A decisão de Sofia.
17 Uma nova vida
Depois de um mês fora, Sofia regressou para o apartamento em Paris. Abrir a porta e entrar em sua casa, foi um ato difícil, pois sabia que não Lia nem Jean não estariam mais lá, só as lembranças dos momentos felizes que passaram juntos, naquele lugar. Tudo que pertenciam a eles havia desaparecido, como se eles nunca tivessem vivido ali.
Durante o tempo que esteve fora, Sofia tomou a decisão que seu tempo em Paris havia terminado, era hora de voltar para casa, talvez, abrisse uma pequena galeria de artes, que sempre sonhara, e, pela primeira vez, seus pais a apoiaram sua iniciativa.
Era um dia quente, no começo do verão, a cidade estava lotada de turistas, Sofia caminhou rápido pela calçada, desviando dos grupos de jovens, excursões e senhoras encantadas, tirando fotografias daqueles lugares que viram inúmeras vezes em revistas e folhetos de viagem, entrou na galeria onde aconteceu a exposição das obras de Jean, monsieur Armand, o dono dela, veio recebê-la.
— Mademoiselle MontReggio, bom dia! Que bom revê-la! Veio pegar os desenhos que comprou, poderíamos tê-los entregue em sua casa – ele a cumprimentou, solicito, querendo agradar uma boa cliente.
— Bom dia, monsieur Armand. Eu preferi pegá-los, pessoalmente, pois estou de partida – Sofia respondeu, devolvendo –lhe o sorriso simpático.
— Vai deixar Paris? – Ele fez um ar de desapontamento.
— Sim, estou voltando para casa.
— É uma pena. Por aqui, por favor – ele a conduziu para o interior da galeria até o escritório – Fez um bom negócio, mademoiselle, foi muito inteligente, em ter comprado estas obras naquele dia, pois todos os desenhos de monsieur Jean Baptiste foram vendidos, ele é um artista muito promissor. Com certeza, foi um bom investimento. Confira-os, por favor.
— Sim, eu sei – Sofia disse, sem emoção na voz, pois aqueles desenhos valiam para ela, muito mais que um simples investimento, eram um registro de um momento importante da sua vida, no qual por algum tempo foi muito feliz.
— Aqui estão — Monsieur Armand apontou uma pasta preta em cima da sua mesa, Sofia a abriu, e dentro estavam os belos desenhos que Jean fizera de Lia e das delas duas.
— Sim. São estes mesmos. Obrigada, monsieur Armand – Ela disse depois de os conferir e fechou a pasta.
Alguns dias depois, Sofia retornou para sua terra natal, pretendendo começar uma nova vida, pôr em prática os planos de abrir a sua tão sonhada galeria de artes, mas algo diferente, nada daquelas prepotentes, tradicionais e sisudas.
Seu pai lhe ofereceu uma loja em um dos seus sofisticados hotéis, porém ela não estava interessada, não era este tipo de lugar que ela queria, pensava em expor arte mais alternativa e artistas iniciantes, que não tinham muita chance no meio mais convencional para isso comprou uma casa antiga, em um bairro, tradicionalmente, conhecido pela sua vida cultural e culinária.
A casa estava em péssimo estado de conservação, mas tinha uma bela arquitetura, com detalhes típicos do começo do século 20, Sofia sabia que teria muito trabalho e gastaria um bom dinheiro para ficar do jeito que ela queria, no entanto, finalmente, quando ficou pronta, tinha certeza que valeu a pena, pois o local estava lindo. Sua frente foi totalmente preservada e restaurada, no seu interior, paredes foram derrubadas, para deixar surgir grandes espaços de exposições, e o 2º andar da casa, ela transformou em um loft, onde moraria.
Também, reassumiu a cor natural dos seus cabelos, voltou a ser loura, como parte de sua mudança de vida, mas ainda os mantinham os bem curtos, além de não abriu mão de todos os seus brincos e piercings, mas suas roupas ficaram um pouco mais leve e descontraídas.
Seus pais estavam felizes com o retorno da filha, aceitando melhor as escolhas de vida dela, pois não queria afastá-la novamente. Por outro lado, Sofia queria se aproximar dos pais, por este motivo, aceitou a ajuda deles, seu pai usou seus contatos, e conseguiu obras de alguns artistas conceituados para serem expostas na galeria dela, e sua mãe organizou um belo coquetel de inauguração, ninguém podia negar que Katherine fazia festas incríveis, com muita gente famosa e socialites, reportagens em revistas e blogs da moda, apesar de achar exagerado Sofia aceitou sem ressalvas.
E depois de toda badalação, a galeria de Sofia ficou bastante famosa e conhecida por ser alternativa, mas naquela manhã, logo após que abriu, ainda estava tudo muito calmo, seu assistente ainda não havia chegado e ela estava sozinha, tomando um café, e trabalhando no seu computador, quando viu uma mulher de descendência oriental, com cabelos negros, longos e lisos, entrar e caminhar pelo lugar, lentamente, admirando as obras expostas, parou diante dos desenhos, que Jean fizera em Paris. Sofia teve um impulso e foi em sua direção, parando ao seu lado.
— Posso ajudá-la? – Sofia perguntou a mulher, prestativa.
— Sim. Esses desenhos são muitos bonitos! Quanto custam? – ela indagou, sem tirar os olhos do desenho.
— Eles não estão à venda. Eles me pertencem e só estão em exposição. Achei que ficariam melhor aqui do que escondidos no meu apartamento – Sofia respondeu, encarando os desenhos.
— Ah! Você tem razão, eles são muito bonitos e devem estar à vista de todos. Ela também é muito bonita – a mulher disse, referindo se a imagem de Lia.
— Sim, realmente, ela é muito bonita – Sofia concordou, sorrindo para a imagem que surgiu da sua memória.
— E você, também – A mulher disse de um modo casual.
— Como? – Sofia ficou surpresa, com a audácia dela.
— Não é você nesses desenhos? – Ela perguntou, certa.
— Sim, sou eu – Sofia reconheceu, sem jeito.
— Eu a reconheci logo que a vi. Aliás, tenho visto você sempre, desde que se mudou para aqui. Tem certeza que os desenhos não estão à venda? – A mulher insistiu.
— Tenho, eles me pertencem, e não pretendo me desfazer deles, só estão em exposição — Sofia reiterou mais uma vez, para a mulher que a olhava interessada.
— Boas lembranças? – perguntou, impertinente, com um sorriso maroto — Quem os fez?
— Sim, foi um bom tempo. Quem os desenhou foi um artista...um amigo quando eu morava em Paris, também conheço a modelo.
— Paris? Também morei lá por um tempo, estudei gastronomia – disse a mulher, virando para Sofia, empolgada com a coincidência, e prosseguiu – Desculpe-me, estou sendo grosseira, eu não me apresentei. Meu nome é Ângela, sou sua vizinha, dona do restaurante aqui ao lado – e estendeu a mão para Sofia.
— Muito prazer em conhecê-la, Ângela. Meu nome é Sofia – disse, apertando-lhe a mão — Eu sinto o aroma que vem do seu restaurante todos os dias, sempre prometo ir até lá, mas nunca fui – confessou — Aceita um café?
— Muito prazer em conhecê-la, Sofia, mas não posso, porque, infelizmente, preciso ir agora, tenho que começar a preparação para o almoço. Talvez, hoje seja um bom dia para cumprir sua promessa e ir ao meu restaurante, mais tarde, para no conhecermos melhor. Você é minha convidada – Ângela disse, com um sorriso que insinuava a Sofia, algo a mais, que só educação.
— Obrigada, Ângela, eu irei. Até mais tarde – Sofia concordou, queria, realmente, uma nova vida e aquele convite poderia ser uma possibilidade.
— Até mais tarde, Sofia – A voz de Ângela, dizendo o seu nome, saiu doce e a aveludada. As duas trocaram olhares.
— Vá mesmo! Eu estarei lá esperando por você! – Ângela insistiu, virando-se para Sofia, antes de sair.
— Com certeza, eu irei, Ângela – respondeu Sofia, sorrindo, feliz.
Outra vez sozinha, Sofia se voltou para o retrato de Lia a admirando, pensando que havia se passado mais de um ano que tudo terminou entre eles.
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