Cheguei ao meu palácio no fim da tarde e com muita raiva.

O que Apolo e Zeus pensam? Que irei ficar sentada em meu trono, assistindo a minha família sendo machucada ou até morrendo bem embaixo do meu nariz? Nunca iria permitir isso. Nunca. Só que é esse pensamento que se passa na cabeça deles. Passei pelos corredores e não quis ouvir a opinião de ninguém. Mandei Kim ir embora e fechei a porta do salão do trono. Sentei em meu trono tentando me acalmar para poder pensar em algo sensato. Agora eles acham que preciso de babá? Ah, por favor, sei me defender sozinha.

Preciso pensar em algo. E rápido. Mas... O quê? Com a raiva que sentia com certeza não iria sair nada. Respirei fundo várias vezes. Diminuiu, mas não o bastante. Levantei e comecei a andar pelo salão. Meu bastão estava vibrando e emanava uma força incrível. Fiquei o olhando por um tempo. Ele estava em pé e parado ao lado do meu trono, enquanto eu estava parada no meio do salão. Uma ideia veio a cabeça. Abri a mão e o bastão veio veloz para ela e então saí do salão. Quando cheguei no jardim o chamei. Depois de cinco minutos, Hermes apareceu com uma roupa de corredor e uma bolsa pendurada. Também estava segurando o seu caduceu.

— O que quer de mim?

— Espero que não esteja muito ocupado nas próximas horas.

— Estou com muitas coisas para fazer, mas posso abrir uma exceção para uma urgência.

— Ótimo! Preciso que me acompanhe até a Terra.

— Serviço de babá? Não era mais apropriado chamar Ares? Afinal ele tem aquele ar de durão e poderá afastar o perigo.

Claro, Hermes já sabe da novidade.

— Ares não. Ele irá jogar o charme que não funciona comigo e eu não quero descontar a minha raiva nele.

— Apolo?

— Se não quiser ir comigo, Hermes, diga que não irá ao invés de me dar opções de outros deuses e me fazer perder tempo.

— Desculpe, mas só estava dando opções mais vantajosas.

— Não as quero.

Ele jogou as mãos para o alto.

— Tudo bem. Aonde vamos?

— Primeiro, para o Queens.

— Sim, senhora.

Ele balançou o caduceu e sua biga apareceu. Na realidade não parecia uma biga, parecia mais uma nave. Nada a puxava. Ele abriu a porta daquilo e eu entrei. Ele sentou ao meu lado, posicionou o caduceu em um buraco perto dos pés dele e a coisa começou a voar. Dei as instruções onde ficava a casa. Ele parou a coisa bem no terraço da casa de Jared. Quando eu ia abrir a porta ele me impediu.

— O que foi?

— Olhe em volta.

Quando olhei ao redor dos prédios, comecei a sentir a presença de energias ruins por perto. Eram cinco.

— Creio que não seja uma boa hora para fazermos esta visita. – disse Hermes.

— Claro que é. Só que precisa de uma faxina. O ar está carregado.

Toquei a minha presilha e depois de cinco segundos o ar ficou mais puro.

— Sabe que isso não foi uma boa ideia? Trará consequências para você.

— Não me importo com isso.

Saí daquela coisa e ela deixou de ficar invisível. Quando nós dois saímos e fechamos a porta ela voltou a se esconder. Hermes estava com um terno azul marinho e com uma maleta preta. Nunca o vi vestido daquele jeito.

— O que foi?

— Nunca te vi vestido assim. Parece um executivo.

— E eu nunca a vi vestida assim. – Ele balançou o dedo para o meu look.

Eu estava com um vestido longo desta vez e era cinza. Estava com uma sandália rasteira dourada e tinha um colar dourado com o meu símbolo. A presilha estava dourada. Dei de ombros.

— Essa é a primeira vez que visitamos a Terra juntos, pode ser esse o motivo. – Fui até ele e segurei em seu braço e fui guiando-o até a porta do terraço.

— O que faremos aqui?

— Preciso avisar uma coisa ao dono desta casa.

Hermes ficou pensativo um pouco até parar em frente à porta e olhar para mim.

— Jared Colin, 32 anos, psicólogo e autor de três livros famosos. Também tem um filho chamado Will Colin, 15 anos... Um semideus. – Ele estava surpreso.

— Incrível. Como conseguiu todas essas informações em apenas dois segundos?

— Não importa. Agora sei do seu segredo.

— E espero que o guarde. – Ameacei.

— Claro.

Abri a porta e encontrei uma escada. Eu sabia exatamente onde estava Jared, então desci as escadas com Hermes ao meu lado e fomos para o escritório. Quando abri a porta do escritório, Jared estava de costas olhando pela janela.

— Jared?

Ele tomou um susto e virou para me encarar.

— Que susto me deu, Alexis. O que faz aqui? – Ele olhou para Hermes – Quer dizer, o que fazem aqui?

— Tenho algo para conversar com você, mas primeiro quero que conheça Hermes.

Hermes sorriu e acenou com a cabeça.

— Muito prazer, hum, senhor Hermes. Sentem-se.

Sentamo-nos e fui direto ao assunto.

— Você sabe que eu faria tudo para proteger o nosso filho e espero que faça o que te peço.

Percebi que ele estava atento, então continuei.

— Depois da minha última visita acabei chamando atenção demais e os meus inimigos estão te vigiando.

— Percebi que tinha algo errado, sempre sentia um arrepio quando saía de casa.

— Peço que tenha cuidado. Consegui aniquilar o que estavam aqui perto para não descobrirem que vim novamente a sua procura, mas em breve irão aparecer mais.

— Tudo bem.

— Mais uma coisa. Quero que Will fique no acampamento e não volte para casa.

— Por quê?

— Porque chamará atenção demais. Eles irão sentir a energia dele de semideus e assim descobrirão que ele é o meu filho.

Jared ficou pensativo. Eu conhecia aquela expressão, ele não queria aceitar, mais tinha que concordar.

— Se é para o bem dele, concordarei. Irei avisá-lo para não voltar para casa.

— Não precisa, eu mesma farei.

Ele me olhou surpreso.

— Irá até o acampamento?

— Sim. Estou devendo uma visita.

— Mas não irão descobrir?

— Não. Desta vez estou mais cautelosa.

Ele sorriu.

***

Estávamos a caminho do acampamento dentro da coisa voadora de Hermes. Ele não me disse o nome, disse que era segredo. Patético. Quando saímos da casa de Jared, como sempre ele ficava triste com a minha partida. Eu continuo admirando Jared. Ele sempre será o único parceiro mortal para mim. Chegamos ao acampamento e Hermes parou a coisa voadora no meio da plantação de morangos. Ainda bem que eu não estava de salto alto. Andamos e fomos em direção a Casa Grande. Quero conversar com Quíron e Dionísio primeiro, por último com Will. Durante o trajeto até lá, alguns sátiros e ninfas ficaram olhando curiosos e faziam reverências. Quando chegamos, Dionísio e Quíron estavam na varanda jogando alguma coisa para diversão. Quíron sentiu nossa presença e levantou a cabeça.

— Sejam bem vindos, senhor Hermes e senhora Alexis. Que bom que está de volta, senhora.

— Não fique de bajulações, Quíron, volte sua atenção ao jogo. – Disse Dionísio.

— Obrigada pela recepção e preocupação, Quíron. Devo adiantar que quero conversar com os dois em um local mais apropriado. Sinto muito interromper o jogo.

Dionísio levantou de sua cadeira, mal humorado.

— Claro que sente. Vamos terminar logo com isso. – E entrou na Casa Grande.

— Desculpem o sr D, mas ele se estressa rápido.

— Como sempre. – disse Hermes.

— Acompanhe-me.

Quíron nos guiou até uma sala grande de escritório que presumo que seja a principal na Casa Grande. Como sempre, ele estava naquela cadeira de rodas. Dionísio estava sentado na cadeira principal, em frente a uma mesa.

— Do que se trata essa conversa? – Perguntou Quíron.

Respirei fundo e olhei nos olhos de Quíron, afinal Dionísio estava fingindo que não ligava para o que eu tinha que dizer.

— Muitas coisas ruins estão por vir e preciso de proteção para um semideus. O meu filho. Ele é veterano em seu acampamento.

Quíron levantou uma sobrancelha.

— Seu filho? E quem é?

— Will Colin.

Pelo rosto de Quíron, ele estava surpreso.

— Como não reparei nisso antes! Ele tem seu temperamento. Como fui cego! Mas, por que não o reconhece?

— Não posso. Muita coisa está em jogo. Adianto que o garoto sabe que sou sua mãe há poucos dias. Só peço que ele fique aqui até tudo ficar bem, não quero correr o risco de perdê-lo.

Dionísio soltou uma risada irônica.

— Sabe que se interferir Zeus não gostará nada disso, não é?

Lancei o meu pior olhar para ele.

— Sei exatamente o que estou fazendo e creio que Zeus já saiba dos meus planos. Não ligo para o que ele fará comigo. Daria tudo para receber o castigo que recebeu, Dionísio.

— Te passo de bom grado se quiser.

Um raio apareceu no céu com um barulho muito forte.

— Isso confirma que ele está nos vigiando. – disse Hermes

— Não ligo. – Falei olhando para o céu.

Quíron tossiu.

— Bom, o garoto pode ficar quanto tempo ele precisar, mas ele tem que estar ciente disto.

— Não se preocupe, eu irei conta-lo.

Levantei e saí daquela sala. Parei em um corredor e fiquei analisando o acampamento inteiro. Onde estava Will?

“Não faça isso”, disse uma voz rude em meus pensamentos.

“Dessa vez irei desobedecer as suas ordens, senhor”, rebati com ironia e raiva para Zeus.

“Terá consequências terríveis por querer mudar o que deve acontecer”, a voz estava um pouco controlada, mas insolente.

“Faço qualquer coisa para proteger o meu filho”, cortei a via dos pensamentos dele com os meus. Continuei procurando Will, até que o achei em um lugar curioso. Sorri e fechei os olhos. Quando os abri, vi Will parado de costas para mim.

— Lugar interessante de se estar.

Ele se virou de supetão e ficou surpreso em me ver. A mesma expressão do pai.