A dúvida de te encontrar
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Estávamos a duas quadras da igreja, quando Pedro perguntou novamente se estava tudo bem, assenti com a cabeça, sentindo o nó na garganta crescer cada vez mais, ficamos em silencio um bom tempo até ele perguntar mais uma vez se estava tudo bem, fui obrigada a responder.
— não exatamente, mas estou bem Pedro, desculpe te meter em toda essa confusão – disse segurando o choro – fui convidada a me retirar dos ensaios.
— por que? – ele perguntou procurando minhas expressões.
— porque acham que eu te beijei, e no caso de qualquer suspeita eu tenho que receber um afastamento, como disciplina e exemplo.
— isso é certo? – ele perguntou perplexo
— depende do ponto de vista, se eu tivesse um compromisso com você Pedro, não iria ser errado, no entanto não tenho... então, se eu te beijasse iria ser um pecado! E todo pecado tem suas consequências...
— mas você não pecou! – ele parou procurando ar – pelo menos não comigo.
— nem com ninguém... – isso me fez lembrar do primeiro ano – veio caminhando? – indaguei procurando outro assunto
— não, meu pai me trouxe... achei melhor! Tem algum problema?
— não, claro que não... – sim, tinha, ele vai ter que ir para minha casa – você vai para minha casa então?
— só se você permitir, se eu não puder... não vou! – estava louca para dizer que não, mas, outra parte de mim falava que sim, queria ficar em casa só, dormindo. Mas, tenho um trabalho longo para elaborar e preciso dele pra isso, por fim acabei concordando, o que significa que ficaremos sozinhos um longo tempo já que meus pais trabalham até tarde no sábado e isso não vai ser nada fácil!
Chegamos em casa às duas, pedi para que ele ficasse a vontade e se quisesse podia tirar os sapatos e largar a mochila em qualquer lugar, deixei ele assistindo um filme que estava passando, enquanto subi e tomei banho, voltei uns vinte minutos depois, Pedro estava escrevendo quando notou que eu estava descendo as escadas...
— é amêndoas? – ele perguntou
— o que? – eu imaginei o que era, mas, quis ter o prazer de escutar.
— seu cheiro... – respondeu corando. Era a segunda vez que via Pedro ficar vermelho
— na verdade não sei, acho que está mais para uma mistura de amêndoas com frutas vermelhas... – disse dando de ombros.
— é bom...
— vou procurar algo para comermos, pode ser? – disse rapidamente, mudando de assunto.
— uhum...
Fiz pipoca e abri um refrigerante, quando voltei a sala Pedro continuava escrevendo, coloquei a refratária de pipoca no centro junto com os copos de refrigerante, passei um tempo observando a tv, o filme já havia acabado e estava passando um documentário sobre tigres, não que eu não gostasse, mas estava ficando entediada...
— posso trocar de canal? – perguntei olhando para ele, que apenas assentiu com a cabeça sem deixar de escrever.
Passando de canais, encontrei um filme interessante, contava a história de um neurocirurgião... mas não prestei muita atenção minhas pálpebras foram ficando cada vez mais pesadas, e a visão mais escura... só me dei conta de que dormi quando comecei a sonhar. Então me deixei levar, me entregando completamente ao sono e aos sonhos.
PEDRO
Quando aceitei o trabalho no jornal e comecei a ter aulas com a Helena, sabia que não iria ser fácil, afinal eu carrego essa paixão desde o primeiro ano. Hoje pela tarde, foi terrível ver ela chorando, ver ela sofrer por minha culpa, vela de perto é surpreendente, é muito mais do que imaginei, quando dorme é terna e doce, descasa profundamente entre almofadas, soltando leves suspiros de vez em quando, aos poucos fui me dando conta de que se passará muito tempo, já estava passando outro filme, procurei por um sinal de horas até que achei um relógio grande na parede onde marcava quatro horas, a pipoca ainda estava pela metade e os copos de refrigerantes sem gás...
— Hen, está na hora de acordar – falei tocando de leve o braço dela, que simplesmente abriu os olhos e sorriu – você vai acordar?
— não – graniu baixinho em som de reprovação a minha pergunta – meus pais só chegam às onze... me deixa dormir mais... – ela disse fazendo biquinho – poxa Pedrinho – ela nunca havia me chamado de Pedrinho – estou triste e cansada... só mais um pouquinho... – assenti com a cabeça achando tudo aquilo muito fofo. Fechei os cadernos e me voltei para a televisão, Helena apagou novamente dessa vez ressonando levemente. Aproveitei que ela estava em um sono profundo para fazer carinho em seu rosto e cabelo, após um tempo acabei relaxando também, quando acordei estava com a cabeça recostada no braço do sofá e a Helena não estava mais ao meu lado, olhei para todos os lados em sinal de procura, quando não achei perguntei baixinho onde estava, sua voz mansa veio de um outro cômodo, caminhei lentamente até ele descobrindo que era a cozinha, onde ela estava colocando uma pizza na mesa, olhei para um relógio grande de parede... ôh casa para ter relógios, marcava sete e meia
— o que está fazendo? – perguntei.
HELENA
— Não sei – respondi revirando os olhos – colocando uma pizza na mesa menino! – soltei ironicamente.
— é que, eu acordei e estava tudo escuro, a sala limpa e você não estava lá.
— acordei a uma hora e meia, então arrumei a sala e pedi uma pizza – conclui sorrindo e fazendo sinal para que sentasse.
— que estranho – ele falou sorrindo após se sentar
— o que é estranho Pedro? – perguntei intrigada
— bem, a duas semanas te chamei para sair e você disse não... e agora estou aqui na sua cozinha comendo pizza! – falou erguendo as sobrancelhas.
— é um caso bem diferente, não pense em ter nada comigo, somos apenas amigos! – disse rapidamente, tentando deixar claro que não iria acontecer nada entre nós dois.
— eu sei – Pedro disse olhando para a fatia de pizza que estava no prato – você e eu não vamos ter nada além da nossa amizade.
— é... – tentei parecer convincente, mas, de certo modo aquilo apertou meu coração. – O que achou do culto ontem? – perguntei mudando de assunto.
— eu gostei bastante! Nunca vou à igreja, mas, ontem eu gostei bastante e pelo jeito vou voltar mais vezes – ele parou olhando para mim – a menos que isso te prejudique.
— não Pedro, que isso! Não vai me prejudicar, só ouve um equivoco hoje... é normal, as pessoas se enganam. No contrario, ficaria muito feliz se você fosse outras vezes – falei depressa demais, mas de fato era verdade, ficaria muito, mas, muito feliz se ele fosse outras vezes...
— Não me falou ontem que ia ter culto hoje? – perguntou franzindo o cenho.
— Sim... ia ter, mas haverá umas reuniões com os ombreiros da igreja, então o culto foi cancelado. – disse colocando o ultimo pedaço da minha fatia de pizza na boca, levantei, retirando meu prato. Pedro fez o mesmo, me acompanhando até a pia – Pedro, desculpe por hoje – falei sentindo minhas bochechas queimando, olhei para a janela rapidamente tentando evitar que ele notasse.
— já que você foi retirada por não pecar, porque não peca agora? – falou em tom de ironia.
“Olhei para ele boquiaberta, acho que ele conseguia notar que meu rosto queimava de tão avermelhado. Soltou uma gargalhada olhando para cima.”
— estou brincando senhorita Helena Swaire! Notei o quanto tudo isso é importante para você, não sou louco de estragar. – falou fitando meus olhos que estavam voltados para os seus pés – Helena, desculpe, não queria te deixar chateada! Realmente notei o quanto é importante para você, mesmo que eu morresse de vontade de te beijar, o que não é uma mentira, não o faria a menos que quisesse! – concluiu sorrindo.
— mesmo que quisesse, não o faria Pedro, desculpe. – falei dando de ombros e indo até a sala.
— isso que dizer que você quer me beijar? – perguntou se aproximando de mim.
— não! Isso quer dizer que mesmo que eu quisesse, não faria! – falei sorrindo, por que de certo modo eu queria beija-lo, mas, não o faria.
— Helena, posso te perguntar algo? – voltou a fitar meus olhos que agora estavam fixos nos seus.
— já perguntou! – disse me virando rapidamente me dirigindo a sala, sentei no sofá como quem não quer nenhum papo, é complicado ficar perto do Pedro sem se sentir atraída e confusa.
— acho que você não gosta de falar disso, então deixa para lá. – concluiu voltando os olhos para a tv.
— você acertou, eu não gosto mesmo! – falei, imaginava o que era, então decidi mudar de assunto. – Pedro, durante esse dia e meio o que descobriu sobre mim?
— que é uma dorminhoca! – falou dando uma gargalhada contida – e que ama a igreja! Que é atenciosa também, apesar que eu já sabia que era atenciosa – ele parou por alguns segundos, e de certo modo eu sabia o porque – que gosta de pizza de milho e bacon.
— hmm, tudo isso? – falei sorrindo e recostando uma das mãos no braço dele – hm, desculpe – falei sem jeito me afastando.
— Helena, se encostar em mim não é pecado é? – perguntou tocando em meu braço.
— não – parei pensando em como concluir – no entanto é que isso provoca intimidade e a história no fim não é legal.
— Helena, porque você escolheu ser assim? Não que seja ruim, você é a menina mais respeitada que conheço, tem um jeito meigo e todos sabem que se aproximar de você é impossível. Tanto que foi uma surpresa você concordar em fazer o trabalho comigo! Mas, porque tudo isso? Você já... enfim isso não vem ao caso, mas, porque? – olhei para os olhos de Pedro que me encarava procurando por resposta.
— Pedro, pra você é fácil falar... é como se fosse normal ficar com as meninas, sair por aí e beijar alguém, pra mim não. É algo complexo, complicado... digamos assim, eu não sou compromissada com a igreja! E sim com Cristo, hoje é muito fácil falar que ama a Deus, mas, seguir realmente seus princípios é difícil e bem complicado. É domar os seus extintos, é negar a sua carne. O meu maior medo não é perder meus cargos na igreja, e sim ficar distante de Deus, pecados todos cometemos, todos os dias e em todos os momentos, mas ficar distante de Deus é algo terrível é devastador...
— é engraçado ouvir isso e incrível ao mesmo tempo! Que dizer que todos pecamos ao beijar alguém?
— bom, algumas pessoas acham que “ficar” não é pecado e outras acham, eu acho que depende da situação... porque ficar por ficar não é certo, e ficar com compromisso é namoro... então não existe ficar com compromisso... – aí até eu me confundi – Não é só uma questão de beijar e sim um fato de que eu particularmente não gostaria de ter um namorado que já tivesse beijado mais de uma dúzia de meninas! Tá, como a Lany diz isso é normal hoje, mas, não é bem o que eu acho.
— posso fazer uma pergunta, bom, diria que você acharia ela feia... – falou corando.
— pode, mas, pelo amor de Deus não use palavras torpes ou abusivas!
— se beijar é pecado, então fazer coi... – interrompi a frase envergonhada.
— sim é bem pior, a bíblia diz que quando acontece nosso corpo se torna um só... é vergonhoso falar disso com um menino! Tá o que eu quis dizer que sim, é pecado!
— que bom! – Pedro soltou entre dentes e colocou as mãos nos joelhos – vou pro inferno por isso!
— não brinque assim! As pessoas hoje levam a história do inferno na brincadeira, quando é mais que verdade! O inferno existe Pedro.
— pode me explicar tudo isso... bom, durante essa semana e meia podemos conversar mais, irmos a igreja... e depois tem mais uma semana e meia! – Pedro sorria para mim, um sorriso puro e meigo, um sorriso sincero.
— claro. – parei por alguns segundos, pensando em um filme que o Pedro gostaria de assistir – Pedro, tenho um filme legal... é gospel! – fiz uma breve pausa entre legal e gospel, algumas pessoas acham que coisas de igreja são sempre sem graça o que não é verdade — Se quiser posso colocar pra assistirmos! O nome é “O apocalipse”
Pedro assentiu com a cabeça, coloquei o filme e começamos a assistir. Por volta das nove e meia da noite minha mãe me mandou um sms, o que é bem típico dos meus pais.
“Querida resolvemos sair da empresa e dar umas voltinhas, voltamos na segunda após o expediente! ”
Ou seja, meus pais só voltaram após as onze da noite na segunda feira! É bem típico, até gosto quando eles saem e se divertem, o que vem sendo bem frequente. Passar esse tempo sozinha com o Pedro não foi ruim, me fez perceber que as vezes criamos paradigmas e menos surreais e desnecessários, me mantenho longe de qualquer garoto que se aproxima de mim e as vezes é uma válvula de escape porque tenho medo e passar o dia inteiro com o Pedro hoje me fez perceber que as coisas não funcionam assim, nem todos são iguais e nem todas as coisas se repetem, mas, por precaução, não é bom ficar muito próxima.
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