Voltar a Paris depois de tanto tempo longe, foi estranho para Sofia, já não se sentia em casa como antes, faltava algo, aquela sensação de aconchego de quando estamos em casa. O ar fresco do fim da primavera deixava a noite agradável, a chuva cessara, o céu estava limpo, mas Sofia não prestava atenção em nada disso, seu coração batia em um ritmo intenso, suas mãos estavam frias, quando parou em frente de um prédio moderno na parte nova da cidade, ajeitou melhor e com cuidado a echarpe, que ganhou de presente de Lia e Jean no seu primeiro e último natal juntos, apertou o número do apartamento no interfone, anunciando a sua chegada. Do elevador até a entrada do apartamento, repassou o que iria dizer, mas quando porta se abriu e Lia apareceu, linda como sempre, um sorriso iluminando seu semblante, em seguida, sua expressão foi de surpresa, Sofia a encarou sem saber o que esperar ou que falar naquele momento, era um misto de medo e felicidade por revê-la, mas, no fundo dos olhos dela havia algo que não existia antes.

— Sofia! – Lia exclamou, alegre e espontânea, com os olhos brilhando.

— Lia – Sofia murmurou, e como era do jeito de Lia, ela deu um passo à frente e envolveu Sofia em um abraço apertado, que retribuiu com vontade, inalar o seu perfume era como estar de volta em casa.

— Senti tanto a sua falta. Nós sentimos – Lia sussurrou no seu ouvido, com sinceridade cheia de emoção. – Vamos! Entre, Jean já vem, ele está acabando um trabalho, mas, também está ansioso para revê-la – disse, afastando-se para dar passagem para o apartamento pequeno e simples, cujas paredes estavam algumas obras do morador. — Sente-se. Bebe alguma coisa? Vinho?

— Vinho está ótimo – Sofia respondeu, autônoma, sentando-se, no pequeno sofá, Lia saiu e retornou com uma garrafa e algumas taças, servia a ela e a si mesma.

— Você está loura, agora – Lia comentou, com uma grata surpresa.

— É minha cor natural – Sofia revelou, passando a mão nos cabelos.

— Ficou ótimo! – Lia disse, com franqueza, pois o rosto de Sofia estava mais suave, a expressão mais branda. — Você está linda, mas não e só o cabelo, tem algo diferente.

— Diferente? Talvez. Aconteceu muitas coisas nesses últimos tempos.

— Sim, aconteceram... – o tom de Lia era um tanto sombrio.

— Como estão as coisas entre você e Jean? – Sofia indagou, com cuidado, explorando o terreno.

— Estão indo, mas não é a mesma coisa desde que você se foi embora, sabe como nós somos temperamentais e impetuosos, puro fogo – Lia foi um tanto objetiva, dando de ombros, nesse momento, Jean apareceu, sua feição era mais séria, mas com os mesmos cabelos rebeldes, caindo sobre a testa, seu rosto se iluminou em sorriso, Sofia sentiu seu coração apertar.

— Sofia! – Ele a envolveu em um forte abraço apertado, o calor do corpo dele aqueceu seu coração — Que bom rever você! – Ele parecia, realmente, emocionado.

— É bom ver você também, Jean – Disse com franqueza, correspondendo o abraço com a mesma intensidade – Tenho acompanhado seu sucesso, é formidável, todas aquelas exposições e aquelas críticas maravilhosas.

— Paga o aluguel – Jean falou, dando aquele sorriso torto, que ela sentia tanta falta.

— E você, Lia? – Sofia continuou a conversa, de forma casual.

— Estou trabalhando em um restaurante, tem sido muito proveitoso, aprendi muito nesses últimos tempos. E sua galeria, Sofia? Soubemos da inauguração – Lia revelou, querendo parecer educada

— Está indo bem. Só está no começo, mas venho expondo artistas muito promissores — Depois, seguiu-se um breve momento de silêncio, havia um certo tom de formalidade no ar, nesse instante, Sofia achou que estava tudo perdido, nunca mais seriam como antes.

— E você conseguiu o seu amor normal? – Lia alfinetou, de um jeito malicioso. Aquela pergunta pegou Sofia de surpresa, que a encarou, perplexa.

— Sim – respondeu, com meia verdade.

— Que bom! – Lia rebateu, com certo desdém.

— Ficamos contentes por você – Jean afirmou, sério, sem demonstrar emoção.

— Mas, não deu certo – Sofia abriu o jogo e os dois a encararam.

— Por que? – Lia provocou, a espreitando com os olhos em fenda, Sofia abaixou seus olhos para suas mãos.

— Porque eu estava mentindo para mim mesma, vivendo a vida que eu achava que seria certa, mas não a que eu, realmente, queria viver – Sofia ergueu os olhos, fitou Jean e Lia – Eu descobri que não quero ser normal, que quero ser feliz – confessou e se calou, sem coragem para prosseguir.

— O que você quer dizer com isso, Sofia? — Lia encarou, perplexa.

— O que eu quero dizer, é que você entendeu, Lia – Sofia concluiu.

— Então, é isso, você bate na nossa porta e dizendo que quer continuar como era antes, quando nos abandonou? – Lia questionou, desafiadora, Jean apenas ouvia aquele dialogo, esperando o desfecho.

— Eu compreenderia se vocês não quiserem que eu volte, afinal, já se passou muito tempo, tudo mudou para nós, crescemos, não somos mais aqueles jovens irresponsáveis de antes – conclui, Lia prendeu o folego, depois soltou um longo suspiro, comovida, se atirou para frente e abraçou Sofia com força.

— Eu sabia, que a qualquer momento, você voltaria para nós – Lia revelou, com um sorriso malicioso e atirando em direção a Sofia, as duas desabaram abraçadas no sofá. Por um segundo, Jean parecia não compreender o que aquilo significava, então sorriu,

— Você vai voltar para nós, Sofia? – Jean quis saber, pasmo com a notícia, Sofia assentiu com a cabeça, ainda abraçada a Lia, então ele se aproximou das duas e as envolveu com um abraço.

— Eu estava com tanto medo de vocês não me quisesse mais de volta – Sofia admitiu, entre risos e lágrimas – Já se passou tanto tempo, nós mudamos. Pode ser uma loucura, pode até não dar certo, mas nunca me esqueci de vocês. Eu amo vocês e estava morrendo de saudades! Nunca seria feliz se não tentasse!

— Sofia, quando você vai acreditar que nós amamos você, como sentimos a sua falta – Jean declarou, passando a mão no rosto dela para secar suas lágrimas.

— Ainda acho que tudo isso é uma loucura!

— Então sejamos loucos, não precisamos ser como todo mundo, mas precisamos de você. Você nos completa, nos equilibra, éramos felizes juntos e poderemos ser, novamente.

— Ou não.

— Pare de se preocupar com o futuro e sofrer pela incerteza, tenha um pouco de coragem e enfrente seus medos. Mas, o que eu quero dizer a você agora é que seja bem-vinda de volta ao lar, Sofia.

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