— Vá atender seus convidados, que eu vou para a cozinha – ordenou Lia, empolgada, correndo para a cozinha, a fim de terminar o jantar.

Os primeiros a chegarem foram Marc e Pierre, trazendo flores, vinho e uma linda echarpe de presente e surpreenderam-se ao ver Sofia tão bem arrumada de um modo bem diferente do que estavam acostumados.

— Nossa, Sofia! Você está magnífica! — Pierre declarou, impressionado com a mudança dela – Estou reconhecendo este vestidinho! É da última coleção, deve ter custado uma fortuna!

— Presente de mamãe – Sofia esclareceu, com um sorriso irônico – Vocês, também, estão ótimos. Principalmente você, Marc, mais estiloso, mudou o visual, o que está acontecendo aqui? Estou vendo um dedinho de Pierre nisso — disse observando-o de calça e camisa pretas e casaco vermelho, óculos de armação de uma grife famosa e novo corte de cabelo, ao invés do estilo nerd de antes..

— É, eu tive que mudar, porque Pierre falou que não andaria mais do meu lado, se eu continuasse me vestindo daquela maneira tão retrô, que está fora de moda, afinal esse é o mundo dele. E eu não posso mais viver sem o meu queridinho, nem fazê-lo passar vergonha com um namorado tão sem graça – Marc esclareceu.

— Afinal, eu tenho uma reputação a preservar no mundo da moda, preciso cuidar bem do meu namorado – Pierre confirmou, com um sorriso maroto, os dois se olharam com carinho e trocaram um rápido beijo.

— Vamos, entrem e me dê os seus casacos, sente-se! Querem beber algo? — Sofia os convidou, educada, como uma boa anfitriã, estava animada com sua festa.

Enquanto, ela guardava os casacos dos recém-chegados, a campainha tocou, novamente, sucessivamente chegaram Diego e a namorada Marisol, uma bela mulher de olhar quente e boca vermelha, Ludô e Mia chegaram juntos não escondendo o seu relacionamento e Charlote, sozinha, ela própria dizia que se bastava. Lia entrou na sala com uma bandeja de aperitivos nas mãos, e o grupo já conversava animado e Sofia a apresentou a eles.

— Depois de uma certa idade, somos a melhor companhia para nós mesmos – Charlote repetiu sua fala conhecida.

— Deve ser bom ficar feliz consigo mesma? – Sofia considerou.

— Sim, mas isso se aprende com o tempo.

— Já chegaram todos? Podemos servir o jantar? – Lia perguntou, ansiosa.

— Jean não vem? – Charlotte quis saber, intrigada pela ausência da companhia constante de Sofia.

Neste instante, a campainha tocou, Lia que estava mais próxima da porta, foi atender, era Jean.

— Você deve ser Jean? – Lia disse, sem esconder uma pontinha de irritação pelo atraso dele. – Sou Lia, amiga de Sofia. Só estávamos esperando por você para servir o jantar – ela o acusou.

— Muito prazer, Lia. Desculpe o atraso, mas eu estava no trabalho – disse, nada intimidado por ela, dando o seu charmoso sorriso torto e entregando-lhe o casaco, sem cerimonias, e entrando, foi recebido com entusiasmo pelos presentes.

No apartamento, havia uma bela mesa para 8 pessoas, com pés de ferro trabalhado e o tampo de mármore de Carrara, Lia tinha completado os lugares com duas cadeiras da decoração.

— Que mesa bonita! – Charlotte comentou, fascinada com a decoração. – Aliás, todo seu apartamento é muito bonito, Sofia.

— Esse apartamento não é meu, é do meu irmão, ele comprou de um diplomata grego, que estava voltando para casa. Essa mesa era dele, mas por ser muito pesada para sair daqui, que acabou ficando.

— Vamos servir o jantar agora. – Lia anunciou, formalmente – Por favor, sente que eu pegarei os pratos.

— Eu ajudo você! – Sofia levantou-se, rapidamente, querendo ajudar.

— Nada disso! É o seu aniversário, você fica! – Lia a impediu.

— Mandona! – Jean segredou ao ouvido de Sofia com um sorriso travesso e levantou-se – Eu ajudo!

— Eu, também, posso ajudar – Charlotte se ofereceu.

Os três foram para cozinha e trouxeram os pratos das entradas já prontos e distribuíram entre os convidados. E o restante do jantar seguiu desta maneira, Jean recolhia os pratos vazios e sujos e Charlotte e Lia preparavam e serviam os próximos, tudo regado com muito vinho, conversas divertidas e sucessão de elogios pela boa comida, deixando a cozinheira orgulhosa do seu belo trabalho. Antes da sobremesa, uma linda torta de chocolate, a preferida de Sofia, cantaram parabéns para você em várias línguas, enchendo suas taças com champanhe.

Foi nesse momento que Lia se levantou e bateu com o garfo em sua taça, a fazendo tilintar, para atrair a atenção de todos.

— Eu gostaria de fazer um brinde para minha amiga, uma pessoa adorável e generosa e muito especial – disse em voz alta, quando os olhares recaíram sobre ela – Sofia, eu amo você. À Sofia! – Completou erguendo sua taça.

— À Sofia! – Os outros a acompanharam, em uníssono.

A aniversariante sentiu seu rosto queimar, ficando rubra, respondeu a homenagem com um sorriso tímido.

Depois do jantar, todos meios bêbados, riam muito até das brincadeiras mais bobas, como Marc imitando madame Lalique falando de Ludô, com o próprio interpretando o seu papel. Marisol, a namorada de Diego, também espanhola, deu um pequeno show de dança flamenca acompanhada ao som de palmas. Várias línguas se misturavam, até que felizes e satisfeitos, os convidados foram embora.

O último foi Jean, que ajudava a Lia a retirar as últimas louças e levar para a cozinha, que estava entulhada de pratos, panelas e copos sujos.

— Foi perfeito, Lia! Obrigada – Sofia um tanto alegre com a bebida deu um grande abraço na amiga.

— Você merece. Agora, vem a parte mais chata, lavar tudo isso — Lia olhou para a bagunça, desanimada e suspirou. — Mãos-a-obra! – Incentivou-se, para ter coragem para começar a arrumar tudo aqui, pois estava muito cansada, mas não queria deixar para o dia seguinte.

— Eu ajudo você – Sofia insistiu.

— Nada disso! Ainda é seu aniversário.

— Você vai limpar tudo isso sozinha? – Jean indagou, surpreso.

— Mas eu quero ajudar – Sofia não se deu por vencida.

— Nada disso! Foi a sua festa. É o meu presente de aniversário, eu limpo – Mas Lia a impediu, de novo.

— Mas...- Sofia tentou reagir, sem sucesso.

— Pode deixar, que eu a ajudo –Jean se adiantou, já dobrando as mangas da camisa e pegando o avental, que estava pendurado em um gancho na parede.

Lia estava pronta para discordar, quando viu toda aquela pilha de louças sujas, não falou mais nada.

Sofia se limitou a arrumar a sala, dobrar a toalha que deveria ser mandada para a lavanderia, enquanto ouvia o barulho da torneira, dos pratos, a máquina de lavar louça começando a funcionar, pegou uma garrafa de vinho quase vazia e encheu sua taça e foi para porta da cozinha, observar os dois trabalharem. Eles pareciam estar se divertindo, conversando, brincando, jogando água e implicando um no outro, como se fosse velhos amigos e, naquele momento, Sofia sentiu um pouco deslocada, algo estranho que não identificou como uma pontinha de ciúmes, mas não disse nada, saiu em silêncio, sem eles terem percebido a sua presença, foi para a sala e colocou uma música romântica de Zaz.

— Já é tarde, estou indo — Jean anunciou, quando saiu da cozinha, tirando o avental e desdobrando as mangas da camisa.

— Mas, está muito tarde, o metrô já não está funcionando, por que você dorme aqui? – Sofia ponderou, preocupada com ele — O sofá ainda está vago — finalizou, brincando.

Ele pensou como seria difícil, chegar na sua casa, bem distante dali, àquela hora, além de estar cansado e com sono, aceitou o convite. Sofia pegou travesseiros, lençóis e cobertores para ele, pois as noites já começavam a ficar mais frias, naquele final de outono, e o aquecedor do apartamento não estava funcionando bem.

— Que música triste é essa, Sofia? — Lia indagou, incomodada — Ela é bonita, mas muito deprimente — concluiu, trocando para uma música mais alegre e animada — Bem melhor! Afinal, foi seu aniversário, ainda estamos comemorando — disse, começando a dançar de um jeito, naturalmente, sensual, segurou a mão de Sofia e a puxou para dançarem juntas.

— Venha, Jean, dance conosco — Sofia o convidou.

— Não, eu estou bem aqui, minha visão é privilegiada e estou gostando do que vejo — Jean disse, com seu sorriso torto, acomodando-se melhor no sofá, para admirá-las dançando.