tatuagens, espalhadas pelo corpo, que ao todo se somavam sete.

Três anos já haviam se passado. Foram longos e tortuosos dias que Glutar, teve de enfrentar e superar. Kirka já estava em frente ao grande portão de saída do presidio. E minutos depois, o portão começa a correr para o lado sendo aberto com auxílio de alguns carcereiros e Glutar surge de shorts jeans, de cor desbotada, uma regata de rock preta, carregando uma sacola, com poucas roupas e pertences pessoais. Seu pescoço estava coberto com um misterioso cachecol marrom. Emocionado, Glutar parou um instante, fechou os olhos erguendo o rosto para o céu e quando abriu os olhos lentamente, ao repor a posição do rosto pra frente, observou Kirka caminhando rapidamente em sua direção, esboçando felicidade no rosto. Os dois se abraçaram com um sentimento único de conquista e superação, Kirka esfregava os dedos nos fios encaracolados de cabelo de Glutar. E Glutar que apertava levemente as costas e cintura dela, enquanto ainda estavam colados, juntinhos se abraçando. O beijo surgiu logo em seguida do carinho e afeto compartilhado entre eles. Mas o som alto e incomodo das rodas no trilho de correr do portão, que se fechava de volta, interrompeu o beijo de curta duração. Foi aí então que Kirka, logo aproveitou para se pronunciar.

—Você raspou as laterais da cabeça? E pra que esse cachecol, nesse calor? — Perguntou Kirka, ainda com um leve sotaque português.

— Sim, mas não foi literalmente raspado. O fagulha passou a máquina, mas não me deixou totalmente careca. Ainda dá pra ver cabelo aqui. É curto, mas é cabelo. Quanto ao cachecol... Isto é uma surpresa- Respondeu Glutar, ao deslizar os dedos nas laterais parcialmente raspadas, de seu cabelo.

—Fagulha? O que é isso?

—O Cabeleireiro do bloco onde eu estava, mas isso é assunto pra depois, né minha portuguesa?

—O importante é que to lindão- Respondeu Glutar, ao caminhar em direção ao taxi estacionado, que havia trazido Kirka.

Juntos já dentro de um taxi, no banco do passageiro a caminho de casa, Kirka aproveitou o momento, para falar sobre a temporada que passou morando com seus sogros, sem a companhia de Glutar. Enquanto ele mastigava Doritos, segurando o pacote em uma mão e com a outra, chupava os dedos, como uma criança contente.

—Confesso que pra mim, foi uma verdadeira prova de fogo, esse tempo convivência com seus pais. Principalmente com sua mãe, que claramente não me suporta e nem nunca terá alguma simpatia, por mim-Declarou Kirka, sem olhar pra Glutar, com os olhos focados para janela, no seu lado do banco.

—Ah minha princesinha. Toda sogra é assim poxa... Você vai ver, que com mais tempo e comigo lá... Agora tudo vai se resolver, vocês vão virar até best friends, dúvida? -Disse Glutar, enquanto mastigava os chips.

—Sei que é sua mãe. Eu entendo, agora o que não consigo entender... É porque depois de três anos, Bridgit nunca se dispôs a te fazer uma visita. E nunca esteve disposta e me oferecer algo, pra te levar! Por um acaso, se perguntou isso? Ou se perguntava, enquanto esteve preso? -Perguntou Kirka, com um tom e um olhar de indignação, enquanto olhava para Glutar, disposta a receber uma boa resposta.

—Meu amor... -Disse Glutar, dando uma breve pausa na fala, enquanto engolia os chips mastigados-Tenha certeza de que tudo isso será esclarecido, quando chegarmos em casa-Respondeu Glutar, limpando seus dedos com a língua, que logo após o feito, partiu pra cima de Kirka, na tentativa de lamber o rosto dela.

Enojada, Kirka se afasta empurrando-o pra trás, sem deixar com que Glutar, consiga fazer a gracinha. Ela pede para que Glutar pare, ainda na tentativa de impedi-lo, enquanto os dois formavam um ar de riso

—Vem minha Doritas! -Disse Glutar, forçando o tom da voz, com um ar debochado. Que acaba desistindo da tentativa de agarrá-la, enquanto ela estava de costas e comprimida, dando leves risadas.

A família de Glutar, residia num cortiço em um bairro pobre de Londres. Ao chegar de frente pra sua casa, Glutar desce do taxi alvoroçado, correndo e entrando no corredor do local, onde havia mais residências vizinhas.

—Cheguei galeraaa!! -Exclamou Glutar, que para em meio ao corredor, estendendo os braços para cima, fechando os punhos, como se estivesse agradecendo uma plateia, após um espetáculo.

Kirka entra logo em seguida, esboçando um sorriso de contentamento, ao observar os vizinhos abrindo portas e janelas, que avistaram Glutar de pé no corredor. Todos agem com desprezo, como se Glutar nem estivesse ali.

—Vamos meu rei do Egito-Disse Kirka, enquanto puxava Glutar pelas mãos, na direção de casa.

—Vamos rumo a nossa pirâmide, minha Cleópatra! Deixe a ralé para trás, eles não merecem nossa glória! -Debochou Glutar, entortando os lábios, enquanto era puxado pelas mãos de Kirka, direção a escadas para o segundo andar.

Após os longos três anos de espera, Glutar está em casa. Ao abrir a porta de sua casa, é recebido de surpresa por sua mãe, que está carregando um bolo de chocolate caseiro bem simples. Mas ela parece estar sozinha, sem a companhia de seu pai e pra variar estava vestida com roupas justas e coloridas. Com pulseiras coloridas em seu punho de cor cobre, calçada com uma sandália de salto, nas orelhas brincos grandes e dourados bem chamativos.

Bridgit Zigler, sempre adotou um estilo um tanto extravagante, como se ainda não tivesse aceitado o fato, de que está envelhecendo e isso sempre incomodou Glutar. Contente em ter reencontrado a mãe depois de tanto tempo, Glutar foi até sua mãe com um belo sorriso entregando a ela um beijo na testa, enquanto Bridgit segurava o bolo.

—Senti muita falta da senhora mãe! E dos seus bolos também! Hummm! -Declarou Glutar, ainda contente com a situação, enquanto esfregava as palmas das mãos, encarando para o bolo.

—Não foi ela, quem fez o bolo! — Disse Kirka, com um tom decepcionante, mas com um leve sorriso de fachada, pra disfarçar, caminhando devagar após a entrada de Glutar.

—Na verdade, meu sirizinho... Kirka fez o bolo e eu tirei do forno, enquanto ela havia saído, pra ir te buscar-Disse Bridgit, tentando se justificar, enquanto levava o bolo, até a mesinha centro, da sala dividida entre a cozinha bem estreita.

—A senhora não teve disposição, de me fazer um bolo? Mãe? -Perguntou Glutar, também esboçando decepção, desviando seu olhar pro lado.

—Olha só! As coisas não andam muito fáceis pra mim aqui, ouviu! Seu pai está se afundando nos caça niqueis, no álcool e eu... Tendo que dar conta de tudo isso sozinha! Estou um caco meu filho! -Respondeu Bridgit, com as duas mãos sob a testa, como se estivesse indignada com reação de Glutar.

—Acha que as coisas foram fáceis pra mim também? Por um acaso sabe se foram fáceis para Kirka, enquanto estive encarcerado? Todos nós passamos por muitas coisas, durante estes três anos mãe! -Disse Glutar, chateado ao sentar-se no sofá, apoiando pra frente a cabeça sobre as mãos.

—Só porque todo mundo aqui sofre... Isso não me tira o direito, de reclamar me justificando-Respondeu Bridgit, com a afeição igualada a de um cachorro faminto.

—Isso também justifica o fato, da senhora ficar mil e noventa e cinco dias, sem nem sequer ir me visitar? -Perguntou Glutar, ao encarar sua mãe, aguardando uma resposta convincente.

—Não gosto daquele lugar meu filho! Aquilo não é ambiente pra uma mulher como eu, se fosse necessário eu iria com certeza. Mas como Kirka, já estava disposta a fazer tudo o que ela já fez... Preferi evitar o desconforto e o constrangimento, de estar naquele ambiente.

—Acha mesmo que Kirka fez o que ela fez, por que não teve medo do constrangimento? Na verdade, ela fez pelo sentimento, que temos um pelo outro. Sentimento que se chama, AMOR! -Disse Glutar, virando o rosto na sua direção contraria, olhando para Kirka, que estava quieta, de pé em frente a porta ainda aberta.

—Não quero mais falar sobre isso! Até porque hoje é dia de comemoração. E não devemos entrar em conflito, num momento tão precioso como este! -Respondeu Bridgit, repartindo o bolo e separando os pratos de papel, em cima da mesinha.

—Não finja que não temos mais problemas, além do que foi discutido aqui, mãe! Que roupas são essas? Por que tanta maquiagem colorida? A senhora já tem cinquenta e seis anos! -Indagou Glutar, enquanto se põe de pé em postura a frente de sua mãe-Achei que já tinha pelo menos, amenizado um pouco, esse seu estilo. Onde está o papai?

—Não gosto quando se refere a mim, como uma velha cinquentona, ainda estou super bem encorpada e conservada, aceite isso de uma vez! Quanto ao seu pai... Deve estar jogando por aí, caindo de bêbado, gastando todo o dinheiro da aposentadoria. Que já não é lá essas coisas! -Respondeu Bridgit, enquanto degustava seu pedaço do bolo, com um garfo de plástico.

—Meu amor, depois vocês conversam melhor sobre tudo. Coma um pouco, está uma delícia-Disse Kirka, ao apanhar um pedaço de bolo para Glutar.

—Só estou fazendo algumas perguntas. Tenho direito as respostas, depois do tempo que passei fora! -Disse Glutar, que permanece na mesma posição, de frente pra Bridgit.

—Já perdi a paciência! Fique com sua mulher tão querida, amada e perfeita! -Disse Bridgit, já um pouco irritada, largando o prato de bolo em cima da mesinha, depois já ter consumido todo o seu pedaço.

—Quer mesmo ficar ironizando agora? Tenho muitos motivos pra amar e defender minha namorada! Porque diferente da senhora, ela cuidou de mim quando precisei!! -Exclamou Glutar, com o tom da voz parcialmente elevada.

Irritadiça Bridgit, entra em seu quarto, batendo a porta com força, assustando Kirka, com o som da mesma se chocando contra o batente.

—Ainda vai comer seu bolo sim!

—Talvez depois. Agora só quero tomar uma ducha e me deitar um pouco-Disse Glutar, que ficou um pouco cabisbaixo, andando devagar até seu quarto que era ao lado do quarto de seus pais.

—Não vai tirar esse cachecol? -Perguntou Kirka, degustando o pedaço do bolo, que havia cortado para Glutar.

Glutar trava no meio do caminho, virando de frente pra Kirka, criando um suspense com uns trejeitos nos olhos e nas mãos. Ele puxa o cachecol devagar, revelando uma tatuagem de um grande escorpião negro, que dava a volta por seu pescoço, como se estivesse tentando agarrar a ponta de sua própria cauda. A ponta da cauda e as garras do aracnídeo, quase se encontravam na região da frente de seu pescoço, na direção de seu rosto.

—Que linda amor! Eu adorei é sua primeira tatuagem! É maravilhosa, mas como foi que fez ela? -Perguntou Kirka, que foi analisando a tatuagem com os dedos.

—Foi um parceiro de cela, que fez pra mim. Um presente de despedida. Ficou massa né? Eu sei!

—Ficou sim, eu adorei meu amor! -Respondeu Kirka, que logo em seguida lhe dá um beijo.

Mas o momento romântico é quebrado de repente, com a chegada inusitada do pai de Glutar, que ao passar pela porta ainda aberta, cai de frente pro chão completamente embriagado. O incidente faz com que Kirka, de imediato fosse até seu sogro, auxiliando-o a levantar cautelosamente, enquanto Glutar observava sem sair do lugar. Toda situação com a decepção visivelmente estampada em seu rosto. Bridgit sai prementemente de seu quarto, ajudando Kirka, a orientá-lo no caminho até o único banheiro da casa, na direção da cozinha, disposta a banhá-lo.

—Viu pelo que tenho de passar? E você aí me julgando! -Disse Bridgit, para Glutar, enquanto caminhava cuidadosamente com seu esposo até o banheiro e pedindo para que Kirka, deixasse que ela o guie sozinha.

Aborrecido, Glutar entra em seu quarto fechando a porta, na intenção de ficar sozinho. Kirka percebe a intenção de Glutar, decidindo deixá-lo sozinho, para que ele possa se tranquilizar sobre a situação.

Esparramado em sua cama, onde a um bom tempo não sentia a sensação do relaxamento físico e mental. Glutar congestiona sua mente, com possíveis ideias para o futuro, disposto a ir atrás de um rendimento digno, que não possa mais comprometê-lo. Enquanto sem nem se quer piscar os olhos, fixou seu olhar pensativo no teto.

—Isso tem que mudar. Preciso fazer uma mudança, serei um novo Glutar! Pela minha família!

—Meu amor, tá tudo bem? Desculpa já ir entrando-Perguntou Kirka, ao ficar parada entre a porta meio aberta, aguardando a resposta.

—Eu vou mudar tudo isso! Vou dar uma nova vida pra gente, uma nova vida pra você! Eu prometo!

Existem certas situações na vida, que nos fazem parar para refletir, sobre nossa permanência neste mundo, sobre o porquê da nossa existência e qual nosso propósito até certo momento. É o caso da nossa tão querida Katelyn Higgins, que nos dias atuais de dois mil e dezoito, conseguiu se estabilizar emocionalmente, depois de toda sua triste e longa trajetória. Claro que ela ainda não alcançou, todas as suas conquistas planejadas, mas liberdade, um lar e o amor de sua mãe adotiva, com certeza já foram um grande passo, rumo aos seus próprios propósitos.

Kate Higgins, se tornou órfã de pai e mãe aos onze anos de idade, pois seus pais foram assassinados dentro de sua própria casa, enquanto Kate passeava por um parque do bairro, acompanhada de sua babá na época. Sua babá era uma mulher negra de trinta e dois anos, que exibia um grande e volumoso estilo afro de cabelo, acompanhado apenas de uma tiara rosa, banhada a glitter. E com seu jeito cuidadoso, de lhe dar com a pequena Kate. Nessa época em questão, Kate e seus pais residiam na região Sul do Brasil, no estado do Rio Grande do Sul. Porém seus pais eram estadunidenses e tiveram que se mudar para o país em que Kate, havia sido criada, pois foi a forma mais segura, que encontraram para se livrar de algo, que perseguia o passado e o presente de Natasha Higgins. Kate até os dias atuais, se lembrava perfeitamente do momento em que entrou na sala de sua casa, observando cada canto dos cômodos, por onde percorria. Notando as cortinas das janelas emboladas no chão, variados tipos de cacos de vidro espalhados por cima da mobília e sob carpete da sala, o televisor despencado bem atrás do rack e as almofadas rasgadas do sofá, dispersas pela sala. Quando infelizmente ao chegar até a cozinha, Kate ouviu o grito de espanto de sua babá, logo acabou avistando dois corpos, no canto próximo a cômoda da pia da cozinha. Integralmente assustada e confusa, Kate foi seguindo um rastro de sangue seco, que se destacava no piso bege da cozinha, porque a mesa de jantar no centro da cozinha bloqueava a imagem que ela precisava identificar mais nitidamente, por isso enquanto caminhava devagar acompanhando os rastros. A pequena notou que os rastros eram formados por palmas de uma mão completa, como se tivessem sido carimbadas no piso, uma seguida da outra. Eram muitas que surgiam da sala e tinham seu término na direção da mulher, debruçada em cima das costas do homem, que estava caído de frente pro piso e com a cabeça virada para o lado. O rastro de palmas sangrentas, havia se acabado, Kate espantada se paralisou, olhando para o lado do pé esquerdo, encontrando os óculos de seu pai, com as lentes estilhaçadas. Ela apanha o objeto, com a mãos trêmulas. Enquanto segurava os óculos de seu pai, o sentimento de vazio, um grande aperto no coração, seguido de um forte nó na garganta, tomavam conta da pequena naquele momento. Já babá estava desesperada ao telefone, em busca de socorro, mas quando se tocou que Kate era muito jovem para ter que encarar a imagem dos corpos de seus pais, um caído sobre o outro, imediatamente largou o telefone em cima da mesa da cozinha, pegou Kate em seu colo e saiu ligeiramente de casa, indo até o quintal dos fundos. Kate estava inteiramente desolada, inundada por todos os sentimentos de perda, foi aí que ali mesmo, com a cabeça apoiada em cima do ombro direito de sua babá, as lágrimas escorriam em seu rosto. A babá notou que a pequena não chorava de um modo desesperador, mas sim de um jeito aborrecido, com fraqueza e sem vontade de se mover ou se quer de falar algo, Kate só queria ficar ali chorando, sem ter que fazer nenhum movimento ou manifestação. Mesmo Kate sendo um pouco pesada para estar no colo, a babá apenas se agachou sobre o gramado do quintal, para suportar melhor o peso sem ter que tirá-la de seu ombro, ficando ali alguns minutos ciente que o momento era importante para que Kate chorasse bastante, porém foi difícil ouvir os choros e soluços de uma criança consternada e não acabar chorando junto, foi a partir desse ponto que ambas choraram juntas. Após os minutos passados, a babá havia recordado do pedido de Natasha Higgins, antes de sair para o passeio com Kate. Sua lembrança era sobre o pedido estranho de Natasha, como se ela já soubesse o que iria acontecer no retorno das duas, de volta pra casa.

—Preciso que me faça um enorme favor, caso volte pra casa com ela... E encontre o que não deva! -São as falas de Natasha, nas lembranças do momento antes de saída da babá.

—Como assim, senhora Higgins? O que é que não devo encontrar?

—Só preste atenção, por favor! Deixarei a mochila dela no quarto, com algumas roupas e objetos necessários... Se quando chegar e ver algo que não tem mais volta... -Disse Natasha, dando uma breve pausa na fala, soltando um profundo suspiro, como se estivesse segurando um possível choro-Suba para o quarto, apanhe a mochila em cima da cama dela e por favor... Leve-a para o mais longe possível, daqui!

—Senhora Higgins, a senhora me pediu para passear com ela, em plena segunda, por algum motivo! Está acontecendo alguma coisa? Se tiver, por favor me conte!

—Só posso te dizer que se vocês voltarem, eu tiver concluído tudo... Vou te agradecer muito por todos os seus serviços prestados, para com minha sereia e irei partir com minha família, para bem longe de tudo... Mas se algo der errado e fizer o que estou pedindo, serei eternamente grata. Onde quer que eu esteja.

—Senhora Higgins, por favor! Está me assustando!

—Tá na hora! Eu preciso que vá depressa!

São as recordações e as falas ditas de Natasha para a babá, antes das duas saírem para o passeio, no parque de diversões do bairro.

Com calma para não deixar Kate ainda mais assustada, a babá pede para que a pequena debulhada em lágrimas, aguarde sentada nos degraus da pequena sacada do quintal, enquanto vai até o quarto, para apanhar sua mochila. Foi aí então que de surpresa, toda a ação dela foi interrompida por dois homens altos, uniformizados com calças e um colete com mangas curtas pretas, com vários detalhes prateados e um símbolo de duas adagas pratas cruzadas formando um X, no peito na altura do coração. Ela notou que os dois estavam em pé, bloqueando a passagem da porta para dentro da casa, com as mãos para trás e com posição de sentido, estavam quietos, com os olhares desviados dela, eles aguardavam ordens, para tomar posição.

—Oh minha pequenina! Vai ficar tudo bem a partir de agora, fique despreocupada está bem? -Disse um senhor estranho, que surgiu no quintal, caminhando até Kate, que ainda estava sentada nos degraus.

Totalmente atordoada, a babá corre até Kate, que ainda estava sentada sobre as escadas agarrando a pequena com força, disposta a não deixar que encostem nelas. Porém isso não impede a ação dos homens, em afastá-la de Kate, para que o misterioso senhor conclua o que havia ido fazer. A babá fica relutante em impedir que agarrem Kate, mas sua força ainda não é o suficiente para detê-los. Logo eles a pegam cada um segurando-a por um braço, enquanto ela se chacoalha desesperadamente, tentando se livrar das mãos dos dois homens, que a alguns segundos anteriores, estavam de pé bem atrás dela, um ao lado do outro, cobrindo a passagem de entrada.

Sua tentativa de salvar a pequena Kate, do sequestro eminente é sem sucesso, mesmo que a babá tenha se empenhado ao máximo, para combatê-los. Kate é levada contra sua própria vontade, porém a pequena não se esforça em tentar reagir, para se livrar das mãos dos sequestradores, ela está visivelmente e excessivamente abalada ainda com a imagem cravada em sua mente, de seus pais mortos sob chão da cozinha, um caído sobre outro. Momentos antes de sumir por completo da visão de sua babá, Kate arrancou um colar de correntinha dourada de seu pescoço, arremessando-o no gramado do quintal.

Pra resumir um pouco dessa longa e triste jornada de Kate Higgins, seguindo a partir do momento em que foi retirada de sua casa e de sua infância. A pequena foi encaminhada para uma poderosa organização secreta, intitulada de Argos, praticamente com uma localização indecifrável e impenetrável sob qualquer espécie de tecnologia de rastreamento, em uma região muito bem isolada nos EUA. Argos era uma sofisticada organização ilegal, que formava assassinos de aluguel e espiões da mais elevada categoria. Todos os alunos, passavam por um longo e rigoroso processo de treinamento, até evoluírem para agentes conhecidos como (CORVOS) Coletados enquanto ainda crianças, para que o desenvolvimento dos instintos e das habilidades necessárias, para se tornar um Corvo, torne-os profissionais para que seja concluída qualquer missão solicitada, com o mais profundo êxito. Argos era basicamente uma empresa com um exorbitante rendimento lucrativo, por conta dos serviços prestados sigilosamente, porque as missões solicitadas pelos clientes que queriam um serviço completo, bem elaborado e com sigilo. Só poderiam proceder, com contratos feitos por administradores da organização e assinados pelos requisitantes do serviço, com um termo de sigilo absoluto.

Natasha era um Corvo e precisou se refugiar no Brasil, após se tornar uma desertora, ao descobrir que estava grávida. Ela escapou sem idealizar possibilidades arriscadas, pelo bem de sua filha, que ainda estava sendo formada em seu ventre. Sem deixar rastros, sendo que era praticamente impossível escapar de Argos, sem deixar de ser notado pelo líder de toda organização. Natasha se deslocou de um país para outro, levando junto seu recém esposo de matrimonio na época, que se chamava Druda Colman, o pai biológico de Kate. Porém o chefe e elaborador de toda essa máfia e organização secreta, que manteve paradeiro impenetrável, durante anos de seus serviços fornecidos. Descobriu a localização de Natasha, alguns anos após a própria ter fugido do país, para que Kate, pudesse ter um futuro, crescendo em um lugar calmo e tendo a vida, que ela gostaria de proporcionar a filha.

Seu nome era Cajemiros Barn, mas era mais popularmente conhecido como Caj. Um homem extremamente ambicioso, com muito prestígio e poder. Seu plano era introduzir Kate, em seu programa de formação para Corvos em Argos, quando soube da existência da filha de Natasha, tomou todas suas providencias, pra conseguir posse da criança.

Durante sete anos, passando por um intensivo e exaustivo processo de treinamento, Kate viveu o pesadelo, que nenhuma criança de onze anos, merecia vivenciar. Além de terem arrancado seus pais a força de sua vida, também lhe tiraram sua infância, sua adolescência, suas escolhas e seus desejos. Passando fome, frio e enfrentando algumas punições severas, que eram aplicadas pelos treinadores. Castigos servidos como doutrina, para as crianças na fase de formação, para entenderem o comprometimento e ética com a instituição. Como toda empresa de grande porte, Argos também possuía uma pirâmide hierárquica, na qual os treinadores eram uma forma mais evoluída e mais experiente acima dos Corvos. Treinadores eram responsáveis por desenvolver as habilidades físicas e mentais de um determinado número de crianças, sobre sua responsabilidade, independente da idade teriam que passar pelos processos de condicionamento, para que futuramente não houvesse falhas nas missões solicitadas. As crianças ficavam sob custódia dos treinadores, até o final do processo, que envolvia um sistema muito rígido, para que todos os Corvos que eram eles tanto homens como mulheres, fossem excessivamente mais avançados, que o resto da população. Até seus quinze anos, Kate se dispôs a tentar fugir sob qualquer custo, porém logo depois se convenceu a desistir de todas as tentativas, decidindo se empenhar nos treinamentos intensivos, para atingir a capacidade de enfrentar os responsáveis pela morte de seus pais. Kate permaneceu em Argos até atingir sua fase de independência, logo após formou aliança com uma antiga parceira de confinamento, que escapou da organização secreta, um tempo antes de Kate completar dezoito anos. Com muito tempo de planejamento, estudos e preparação. Kate concluiu o destino árduo do gigante Caj, que além de ter sido o Chefe de uma poderosa máfia e o principal coordenador deste poderoso império secreto, foi exclusivamente o mandante pela fatalidade de seus pais. Foi devido essa parceria e determinação, que Argos foi exposta ao mundo, junto com sua queda eminente. Tudo isso fez parte, dos planos orquestrados por Kate. Mas que ainda só estava no início, pois sua principal busca atual, para que sua vingança tenha um final concluído. Era localizar os assassinos que colocaram a mão na massa, na tarde da tragédia. Os homens que completaram com êxito, a missão que foi solicitada por Caj.

Nos dias atuais do ano de dois mil e dezoito, Kate já estava nos seus vinte anos de idade, morando no subúrbio de Nova York com sua mãe adotiva. A situação não era uma das melhores possíveis, porque sua mãe adotiva se tornou cadeirante, por conta de um trágico atentado homicida, ocasionado por Corvos, momentos após o rapto de Kate, há nove anos atrás. Sim a mãe adotiva de Kate, era uma das mais dignas babás da história, a mesma que lutou com todas as forças cabíveis, para impedir que a pequena Kate, de onze anos na época, fosse sequestrada e possivelmente morta. Juntas residiam em um edifício bem simples, vivendo num apartamento bem estreito, com a sala embutida no mesmo espaço junto à cozinha, possuindo apenas dois cômodos, sendo o quarto de dormir um deles, no qual as duas dividiam uma cama casal dormindo juntas, por muitas noites. Linda Kungan era o nome da babá, que hoje se tornou uma figura materna, para Kate. Nos tempos modernos, o emprego era algo muito mais complexo, para quem possuía um passado manchado de sangue, que é o exato status de Kate. Mesmo não ter sido condenada, pelo principal motivo de ter entregado de forma anônima a polícia, o paradeiro dos sócios e toda máfia envolvida, na sustentação de Argos. Isso não impediu, que ela ganhasse de presente, uma ficha suja com a sociedade. Por isso durante o dia Kate, fazia delivery por aplicativos de celular e ao cair da noite, participava de rachas ilegais de rua. Eram seu único meio de rendimento sem um registro fixo, mas Linda também ajudava nas despesas, com o pagamento do benéfico, que recebia do governo do estado, depois de se tornar parcialmente invalida.

Kate se tornou uma linda mulher, com seus olhos castanhos mel, seus ondulados e lisos cabelos loiros de raízes escuras, que ultrapassavam poucos centímetros da altura dos ombros. Com uma grande franja dívida ao meio, que quase cobria seus olhos. Com um metro e sessenta e nove de estatura e seu corpo com curvas bem definidas. Pesava sessenta e oito quilos, era um tanto bochechuda e bem corada, Kate não era gorda, mas também não era do tipo magra, pois seu corpo não deixava visível ossos e nem banhas sobressaídas em excesso. Mesmo porque um homem ou mulher intitulado de Corvo, na época da ascensão de Argos, não poderia ser magro a ponto de não obter força física. E nem gordo para não ressaltar preguiça, cansaço, sedentarismo, evolução de doenças respiratórias etc... Também não possuía músculos definidos demasiadamente, Kate tinha o tipo físico popularmente conhecido como '' Comum'' Kate não gostava de demonstrar fortes sentimentos, pois durante anos desde que foi sujeita a processos de aprimoramento, ela sempre estampava a mesma expressão facial. Seus sorrisos eram franzinos, suas gargalhadas eram frouxas e suas emoções raramente eram bem decifradas, por outras pessoas.

Em uma tarde parcialmente ensolarada no Harlem, Kate chegou em casa com alguns remédios e uma pequena sacola carregando duas marmitas. Linda estava de frente pra televisão, sentada em sua cadeira de rodas, do lado oposto da porta de entrada, assistindo o noticiário. Estando de costas para Kate, acabou não reparando sua chegada, enquanto ainda estava focada. Kate achou o momento oportuno, para aplicar um susto leve.

—Vou levar cadeira!! -Disse Kate, no mesmo instante em que assustou Linda, pelas costas.

—Meu Deus! Quase ganho um infarto! -Respondeu Linda, levemente ofegante e com a palma sobre o peito, sentindo o coração acelerado.

—Ah sai dessa coroa. Qualquer coisinha vai pro saco, eu hein-Debochou Kate, enquanto puxava um banquinho, que estava próximo da pia, para se sentar ao lado de Linda.

—Engraçadinha. E o que temos de bom?

—Vamos almoçar! bastante carne de porco, acompanhada por muitos legumes, pra manter uma vida saudável-Respondeu Kate, abrindo e entregando a marmita para Linda.

—Muito obrigada, por tudo que fez por mim, nesses últimos anos. Não tenho como agradecer-Disse Linda, que interrompe o instante em que iria levar o garfo com uma porção de carne até a boca.

—Não tem que agradecer. Ficou paralítica tentando me salvar, faço tudo isso como uma forma de agradecimento-Respondeu Kate, focada em abrir sua marmita e cabisbaixa sem olhar para Linda, sentada sobre o banquinho.

—Na verdade eu tenho como te agradecer... Não sei se lembra do colar dourado, que sua mãe lhe deu aos oito anos... E você jogou no barro do quintal. No momento em que estava sendo carregada, por aquele monstro, que invadiu a casa, após a morte de seus pais-Perguntou Linda, encarando Kate, com seu tom de voz bem enfraquecido.

—Sim, é claro que eu me lembro! Nunca vou me esquecer daquele colar, mas o que quer dizer com isso agora? -Perguntou Kate, que coloca a marmita sobre a poltrona um pouco afastada dela, limpando os lábios e queixo com um guardanapo de papel.

—Naquela tarde, antes de me levarem para ser atirada por aquele barranco, na floresta em meio a estrada... Por uns instantes consegui me livrar das mãos daqueles dois, fui correndo até o colar, apanhado ele e consegui guardá-lo nos bolsos traseiros da calça, que eu estava usando-Respondeu Linda, com olhar triste, que percebe o foco de Kate em entender cada detalhe sendo dito por ela.

—Você pegou o colar? Conseguiu? -Perguntou Kate, esperançosa se ajoelhando no chão, de frente para Linda, agarrando as mãos dela.

—Sim, mas antes de criar expectativas... Preciso que saiba, que ele não está mais comigo. Entreguei para a mulher ruiva, que me retirou ainda com vida, dentre as terras e do gramado em que achei iria definhar, sem poder mover as pernas.

—Mulher ruiva? Linda preciso muito, que me diga como era e quem era essa mulher! -Perguntou Kate, que esboça esperança em seu rosto.

—Foi a última vez que a vi. Faz tanto tempo... Mas acho que me lembro do nome dela, acho que ela se chamava...

Rosalyn Barkhan era o tipo de mulher destemida e sempre disposta a se arriscar, principalmente quando o assunto era cuidar e zelar pelo bem-estar de suas duas filhas. Durante uns anos assim como muitas e muitas mães solteiras, espalhadas ao redor do mundo, Rosalyn exerceu dupla função na criação de suas filhas. Foi quando seu marido veio a falecer, que passou a ter a sensação do mundo cair, sobre as suas costas. Mas toda essa sobrecarga não conteve Rosalyn, de sempre estar ao lado de suas filhas, por mais abalada que ela tenha ficado na época da fatalidade, de uma certa forma, isso serviu como uma espécie de aprendizado em sua vida.

Corina Barkhan sua filha mais velha, com dez anos idade, era a única que dispunha de lembranças robustas de seu pai e é a maior pilastra de apoio emocional, que Rosalyn possuía. Já Lire Barkhan era a caçula de oito anos, completamente despreocupada de todos os problemas e angústias da vida, o tipo de criança que enxergava o pote de ouro, no final do arco íris, acompanhado com o mundo de todas as fantasias infantis. Ao contrário de sua irmã mais velha, a pequena não obtinha lembranças fortes de seu falecido pai, mas o pouco que restou marcou memória.

Nos dias atuais Rosalyn e suas filhas, eram cidadãs canadenses, pois residiam em Toronto, habitando um bairro simples e aconchegante de se viver. Como herança a casa em que as três habitavam, era propriedade de seu falecido marido, portanto Rosalyn não precisava desgastar suas preocupações com aluguel. Entretanto era uma grande e espaçosa residência, com dois dormitórios, cômodos amplos como sala e cozinha, com um maravilhoso quintal dianteiro e garagem com espaço para um automóvel. Por esses motivos, não era fácil manter as despesas e os gastos que a casa produzia. Mas por outro lado, Rosalyn conseguia suprir essas necessidades com a herança em verba financeira, que era de um valor extenso, deixada por seu marido. Porém o dinheiro deixado, não tinha extensão infinita e mais cedo ou mais tarde, alguma providência teria que ser tomada, para decidir o que irá manter todas as necessidades da família, sem um alto nível de prejuízo. Foi a partir desse ponto que Rosalyn, se dedicou no ramo de investigações, decidindo usar seus talentos antigos, como uma forma rentável, sem ter que se inquietar com frustrações futuras. Daí que ela acabou se tornando uma detetive particular. Não era algo grande, Rosalyn nem possuía seu próprio escritório, trabalhava de casa mesmo, seus serviços eram solicitados por contato telefônico ou e-mails. Todo esquema era bem simples, porém discreto, ela costumava marcar os encontros com seus clientes, em locais reservados para as negociações, pois não podia expor sua localização e de suas filhas. Essa renda extra, ajudou Rosalyn a manter o dinheiro da herança por um bom tempo, porque o restante do dinheiro que havia sobrado, era basicamente para cobrir despesas dos estudos de suas filhas, futuramente. Suas experiências investigativas para o ramo, nasceram de seu passado tortuoso e infeliz. Rosalyn lamentavelmente também foi uma das variadas vítimas de Argos, como todos os outros Corvos, sendo contra sua própria vontade, mas só após o longo período do processo de condicionamento físico e psicológico. E depois de ter efetivado uma boa quantidade de missões entregues a ela. Que Rosalyn fez uma das maiores façanhas já registradas nos históricos de Argos, que foi escapulir de um império grandioso e com um tremendo sistema de vigilância contra fugitivos. Rosalyn era um dos mais favoritos Corvos para Cajemiros Barn, pois no período em que iniciou suas missões a fora na época, falhas e serviços incompletos não faziam parte de seu roteiro. Era exatamente por esse motivo que Caj, a idolatrava. Mas seu finado esposo infelizmente não ganhou um bom final, quando foi assassinado durante uma viajem de negócios, pois também estava sendo procurado, simplesmente por ter bolado o plano de fuga e ter escapado acompanhando de Rosalyn. Em hipótese alguma Caj perdoava desertores, todos que conquistavam a sonhada fuga, já estavam cientes de seu destino eminente, enquanto Argos ainda se mantinha firme.

Hoje em dia Rosalyn não precisava mais viver com angústias, depois da queda do império, havia poucos motivos para com o que se preocupar. Mas isso não significa deixar de estar sempre alerta, até porque Rosalyn, já se sujou expressivamente de sangue no passado, conquistando alguns inimigos para si própria. Estando sempre disposta a matar e morrer, pelo bem estar de suas filhas.

A residência Barkhan, estava bem agitada para uma noite de quinta-feira monótona em Danforth, pois era a noite do bolo de chocolate, uma tradição da família elaborada por Rosalyn, na intenção de aliviar o sentimento de perda e luto das meninas. Que de uma certa forma, acabou funcionando muito bem. Geralmente era Rosalyn a responsável pela produção do bolo e organização da mesa, mas tudo mudou naquela noite, até porque Corina já tinha idade para aprender fazer a principal refeição da noite e com assistência de uma profissional, tudo dará certo.

—Uau, mas essa cozinha já era! -Debochou Rosalyn, que se encontra sentada de pernas cruzadas, na cadeira da mesa de jantar, observando Corina.

—Ah para com isso mãe! Já estou tentando achar a bucha, pra limpar tudo, antes da comilança-Disse Corina, que aparenta estar meio perdida na busca pela bucha de lavar.

—Ah sem pressa! Adoro bolo de floresta torrada-Debochou Rosalyn, que cobre a boca com a sua mão, interrompendo um breve riso, enquanto olha para Lire, que estava na cadeira ao lado.

—O cheiro está muito bom... Espero que o gosto também esteja-Declarou Lire, que ansiosa bate as pontas do garfo, sobre a bancada de madeira da mesa.

—Mãe acha melhor eu lavar a louça, depois comermos o bolo? -Perguntou Corina, que também se encontra ansiosa.

—Olha filha, acho essa uma ótima ideia.

Corina retirou o bolo do forno, com as mãos calçadas por um par de luvas térmicas e já estava praticamente tudo pronto para a degustação, só que a noite do bolo de chocolate, estava prestes a ser bem mais recheada, que o prato principal. O som da campainha naquele horário da noite, deixou Rosalyn surpresa e alarmada, pois não era de costume receber visitas nesse período. Com movimentos lentos e cautelosos, Rosalyn se levantou caminhando na direção da cômoda da pia, abrindo a terceira gaveta e apanhando uma arma de fogo, que estava envolta por um pano preto estampado. Ela ordena que as meninas saiam da cozinha e subam para o andar de cima, onde estão localizados os quartos.

—Mas porque mãe? Deve ser um dos vizinhos-Questionou Corina, que já havia desenformado o bolo.

—Pelo que conheço dos vizinhos, não é de costume deles, fazer visitas as dez e quarenta da noite. A maioria também com certeza, já está dormindo a uma hora dessas. Agora suba e leve sua irmã junto, não vou abrir a porta até que as duas estejam no quarto-Respondeu Rosalyn, que encobre a pistola de calibre cinquenta em sua cintura lateral, usando o gancho da calça, como suporte.

—Mãe calma por favor, preste atenção... -Disse Corina, na intenção de acalmá-la, porém sem sucesso pois o som da campainha toca pela segunda vez-Atenda eu sei quem é. Se trata de uma convidada minha, mas é surpresa, a senhora vai ter que ir abrir a porta primeiro.

Rosalyn totalmente confusa com a situação, que foi esclarecida por sua filha, encarou Corina por alguns instantes, com olhares desconfiados, mas ao tocar do terceiro som da campainha, ela decide ir abrir a porta, só que com a pistola ainda colada sob sua cintura. Enquanto Rosalyn se dirige até a porta, Corina põe em ação todos os preparativos finais, pra que o bolo possa ser servido e Lire que ainda se encontra sentada, de frente a mesa aguardando ser servida. Ao abrir a porta, Rosalyn congela todas as partes do corpo em total estado de choque e desorientação, sem desgrudar sua mão esquerda da maçaneta da porta, ainda aberta. A pessoa em questão, que ainda estava do lado fora, aguardando alguma possível reação de Rosalyn, era sua irmã mais velha que por muitos anos, estava à sua procura.

—Evelyn? -Sussurrou Rosalyn, esboçando um sentimento de descontentamento, mas que ainda não obteve nenhuma reação.

—Oi Rose. Perdão pelo horário... Mas sua filha me pediu, para vir por agora, porque seria o momento perfeito, pra uma apresentação-Disse Evelyn, que aparenta estar envergonhada, com o momento tenso.

—Oi tia por favor, entre e fique à vontade! -Disse Corina, que toma a atitude de recepcionar a visita indo até a porta, enquanto Rosalyn ainda permanece no mesmo estado e posição.

Corina acompanha sua tia até a mesa com um belo gesto receptivo, puxando uma cadeira para que ela pudesse se sentar, mas Rosalyn ainda estava rente a entrada ainda confusa, porém lentamente ela fecha a porta e logo caminha em direção a mesa, com sua cabeça inteiramente perturbada, com a visita inesperada.

As degustações se iniciam, e são acompanhadas por histórias de apresentação ditadas por Evelyn, mas enquanto Corina e Lire aparentam estar totalmente focadas e interessadas no assunto, Rosalyn não demonstra o mesmo sentimento, pois sua fatia de bolo nem se quer foi tocada ainda. Está visivelmente nítido a falta de interesse que Rosalyn, tem em ouvir as histórias contadas por sua irmã, más Corina acaba estranhando seu comportamento.

—Mãe, está tudo bem com a senhora? Ainda não tocou no bolo, a calda já está fria e o bolo também-Perguntou Corina, que sem querer interrompe as falas de sua tia.

—Perdi a fome! -Respondeu Rosalyn, aborrecida largando o garfo dentro do prato, cruzando seus braços e se debruçando para trás na cadeira.

—Perdão Rose. Mas é que eu realmente queria ver você, falar com você e tentar me redimir se possível-Disse Evelyn, que arrasta as palavras com o peso do desconsolo-Quero que saiba, que durante todos esses anos... Só não tentei lhe dizer o que vim dizer antes. Porque não te encontrava em canto algum, mas graças a sua princesa mais velha, te achei.

—Ainda preciso manter minha localização, mais restrita o possível, depois de tudo que eu vivi-Declarou Rosalyn, sem olhar diretamente para sua irmã, que estava de frente pra ela na mesa, porém do outro lado.

—Vem Lire. Já passou da hora de ir pra cama-Disse Corina, ao se levantar da mesa, dando um abraço em sua tia, que estava sentada ao lado e logo em seguida aguarda Lire, dar o seguinte abraço. Para que as duas subam juntas.

—Boa noite pra vocês duas, preciosas. E muito obrigado, por essa maravilhosa refeição-Disse Evelyn, após se pôr de pé, abraçando-as cada uma por vez.

—Já subo pra dar o beijo de boa noite, meninas-Disse Rosalyn, que mantém o olhar desviado de sua irmã e sem desfazer sua posição, sobre a cadeira.

Corina acompanha sua irmã caçula e sorridente Lire, até o quarto, na intenção de deixar as duas tentaram resolver um possível conflito, que ficou suspeito sobre o clima que surgiu entre elas. Durante uns segundos, um forte silencio constrangedor tomou conta de toda área no instante em que foram deixadas a sós.

—Elas são maravilhosas. Mas eu já senti isso no primeiro momento, que olhei pra duas. Agora só tive a certeza-Disse Evelyn, tentando quebrar o silêncio desconfortável, porém ainda um pouco com peso no tom da voz.

—Pois é... Elas são tudo que me sustenta. São minha única família. Felizmente-Disse Rosalyn, que aparentava não querer dialogar, com a irmã.

—Rose minha irmã por favor, vim aqui para que compreenda...

—Irmã? Por um acaso reparou no cuidado que Corina teve, para acompanhar a irmã mais nova, até o quarto? Aquilo são sentimentos generosos de irmã, você infelizmente, só é minha irmã de sangue! Porque sentimento entre a gente... Não passa de uma lenda da sua cabeça-Exclamou Rosalyn, que por um rápido instante, se altera e interrompendo as explicações de Evelyn. Mas que na sua frase final, enfraquece o tom da voz.

—Eu sei o quanto o errei! Sei o quanto fui uma idiota, egoísta e interesseira! Mas preciso hoje, que você entenda e veja o quanto mudei, o quanto estou arrependida e o quanto desejo recuperar entre a gente, tudo que foi perdido! -Disse Evelyn, que já se encontra em um rígido estado de desolação, enquanto cola as palmas das mãos uma sobre a outra, quase como posição de oração.

—Não quero suas explicações! Não preciso que me mostre ou que me prove coisa alguma... Nada do que fizer, vai conseguir apagar da minha vida, tudo que eu passei e perdi graças a você!

—Eu preciso muito que compreenda, que eu era jovem e estava desesperada! Sem saída e sem saber o que fazer-Disse Evelyn, que já começa a liberar suas primeiras lágrimas de arrependimento, enquanto olha fixamente para os olhos de Rosalyn-Eu só queria tentar ser...

—Pra mim, você nunca foi nada! Você não tem nada! Você não é nada! -Declarou Rosalyn, que se levanta rapidamente, derrubando a cadeira com impacto de seu movimento enfurecido, mas que também já estava chorando, porém de raiva, com alguns fios de cabelo colados, em sua bochecha por conta dos caminhos das lágrimas.

—Rose por favor...

—Vai embora-Disse Rosalyn, ainda de pé tentando se impor emocionalmente, enquanto seca a bochecha com a mão direita.

—Mas eu preciso tanto, que me esc...

—VÁ EMBORA!!

Evelyn parte da cozinha inteiramente deprimida e abatida, por conta das palavras ditas por Rosalyn, durante a discussão, a intenção de sua visita surpresa era tentar partir dali, reconciliada com sua irmã, mas sua tática terminou pior do que ela imagina. Após a partida de Evelyn. Rosalyn limpa suas últimas lágrimas com as pontas dos dedos, se pondo pensativa e imóvel por alguns instantes, levando seu olhar concentrado, ao seu inteiro pedaço de bolo sobre a mesa. Ela é tomada por uma mistura de sentimentos avassaladores, mas seu momento reflexivo é de curto prazo e Rosalyn, decide subir ao Quarto de Corina, para tentar entender por que do convite inusitado sem sua previa consulta. Já na porta do quarto, Rosalyn aperta o interruptor de luz, abre a porta cautelosamente e se dirige até cama onde Corina, já se encontrava pronta para o descanso.

—Filha preciso te fazer uma pergunta-Disse Rosalyn, já sentada ao lado de sua filha, na borda da cama de solteiro.

—Oi mãe, pode falar-É a fala de Corina, que se põe sentada e encostada na cabeceira de sua cama.

—Tem certeza de que foi você, quem passou o endereço daqui pra Eve... Sua tia? -Perguntou Rosalyn, que corrige sua pronúncia, enquanto acaricia a curta franja de sua filha.

—Foi sim mãe. Quando achei ela nas redes sociais, conversamos bastante sobre muitas coisas e sobre o quanto ela queria te ver. Daí então eu disse onde a gente morava e marquei com ela hoje, foi isso.

—Tá bom meu amor. Eu acredito em você e nas suas boas intenções. Eu só perguntei, por que preciso esclarecer uma dúvida, que plantei. Pois se ela descobriu minha localização, qualquer um poderia ter descoberto, mas obrigado meu amor, pode ir descansar agora.

—Mãe eu sei que vocês não se entenderam, porque daqui deu pra ouvir tudo. O que houve mãe? Por que você tem essa raiva, da tia Evelyn?

—Meu amor, sua tia me fez um mal irreparável. Ela mudou todo rumo da minha vida. Mas por um lado eu a agradeço... Porque senão, acho que eu não teria ganhado o maior presente da minha vida. Vocês duas, num pacote completo-Respondeu Rosalyn, dando um beijo na testa de Corina, deitando-a e ajeitando o cobertor para cobri-la.

—Óbvio que a senhora sabe, que eu vou querer saber de tudo né? E quero ouvir só verdades. Boa noite, mãe. Te amo! -Afirmou Corina, que se virou para o lado dando as costas para sua mãe, como se tivesse feito uma pergunta retórica.

O tipo físico de Rosalyn, era quase parecido com o de Kate, mesmo porque era de lei ter um porte físico padrão, para se tornar um Corvo, não podendo ser magra, muitos menos gorda para se esgotar. Pois as duas partiam em missões. Principalmente também, pelo fato de já ter engravidado duas vezes, durante seu período fora dos negócios secretos de Argos. A tonalidade de seu cabelo era branca, num tom quase semelhante um platinado e no estilo Chanel grande e volumoso, com uma franja lateral. Media um metro e setenta de altura, seus olhos eram verdes intensamente escuros. Na sua época de recém-casada, Rosalyn havia realizado um procedimento estético de preenchimento labial, realçando robustamente sua bela aparência. Atualmente em dois mil e dezoito, Rosalyn já estava com seus trinta anos de idade, porém visivelmente bem conservada de aparência, mesmo passando por todo trauma de seu passado, isso não a afetou severamente na disposição de manter seu físico, em bom estado.

Já na manhã seguinte, com as garotas na escola, a mesa do café da manhã ainda uma desordem, Rosalyn se dispõe a começar organizar toda a bagunça, mas um pouco ansiosa aguardando a ligação de um cliente para confirmar uma investigação solicitada. Quando inesperadamente o telefone fixo em cima da estante da sala, começou a tocar fazendo com que Rosalyn abandonasse sua tarefa inacabada, correr para ir atendê-lo.

—Olá bom dia, aqui é Rosalyn Bar... Quem? Meu Deus! Oi Kate.

Partiremos agora para a tão saudosa Turquia, juntos iremos conhecer a história do quarto e último integrante da Elite em chamas. Itam Mehmet, era o mais velho dentre dois dos filhos de Amnut Mehmet. Amnut era um senhor de cinquenta e sete anos de idade, mas que não aparentava ter tal idade sendo ele tão vigorosamente disposto e que era muito conhecido, por se o maior pastor de ovelhas, do estado da Antalya e o mais famoso da Turquia. Seu rebanho de ovelhas sempre produziram a melhor lã do país, o produto chegava a ser exportado para outros estados e países vizinhos, pois Amnut possuía uma das melhores clientelas do país, que buscavam por lã de qualidade para tecidos e etc... Por sempre estar recebendo ofertas na maioria das vezes, vindo elas dos europeus, Amnut e seu filho Itam, se aprofundaram nos estudos do idioma inglês, mas foi Itam quem mais se aprofundou nas aulas, se tornando cada vez mais fluente, durante cinco de estudos.

Conhecido popularmente como pé grande, Itam Mehmet adquiriu esse apelido, que lhe foi dado por sua única irmã, na época em que iniciou sua evolução física, entrando na sua fase adulta e principalmente por ser alto e muito bem encorpado. Ele não era tipo bem definido, com músculos rigidamente destacados, era mais do tipo bem robusto, mas não com físico relaxado, porque Itam sempre praticava alguns exercícios, para manter sua forma de grandalhão. Com um metro e oitenta e dois de altura, seus olhos verdes escuros, com seu corte de cabelo no estilo slickback liso, castanho escuro e todo jogado pra trás. E seu charmoso bigode turco, usado por uma grande parte da população masculina da Turquia e sempre vestido com as vestimentas um tanto antiquadas, mas que também era costume de uso do povo de Antalya. Itam quase sempre andava com seus pés descalços, pois não se importava muito com riscos ou opiniões alheias, sempre com seu jeito meigo e super protetor. Porém era um homem de opinião forte, sempre disposto a questionar ou contrariar decisões, que pudesse parecer injustas para ele ou qualquer outra pessoa em sua vida.

Desde seus treze anos de idade, Itam auxiliou o pai nos negócios da produção, na raspagem das pelagens e cuidados especiais, com bem mais rentável da família. Durante anos a família Mehmet dependeu desse trabalho de produção de lã, Amnut chegou até a obter um apelido popular ficando conhecido como homem de lã e desde então a família sempre foi muito bem estruturada financeiramente. Toda a família habitava em uma região interiorana do estado de Antalya na Turquia, em um lugar afastado das cidades urbanas, mas que era bem próximo de uma pequena vila imaculada. Todo o ambiente era rodeado com cerrados secos e altas montanhas. A fazenda e morada da família, era localizada em uma colina prestigiada com uma estonteante vista para a vila vizinha, tornando a vida e convivência lá cada vez mais gostosa com o ambiente. Itam e sua irmã mais nova, sempre foram privilegiados com fartura de comida boa e vestes de alta qualidade, mas bens materiais nunca foram mais importantes, do que a união para uma tradicional família turca. Durante um longo e generoso tempo a família Mehmet, sempre disfrutou de uma boa condição de vida. Mas tudo isso acabou tendo uma triste reviravolta, no ano de dois e dezesseis.

Voyla Mehmet a irmã caçula de Itam, tinha completado seus dezoito anos no em questão, já estando comprometida e de casamento marcado, com seu pretendente da vila vizinha. Um tempo depois da cerimônia de casamento, Voyla se alocou junto com seu marido, na propriedade onde ele habitava localizada na vila. Durante alguns meses eles viveram sobre uma plena harmonia comum entre um casal recém-casado, entretanto o clima mudou depois que Voyla se dedicou na preparação de marmitas, a fim de uma renda própria, para vender e distribuir aos homens que estavam trabalhando em uma obra próxima a residência do casal. Ela possuía um grande talento culinário, na produção de comidas típicas da Turquia, talento esse que foi desenvolvido com os ensinamentos de sua mãe. O cunhado de Itam, desabrochou um leve sentimento de ciúme, ao descobrir que sua esposa Voyla, além de cozinhar, ia presencialmente entregar as marmitas para os trabalhadores envolvidos na obra. Um grande conjunto de casas estava sendo construída, pois a vila estava passando por uma forte expansão habitacional. A solidariedade era expressiva, porque uma pequena parte dos mil e quatrocentos moradores da vila, ajudavam os trabalhadores da obra de alguma forma possível. E Voyla se aproveitou disso, somente na intenção de ajudar nas despesas da casa e alimentar alguns desejos pessoais, porém seu marido acabou enxergando isso de uma maneira contraria, fazendo com que ele tirasse conclusões paranoicas, a respeito das atitudes dela. Voyla começou a ser repreendida inúmeras vezes, no início das desconfianças de seu marido, mas isso não a impediu de continuar as produções e entregas das marmitas, de forma sorrateira, enquanto ele partia para trabalhar na capital da cidade. Só que suas atitudes não foram totalmente imperceptíveis, pois um dos vizinhos e colega bem próximo de seu marido, avistava toda sua trajetória matinal decidindo delatar o ocorrido. Tornando a relação conjugal de Voyla, cada dia mais complicada e quase que insuportável de se viver, porque os ciúmes e neuras de seu marido na época, acabou deixando totalmente visível, um obscuro lado de sua personalidade, que ainda não havia sido formalmente apresentado a ela. Porém Itam nunca adquiriu simpatia por seu cunhado, já alertava a Irmã de que seu noivo, poderia não ser uma boa escolha, sendo o único da família Mehmet a ser contra a união do casal. Itam estava sempre desconfiado da convivência entre o casal, após a partida de sua irmã caçula, foi desse ponto em diante, que percebeu o quanto as coisas começaram a escapar do eixo. Voyla começou a passar por alguns perrengues, seu marido foi se tornando cada vez mais controlador, impondo regras e exigindo certos comportamentos da parte dela. Essas regras estabelecidas, eram um tanto abusivas. Impedindo ela de voltar a produzir marmitas para venda, muito menos de ir entregá-las, não podia mais sair sem o consentimento do marido, não poderia mais conversar com homens desconhecidos em qualquer lugar que seja, proibida de receber quaisquer visitas sem aviso prévio e de questioná-lo sobre qualquer decisão ou mudança no contexto das regras exigidas, por seu marido. Toda a vizinhança turca da vila, concordava estritamente com as decisões que caíram sobre Voyla, incluindo seus pais, que eram bem exigentes quando o assunto era seguir os costumes turco, por isso todos achavam a situação dela excepcionalmente bem colocada, todos exceto Itam. O único que se dispôs a intervir na relação sufocante que sua irmã estava vivendo, questionando todas as atitudes de seu cunhando, confrontado ele de muitas maneiras a fim de aliviar a situação de Voyla, mas Itam era constantemente repreendido por seus pais, porque de acordo com os costumes que eles seguiam na risca, o marido sabe o que deve se fazer, para equilibrar a relação do casal. Só que após alguns meses vivendo como um hamster engaiolado. Voyla já não estava mais suportando essa rígida fase em sua vida de conjugal, sendo ela uma mulher com características emocionais super independentes, foi daí que ela decidiu dar um ponto final, nesse capítulo de sua relação.

Foi em uma certa manhã na povoada vila do estado de Antalaya, que um lamentável episódio havia sido escrito, na vida da família Mehmet, quando Itam tomou partido, para livrar a irmã de um possível destino cruel. Durante a manhã do mesmo dia em questão, Voyla levantou-se sorrateiramente da cama, indo direto a uma venda na intenção de comprar o café da manhã, porém ela não havia solicitado a autorização de seu marido, que ainda estava dormindo, sem nem desconfiar da saída dela. No retorno pra casa, quando Voyla entrou carregando algumas sacolas, seu marido já estava na sala, próximo a porta da entrada, de pé com uma postura de soldado, ainda vestido com pijama, de braços cruzados e com um ódio preocupante nitidamente estampado em seus olhos. Enquanto observava o retorno dela. Logo ele iniciou uma série de perguntas acarretando um ar furioso nas suas expressões, Voyla se afastava devagar em direção a cozinha, enquanto era seguida por ele e a própria tentava se explicar, percebeu ela que não estava agradando nas respostas e já começando a ficar ofegante por conta do medo de que por fim, impulsionou ela a puxar uma faca de um suporte de facas, em cima da pia, atrás dela. Essa posição de defesa assumida por ela, foi incorporada pela atitude de seu marido, que ao ficar próximo a ela, estendeu os braços partindo pra cima na intenção de agarrá-la pelo pescoço, mas que foi interrompido pelo rompante de autodefesa de Voyla. Ainda assustada e na defensiva, ela continuava com o braço esquerdo estendido, segurando firme e apontando a faca na reta do pescoço dele, que aparentava duvidar de sua atitude, mas que ainda não havia saído do lugar que estava. Quando por um disparado movimento com a mão, desarmou Voyla, arrastando-a da cozinha para a sala, sendo carregada contra a sua vontade pelos braços e cabelos. Logo em seguida teve seu rosto completamente mergulhado dentro do grande aquário, em cima da estante da sala. Naquele momento, as intenções dele era aplicar uma lição de respeito em sua esposa, mas a intenção de Voyla, era escapar daquela situação torturante, enquanto sua cabeça era intensamente pressionada pelas mãos de seu marido. O pânico a fez obter a sensação de afogamento, enquanto seus olhos eram mergulhados, ao mesmo tempo ela observava os peixes atordoados ao redor, também mergulhados pela mesma sensação, que Voyla. Quando de surpresa surge Itam, abrindo a porta com ímpeto, afim de livrar sua irmã da situação angustiante em que ela estava. Com muita presteza, Itam parte pra cima de seu cunhado, libertando sua irmã da situação forçada, enquanto por consequência, despencou ao chão desacordada pro falta de uma grande quantidade de oxigênio, sem fôlego após ingerir uma involuntária quantidade de água.

Itam golpeia seu cunhado, com intensas sequências de socos, que acertavam o nariz, queixo e rosto. Enquanto todo o corpo de seu cunhado não respondia para tentar revidar, apenas se regressando involuntariamente de volta a cozinha, por conta da forca dos socos aplicados por Itam. O último soco, provocou nele uma forte desorientação resultando na ação posterior, ao despencar sob o chão da cozinha, ficando próximo a faca que ele desarmou das mãos de sua esposa Voyla, no momento em que ela o ameaçou, para se defender. Quando de repente, ao se virar de costas, a fim de socorrer sua irmã, ainda desacordada e caída no chão da sala. Itam de surpresa recebeu um ligeiro corte na panturrilha, com a ponta da faca, que havia sido apanhada por seu cunhado, no piso da cozinha. Itam se agacha pressionando a ferida com as mãos, na intenção de aliviar o incômodo das dores causadas pelo corte profundo, nesse momento para se aproveitar da oportunidade que surgiu, o cunhado dele se põe de pé e mesmo com olho esquerdo fechado por conta de um robusto inchaço, ele parte em direção a Itam, que ainda estava agachado. Quando Itam se espanta olhando para ele bem a sua frente, sem nem obter tempo, para entender a situação naquele momento, acabou ganhando mais um corte em sua bochecha direita, formando uma linha da ponta de sua boca até a ponta de início de sua orelha. O ódio se prevaleceu mais intenso do que sua dor naquele momento, foi daí em diante que Itam teve sua vida marcada por uma eterna cicatriz. Itam aplicando um golpe com suas mãos, em umas das pernas de seu cunhado, que lhe causa um rompante de falta no equilíbrio, despencando ajoelhado na frente de Itam, logo ele tenta esfaqueá-lo novamente, mas a terceira tentativa é falha, porque Itam bloqueia seu prévio golpe com a mão direita, tomando a faca para si. Em seguida crava ela por inteira e com destreza, no abdômen de seu cunhado. Incrédulo, sem reação e ainda de joelhos, Itam ainda fica sem capacidade de depositar fé em sua atitude espontânea, que foi abastecida por ódio e medo simultaneamente. Naquele instante enquanto Itam ainda perplexo com seu feito, estando próximo do corpo esparrado de seu cunhado, sobre o carpete da sala. Voyla volta a reagir após seu rápido desmaio por afogamento, ela logo se dá conta do acontecido e ainda um pouco enfraquecida, usa as mãos de apoio para sair da posição de leito, segue engatinhando tremula de encontro com seu irmão pela sala. Ela lhe aplica um abraço forte, recheado de gratidão e preocupação, mas Itam ainda aparenta não estar pronto para retribuir o gesto afetuoso de sua irmã, sem esboçar algum sentimento ou reação. Foi desse momento em diante que todo o nome da família Mehmet, foi manchado por todo o povo turco de Antalya.

Dois anos depois de todo acontecimento, que além de dar um ponto final no casamento de Voyla, também se foi dado aos negócios lucrativos da família, Amnut acabou sendo inteiramente prejudicado no seu ramo. A população turca, costumava ser expressamente rigorosa nos costumes seguidos, principalmente quando se encaixam nas leis da morte e assassinatos. Amnut já não tinha como se manter, devido à queda nas suas encomendas de lã, pois a rápida atitude defensiva de Itam, que estava disposto a salvar sua irmã, foi expressivamente prejudicial aos negócios da família, que foi repassado pelos patriarcas da família há longas gerações passadas. Durante esses anos que correram, até os dias atuais, as buscas pelas preciosas demandas de lã da família, foram despencando drasticamente, obrigando Amnut, a leiloar todo seu rebanho de ovelhas, devido a sua falência financeira, por conta do preconceito.

Itam Mehmet, cumpriu uma curta pena carcerária em uma prisão na capital de Antalaya , por conta do seu ato em defesa da irmã, mesmo que por legitima defesa, na Turquia assassinatos não poderiam ser bem justificados. Porém ao invés de cumprir pena máxima por homicídio, ele apenas ficou detido por um semestre, após ter confessado tudo, ainda no local do ato.

Depois de ter se tornado viúva Voyla Mehmet, regressou a casa dos pais, ainda com as emoções abaladas, mas se esforçando em esquecer todo o passado e sempre apoiando ele como uma forma de gratidão, por tudo que ele se dispôs a fazer para salvá-la.

Nos dias atuais de dois mil e dezoito, Itam trabalhava por fora prestando alguns serviços pela vila próxima, se dispondo a arrecadar dinheiro para o sustento da família, depois da falência eminente declarada por Amnut, ele se sentiu na obrigação de ajudar a manter os gastos e necessidades da casa e de seus parentes, depois de ser diagnosticado com depressão. Amnut foi se tornando antissocial, se privando do mundo, se afastando de seus amigos, se trancando em seu quarto e saindo apenas para suprir suas necessidades pessoais. Foi a partir desse ponto, que Itam se empenhou em assumir o lugar do pai na família, na esperança de que um dia ela venha a se recuperar. Foi em um certo dia que Itam, decidiu ter uma conversa definitiva com seu pai, que quase nunca saia do quarto, da simples, porém aconchegante residência da família Mehmet. Antes de partir para vila, Itam decidiu entrar no quarto, dando de cara com a decadente imagem de seu pai, jogado sobre a cama, coberto por um lençol, enquanto com as mãos, observava um pequeno retrato de seu avô.

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—Com licença pai. Estou entrando-Disse Itam, já caminhando até se sentar na beirada da cama, ficando próximo de seu pai.

—Bom dia meu filho-Disse Amnut, desviando o olhar direto para a janela aberta do quarto, aparentava não estar muito a fim de focar em seu filho ao seu lado.

—Só queria dizer, que eu sinto muito-Desabafou Itam, com a voz fraca, por conta da forte melancolia, que atropelou suas palavras, enquanto se esforçar em ganhar a atenção de seu pai-Eu amo muito todos vocês, sei que o que fiz foi errado... E não tem um dia em que eu não lembre do que fiz, porque por mais que eu acredite possivelmente ter salvado uma vida. Ao mesmo tempo tirei outra... Foi a sensação mais estranha da minha vida, pai.

São as palavras de Itam, que são ditas e arrastadas por intensa vontade de desabar, mas ele sempre obteve um poderoso controle emocional. Amnut aparenta somente ouvir o que ele tem a dizer, sem ter vontade de se pronunciar no momento em que seu filho, necessitava de sua atenção. Ele ainda encara o horizonte através da janela aberta.

—Tenho a sensação de que ainda estou pagando pelo que fiz. Porque quando olho o senhor nessa cama, com essa aparência, envelhecendo mais rápido do que o normal... Vejo que ainda estou sendo punido pai, mas o senhor sempre foi meu orgulho e não é agora, que vai deixar de ser-Declarou itam, emocionado, porém ainda intencionado em se manter firme, enquanto põe a mão em cima da de seu pai, que estava deitada sobre o peito de Amnut.

—Tantas vezes sua mãe e eu, lhe pedimos para não interferir. Um homem sempre sabe, qual a decisão tem que ser tomada, dentro de sua casa e de seu casamento-Respondeu Amnut, decidindo se pronunciar aos lamentáveis desabafos de seu filho, voltando seus olhos para os dele.

—Pai eu sei, mas é q...

—Mas é que você agiu como uma criança imatura, acha mesmo que ele iria matar sua irmã? As vezes a mulher precisa entender o seu lugar no casamento! Mas não vai adiantar eu enfiar isso na sua mente pequena, agora. Saia daqui, preciso descansar-Respondeu Amnut, com indignação no tom de sua voz, voltando a ignorar Itam, se virando de costas pra ele na cama.

—Sinto muito, por tudo isso pai. Mas foi por amar muito minha família, que eu fiz o que fiz naquele dia. E tenho que lhe dizer, que mesmo todo ocorrido tenha acarretado todos esses problemas, que nós vivemos hoje... Pra salvar a vida da minha irmã, eu faria tudo novo-Declarou Itam, antes de partir do quarto acatando o pedido de seu pai.

Incrédulo com que seu filho havia dito antes de se retirar do quarto, Amnut arregalou seus olhos, enquanto voltava a encarar Itam saindo do quarto e encostando a porta, de costas a ele sobre a cama.

—Ei pé grande! -Disse Voyla, abordando seu irmão antes de sua partida de casa para a vila.

—Diga? Peixinha! -Debochou Itam, dando um belo abraço de despedida em sua irmã.

—Ainda me sinto ofendida por esse apelido sem graça! Não pode fazer isso comigo, só porque quase me afoguei até a morte em um aquário-Disse Voyla, ainda abraçada por seu irmão, enquanto ela retribui, lhe dando um pequeno beijo de afeto no ombro Itam, onde ela apoiava seu queixo durante o ato.

—O pé grande, está atrasado e sem tempo para as lamentações da peixinha-Respondeu Itam, enquanto ainda abraçava Voyla, próximos da porta de saída da residência Mehmet.

—Só queria te dizer o óbvio! Que eu te amo muito, pra sempre.

—Eu sei disso. Sou muito amado aff! -Debochou Itam, enquanto juntos os dois desfazem o gesto.

—Seu bobo, para com isso-Disse Voyla, enquanto solta algumas leves gargalhadas.

—Enquanto eu estiver aqui, nada de ruim vai acontecer com nenhum de vocês.

—Não precisa me dizer isso. Porque já sei.

—Tudo isso vai passar e nossa família vai voltar a ser, o que era antes!