A duquesa
1 Capítulo 1
França, 1731, Reinado de Luís XV da França
As rodas da carruagem rodavam pacientemente pela estrada, as árvores altas de largos troncos em tons de marrom e cobertas de folhas esverdeadas faziam uma fila ao lado do caminho de terra, como soldados, a grama reluzindo viva próximo a terra, o calor que se infiltrava sorrateiro para dentro da luxuosa carruagem, logo tudo aquilo se dissiparia e o inverno rigoroso se alastraria pelo continente.
—Faz um lindo dia, não, querida?- a voz do homem alto, de pele branca e cabelos negros, quebrou o silêncio, Duque Thomas Blanchard I era um jovem com seus vinte e cinco anos, acabara de receber duas coisas das quais qualquer outro jovem invejaria: o ducado de seu pai e uma obediente esposa
—Se diz- a menina que olhava entediada pela janela levava o nome de Louise, seus cabelos loiros estavam presos num coque alto e com vários cachinhos, sua pele branca maquiada como uma porcelana e seu vestido rococó azul estava a matando de calor;
Os dois eram completos estranhos há dois meses, Louise era filha de um rico comerciante, criada na casa de Bourbon e posteriormente devolvida para a casa de seu pai apta para casamento, e Thomas, bem, filho de um duque, os pais deles eram amigos, eles nunca nem tinham se visto, isso mudou quando Thomas viajou para a cidade onde Joseph, pai de Louise, morava, o velho o recebeu em casa como se fosse um filho, coisa que ele tinha de montes, eram sete filhos no total, 3 garotas e 4 meninos saudáveis, a estadia na casa lhe rendeu uma esposa.
Louise era a caçula das irmãs, só não era tão mimada quanto Hugh e Samuel, o mais velho e o mais novo de todos os irmãos, eram os meninos dos olhos do pai e ela, era a menina; suas irmãs mais velhas nutriam raiva e inveja da caçula, parecia que tudo que Louise fazia era melhor, o bordado, tocar piano, costurar, tudo sempre era melhor vindo dela, era ela quem recebia os olhares e os elogios dos rapazes, era ela a ser convidada primeiro para dançar. Suas irmãs ficaram felizes quando seu pai anunciou o interesse de Thomas em casar com uma de suas filhas, as duas mais velhas logo trataram de se apresentar, como pavões mostrando suas penas, elas apresentaram tudo que sabiam fazer, Louise ficou mais afastada, o homem alto havia lhe causado calafrios, mas ouviu a ordem de sua mãe em se apresentar, no instante que o fez as atenções dele se viraram para ela, pensava o quanto a pequena jovem era bonita, o quanto a luz de verão a valorizava, ‘’É ela!’’ disse ele animado, diferente do que Louise esperava, seu pai cedeu.
O casamento ocorreu algumas semanas depois, todos seus familiares presentes, os olhares de raiva de suas irmãs, seu vestido de noiva no qual quase tropeçou, foi algo bem simples considerando o título que herdaria na sequência; quando foi apresentada ao rei como esposa e nova duquesa do ducado de Bordeaux, o próprio suspirou e lamentou que ela não possuísse um título real antes.
Agora já estava casada e a caminho de sua nova casa, todo o trajeto foi entediante mas agora estavam quase chegando, segundo Thomas. Ela sabia o que a aguardava no destino, além de uma noite de núpcias, provavelmente dolorida, havia também sua cunhada, Edith, pensava que teria nela uma irmã, uma figura feminina que não a encheria de ordens, esperava não estar enganada.
O fim do caminho se tornou visível após passarem por uma cidadezinha, ali era o Ducado de Bordeaux, naquela cidade estava concentrado ricos comerciantes de tecidos e pescadores com fortunas consideráveis, lá no topo, do que parecia uma colina mas era muito plana para ser considerava realmente uma, lá no alto havia um imponente castelo, dava para ver o mar a medida que a carruagem subia
—Logo depois dessa margem, fica Londres- Thomas anunciou orgulhoso
—E em casos de guerra?- as sobrancelhas douradas se uniram em curiosidade
—Não haverá guerras por essa região, somos considerados uma zona neutra- acalmou a esposa a puxando para perto, ela se desvencilhou no instante seguinte por causa do calor, Thomas fingiu não se incomodar- Chegamos!- anunciou alegre ao ver um verdadeiro palácio- Esse é seu novo lar- o marido estava errado, era sua nova casa, não seu novo lar.
Enquanto acompanhava Thomas para dentro da residência pode perceber o jardim muito bem cuidado na frente da casa, além das inumeras janelas, lembrava o Palácio de Versalhes, só que menor. Cruzaram a porta alto em forma de arco revelando um hall imenso com um piso lustroso, uma escadaria enorme que levava ao andar superior, duas portas, uma de cada lado do hall, além de mais duas depois da escada.
—Espero que não se perca- a voz veio da jovem que descia a escada, seu vestido não era tão cheio quanto o da duquesa, nem tão decorado, os cabelos castanhos estavam presos num pequeno coque, deixando o resto do cabelo solto como uma cascata
—Edith, minha irmã!- Thomas vibrou em a ver, a abraçou fortemente a tirando do chão e a rodopiando
—Como é bom o rever, meu irmão- disse quando foi colocada no chão e acariciou o rosto do homem- Quando disse que iria casar, me surpreendi, agora estou mais surpresa ainda! Não esperava que fosse alguém tão espalhafatosa- um sorriso sarcástico brotou nos lábios rubros da mulher, ela analisava cada detalhe do vestido da outra, observada as rendas, os bordados, os babados, tudo!- Ainda bem que já preparei tudo e quando suas roupas chegaram, mandei fazer umas melhores. Venha, garotinha- pegou da mão dela
—O nome dela é Louise- Thomas segurou a irmã pelo braço e sussurrou
—Certo, venha, Louise- pediu novamente
—Vá com ela, irei a esperar aqui em baixo- quando Thomas terminou de pedir isso, a cunhada começou a puxar para cima
—Sabe, eu não esperava que meu irmão se casasse...de novo- largou a mão da menina assim que chegaram no corredor
—De novo? Como assim?- Louise deu uns passos para frente para ficar ao lado da outra mulher, mas um braço a impediu
—Não, Thomas não irá gostar de a ver ao meu lado. Isso é falta de educação, Mantenha-se sempre atrás de mim!- repreendeu a mais nova a deixando confusa- Thomas já foi casado duas vezes e teve outra noiva, todas morreram- olhou para a cara de espanto da outra- Esperamos que seja diferente- chegaram a uma porta alta de mogno talhado, duas maçanetas douradas reluziam- E esse é o quarto que dividirá com meu irmão- era um quarto espaçoso, com uma cama dossel no meio, ricos lençóis brancos, um tapete em cada lado, assim como uma mesinha de cabeceira branca, havia também uma penteadeira imensa próximo a porta- Aqui fica o seu armário e ali o do meu irmão- apontou para as portas, uma de cada lado- e ali fica o banheiro- parecia um quarto confortável, era espaçoso pelo menos- Agora, vamos trocar essa roupa- Edith bateu palmas alertando Louise
—Qual o problema da minha roupa?- a loira recuou
—É muito extravagante, aqui usamos roupas mais comuns- sorriu amarelo e puxou o braço da menina, a virando com violência- Espero que saiba que eu protejo muito meu irmão e não espero da esposa dele menos que perfeição, então se acostume, irei a ensinar tudo que precisa fazer para agradar ele. Você quer o agradar, não quer?- Edith puxou o vestido deixando as armações visíveis
—Bem, claro que quero- Por mais mimada que Louise havia sido pelos pais, nunca esqueceu que deveria casar um dia e ser obediente e leal ao seu marido, submissa, de certa forma
—Saiba que meu irmão, como qualquer outro homem, gosta de escapar as vezes, esteja ciente que haverá traições- Louise abriu a boca indignada- Mas, não pense em o trair- nesse instante a saia de armação caiu, Edith colocou uma menor e depois um vestido sem babados azul marinho, começou puxar a fita do espartilho
—Está machucando- Louise avisou colocando a mão na cintura, nem sua mãe quando ia a arrumar puxava com tanta força
—Fique quieta, Thomas vai gostar de sua cintura bem marcada- nesse momento ela deu um último puxão, girou a menina e a colocou sentada na cadeira da penteadeira, retirou a maquiagem aplicando uma força desnecessária, logo o rosto da outra estava limpo e avermelhado- Vamos passar só um batom- pegou um recipiente onde havia um batom rosa e aplicou nos lábios- Isso é seu cabelo mesmo- puxou o coque fazendo Louise gemer de dor
—Sim, é meu cabelo- segurou sua cabeça- Eu não uso perucas fora dos bailes e eventos sociais- completou se olhando no espelho, estava tão diferente, gostava das rendas ao redor de seu pescoço junto com as jóias, da maquiagem em seu rosto, parecia tão simples agora, tudo que havia restado era o coque com cachos e o colar de rubis em seu pescoço
—Bem, vamos arrumar esse cabelo- Edith pegou uma escova e se pôs a desmanchar os cachos, refez o coque sem deixar nenhum fio solto dessa vez- Creio que ficará melhor assim. Só um perfuminho e deu- o perfume ardeu os olhos azuis de Louise- Pronta, bem melhor agora, não?
—É- Louise encarava seu reflexo e não se reconhecia, mas se seu marido iria gostar, para ela estava bom. As duas desceram as escadas, Louise um passo atrás da cunhada, criadas passavam por elas carregando baldes e panos, todas de cabeça baixa- Quais minhas funções na casa?
—Abrir as pernas para meu irmão- Edith sorriu- Deixe que eu me entendo com as criadas, apenas se concentre em meu irmão- elas chegaram ao jardim dos fundos, Louise estava achando essa recepção um tanto agressiva. O jardim dos fundos era grande e florido, várias árvores ocupavam lugar ali, havia uma fonte mais para o meio- Thomas?- Edith chamou e o homem olhou em direção delas, ele estava sentado em uma mesa branca de ferro- Vou deixar-los aqui e ir pedir para trazerem algo para comermos- Edith falava rápido e agia rápido, assim que anunciou já se retirou. Louise sentou na cadeira em frente ao marido
—Está linda- Thomas elogiou- Perdoe minha irmã, ela quer o melhor para mim- acariciou a mão da esposa
—Eu sei- ela sorriu doce escondendo o incomodo que sentia com Edith
—Trouxe seu lanche favorito, Thomas- a dita cuja colocou uma bandeja em cima da mesa, havia três xícaras, um bule e pães, Edith serviu duas das três xícaras, uma entregou a Thomas, a outra ela mesma bebeu, Louise não se importou em servir a si própria
—Eu gostaria de descansar da viagem- comunicou após se sentir excluída da conversa que surgiu entre os dois
—Claro, querida, pode ir- Thomas sorriu para ela
—Com licença- levantou fazendo uma breve reverencia. Estava incomodada naquela casa e havia acabado de chegar, devia ser só por ser novidade, isso, por isso ela se sentia assim, Edith não estava implicando com ela, e como estaria se haviam acabado de se conhecerem? Edith só queria o melhor para o irmão e Louise seria o melhor para ele.
Os dias que seguiram tinham tudo para serem bons, Louise e Thomas deveriam ter tido sua noite de núpcias assim que ela chegou, mas isso não ocorreu, Edith jurava que era melhor esperarem até a troca de lua, essa finalmente havia chegado. Louise escolheu sua melhor camisola, uma branca, bordada e com fitas, aquela noite deveria ser perfeita, seria apenas os dois, sem irmã para tirar a concentração dele, poucas vezes eles estavam sozinhos e se estavam era por pouquíssimo tempo
—Está pronta?- Edith entrou no quarto enquanto a outra escovava os cabelos- Lembre-se de ficar parada para Thomas, não resista, não fuja, apenas deixe que ele te guie
—E por que iria fugir?- Louise olhou confusa para a cunhada
—Apenas se comporte- apertou os ombros da menina com força- Amanhã irei vir ver se consumaram- ‘’Claro que vai’’ , pensou Louise, Edith tinha o mal costume de abrir a porta e adentrar o quarto todas as manhãs
—Irei- respondeu baixando os olhos, a cunhada saiu do quarto assim que a porta foi aberta por Thomas
—Pronta?- o homem sorriu docemente para a esposa, que levantou e caminhou até seus braços
—Sim- selou seus lábios com os dele e juntos tombaram na cama; Louise poderia dizer que o detestava, que não queria aquilo, que nem mesmo queria casar, mas seu corpo cedeu a ele, como o dele cedeu a ela, eram uma só carne, suas respirações misturadas de forma compassada, as luzes das velas balançando como a cama balançava, então era isso que toda jovem noiva ansiava? Era esse o sentimento que tinham? Será que todos eram atenciosos como seu marido? Thomas se mostrou o marido perfeito e quando caíram exaustos sobre o colchão puderam se abraçar de forma mais carinhosa, Thomas beijou cauteloso a testa da esposa e juntos se entregaram ao sono
Naquela noite Louise foi cercada de pesadelos que até então nunca havia tido, em seu sonho uma mulher andava pela casa com um vestido esfarrapado azul, seus cabelos estavam bagunçados,seu crânio estava com uma abertura do nariz à testa, a mulher se aproximava lentamente do quarto, seus passos soavam no piso polido, seus dedos longos e finos tocavam as decorações que encontrava, até chegar naquele corredor, o corredor que levava ao quarto.
‘’...Fuja...Fuja...’’
O espírito repetia cada vez mais alto até chegar em frente a porta e gritar. Nesse instante Louise acordou assustada, o pesadelo a apavorara, olhou ao redor sentada na cama, Thomas dormia profundamente ao seu lado, ainda era noite lá fora e a porta do quarto estava aberta, ora, quem havia aberto a porta se Thomas a tinha fechado? Estranhou aquilo, levantou e a trancou, voltou para os braços do marido na cama e adormeceu, sem pesadelos, apenas a voz a mandando fugir.
Quando o dia raiou, Edith bateu na porta insistente e impaciente, não demorou muito para que o irmão, depois de dar um beijo em sua esposa, levantasse para abrir, Edith olhou com raiva para a cara de felicidade de Thomas e cruzou por ele, tirando Louise pelo braço da cama, revelando uma pequena mancha vermelha no lençol.
—Era virgem, como deveria ser- a frase saiu entre dentes- Mandarei limparem o quarto. O café já está servido- olhou com repúdio para a esposa do seu irmão e se retirou
—Ela não pareceu contente- Louise disse ao sentar na cama
—Edith é ciumenta- Thomas se aproximou e beijou a testa da esposa- Não se preocupe. Vamos trocar de roupa e descer?- a menina assentiu com um sorriso fraco, colocou um vestido que Thomas ajudou a fechar, coisa que ela gostou, assim não ficava desconfortável, desceram de mãos dadas, não podia dizer que o amava desesperadamente, mas sim, estava apaixonada por ele
—Que bom que não demoraram- Edith resmungou da mesa, já havia ocupado seu lugar e para surpresa de Louise, sua xícara estava cheia de leite- Sentem-se, vai esfriar. Servi leite quente para você, Louise
—Obrigada, não precisava- a outra disse educada, algo dentro dela gritava para não beber, algo dizia que Edith não a queria bem...algo mandava ela fugir. Assim que levou a xícara á boca veio um gosto amargo e com textura arenosa no lugar de líquida, no mesmo instante ela devolveu a bebida para o copo e largou na mesa
—O que foi, querida?- Thomas percebeu a feição da esposa mudar
—Acho que o leite está estragado- serviu água em outro copo e bebeu, tirando assim o amargo da boca
—Como estragado? Tiraram agora de manhã!- Edith pareceu irritada
—Não sei, está com gosto ruim- secou a boca com guardanapo
—Tudo bem, não precisa tomar, quer suco?- Thomas ofereceu sorrindo e ela aceitou
—Faremos um baile aqui em casa- Edith anunciou- Semana que vem
—Com que propósito?- Thomas a olhou enquanto bebericava seu café
—Apresentar sua esposinha para nossos amigos- Edith destilava veneno e isso era visível, mesmo que para Thomas fosse ciúmes e para Louise fosse apenas falta de se conhecerem melhor.
A semana passaria incrivelmente rápido.
Logo era o dia do baile e Edith andava de um lado para o outro no palácio, seguida pelas empregadas que a obedeciam sobre onde deveria ficar as coisas, Thomas havia saído e sua esposa vagava pelos corredores um pouco entediada, viu sua cunhada cercada de cinco empregadas e resolveu ir até ela
—Precisa de ajuda, Edith?- a morena estreitou os olhos para ela
—Preciso, venha- sorriu pegando a mais nova pelo braço e a levando até outro corredor e desse para um quarto vazio- Garota infernal, acha que porque se deita com meu irmão pode mandar na minha casa?- depois dessa frase um tapa estalou no rosto da loira- Por que você acha que tem o direito de decidir alguma coisa aqui?!- dessa vez ela gritou e empurrou a garota contra a parede, Louise se desequilibrou, tombando no chão com violência- Oh, me perdoe, Louise, eu não quis a ferir, eu estou stressada- a voz dela tomou um tom de arrependimento gigante e a abraçou- Por favor, não conte para meu irmão isso, ele ficará furioso comigo- Louise estava perdida com o que aconteceu, por que sua cunhada havia tido esse ataque de raiva? Ela nunca fez nada para a desagradar, sempre cumpria suas ordens mesmo que não precisasse- Suba e descanse, depois mandarei criadas para ajudar você- acariciou o rosto da menina a ajudando ficar de pé, Louise a obedeceu mesmo sem entender o porquê havia apanhado, subiu para seu quarto onde deitou na cama que alegremente dividia com seu marido, confortável ali adormeceu.
Seu sonho começou com uma névoa que aos poucos se dissipou, revelando sua moradia, o salão de bailes, mais propriamente dito, o salão estava cheio de convidados que alegremente bebiam e dançavam, no centro estava Thomas, feliz, dançando com uma outra jovem, uma ruiva com um penteado alto e ricamente ornamentado, o vestido era rodado e decorado com inúmeras fitas e rendas, os dois sorriam, um para o outro, até que tudo voltou para a névoa, agora a mulher ruiva rastejava escada acima com seu vestido de baile sujo, suas mãos podres se agarravam nos degraus polidos e puxavam seu corpo para cima. Ela chegou no corredor. O corpo esquelético tentava cravar as unhas no piso mas não adiantava e seguia rastejando, estava próximo do quarto, por onde a mulher rastejava deixava uma trilha de lama escura, o corredor estava repleto dela. Ela está na porta, suas unhas podres arranham o mogno.
‘’...Cuidado...Cuidado...’’
O cadáver gemia e arranhava, foi num desses arranhões que Louise acordou assustada, seu coração parecia sair pela boca, por que tantos sonhos que mais pareciam avisos? A porta abriu bruscamente, ela gritou de susto e se acalmou ao ver seu marido
—Oh, não sabia que estava aqui. Perdoe-me, não quis assustá-la, querida- ele sentou na cama ao lado dela e acariciou seu rosto- O que houve?
—Pesadelos. Está tudo bem- ela sorriu e olhou sobre o ombro dele, percebeu uma pequena mancha de terra em frente a porta- Estava na lama?- Thomas estranhou a pergunta e juntou as sobrancelhas
—Não, querida, não tem lama por onde andei- ele olhou para onde a atenção dela estava- Mandarei as criadas limparem- selou os lábios nela carinhosamente.
Louise refletia atonita sobre a poça de lama escura e avermelhada, parecia com a de seu sonho, mas estava ali, no chão de sua casa, em frente ao seu quarto, como no sonho. A pequena mancha de lama salpicada de terra escura foi retirada ali com poucas passadas de pano; Louise preferiu fingir que aquilo foi apenas um acidente e algum criado havia sujado sem querer, resolveu começar a se arrumar para o baile, escolheu seu vestido favorito, um azul marinho com bordados e rendas brancas, de mangas longas e rodado, algumas criadas a ajudaram com os fechos e as armações, pegou sua peruca de baile, um alto penteado ornamentado perfeitamente, aquilo seria adequado nos bailes de Paris, mas lembrou do que sua cunhada falou, ali não era Paris, ali era o condado de Blanchard e ali as pessoas se vestiam mais simplesmente, ignorou e sentou em sua penteadeira, puxou um coque alto e soltou cachinhos, estava bonita, simples mas bonita, passou uma leve maquiagem e sentiu-se pronta para ser apresentada para a sociedade dali.
—Está magnífica- ouviu seu marido suspirar ao entrar novamente no quarto
—Será que Edith vai gostar?- a loira se encarou no espelho mais uma vez
—Claro que vai- Thomas se aproximou e beijou o pescoço dela, aspirando o delicado perfume de rosas- Mudou de perfume?- desde que chegara Louise usava um perfume de lavanda
—Edith me deu esse perfume, resolvi usar hoje, para dar sorte- sorriu
—Vou me arrumar e descemos- ele acariciou o rosto dela delicadamente.
Enquanto aguardava o marido se vestir em seu closet, ouviu um barulho vindo do seu próprio, algo como alguém tentando abrir uma porta ou coisa assim, alguns arranhões e mais batidas, caminhou cautelosa até lá, seguindo os barulhos que levaram a duas portas de madeiras lustrosas com maçanetas brancas, elas balançavam violentamente como se alguém quisesse abrir e não conseguisse por estar trancada, não lembrava de abrir essa porta alguma vez, era pequena e estava escondida onde estava seus vestidos, nunca nem havia reparado nela; sentia medo, óbvio, via o balançar de uma porta sem mãos para a abrir de fato
—Louise?- com a voz do marido a porta parou e seu coração também, sentiu o músculo dar um salto que lhe doeu o peito- Está tudo bem?
—Sim, está- de fato não estava, tudo aquilo, enfim, a estava amedrontando, primeiro os sonhos e agora o par de portas batentes.
Enquanto o casal terminava de se arrumar, Edith recebia os convidados com seu largo e nem tão amável sorriso, seu vestido verde musgo com fitas douradas a deixava em evidência no salão, naquele ponto ela bebericava uma taça de vinho com suas amigas mais próximas, Martina e Hannah, as três eram amigas desde crianças e nutriam um veneno indescritível desde que começaram a falar; por muito tempo Martina e Hannah demonstraram interesse em casar com Thomas, ideia essa que foi podada por Edith de forma fria e ligeira.
—Daqui a pouco vão conhecer a criança que meu irmão escolheu como esposa- riu com as amigas
—O que tem de diferente das outras?- Martina balançou a taça de um lado para o outro com sua luva de renda
—Ela é mais nova que as outras, mais quieta e não importa quanto eu fale ou que eu fale, ela finge que está tudo bem- olhou ao redor, seus amigos todos estavam ali, incluindo alguns que ela nem gostava muito, percebeu a aproximação do irmão com a esposa- A atenção de todos por favor, meu irmão, o Duque de Blanchard e sua esposa- anunciou quando o casal entrou no recinto, todos olharam em direção a eles levantando suas taças, os criados entregaram duas taças para o casal para também participarem do brinde- Eu, Lady Edith de Bordeaux e meu irmão, Duque de Bordeaux, temos a honra de receber nossos amigos em nossa residência- Edith se aproximou do irmão e sorriu passando o braço no dele
—E eu gostaria de agradecer à todos por comparecer no baile de apresentação da minha esposa, é com imenso prazer e alegria que apresento à vocês Louise Marie Bethencourt Blanchard, a Duquesa de Bordeaux — ele se desvencilhou da irmã e puxou a esposa para frente, todos aplaudiram, a maioria estava feliz pelo recomeço do duque, alguns estavam com inveja ela beleza da jovem e os outros, como, Edith, estavam com raiva- Convido à todos para se juntarem em nossa dança- Thomas estava realmente apaixonado pela esposa e seu jeito delicado, o jeito que ela se entregava a ele e o beijava, o jeito que sorria e convidava para tomarem café juntos, a ter nos braços completava seu dia, sentir seu toque, suas mãos, de todas as esposas essa era a que ele mais se apaixonou.
A maioria se juntou à dança, Edith foi convidada por um rapaz mas se recusou, esperou pacientemente pelo fim do ‘’espetáculo’’ e se dirigiu até o irmão.
—Vamos, Louise, Thomas vai conversar com os outros homens, você não deve participar- se aproximou dela e segurou seu ombro firme
—Tudo bem, Edith, Louise pode ficar comigo- Thomas puxou a esposa para perto
—Thomas, eles são homens conservadores, não vão querer uma garotinha por perto- Edith defendeu sua tese
—Tudo bem, Thomas, Edith tem razão, sou muito jovem para participar de suas conversas. Ficarei bem- selou os lábios nos do marido e sorriu
—Venha, vou te apresentar minhas amigas- Edith começou puxar a cunhada até Marina e Hannah
—Você tinha razão, seu irmão escolheu casar com uma criança- Marina riu- Não deveria estar bebendo, você sabe, crianças não bebem- ela tirou a taça das mãos da outra
—Mas conta para gente, Thomas conseguiu se enfiar aí- Hannah apontou para a saia- Você ainda não é mulher para fazer alguma coisa, diferente de nós, que aguentamos qualquer membro- as três riram cúmplices, há tempos já não eram virgens mas fingiriam que eram quando casassem
—Eu cumpro minhas obrigações de mulher- baixou a cabeça envergonhada
—Olha só meninas, ela cumpre com as obrigações de mulher- Edith riu debochada- Mulher- cuspiu essa palavra- Você não é mulher, é uma cadelinha adestrada que meu irmão come; você ainda tem muito o que apanhar para achar que é mulher
—Pensei que fossemos amigas, Edith- a voz da menina embargou
—Não somos amigas, eu sou Lady Edith Bethencourt Blanchard, Lady de Bordeaux e você, é um ratinho que meu irmão trouxe para dentro de casa- Edith disse entre dentes no ouvido dela
—E eu sou a Duquesa de Bordeaux- Louise a olhou nos olhos pela primeira vez, já estava cansada de sua cunhada a menosprezar
—Por quanto tempo?- Louise sentiu a ameaça que emanava da outra
—Está tudo bem aqui?- Thomas se aproximou tocando a esposa
—Sim, tudo bem- Louise relaxou os ombros e olhou para o marido
—Venha, vou te apresentar alguns conhecidos importantes- pegou da mão da esposa e se colocaram a conversar com os mais diversos amigos.
A certa hora da noite, Louise estava sozinha na varanda, admirando a noite estrelada, sentia o que seu pai ensinou ser o vento da chuva, aquele vento fresco misturado com calor, a varanda dava para o jardim da frente, esse estava perfeitamente aparado, o verão já estava em seus últimos suspiros. Ali na escuridão ela pensava em seus dias desde que chegou ali, os sonhos, a poça de lama, as portas batendo, nunca acreditou em fantasmas, se é que era isso, talvez fosse só sua imaginação ou seu cansaço, andava cansada ultimamente.
—Louise- a voz de Edith a tirou de seus pensamentos, virou-se para a cunhada, ela estava sozinha e segurava duas taças de vinho- Vim pedir desculpas pelo meu comportamento de mais cedo, me perdoe, eu ainda estou estressada com os últimos casamentos de meu irmão e o vinho fez eu falar aquilo
—Tudo bem, Edith, eu só gostaria de ser tratada como uma mulher e como a dona dessa casa- Edith ficou ereta, sentindo uma pontada de raiva- A partir de amanhã quero estar a par de tudo que acontecer e também gostaria de eu mesma supervisionar as criadas
—Claro, querida, como você achar melhor. Agora vamos beber- estendeu a taça para ela e brindaram- Amigas- Edith sorriu enquanto a outra bebia, a textura do líquido estava arenosa e o gosto um pouco mais amargo do que as outras taças que bebeu
—Acho que esse vinho está estragado- a loira olhou para a taça e não percebeu os pequenos grãos amarelados onde estava a bebida
—Era uma garrafa muito especial, meu pai que o fez- Edith sorriu- Venha, vamos ir até Thomas-a lady pegou a taça da cunhada e, sem que ela visse, jogou pela varanda; caminharam juntas até o duque, Louise começou se sentir mal, estava tonta, sua cabeça começou a doer e seu estômago revirou, tentou prestar atenção na conversa mas não conseguia, seus olhos começaram a doer e sua visão estava embaçada
—Está bem, meu amor?- Thomas percebeu a mudança da esposa que começava suar levemente
—É claro que ela está, deve ter bebido demais- Edith riu apertando os ombros da menina- Vamos comer alguma coisa e isso vai passar
—Eu vou com vocês- Thomas se ofereceu segurando a esposa pela cintura
—Não!- pareceu um grito- Quer dizer, não, fique com seus convidados, um de nós precisa ficar aqui- Thomas olhou para a esposa e para a irmã, ela estava em boas mãos; Edith colocou a cunhada sentada num dos bancos da cozinha enquanto os criados se ocupavam dos aperitivos que estavam sendo servidos- Fique aqui, vou buscar um remédio- Edith saiu da cozinha e uma das criadas olhou para a duquesa, era Emma, era jovem, tinha vinte e dois anos e servia a família desde que nasceu
—Olha, Rose, ela está como Violet- Violet foi a última duquesa, ela era ruiva, bem afeiçoada e misteriosamente sucumbiu a morte
— Senhora, está bem?- Rose se aproximou dela
—Eu...banheiro- o estômago dela revirou por completo, Emma foi mais rápida e pegou um balde, Louise colocou tudo para fora ali mesmo, sentia o gosto amargo na boca mas não se sentia mais tonta
—Traga água- Rose pediu enquanto ajudava a duquesa se recompor, Emma trouxe um copo de água, o qual ela bebeu em dois goles
—O que aconteceu?- Edith apareceu com um vidrinho na mão
—Ela passou mal- Rose explicou
—Ela não poderia ter vomitado!- Esbravejou
—Já estou melhor, Edith. Obrigadas meninas- sorriu para as empregadas
—Se diz- Edith deu de ombros- Vamos voltar para o baile
—Pode ir na frente, vou comer algo aqui antes de sair- a cunhada seguiu para fora enquanto a outra pegava um folhado salgado, a noite seria longa.
*
Os dias passaram tranquilamente, Louise estava tentando participar mais da vida da casa mesmo que Edith a impedisse ou refizesse o que ela ordenava, a loira não desistia de tentar ser a dona da casa, como deveria ser.
Aquela manhã começou chuvosa, extremamente chuvosa, as nuvens pesadas pairavam sobre a casa, as gotas batiam com violência no chão e o barulho de trovões era audível por toda a residência Bordeaux; os criados vagavam pelos corredores limpando e organizando tudo, na cozinha, chaleiras aqueciam para o café da manhã, um bolo de laranja e pães assavam nos fornos à lenha, além de biscoitos de amendoim, os favoritos de Louise.
Edith esperava pacientemente e de taças cheias com suco, todas as taças. O casal descia a escada de mãos dadas, poderiam namorar mais tempo, Louise e Thomas faziam planos de irem para a biblioteca logo depois do desjejum, onde ele mostraria sua linhagem familiar e histórias da mesma.
—Bom dia, pombinhos- Edith sorriu, ela e Louise estavam se tornando amigas, na visão da menina.
—Bom dia- disseram em uníssono
—Desculpe a demora, estávamos aproveitando nossa cama um pouco mais- Thomas sorriu para a esposa envergonhada
—Ignore seu irmão- a outra pediu rindo
—Já servi suco para nós- Edith apontou para as taças, Louise, de bom grado, bebeu enquanto chegava os demais acompanhamentos, não queria de fato beber suco, queria algo quente, mas queria agradar a cunhada
—Biscoitos de amendoim?- Thomas pegou um desses e o estudava
—Sim, senhor. Duquesa Louise disse que gostava- Rose sorriu para a duquesa, que repetiu o ato alegremente
—Obrigada- sentiu sua garganta coçar levemente mas ignorou, servindo uma xícara de leite
—Sabe o que seria incrível?- Thomas olhou para as mulheres
—O que posso fazer por meu irmão?- Edith o tocou afável
—Louise, meu bem, me daria um filho?- a xícara que estava nas mãos de Edith caiu violentamente no chão, se despedaçando
—Um filho? Louise é muito jovem para ter um filho!- Edith estava incomodada com aquilo, incomodada com a atenção que a novata recebia, com o amor que Thomas dedicava a ela. Thomas não deveria amar outra, apenas ela! Ora, que espécie de irmão troca a irmã por uma garota?!
Depois do desjejum, Louise e Thomas seguiram para a biblioteca, deixando Edith sozinha com sua feição azeda, essa, incomodada com a solidão, subiu para seu quarto, lá poderia espraguejar sobre a sorte que se abatia sobre ela. Já era perto do almoço quando uma tontura abrangeu Louise, que se desequilibrou nos braços de Thomas
—Está cansada, meu bem? Melhor você subir, descansar- acariciou o rosto delicado dela que começava a suar levemente
—Não estou cansada, só tonta e está começando a doer minha cabeça- levou a mão ao coque
—Venha, vamos para o quarto- Thomas pegou a menina no colo e carregou para o quarto, a colocando delicamente na cama- Pedirei para trazerem comida na cama, fique aqui- beijou a testa dela, normalmente se sentia mal após as refeições, principalmente naquelas que Edith estava sentada antes deles.
Seus olhos pesavam e foi quando havia relaxado o corpo por inteiro que aquele barulho recomeçou, o mesmo bater de portas incessante e assustador, juntou sua coragem e caminhou até a fonte do barulho, ela sabia onde era, aquelas duas pequenas portas, dessa vez, quando ela ficou na frente, tudo parou, Louise estendeu a mão sentindo um arrepio cruzar o corpo, abriu uma das portas revelando um pequeno armário quase vazio, havia um pequeno caderno, que ela pegou, antes de voltar para o quarto trocou de roupa, soltando o cabelo e colocando uma camisola, caminhou de volta para cama admirando o caderno de couro preto com uma fita amarelada; deitou-se, cobrindo o corpo e ficando confortável, abriu o misterioso e assustador caderno, na primeira página estava escrito o nome da dona “Violet Bethencourt Blanchard, Duquesa de Bordeaux’’, era o diário da falecida esposa de Thomas, por que ainda estava ali?
Na página seguinte contava o primeiro dia de Violet na casa, sobre Edith a fazendo trocar de roupa e desfazer o penteado, dois dias depois contava sobre o gosto estranho no leite, assim como o que Louise sentiu, o gosto amargo de textura arenosa, além de sonhos que mandavam ela tomar cuidado, Violet descrevia uma mulher com o rosto cortado que a acordou num grito, a mesma do sonho de Louise, parecia que a menina estava revivendo o que Violet passou. Seguiu lendo atenta, cada página virada a deixava mais curiosa e assustada, Violet relatava sentir-se pior após as primeiras tonturas, cada vez pior até que a escrita, antes perfeita e desenhada, se tornasse rabiscos quase indecifráveis, a última escrita era ‘’o mingau,acho que tem algo nele’’ e depois apenas folhas em brancos
—Amor?- Thomas surgiu na porta com uma bandeja nas mãos- Trouxe sopa- se aproximou conseguindo ver o caderno- O que é isso?
—O diário de Violet, sua última esposa- Louise disse um pouco melancolica, não gostava de lembrar que Thomas havia tido outras mulheres além dela
—Foi triste o fim dela- Thomas baixou os olhos e sentou na cama, colocando a bandeja no colo da esposa
—Pode me contar?- pediu delicada, não gostava de lembrar Thomas disso
—Violet sucumbiu a uma doença que a apodreceu em vida, nos últimos das sua pele soltava dos dedos- pegou a mão de Louise- Você quer saber delas?- a loira assentiu calmamente- Não amava minha primeira esposa, ela foi arranjada por meu pai, seu nome era Helena D’Blanch, seu pai era conde na região. Eu e ela apenas cumpríamos nossas obrigações de casados, nada mais que isso, até que um dia ela caiu da escada, Edith que a encontrou, seu rosto estava cortado do nariz até a testa, sua morte foi instantânea.
—Eu sinto muito, vocês provavelmente já teriam um filho- Louise levou a mão ao ombro do marido com pesar
—Tudo bem, foi um acidente, mas bem, poucos meses depois encontrei Violet, seu pai era um comerciante rico daqui, ela parecia a mulher certa, era gentil, atenciosa. Casamos e em três meses ela caiu de cama, logo depois a doença se agravou cada vez mais e a levou; por fim, teve Mirena, não chegamos a casar, ela veio morar aqui para prepararmos o casamento e numa bela manhã, ela amanheceu morta; e então veio você- levou a mão ao rosto de boneca dela- Minha pequena, minha rainha, meu amor- beijou os lábios pálidos dela- Meu tesouro
Era verdade, Thomas amava Louise como nunca amou outra e como provavelmente nunca amaria.
—Louise, querida, trouxe um mingau para você- Edith abriu a porta sem bater pegando o casal às carícias no leito, a tigela de sopa e a bandeja estava sobre a mesinha de cabeceira, Louise estava deitada sobre o peito nu de Thomas e ele a acariciava- Oh! Você deveria ter vergonha de se entregar assim, Louise- repreendeu ao entrar
—Por que, Edith? Louise é minha esposa- Thomas a defendeu sentando na cama e a puxando junto
—Esqueça, Thomas. Coma, Louise- colocou a tigela sobre o colo da mesma
—Ela já comeu, Edith- Thomas recebeu um olhar enfurecido da irmã
—Tudo bem, Thomas, eu posso provar- disse pegando a colher e misturando
—Isso, coma- acariciou o rosto dela
—Agora nos deixe a sós- pediu o irmão, Edith bufou mas obedeceu, Louise levou uma colher a boca mas estava realmente cheia ainda mais quando lembrava do ‘’o mingau, tem algo nele’’
*
Mesmo fugindo dos inúmeros mingaís que Edith servia para ela, alguns acabava obrigada a comer até a última colherada amarga e arenosa, naquela altura quando tossia saía sangue, sentia seu corpo cansado, a cada refeição que Edith servia, Louise forçava o vômito para se sentir melhor, coisa que desagradava a outra quando descobria.
Aquele dia gelado de inverno começou calmo, Thomas ficou mais na cama naquela manhã, aproveitando a esposa, a neve lá fora seria usada como motivo para a demora; Edith estava na mesa, sentada e irritada com o casal feliz no andar de cima, na mesa, os bules com liquidos quentes eram colocados, as xícaras, os pães ainda levantando vapor do forno, tudo estaria perfeito para quando o duque descesse com sua adorável esposa e assim aconteceu.
—Demoraram hoje- reclamou a morena fazendo cara de poucos amigos
—Sim, está nevando e essa tarde precisarei viajar- Thomas disse sorrindo para a esposa
—Oh, ótimo, Louise e eu ficaremos bem- Edith olhou para a cunhada e depois para sua xícara
—Claro, só estou preocupado com Louise- o marido a acariciou
—O que tem?- a outra pareceu entusiasmada
—Sinto-me enjoada após a maioria das refeições e fraca a maior parte do tempo- Louise explicou pegando o bule e quase o derrubando, quem o segurou foi Rose, que ficava ao lado da mesa para os ajudar
—Estou pensando em chamar doutor Ambrose para a ver- Thomas olhou preocupada para a loira
—Thomas, isso não deve ser nada, não se preocupe- Edith interferiu no que Louise iria falar- Creio que Louise ficará bem logo, não é, querida?
—Sim...sim, claro- concordou se sentindo envergonhada por estar doente, terminaram o desjejum com mais algumas indiretas sobre a saúde frágil de Louise e nada mais
Naquela altura da manhã, Thomas arrumava suas coisas junto com seu conselheiro e Louise passeava pela casa calmamente, o corredor a levou a um quarto aberto, Emma estava lá dentro limpando e abrindo as janelas, Louise entrou sutilmente, o que fez a empregada dar um pulo de susto
—Perdão, senhora, não gosto de entrar nesse quarto- explicou enquanto dobrava os lençóis sujos de pó
—O que tem esse quarto, Emma?- perguntou se aproximando da penteadeira simples
—Foi o quarto onde a mademoiselle Mirena dormia e foi onde morreu- contou de cabeça baixa, costume que havia pego depois de tantas brigas de Edith sobre não a olhar nos olhos
—Como ela morreu?- a duquesa virou para a garota de cabelos loiros escuros
—Eu posso confiar na senhora?- se aproximou receosa
—Claro, conte-me- pediu docemente
—Na última noite de Lady Mirena, o duque estava viajando e ela jantou apenas com Lady Edith, eu vi Edith misturar algo no suco da outra antes dela chegar, na manhã seguinte ela foi encontrada morta por Rose- sussurrou tão baixo que Louise teve dificuldade para ouvir- Eu não posso estar falando isso, a senhora sabe que seria uma acusação muito grave
—Está tudo bem, Emma, está seguro comigo- segurou as mãos ríspidas da empregada, ficaria só entre as duas mas essa noite ela não comeria o que fosse servido por Edith.
Com um beijo, Louise se despediu do marido ao meio da tarde, sentiria saudade dos abraços quentes durante a noite e da proteção que ele emanava, sobreviveria se ficasse longe de Edith, mas queria a desmascarar, faze-la confessar perante todos que estavam na casa o que ela fez com suas antigas cunhadas, só assim ficaria livre do tormento que a perseguia. Assim que Thomas deu as costas, seguindo pelo caminho que o levaria até seu destino, tudo pareceu mudar, tanto o tempo fora quanto o tempo dentro da casa fechou, grossas nuvens se formaram no céu, escurecendo o interior do palácio, enquanto Louise caminhava para a cozinha, as criadas passavam acendendo as velas.
—Rose- chamou a cozinheira assim que chegou ao cômodo, a mulher se virou- Peça para minha louça ser colocada apenas quando eu estiver na mesa e não permita que minha cunhada entre nessa cozinha- pela primeira vez desde que chegou, Louise foi firme, não com aquela voz doce e melodiosa, mas sim uma voz decidida, que escondeu o medo que sentia- E quero todos os empregados aqui na cozinha essa noite, não apenas você e, não importa o que aconteça, nenhum sai daqui- completou, claro, se queria levar a diante, sua palavra como duquesa não bastava, queria provas, provas essas que seriam mais fáceis caso Thomas tivesse ali, apenas a palavra dele bastaria num tribunal, sem ele precisava de mais alguém para testemunhar o que ela queria ouvir aquela noite.
O dia passou calmo, Louise não viu Edith em nenhum momento até o jantar, a tontura e o enjoo não a atingiram naquele dia, mesmo que se sentisse fraca, coisa que ela agradeceu, queria ficar saudável, como era quando chegou no palácio, como deveria ser pela idade que tinha e pela família que vinha, não aceitava estar doente, porque sabia que não era doença o que tinha, o livro que leu aquela tarde a ajudou, era um livro sobre venenos e um deles fazia a pele ter erupções até que começasse a se desprender da carne, a morte de Violet deveria ter sido horrível para todos.
Com seu livro nas mãos, Louise seguiu até a mesa de jantar, pela primeira vez entrou triunfante, com a coragem que sempre guardou em seu âmago, Edith estranhou o comportamento da garota, que, ignorou sua cadeira, sentando na cadeira dedicada ao duque.
—Essa é a cadeira do meu irmão- lembrou Edith entre dentes
—Não hoje, com Thomas fora do palácio, eu sou a principal- Louise sorriu, nesse instante chegaram os criados com a louça
—Vocês estão atrasados! A louça já deveria ter sido posta antes que eu sentasse!- a morena quase gritou mas suas bochechas brancas estavam vermelhas diante da raiva
—Eu pedi que fosse assim, e você sabe, eu sou a duquesa, as criadas obedecem a mim- Louise sorriu, diferente de quando sorria doce, dessa vez foi um sorriso debochado que brotou nos lábios da loira, seus cachos balançaram quando retornou a olhar para a louça sendo posta na grande mesa de madeira
—Você não é duquesa, é a cadelinha do meu irmão!- dessa vez Edith não engoliu sua raiva e praticamente gritou
—Oh, sou casada com um duque, logo, uma duquesa, como foi Helena e Violet, e como seria Mirena, se tivesse sobrevivido- Rose enchia a jarra de suco da menina nesse momento
—Você é o prêmio de consolação de um duque viúvo- Edith disse entre dentes novamente- Nem você, nem elas eram boas para meu irmão, nenhuma nunca será a esposa ideal- dessa vez a frase saiu alta e clara
—Seu irmão me acha bem ideal- Louise debochou descaradamente e recebeu o que esperava, um tapa forte no rosto, mesmo com o espanto de Rose, não se deixou abater- Pode ir para a cozinha, Rose, minha cunhada e eu temos algo para conversar em particular- a criada, então, se retirou para a cozinha, juntos com os outros, tinham ordens da duquesa de não saírem dali, inclusive trancaram todas as entradas para o cômodo, mas se reuniram na porta que levava a sala de jantar, queriam, mesmo que fosse errado, ouvir a conversa
—Meu irmão te acha ideal?- Edith riu- Ele diria isso para qualquer par de pernas que se abrisse diante dele, mas você, pequena rata, não faria diferença se morresse hoje- Louise observou atentamente a cunhada que lhe dirigia palavras tão ríspidas, percebeu o vidrinho pequeno e escuro posto em cima de seu colo
—Certo, Edith, tem razão, sou apenas um objeto de prazer para seu irmão, mas me diga, o que é esse vidro que está em seu colo? Não é o mesmo remédio que iria me dar na noite do baile?- arqueou a sobrancelha apoiando o rosto nas mãos entrelaçadas e olhando para a outra
—É sim, é o remédio que eu deveria ter dado a você bem antes- Edith riu e colocou o vidrinho em cima da mesa, havia uma pequena escritura em papel colada no vidro, estava escrito ‘’cuidado’’- Sabe, cunhadinha, com uma colherzinha disso você ficará melhor
—Imagino que irá me matar como matou suas outras cunhadas- essa frase veio mais calma do que a própria Louise esperava que saísse- Ou estou errada?- estreitou os olhos desafiadora, Edith riu como se a loira tivesse contado uma piada muito boa
—Não, não está, já me livrei das outras, você seria só mais uma, uma cadelinha frágil e medíocre que sucumbiu a morte durante a ausência do meu irmão- as duas mulheres se encararam, uma tinha 23, a outra 17, uma usava vestido azul e a outra vestido cinza, uma tinha cabelos cor de chocolate e a outra cabelos loiros como ouro, ambas estavam com semblante de vitoriosa
—Me conte como se livrou das outras, eu gostaria de ouvir antes de seguir pelo mesmo caminho- Edith levantou sorridente
—Então você quer saber como me livrei das outras?- Louise assentiu, seu interior estava amedrontado mas isso não estava transparente para Edith- A primeira foi Helena, garota bem insolente, resolveu que mandaria na minha casa, ora, ninguém toma meu lugar de direito nessa casa! Foi simples empurrar ela do topo da escada, se partiu como um ovo quando atingiu o chão- Sacudiu a faca que estava em sua mão, Louise nem reparara que Edith havia pegou um dos talheres mais afiados- Depois veio Violet- a morena bufou- Cheia dos amores com meu irmão, viviam abraçados e trocando carícias, tirava momentos meus com Thomas, ela eu vi apodrecer lentamente com minhas doses diárias de veneno, precisava ver as feridas que ficaram em suas mãos, e a pobrezinha ainda achava que eu cuidava dela- Edith passou a faca levemente no pescoço da loira, a fazendo temer por sua vida pela primeira vez desde que Thomas partira- Depois teve Mirena, ah, a doce e inocente jovem Mirena, bebeu uma xícara quase inteira com esse remedinho- Balançou o vidro na frente da garota tirando a faca do pescoço da mesma- depois ela dormiu
—Thomas nunca desconfiou?- Louise se mantinha visivelmente calma, mesmo que seu instinto mandasse ela correr
—Não, nunca, por que desconfiaria da sua irmãzinha querida? Logo eu, sempre prestativa com ele, disposta a me entregar de corpo e alma ao meu irmão- Louise levantou calmamente
—De corpo e alma?- repetiu esse trecho da frase
—Acha que eu mato por diversão?- Edith a encarou- Eu as matei porque ocuparam meu lugar de direito nessa casa, meu lugar de mulher, eu deveria deitar com Thomas todas as noites, eu deveria o satisfazer, eu deveria mandar unicamente nesse lugar, eu e somente eu!- gritou essa última parte- Agora é hora de me livrar de você!- nesse rompante Louise saiu correndo, chegando ao hall de entrada abriu as duas portas e encarou o tempo feio que estava no lado de fora, estava disposta a morrer para provar que Edith foi a culpada dos assassinados anteriores, os criados ouviram toda a discussão e iriam contar com detalhes para Thomas quando ele chegasse na manhã seguinte, mesmo com Edith chorando as pitangas que ela falecera.
O jardim da frente estava coberto com um fina camada de neve e lama, Louise olhou para a frente e para suas costas, uma Edith em fúria a perseguia, então ela correu, se escondendo entre os arbustos
—Eu vou achar você, garotinha maldita, eu vou!- Edith gritou, claro que não seria difícil contando que a neve deixava pegadas, mas não havia tanta neve, ainda não era o alto do inverno, a lama era por causa da chuva e a neve estava apenas em cima dos arbustos. Edith seguiu o caminho que levava ao portão, sua faca cintilava na mão, ela se aproximou de onde a outra estava, porém, no momento em que acertou a faca, essa passou reto para um arbusto, Louise saíra correndo novamente, Edith gruniu de ódio e voltou a perseguir a outra- Não pense que vai escapar de mim, eu vou acabar com você!
—Edith, pare com isso! Poderíamos ter sido amigas, governado lado a lado essa casa!- Louise a respondeu atrás de uma árvore grossa que tinha, agradeceu por não estar com seus vestidos costumeiros e armados
—Você ainda não entendeu- a perseguidora riu- Eu quero que Thomas me despose! Que case comigo! E que me ame como mulher!- um dos sapatos da mulher ficou preso na lama, o que a obrigou lutar alguns segundos para o tirar
—Isso é loucura! Thomas nunca casaria com sua própria irmã!- Louise disse enquanto a outra ainda brigava com o sapato cuja a fivela não queria abrir
—Foi para isso que mamãe me criou, para ser a esposa perfeita para Thomas! Eu sofri tantas coisas para ser moldada para ele e papai apareceu com Helena!- finalmente o sapato cedeu e saiu da poça de lama- Mamãe me batia, me humilhava, tudo para que quando eu casasse com ele, eu fosse perfeita!
—Eu sinto muito pelo que você sofreu, não posso mudar o passado, mas podemos mudar o futuro, podemos ser amigas- sugeriu Louise numa tentativa de parar a outra
—Vá ser amiga do diabo, Louise!- praguejou a outra, Louise correu novamente, seu coração acelerado de medo, seu corpo ainda fraco do começo do envenenamento, mesmo que vomitasse depois, a fraqueza a perseguia
Enquanto fugia por sua vida, Louise tropeçou, caindo de bruços no chão, foi o momento que ela se virou e Edith a prendeu entre suas pernas, em sua mente passava todos os momentos bons, tanto com sua família quanto com Thomas, lembrava de Edith brindando a amizade que surgiria entre elas; a menina começou se debater desesperadamente numa tentativa de escapar, mas a outra era mais pesada que ela e do jeito que estava fraca, não tinha forças de levantar a cunhada
—Pare de lutar, Louise, assim sua morte será mais rápida- Edith falou quase que junto de um raio que cortou o céu naquele instante
—Pense em seu irmão e em como ele ficará com minha morte- a loira pediu numa tentativa de tocar o coração da louca
—Meu irmão ficará bem, eu cuidarei dele- levantou a faca acima de sua cabeça, a prata brilhou nas mãos dela como um presságio do que aconteceria em seguida- Eu matei as outras e matarei você!- gritou- Diga adeus, Sua Alteza Real Louise Marie Bethencourt Blanchard, Duquesa de Bordeaux, da Casa Real de Órleans
—Edith, pare!- a voz masculina fez a executora largar a faca, Thomas estava atrás delas com toda sua comitiva, além de dois guardas da cidade que os acompanhavam, haviam ouvido toda a última fala da mulher, ele desceu do cavalo
—Thomas, eu posso explicar!- Edith levantou, a faca caída ao lado de Louise, essa deitada no chão com os cabelos cobertos de lama e o vestido imundo
—Explicar por que matou minhas outras esposas? E por que matou Mirena?- Thomas se aproximou com os guardas
—Eu fiz por amor- Edith caiu de joelhos no chão- Eu que deveria casar contigo, eu deveria ser a duquesa
—Nós fomos criados como irmãos, você era a filha bastarda de papai, nunca nos casaríamos!- o homem a olhou com pena, a mulher ajoelhada era uma das melhores figuras femininas que tinha e agora descobrira que ela era a assassina de seus amores, ela era a maldição que assolava aquele palácio, era dela que vinha a tristeza que ele sentia, ela era a causadora e se não fosse pela tempestade no caminho, que o obrigou voltar, Louise seria mais uma que sucumbira à maldição do duque.
Edith foi presa pelos guardas, colocada na cela sob acusação de assassinato e tentativa de assassinato, Louise sentia-se mais leve depois daquilo tudo, mesmo que tivesse sido quase morta, sentia que havia vingado a morte das outras mulheres inocentes.
Pelos dias que se seguiram todos que moravam na casa tiveram que prestar depoimento, todos, sem exceção, os empregados contaram tudo que sabiam, Emma contou sobre o pó que Edith derramava nas bebidas e comidas das mulheres, Louise entregou o diário de Lady Violet, não precisaria mais dele, com o delegado seria mais útil.
O julgamento foi marcado para dois meses após a reclusão, iria vir pessoas de fora, pessoas que não tinham medo de Lady Edith, porque, simplesmente, não a conheciam. Era uma manhã fria de inverno, a neve agora já estava alta sobre os campos, por todos os lados era possível ver fumaças saindo de chaminés, a carruagem transitava pelas ruas vagarosamente, ninguém tinha pressa de chegar ao destino, dentro, aconchegados um no outro, estavam Louise e Thomas, eles evitam tocar no assunto que se referia à Edith, Thomas ainda não acreditava que havia sido ela que matara suas esposas e que quase tirara dele seu bem mais precioso, Louise.
O tribunal estava montado, bancos longos, como os de igreja, posicionados em duas fileiras de frente para o juiz e os jurados, alguns comerciantes estavam ali, como também suas esposas, Edith estava sentada na cadeira dos réus com o advogado que conheceu na cadeia, seu irmão não lhe fornecera um. Christopher Abrien conheceu Edith enquanto visitava outro cliente, havia se apaixonado pela moça e lembrava dela nos eventos sociais da família Blanchard; Edith, que agora nada lembrava a imponente Lady de Bordeaux, aquelas que todos conheciam, estava abatida, seu vestido estava surrado devido as péssimas condições de sua cela, seu cabelo estava solto e embaraçado e apresentava enormes olheiras, além de olhos chorosos.
—Com vocês, Suas Altezas Reais, o Duque e a Duquesa de Bordeaux- anunciou o guarda na porta, a abrindo, por respeito, todos ficaram de pé, Edith observou a cena dos dois entrarem e sentarem na primeira fileira, aguardando o juiz começar, algo que não demorou muito.
Depois de duas horas de julgamento, provas e mais provas que levavam até Edith, os venenos encontrados em seu quarto, os registros de lady Violet, o testemunho dos criados e por fim o testemunho da Duquesa de Bordeaux, que sobrevivera à fúria de um amor incestuoso, mesmo Edith contando os castigos que sofreu de sua mãe para se tornar a esposa e a duquesa perfeita, nada abalou o júri.
—Nesse dia, eu, Juiz Antonie LeBlanc, declaro a ré, Lady Edith Bethencourt Blanchard, culpada- nesse instante ela rompeu em choro- Sob acusação de assassinar Helena Lira e Violet Roxanne Blanchard, ambas Duquesas de Bordeaux, e, também, assassinar Mirena Rox, futura esposa do Duque de Bordeaux, além da tentativa de assassinado de Louise Marie Bethencourt Blanchard, a Duquesa de Bordeaux. A pena é a reclusão em um sanatório mental. Declaro o julgamento encerrado- o juiz bateu o martelo de madeira enquanto os pais de Helena, Violet e Mirena choravam por achar a pena pouca para quem fez tanto mal, os guardas a carregaram até a cela onde esperaria o sanatório a buscar.
*
Dois anos depois...
Tudo finalmente parecia em paz no Ducado de Bordeaux, a nuvem pesada dos assassinatos havia sumido, a primavera chegara triunfante naquele ano, enchendo o jardim de lindas flores, um pequeno menino de cabelos dourados e olhos castanhos andava atrapalhado nos primeiros passos que tentava dar pelo hall de entrada, seguido, orgulhosamente, do duque, que o protegia como o bom pai que era. Louise descia as escadas calmamente, seu vestido cor de rosa deixava visível sua nova gestação, seu cabelo estava preso num coque alto e seu pescoço ornamentado com um colar de pérolas.
—Pronto para sair?- perguntou quando se aproximou dos dois que brincavam no hall
—Vamos conhecer a tia?- Thomas decidira que era uma ideia apresentar o pequeno à irmã e era isso que eles fariam naquela manhã de primavera.
Embarcaram os três, em breve quatro, na mesma carruagem, o cocheiro os levaria até o sanatório onde Edith estava reclusa, lugar que não era muito longe, ficava há uma hora de viagem dali, com uma linda vista para o mar, o sanatório se ergui imponente no meio daquele campo, era razoavelmente longe das cidades como questão de segurança, as paredes de pedra, o portão em forma de arco, passaram o pontilhão sobre o fosso entrando no pátio, ali havia outras carruagens, provavelmente outras famílias visitando parentes, assim que os duques subiram os degraus da entrada a porta foi imediatamente aberta.
—Oh, sejam bem vindos- cumprimentou o médico- Sou o doutor Albert Von Drie, quer que os apresente?
—Não, dispense essa formalidade- Thomas sorriu- gostaria de ver Edith
—Claro, venham comigo- o doutor começou os guiar por entre os pacientes, alguns pareciam perdidos em seus pensamentos, outros estavam amarrados em camisas de força, dois ou três dançavam numa sala- Ela está lá no jardim- atravessaram a porta de madeira em arco que os levou a um jardim florido e verde, a antiga Lady de Bordeaux, que perdera esse título após se tornar reclusa, estava lá, sentada num banco ouvindo o cantar dos pássaros- Vou deixá-los sozinhos- o médico virou nesse instante e o casal seguiu, o pequeno estava no colo do pai olhando para tudo atentamente
—Edith?- Thomas chamou, sua irmã parecia serena, calma, ela virou e sorriu
—Thomas! Quanto tempo?- levantou e o abraçou- E esse menino lindo?- perguntou ignorando completamente a presença da duquesa
—Esse é o Thomas, Thomas Charles Bethencourt Blanchard II, o Conde de Chatois e futuro duque de Bordeaux- a apresentaram era a ideal, Edith sorriu e levou os braços para pegar o menino mas Thomas o colocou de pé no chão- Lembra-se de Louise?- apontou para a esposa, não sabia se a irmã esquecera de algo
—Louise, querida- falou como se fossem amigas há tempos- Já está esperando outro?- acariciou a barriga sob os olhos atentos do duque que ainda temia que a irmã fizesse algo
—Já estava na hora, Charles já tem mais de um ano- Louise passou a mão no ventre orgulhosa, nesse instante o pequeno correu, o que levou o pai ir atrás
—Você é uma cadela parideira- rosnou Edith, esse tempo de reclusão não havia a curado
—E você é uma cadela presa- Louise debochou, a morena relaxou os ombros, tudo que fizesse só traria mais problemas para si
—Você venceu, maldita- voltou a sentar no banco de forma perdedora, seus ombros baixos, seus olhos tristes, pensara em tudo que fizera por amor, tudo que passou para no fim ver o seu amado irmão com outra, talvez se provasse estar mudada voltasse para o mundo que deixou para trás, voltasse para os bailes da alta sociedade, voltasse para o Palácio de Bordeaux, retomasse seu título de lady e se tornasse uma boa tia, mas seria complicado provar que havia mudado, porém não impossível, talvez tentasse.
—É, Edith, eu venci
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