A dor precisa ser sentida
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Meu nome é Lucy. Eu e meu marido, Natsu, moramos em nosso pequeno apartamento. Isso é até legal pois, assim ficamos mais próximos um do outro. Essa é somente mais uma daquelas histórias que, um dia, irei escrever no papel e não irei postar. Mas, o que interessa agora é a história. Então, vamos começar.
Erámos somente eu e Natsu. Conseguíamos nos sustentar com o dinheiro que recebia de meu trabalho de garçonete e com as recompensas que Natsu recebia dos trabalhos que fazia. Um dia, decidimos que queríamos ter filhos, mas depois de várias tentativas fomos num hospital e descobrimos que não podemos ter filhos. Foi um choque. Simplesmente queríamos ter uma filha para ter quem chamar de nossa, não queríamos adotar uma com o peso de saber que não somos seus verdadeiros pais. Ver os outros casais se divertindo com seus filhos, nos partia o coração.
Onze dias depois, Natsu sofreu um acidente de carro e perdeu a mobilidade das pernas. Agora, nós dependíamos somente do meu trabalho. Acontece que dois dias depois, eu fiquei doente e meu chefe me demitiu. Agora com o aluguel atrasado, nos restou pedir a ajuda dos amigos. Um deles poderia nos deixar morar com ele até eu arrumar um novo trabalho. E, arranjamos. Moramos com ele por mais ou menos um ano, até agora.
Um ano depois dessas tragédias, eu já havia arranjado um novo trabalho, mas de muito pouco salário e o máximo que consegui alugar, foi um prédio menor do que morávamos e, somente, com escadas. Discuti com Natsu que era melhor morarmos com nossos amigos por mais um tempo por causa do problema da cadeira de rodas, mas ele disse que não gostaria de incomodá-los e acabamos ficando no apartamento.
Em uma noite, ao voltar de meu trabalho, fui para o meu quarto e acendi a luz. Fui em direção a cama, mas antes de me deitar, vi Natsu se contorcendo de dor e gritei horrorizada pois, não sabia o que fazer. Peguei meu celular e liguei para o hospital pedindo que trouxessem uma ambulância pois, aquilo era uma emergência. O transporte chegou e alguns médicos subiram no apartamento e colocaram Natsu sobre uma maca e o levaram para o hospital. No caminho, lhe deram alguns medicamentos e lhe pediram para respirar calmamente. Eu, que estava sentada ao seu lado, segurava sua mão e lhe dizia que ia tudo acabar bem. Uma hora ele fechou os olhos e ficou desse jeito até chegarmos no local.
Para mim, a sala de espera era terrível pois, eu não aguentava esperar um médico para me dizer o que estava acontecendo com meu marido. Até que enfim, um médico passa e me levanto andando para ele. Ele me explicou tudo e caí aos prantos. Natsu estava com câncer.
Natsu levou alta do hospital após treze dias. Decidi que iria abandonar meu trabalho para ficar o máximo de tempo que eu pudesse ao seu lado.
Um dia, eu e Natsu fomos ao parque. Ele estava sem expressão. Ainda deveria estar pensando na pouca porcentagem de tempo de vida que ele teria. Ele se virou para mim, me olhando por cima e eu olhando para ele por baixo. Gostaria de lhe dar um beijo, mas a cadeira de rodas atrapalha o movimento que teria que fazer para realizar o ato. No meio do caminho do parque, fomos passear no meio das árvores e paramos ao chegar no local onde normalmente fazíamos piqueniques. Na nossa vista, havia uma loja fechada e um playground para as crianças.
Realmente, eu queria mostrar tudo o que Natsu queria ver, antes que seja tarde demais. Até que tive uma ideia!
No dia seguinte, levei Natsu no mesmo lugar que ontem, só que desta vez ele estava vendado. Haviam alguns balões presos nos braços da cadeira de rodas e o chão estava coberto de neve e as flores das árvores caiam. Fui até a vitrine da loja fechada, que estava coberta com neve, e escrevi com o dedo a frase: I love you. Depois, voltei até Natsu e tirei a venda de seus olhos e, ao ver a cena, ele sorriu. Nunca havia pensado que poderia ver aquele sorriso novamente depois que recebi a notícia de que ele tinha câncer.
Uma semana depois, tivemos que voltar ao hospital para fazerem alguns exames no Natsu. Depois de dois dias, seria seu aniversário. Passei a noite no hospital, e no dia seguinte, depois do almoço, recebi a notícia de que Natsu não respondia aos medicamentos e que seu batimento cardíaco estava no zero. O médico me avisou que ele havia falecido, um dia antes de seu aniversário.
No funeral dele, não chorei. Apenas senti arrependimento de não ter tido tempo suficiente para passar com ele. Mas, já estava acostumada aquela sensação de tristeza e arrependimento, afinal:
A dor precisa ser sentida.
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