Assim que ela se mudou o apartamento parecia um mostruário de loja de decoração, todo certinho com tudo nos devidos lugares, bem a cara do seu irmão Marcelo, mas agora ela tinha dado seu toque pessoal, com pequenos detalhes, peças diferentes e originais, garimpadas em brechós e no mercado de pulgas, colocou mantas e almofadas coloridas sobre o clássico sofá bege, pendurou na parede alguns quadro dela e de alguns amigos, mas não fez nada que não pudesse retornar ao original, já que não lhe pertencia, mas deu ao lugar mais a cara dela. Ela já morava ali, há algum tempo, gostava, principalmente, da vista para o rio e para a parte posterior da catedral de Notre-Dame. No verão e na primavera, ela pintava e desenhava na pequena sacada de ferro batido, mas no outono e inverno se transferia para uma pequena área da sala, que servia de jardim de inverno.

Todas as manhãs durante a semana, Sofia cursava as aulas de história da arte. Na hora do almoço e, às vezes, também, no jantar, ela frequentava um pequeno bistrô do outro lado do rio, foi lá que ela conheceu Lia, uma conterrânea, que trabalhava lá como garçonete. Tinham a mesma idade, mas personalidades totalmente opostas, mesmo assim, elas se tornaram boas amigas. Lia era alegre, dona de fácil e belo sorriso, boca carnuda, olhos brilhantes, gingava entre as mesas do restaurante, com graça e desenvoltura, balançando a longa cabeleira castanha escura e ondulada, presa em um rabo de cavalo. Ao descobriu que as duas eram da mesma cidade, Lia ficou entusiasmada e feliz, pois assim podia matar um pouquinho a saudade de casa, criando-se uma forte ligação entre elas, que costuma acontecer quando se é estrangeiro em outras terras. Sofia ficou interessada na história de sua nova amiga e de como ela foi parar ali, Lia explicou que juntou toda a sua coragem e o dinheiro que conseguiu guardar para estudar gastronomia, ganhou uma bolsa, então fazia o curso pela manhã e trabalhava a tarde para se sustentar. Sempre tinha um tempinho para conversar com Sofia, mesmo que rapidamente quando o restaurante estava cheio, e lhe indicava qual era o melhor prato do dia.

Mas, naquela tarde, Sofia notou algo diferente em Lia, ela não sorria tanto como era do seu costume.

— O que houve, Lia? Que cara é essa? –Sofia quis saber, após observar a amiga por algum tempo.

— Meu aluguel vai aumentar, não tenho como pagar. Vou ter que sair do meu apartamento e procurar outro bem rápido ou achar alguém que rache comigo – Lia revelou, desanimada.

— Mas aumentou tanto assim? – Sofia ficou, perplexa, pois problemas com dinheiro nunca fizera parte da sua vida, desconhecendo esse tipo de angústia.

— Não muito, mas eu já ando no limite do meu dinheiro. No verão, eu ganho mais, com a cidade cheia de turistas, mas quando vai chegando no inverno o dinheiro diminui, não posso arriscar – Lia explicou, resignada, Sofia a encarou por algum tempo, refletindo.

— Você pode ficar na minha casa, pelo menos, até você encontrar outro lugar para morar.

— Não acredito! Você está me convidando para morar com você? Meu Deus, isso salvaria a minha vida! — Lia exclamou, empolgada.

— Não exagere, Lia! Tenho um quarto extra, bem pequeno, está meio bagunçado, pois uso como depósito, mas a gente pode dar um jeito. Você quer ver o lugar?

— É claro que eu quero! Meu turno termina em 30 minutos, tinha trocado com uma colega para procurar apartamento, se você me esperar um pouco podemos ir juntas.

— É claro que eu espero por você – Sofia respondeu e ficou sentada ali, com uma xícara de café a sua frente, observando Lia se movimentar, servindo as mesas, recebendo os pedidos e os pagamentos, com toda sua alegria e vivacidade. Logo, em seguida ela sumiu, para reaparecer em um piscar de olhos, sem o uniforme, usando calça jeans e camiseta, muito entusiasmada.

— Vamos! – Ela a convidou, com um lindo sorriso iluminando o seu rosto. – Não posso acreditar, que você faria isso por mim.

— Porque eu não ajudaria uma amiga em dificuldade? Além do mais, vai ser bom ter um pouco de companhia.

Assim, as duas andaram juntas, atravessaram o rio, Lia ficou surpresa com a vizinhança e encantada com o apartamento, onde da pequena varanda da sala já se podia ver as luzes da cidade se acendendo.

— É lindo, Sofia! Como você tem um lugar desse? – Lia perguntou, surpreendida, pois Sofia nunca demonstrava ter todo aquele dinheiro, sempre usava roupas de grandes lojas ou de brechós e mochila e tênis de marcas populares.

— É do meu irmão, ele me emprestou – respondeu, dando de ombros. — Vem! Vamos conhecer o seu quarto. Eu falei que é pequeno e está cheio de tralhas, mas podemos limpar.

O quarto era pequeno, porém havia uma cama e um armário e várias estantes entulhadas de coisas.

— Podemos arrumar – Sofia disse, enquanto reviravam os objetos guardados ali. — Muitas dessas coisas podem ser doadas ou arrumaremos outro lugar para elas. Dá para você viver aí, por algum tempo?

— Claro que dá, está ótimo! Se você conhecesse o lugar em que vivo atualmente, nunca me perguntaria isso. Posso começar a arrumar agora mesmo, se você não se importar – Lia estava entusiasmada com a possibilidade de viver em um lugar como aquele. – Não tenho muitas coisas, só minhas roupas e objetos pessoais, os móveis pertencem ao apartamento em que eu moro agora.

— Mas, você não está cansada? Não tem que trabalhar amanhã? – Sofia sabia que haveria muito trabalho pela frente.

— Não, amanhã estou de folga. Também, posso começar amanhã, se você quiser – Lia considerou, achando que estava abusando da boa vontade de Sofia.

— Eu não tenho nada para fazer amanhã. Podemos começar a arrumar hoje mesmo – Sofia se deixou contagiar pelo entusiasmo de Lia, já estava gostando da ideia de dividir sua casa como alguém como ela.

Assim, as duas colocaram mãos-a-obra, separaram um monte de roupa e malas, quadros e outros objetos guardados ali, a maior parte dos objetos em perfeito estado.

— Estou abusando, fazendo você trabalhar até tarde, eu já vou embora, Sofia – Lia observou depois de um longo tempo de trabalho.

— Não, fique durma aqui hoje, amanhã a gente recomeça cedo, outra vez. Você pode dormir no sofá, eu empresto uma roupa, pode tomar um banho – Sofia ofereceu, porém Lia ficou em dúvida, mas aceitou o convite para dormir, já que morava longe e era bem tarde, além de estar muito cansada.