A deusa perdida
39 Sono
Balancei a cabeça, tinha que sair deste transe. Saí da sala de reuniões e fui atrás de Kira para inspecionar as entregas para o meu palácio. Iríamos atacar daqui há dois dias, precisávamos de tudo em ordem logo.
***
Passei o dia todo sem comer; fiquei atarefada demais com os preparativos, revendo as armas, segurança do palácio, estratégias com meus generais e armaduras. Pela minha análise, estávamos com um bom plano e meu otimismo estava nas alturas, nada poderia dar errado. Dei um tempo nas análises e organizações, tinha que relaxar um pouco. E comer. Pedi para que preparassem meu banho e o jantar enquanto terminava de assinar uns relatórios do clima para enviar a Éolo ainda hoje. Quando terminei de assinar o último, um espírito do vento apareceu em meu escritório de repente. Olhei para aquele espírito e sabia que já tinha visto antes no Monte Olimpo. Ele fez uma reverência e disse.
— Senhora Alexis, trago uma carta do senhor do Monte Olimpo. – E o espírito deixou a carta em cima da minha mesa.
— Agradeço.
Peguei a carta da mesa e a segurei em minhas mãos. O espírito fez uma reverência e sumiu com o vento. Abri o envelope, tirei a carta de dentro dele e comecei a ler.
“Alexis,
Andei pensando muito sobre este assunto. Te observei também e sei que cumpriu minhas ordens. Percebi que não tem mais o porquê de você estar presa em seu palácio. Curta sua liberdade, você merece.
Zeus”.
Reli aquela carta novamente para ter exatamente a certeza que aquilo estava escrito ali, a minha liberdade de volta. Depois de ler a carta, a larguei em cima da mesa e segui até a entrada do meu palácio. Olhei aquele céu escuro e senti a brisa fria passar por mim. Podia sentir que a jaula que Zeus colocou em meu palácio tinha sumido, então abri os braços, olhei para cima e sorri. Estou livre!
Voltei para dentro do palácio com um sorriso enorme e segui para a minha sala de banho, nada poderia estar pior. Depois do banho, me dirigi para a sala de jantar, estava faminta! Comecei a fazer planos de como aproveitar esta minha condição atual de deusa livre, mas, claro, com cautela porque se não teria que voltar ao antigo regime do senhor Zeus. Esta minha agitação só me trazia vontade de compartilhar este momento com uma pessoa, quero muito vê-la. Tomei a decisão de fazer isto hoje à noite, via sonhos. Não vejo a hora de olhar naquele rosto e poder me sentir em casa novamente.
Assim que terminei de comer o jantar, segui para meus aposentos e deitei em minha cama. Respirei fundo, fechei os olhos e projetei a imagem do meu grande jardim durante a noite em minha mente. Me imaginei com um vestido de seda longo preto, cabelos soltos e descalça. Ao chão tinha uma grande toalha estirada na grama e uma manta dobrada ao lado. Sentei na toalha, olhei para o céu estrelado e procurei sua mente para trazê-lo a mim. Para minha alegria, ele tinha acabado de dormir e não estava sonhando. Ainda. Fechei os olhos e puxei sua mente para este cenário de uma das minhas lembranças que deixei aberto para o sonho de Jared acontecer. De repente senti sua presença naquele jardim, então abri os olhos e o vi andando em minha frente, chegando perto de mim. Ele usava um par de calças jeans, camisa preta e um blazer por cima, também estava descalço. Quando me viu, abriu um sorriso largo e colocou as mãos nos bolsos da calça. Ele parou em minha frente e me observou, ainda sorrindo.
— Boa noite, Alexis.
— Boa noite, Jared.
Ele olhou ao redor, analisando o jardim e o meu palácio logo atrás de nós.
— Que lugar bonito! É aqui onde vive?
— Sim. Este é o meu mundinho.
Ele riu.
— Creio que isto não é um sonho também.
Pensei um pouco antes de responder.
— Para você é, para mim não. Você está visitando uma das minhas lembranças de onde vivo, só que com algumas coisas diferentes: nós conversando neste local.
— Entendi.
— Pensei que estaria curioso em saber onde vivo e que gostaria de vê-lo, então o trouxe na única forma em que conseguiria.
Ele sorriu.
— Acertou em cheio. Estou gostando de te fazer uma visita, desta vez.
Ri com a declaração dele.
— Venha sentar-se ao meu lado.
Jared se abaixou e sentou ao meu lado em cima da toalha. Encostei minha cabeça em seu ombro e ele segurou a minha mão esquerda.
— Fico feliz em poder te trazer aqui, Jared. Por incrível que pareça, este momento é importante para mim. Creio que sou a única deusa a ter um contato com um mortal tão forte deste jeito e acabar fazendo tudo o que eu faço para poder estar com você e Will.
— Isso pode soar egoísta de minha parte, mas estou feliz e orgulhoso por todas essas coisas que você faz para poder manter contato, estar perto. Nunca fizeram este tipo de coisa comigo antes e não quero que acabem.
Fiquei olhando para frente e um pensamento passou em minha mente me deixando um pouco triste.
— Estou tentando para que continue assim.
Jared apertou a minha mão e olhou para mim.
— Sei disso. Também sei que se arrisca muito para conseguir pouco tempo comigo. Agradeço, do fundo do meu coração, por tudo que você faz por mim e Will, Alexis.
Sorri com aquela declaração. Ouvir aquilo me fazia sentir muita felicidade.
— Tenho uma novidade.
— Qual?
— Zeus me libertou do confinamento, posso ir aonde quiser, quando quiser.
— Que ótima notícia! – Jared disse, me abraçando.
Depois de nos abraçarmos olhei para os olhos de Jared e falei animadamente.
— Gostaria de conhecer meu palácio?
Ele me olhou com o cenho frisado.
— E podemos?
— Claro!
Levantei e o puxei logo em seguida. Depois o conduzi para a porta de entrada do meu palácio e falei.
— Bem-vindo ao meu lar, Jared!
Ele sorriu e fez uma reverência. Depois ofereceu o braço para mim e, assim, o conduzi por dentro do palácio com estruturas gregas. Durante todo o tour, fui explicando quem tinha construído o palácio, qual cômodo era aquele e para quê o utilizava-o. Jared observava atentamente e demonstrava alegria, estava feliz em poder ver um pouco mais sobre mim e meu mundo, presenciar onde vivo. Chegamos no ponto final do tour que eram meus aposentos particulares.
— Por último, é aqui onde durmo e onde uma parte do meu corpo está agora enquanto falo com você.
Ele analisou ao redor, andou até perto da minha cama e depois virou para mim.
— Você costuma dormir em que lado da cama?
O olhei curiosa, mas respondi.
— Costumo dormir no centro dela.
Ele assentiu.
— Este lugar é bem grande para uma única pessoa viver nele.
— Concordo. Só que não vivo sozinha aqui, tenho meus trabalhadores que moram aqui também.
— Ah! Melhor, então.
Jared foi até a cama e sentou na beira dela. Passou a mão no lençol de seda branca e, logo em seguida, deu uma batinha ao lado dele, como um convite para eu sentar ao seu lado. Fui até ele e sentei onde ele tinha indicado.
— Alexis, será que você conseguiria fazer com que nós dois dormíssemos juntos esta noite por este sonho?
Olhei atentamente para Jared, querendo enxergar o que ele estava sentindo. Pude perceber que ele estava nervoso, ansioso e com muita vontade de que aquilo acontecesse. Sorri para ele e balancei a cabeça, confirmando. Ele mostrou um grande sorriso em retribuição. Engatinhei até o lado direito da cama e depois Jared juntou-se a mim. Ele me colocou em seus braços e nos abraçamos deitados. Encostei minha testa em seu peito e fechei os olhos, me concentrando em dormir e ainda fazer com que aquele sonho continuasse vivo.
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