A day in diagon alley
1 Capítulo 1 - Um sorvete de menta.
Notas iniciais
Bem, aqui estamos de novo.
Eu não gostei muito do final dessa, mas gostei do começo e do que eu quis passar, então escolhi postar essa porque foi uma das que a gente conversou. Espero que você goste moça (e qualquer outra pessoa que esteja lendo) e que sinta o mesmo que eu senti escrevendo.
Alice Longbottom se revirou na cama, olhando, agora, para a janela e de um modo tão vidrado e concentrado que quem a visse daquele jeito iria achar que algo acontecia ali, mas a verdade é que a mulher nem ao menos enxergava o que estava a sua frente e, caso enxergasse, não conseguiria compreender o que via. Lá fora, o sol parecia brilhar alto, um pouco de luz entrava por sua pequena janela. A mulher estendeu a mão, tentando sentir o calor que um dia havido uma das suas coisas favoritas no mundo. Do lado do quarto dela, Frank Longbottom, seu marido, encontrava-se olhando para cima, com o olhar tão parado quanto o da esposa, suas mãos estavam em cima do corpo, quase que como a de um morto, seus lábios antes castanhos agora não possuíam cor e ele parecia não ver o mundo ao seu redor. O casal Longbottom nem ao menos se recordavam que eram um casal. Já haviam se passado onze anos desde que os dois haviam se quer trocado uma palavra ou ao menos se tocado. Os dois eram grandes aurores, mas não tinham como saber disso. Eles também tinham um filho, um pequeno garoto de cabelos negros e bochechas enormes, e esse menino havia aprendido desde cedo o quando o mundo poderia ser cruel, entretanto, talvez aquele não fosse um dia tão ruim para o pequeno Longbottom.
Muito longe dali, um menino de onze anos segurava uma gaiola com uma expressão inconformada no rosto, enquanto apressava o passo para poder acompanhar a sua avó que estava animada para pode ir ver o novo modelo de vassoura. Caindo vez ou outra, o menino olhava para os lados, ficando cada vez mais triste ao perceber que os garotos da sua idade tinham coisas legais como um gato ou uma coruja. Poderia jurar que havia visto um garoto com um animal um tanto esquisito, mas assumiu que era só uma coruja muito feia.
- Neville, fique quieto e se apresse! Venha, me de aqui a sua mão.
- Mas vovó, eu não quero um sapo! – a senhora apenas resmungou, segurando com mais cuidado e força a mão do neto. Não se fazia tanto tempo desde que eles haviam chegado ao Beco Diagonal para comprar os materiais do garoto que finalmente estaria indo para Hogwarts. Por muito tempo todos acreditavam que ele seria um aborto, desprovido de todo o dom de seus pais e um simples trouxa, mas ao fazer oito anos seu sangue mágico se manifestou. Seu tio-avô Algi, aquele que sempre parecia o forçar para fazer alguma coisa impressionante, havia o pendurado pelos calcanhares para fora de uma janela e, em um momento de distração, havia quase deixado o garoto cair, mas felizmente ele desceu flutuando até o jardim. Deixando não só todos felizes, como fazendo sua avó chorar de emoção, o que era bem estranho devido ao quanto ela conseguia ser fechada em alguns casos. (Oh Neville, eu sabia! Eu sabia que você era um bruxo!). – Eles não servem para nada! E eu vou acabar perdendo ele pela escola! – segurando a gaiola com o sapo dentro, Neville olhou feio para o animal, desejando que ele fizesse algo de impressionante e mágico, mas a única coisa que ele fez foi coaxar e fechar os olhos. Ele não sabia que sapos conseguiam dormir.
- Algi o deu porque ficou feliz por você estar entrando em Hogwarts, Neville. Deveria estar grato. – ela parou na frente de uma loja recheada de meninos e meninas da sua idade. Ele tentou esticar a cabeça para poder ver a vassoura na vitrine, mas seu tamanho pequeno não pode deixar ele admirar a peça como os outros. Suspirou, ainda com a gaiola em uma mão e preso a sua avó pela outra. Começou a olhar em volta, ficando com calor por estar parado por tanto tempo no meio daquela multidão sem fazer absolutamente nada. Sua avó, Augusta, parecia estar muito entretida vendo a vassoura e ouvindo os comentários das pessoas ao seu redor. Ele sabia que ela gostaria que ele fosse um bom jogador, que conseguisse superar seu medo de altura, ele também sabia que todas as outras pessoas esperavam algo dele devido aos seus pais, entretanto Neville tinha o dom de ser um tanto atrapalhado. Tinha uma longa lista de tropeços, machucados, caídas e atrapalhadas, também conseguia ser muito esquecido as vezes e era tão bom em esquecer que conseguia deixar para trás coisas que ele julgava essenciais. Como aquela fez que ele foi para a casa de um amigo para poder brincar e, de alguma forma, esqueceu seu carrinho em casa. Não era como se ele fizesse de propósito, as coisas simplesmente aconteciam e ele quase nunca entendia o porquê. Depois de sua primeira demonstração de magia, suspeitou que tudo isso fosse algum sinal de seus dons e logo tudo pararia, afinal ele aprenderia a controlar aquilo melhor, porém logo viu que seus problemas nada tinham a ver com o sangue mágico em suas veias e tentava fazer o seu melhor para não se sentir mal com isso. Sua avó soltou um suspiro de admiração, levando a mão ao coração e ele pensou que ela provavelmente deveria estar se recordando de seu pai que havia sido goleiro no time de sua casa em seus anos de Hogwarts. Chateado consigo mesmo, Neville espremeu sua mão entre a mão da mulher e, depois de muito esforço e muito cuidado, se encontrou livre para sair do meio daquela multidão toda.
Mesmo sendo um sangue puro, o que significava que toda sua linhagem era bruxa, ele quase nunca ia ao Beco Diagonal e não demorou muito para acabar se perdendo entre as ruas, calçadas e pessoas. Ainda segurando a gaiola com seu sapo, ele começou a ficar um tanto desesperado ao não conseguir achar nada familiar. Alguns bruxos trombavam nele e uma senhora de capa roxa até mesmo se ofereceu para ajudar, mas assustado e perdido, Neville só virou de costas e correu para outro lugar. Depois do que pareceu uma hora, ele desistiu e resolveu se sentar. Passando os olhos ao redor, encontrou algumas mesas vazias e se encaminhou para lá. Seus pés não alcançavam o chão quando ele sentou-se, apoiou a gaiola na mesa e, apoiando os cotovelos na mesa e o rosto nas mãos, ficou olhando entristecido para o sapo. – O que nós vamos fazer agora, hein?
***
Florean Fortescue sempre havia sido um homem muito animado, pacifico e apaixonado pelo que fazia. Poucas pessoas entendiam o amor que ele sentia por sua sorveteria. Para ele, nunca havia se trato do dinheiro, mas sim de ver o quanto as pessoas poderiam ficar felizes ao começar a tomar um sorvete, não importava o clima e nem o preço, todo mundo parecia ficar feliz ao tomar um bom e velho sorvete. Fora sua sorveteria havia apenas três coisas que ele amava acima de tudo: sua esposa Mary, sua filha Alice e seus livros sobre os bruxos na época medieval. Entretanto, das três, apenas uma coisa se mantinha lá para ele. Sua esposa havia morrido três anos após o nascimento de sua filha, com alguma doença trouxa que ele nunca entendeu muito bem, criou sua filha sozinho e tentando dar o melhor para ela. Alice, depois disso, havia se tornado não só sua luz, mas também um dos únicos motivos pelo qual ele vivia. Sua filha era dona de uma risada animada, um sorriso cativante e uma alma muito boa, ajudava ele na sorveteria sempre que podia e mesmo depois de completar seus onze anos, ainda passava grande parte de suas férias com ele. Algumas vezes queria poder lhe dar mais, mas ela sempre o tranqüilizava falando que não precisava. Assim como ele, a menina compartilhava seu amor pelos doces do mundo e pelos histórias medievais, por isso quando ela se casou com Frank Longbottom ele lhe entregou uma receita e toda sua coleção de livros para ela. Um ano depois do casamento, Florean teve um neto. Ou melhor, Alice e Frank tiveram um filho. Mesmo contente com a nova noticia, não pode deixar de se preocupar. Sua filha era uma auror, sempre se envolvendo em problemas, desafiando aquele-que-não-deve-ser-nomeado e ele sabia, pois ela havia lhe contado, sobre aquela profecia. Alice e Florean nunca tiveram segredos um com o outro, por isso ele também sabia que seu neto não seria o escolhido, mas ele já era um velho que havia perdido demais e não podia deixar de sentir medo. Seu medo no final teve razão. Ele preferia ter sua filha de volta ao invés dos livros que agora voltaram a enfeitar sua sala de estar.
Naquele dia o Beco Diagonal estava cheio, mas poucas pessoas pareciam interessadas em tomar um sorvete. Tinha esperanças para que após o almoço alguns clientes fossem lá o animar, deixando com que ele falasse e falasse sobre seus livros e sobre seus sorvetes. Estava sentado em uma cadeira dentro do estabelecimento, lendo uma matéria sobre aquela doença trouxa que era causada quando uma imensa quantidade de doces chegava no corpo quando resolveu esticar o pescoço para ver se tinha algum cliente novo e o que viu quase o fez cair da cadeira de tamanho susto. Neville Longbottom estava sentado em uma de suas mesas, olhando triste para a gaiola. Florean pensou que poderia morrer por dentro, vendo aqueles olhos tão familiares tristes e prestes a chorar. Pensou que era daquele exato jeito que sua filha ficava quando não conseguia alguma coisa ou quando se perdia. Era ele, estava ali, sozinho e Florean não fazia idéia do que fazer. Colocando o jornal em cima do balcão, ele sentiu sua mão suar e respirou fundo pensando em como poderia ir falar com seu neto pela primeira vez. Sim, primeira vez. Augusta Longbottom acabou ficando com o garoto no final das costas, Alice e Frank haviam entregue Neville para ela antes daquela trágica noite, idéia de sua filha supunha ele, sempre tentando manter o pai protegido daquilo tudo que ela vivia, após a insanidade deles chegar, ele e Augusta concordaram que a criança deveria ficar com ela, afinal aquele era o desejo de sua filha. Desde então ele viveu seus dias sozinhos, pensando no dia em que conheceria o neto de verdade e poderia conversar com ele. Fantasiou várias vezes como o primeiro encontro seria, pretendia contar uma piada e depois algumas histórias sobre os pais do garoto, então levaria ele para um passei e os dois teriam um dia muito bons juntos. Mas nada disso aconteceu, porque o menino estava sentado ali e não parecia nada feliz. Indo até o estoque, Florean pegou um sorvete de menta e colocou em uma casquinha. Aquele era o preferido de Alice, ele nunca havia entendido o motivo já que ele em si odiava, mas pensou que talvez o garoto pudesse ter o gosto da mãe e que fosse gostar mais de menta do que de flocos. Após pegar o sorvete, ele foi em direção ao neto.
Neville ainda estava olhando para o sapo, pensando que se fosse uma coruja ele poderia facilmente mandar uma carta para avó que já deveria estar danada da vida com ele, mas sapos não entregavam cartas. – Por que você não faz nada de interessante?
- Quer um sorvete? – Neville se assustou, olhando para o homem com certa apreensão. – Você não parece muito feliz e minha experiência me diz que sorvetes podem animar qualquer um.
- Minha avó diz que eu não posso pegar nada de estranhos.
- Nem um sorvete de menta? De graça? – os olhos do menino se iluminaram e ele esticou as mãos para pegar o doce da mão de Florean que suspirou aliviado e sentou-se na cadeira ao lado da dele.
De repente o assunto acabou, ele viu o menino comendo o sorvete um pouco desconfiado e evitando olhar, sentindo-se mal ele se focou no animal dentro da gaiola e sorriu satisfeito ao ver que tinha um sapo lá dentro.
- Qual o nome dele?
- Eu não sei – disse Neville entre uma lambida e outra – eu estou pensando em soltar ele por ai e falar que perdi, então minha avó teria que me comprar uma coruja. O senhor não quer comprar ele?
Florean riu, balançando a cabeça e as lembranças de sua filha pularam em sua mente. Lembrou-se dela tentando convencer os clientes a comprarem um sorvete, sentada no balcão e com aquele mesmo olhar de desafio que o menino apresentava para ele agora. – Sabe quem tinha um sapo também?
- Não. – respondeu Neville, sem saber se realmente gostaria de entrar naquele assunto. Voltou sua atenção ao sorvete com indiferença.
- Seu pai. – o menino automaticamente levantou os olhos para o homem, abaixando o sorvete e o olhando com certa curiosidade. – E ele adorava ter um sapo. Sua mãe que não gostava muito, ou fingia não gostar só para incomodá-lo, nunca descobri.
- C-Como você sabe sobre eles? Como você sabe quem eu sou?
Florean já não tinha certeza de como queria continuar aquilo. Suspeitava que não se podia simplesmente virar para uma criança e contar que era seu avô, além de ser estranho provavelmente assustaria o menino a ponto dele querer ir embora para nunca mais voltar. Um pouco incomodado com aquilo, Fortescue mexeu na gaiola do sapo. – Eu conheci seu pai e sua mãe. Ele, hm, eles freqüentavam muito aqui antes de...antes de...
- Irem parar naquele lugar. – completou Neville com um sussurro. Muitas pessoas poderiam subestimar o pobre garoto, vê-lo somente como um menino super protegido por uma avó muito difícil, mas a verdade era que ele nunca teve escolha. Seu pai e sua mãe foram os bruxos mais corajosos para ele, até mais que os Potter, e quando descobriu onde eles estavam e como estavam, não ficou feliz. Alice e Frank Longbottom haviam sido um dos maiores aurores de sua época, lutando contra aquele-que-não-deve-ser-nomeado várias vezes durante sua vida e no final, eles foram torturados por uma comensal da morte até a insanidade. Quando Neville soube que estavam vivos, passou dias sonhando com o abraço de sua mãe e com um “olá filho” de seu pai, pensou que eles estavam apenas muito machucados para voltarem para casa, mas quando os viu pela primeira vez foi como se todos os seus sonhos fossem mentira. Sua mãe não se lembrava dele e muito menos seu pai. Neville ia ver seus pais todo ano desde os nove anos de idade. – Antes deles irem parar lá.
- Sim. – Florean não achava que Augusta ira contar para seu neto sobre a verdadeira história de Frank e Alice, mas ficou feliz por ela ter feito isso. Quando descobriu o que havia acontecido com sua filha, Florean fechou a sorveteria por um mês e ficou trancado dentro de casa todos os dias. Ele sabia, era claro, do perigo que ela corria e de tudo que poderia acontecer, mas imaginar era diferente de viver.
- Como eles eram? – nesse momento ele já tinha deixado seu sorvete de lado e agora se inclinava para frente, curioso para saber mais sobre seus pais.
- Seu pai era... – estava medindo palavras para falar sobre Frank, não havia gostado dele no começo, não porque ele era um garoto ruim, mas sim porque ele ainda enxergava Alice como sua pequena garotinha e muitas vezes sentia que o garoto estava a roubando dele, deixando-o sem nada, porém depois de um tempo ele começou a apreciar o Longbottom por ver o quanto ele deixava sua Alice feliz. – Seu pai era maravilhoso. No começo, o achei um pouco estranho. Muito atrapalhado, quieto e sempre deixava sua mãe esperando quando iam sair, mas ela ficava tão feliz ao lado dela que eu simplesmente não liguei mais depois de um tempo.
- Minha avó diz que ele jogava quadribol.
- Sim, ele jogava sim. – com um sorriso no rosto, Florean olhou para o neto.- E jogava muito bem de acordo com sua mãe, mas ela sempre falava bem dele. Você joga?
Neville balançou a cabeça, olhando triste para o sorvete em sua mão. Até mesmo um desconhecido parecia o cobrar para ser bom como seu pai, nem mesmo para o dono da sorveteria ele era bom o suficiente. – Meu tio diz que eu sou muito atrapalhado para isso.
Com uma risada um pouco alta demais, Fortescue se animou um pouco mais. – Igualzinho sua mãe. – vendo que o garoto olhava para ele novamente, não pode deixar de sorrir. – Alice parecia ter dois pés esquerdos, conseguia tropeçar do nada e teve uma vez, – ele começou a rir novamente – ela não devia ter mais que quatro anos, e então ela tropeçou em alguma coisa e derrubou toda a minha prateleira de livros e, de alguma forma, não se machucou. Quando eu cheguei em casa ela estava dormindo em cima deles e então eu tive que levá-la para o quarto para... – percebendo que havia falado demais, se calou, olhando para o sorvete do garoto. Percebeu que estava suando, nunca havia ficado nervoso daquela forma, com aqueles grandes olhos castanhos o olhando agora não só curioso como surpreso. – Quer que eu jogue fora para você?
Neville concordou e observou o homem ir com seu sorvete até o lixo. Tudo parecia muito confuso em sua mente, se ele conhecia sua mãe desde pequena isso significava que ele era seu avô? Pai de sua mãe? Mas ele era mesmo, se era sua família, por que sua avó nunca havia lhe falado dele? Por que nunca tinha o levado até lá para tomar um sorvete e conhecer um pouco mais de sua mãe? Ele não entendia. Seu coração estava incrivelmente acelerado e ele nem ao menos percebeu que não estava mais triste ou preocupado com sua avó, ele não estava ligando para nada disso, somente para o homem que agora estava voltando a se sentar na cadeira ao seu lado.
- V-Você conheceu minha mãe quando ela era pequena? – perguntou, percebendo que ele havia desistido de sentar e agora estava apenas se apoiando na cadeira.
- Eu sou o pai dela. – sussurrou Florean, tremendo dos pés a cabeça, temendo a reação dele e se preparando para ir embora assim que ele resolve volta a andar pelas ruas cheias do Beco Diagonal. Neville não devia ser muito grande, possuía os braços gordinhos e bochechas enormes, mas mesmo assim a reação dele parecia deixar aquele velho homem nervoso. Ele não tinha mais nada além de sua sorveteria, passava os dias apenas lá e vivendo para o estabelecimento que tinha, animando-se somente com aquilo, fugindo da idéia de que sua filha não era mais ela mesma e que seu neto não sabia sobre sua existência, só que naquele momento ele estava confrontando tudo aquilo de novo e se o menino fosse embora, se ele simplesmente pegasse a gaiola do sapo e saísse correndo, seria como perder Alice novamente.
Antes de pensar em alguma coisa, Neville se levantou e abraçou a cintura do outro com a maior força que poderia reunir em seus pequenos braços, sentiu as lagrimas serem formadas em seus olhos e logo após sentiu elas rolando por seu rosto. Ele sempre estava pensando em seus pais. Perguntava-se se sua mãe brigaria com ele tanto quanto sua avó ou se seu pai iria ajudá-lo com feitiços quando ele se atrapalhasse, se os dois iriam colocá-lo para dormir e contar uma história, se ele seria bom o suficiente para os dois e se eles se orgulhariam de ser pais do pequeno e atrapalhado Neville Longbottom, entretanto apesar de pensar neles quase todos os dias de sua vida, ele não falava sobre eles quase nunca. Não por vergonha, não. Julgava seus pais as pessoas mais corajosas desse mundo, morrer era fácil comparado a ficar trancado naquele hospital, mas não falava porque sua família não gostava do assunto e sempre que perguntava sobre eles para sua avó ela mudava de assunto, ficava quieta ou o mandava parar de fazer perguntas difíceis. Ele não a julgava, sabia que devia ser complicado ter perdido o filho daquela forma e ele não queria atrapalhar de forma alguma. Enquanto abraçava Florean, sentia como se fosse sua mãe, seu pai, ali com ele, sentia como se fosse finalmente bom para alguém e aceito. Não que Augusta o tratasse mal, não que ela não o amasse, não que ele não a amasse, mas sua avó tinha uma personalidade difícil, havia sido abandonada pelo marido e criou seu pai, Frank, sozinha somente para perde-lo depois e criar o neto sozinha novamente. Era uma mulher forte, ele sabia e agradecia tudo que ela lhe dava,mas sentia falta aquele afeto. Apertou ainda mais o abraço antes de voltar a se sentar.
Florean ficou surpreso com o abraço do neto, mas não negou, abraçou-o de volta com toda a saudade que tinha de ter uma família, com a saudade que sentia de sua filha, de sua esposa e até mesmo de Frank. Em alguns momentos, ele sentiu raiva de tudo aquilo e até mesmo de Alice por ter se envolvido em coisas assim, por que ela não podia ficar quieta no canto ela? Sem brigar com ninguém, sem defender ninguém? Quando foi visitá-la pela primeira vez, voltou pra casa morrendo de raiva daquela guerra que havia lhe tirado a única coisa que tinha. Entretanto, não tarou para ele compreender que havia criado a sua filha para aquilo. Alice era uma mulher corajosa, com um coração bondoso e que esteve preparada para lutar por aquilo que julgava certo, Florean não podia estar mais orgulhoso da mulher que ela havia se tornado. Quando Neville se afastou, ele voltou a se sentar ao seu lado, com um sorriso ainda maior no rosto agora.
- Onde está sua avó?
- Eu me perdi. – respondeu o garoto sem graça. – ela estava vendo a nova Nimbus 2000 e eu sai de lá e acabei me perdendo.
- Quer que eu te leve até ela?
- Não! Não, por favor! Ela deve estar muito brava comigo e eu não quero ouvir os sermões dela agora.
- Tenho certeza que ela deve estar preocupada com você.
Neville se mexeu inquieto em sua cadeira, nunca havia conversado com alguém sobre aquilo e, mesmo que o homem na sua frente fosse supostamente seu avô, a idéia de falar sobre sua insegurança em relação a família não parecia muito certo. O que ele iria pensar se soubesse que o neto não se sentia bem? Poderia, talvez, achar que a sua avó o maltratava, o que não era verdade, ela só era um pouco mais dura do que ele queria que ela fosse. Entretanto, algumas vezes aquilo se tornava um problema para ele. Neville, bem, ele sentia falta dos pais. Poderia parecer estranho sentir falta de algo que nunca teve, mas ele sentia. O maximo de contato que o garoto havia tido com sua mãe e seu pai eram conversas vazias e rápidas, já que sua avó não gostava que ele ficasse muito perto e quase nunca respondia suas perguntas. Certas vezes, ele olhava para os olhos azuis da mãe e pensava que eles nem ao menos pareciam ter vida, que beiravam ao cinza e que gostaria muito de ver eles se iluminarem para poder olhar para o filho. Tinha os visto na semana que recebeu a carta de Hogwarts, brigou com sua avó para que ela fosse junto com ele, pensou que se falasse da carta e contasse da escola daria tanto orgulho para os dois que então eles acordariam, mas isso não aconteceu e ao invés disso ele só ficou desejando o quente abraço dos pais. Esse era o problema para ele. Aqueles que deviam o amar não pareciam ligados ao mundo ao seu redor, enquanto sua avó conseguia ser bem dura e o restante de seus familiares pareciam não gostar dele. Neville não se sentia amado de verdade, mas amava cada pessoa que era minimamente próxima dele. Amava Augusta, via nela a força que ele queria ter em si mesmo. Amava sua mãe e seu pai, queria ter a coragem deles dois. Amava seus parentes barulhentos, seus primos atrapalhados, gostava da vida que tinha, mas sentia que mascarava o fato de que não se sentia bom o suficiente para algum deles.
- Eu também tenho. – comentou incomodado. Florean, percebendo o modo como o garoto agia, preocupou-se, foi como se ficasse agitado e, em um ato impulsivo, passou a mão pelos cabelos negros do menino, fazendo com que o mais novo o olhasse surpreso. Ele não retirou mão quando perguntou o que tanto afligia o menino. Já Neville, ruborizou e sentiu que poderia falar com ele sobre seus problemas. – Eu sinto falta dos meus pais. – sussurrou, pensando que talvez ele fosse entender, assim como sua avó, que fosse chorar com ele e dizer que sua mãe era uma pessoa fantástica, mas sentiu aquele senhor retirar a mão de seus cabelos e por alguns segundos pensou que talvez o assunto fosse algo proibido para ele também. – Desculpe, eu não... Minha avó não gosta de falar muito disso, eu não sei nada sobre eles e eu não quis incomodar.
Tomado pelo susto, Fortescue olhou para o menino e pensou em como aquilo deveria ser horrível para ele. Recordava-se de Alice e de Frank, havia rido com eles e se divertido, foi ao casamento, ao nascimento de Neville, viveu com sua filha bons momentos, sabia disso, entretanto o garotinho a sua frente já nasceu no meio daquela dor tremenda, viveu sem os pais, apenas ouvindo histórias e vendo o quanto eles estavam perdidos. Sua dor parecia ser mil vezes pior do que a dele. Aproximou a cadeira, podendo ver o rosto do neto muito melhor, não fazia idéia do que poderia dizer, se é que havia algo para se dizer, mas tentou fazer o que pudesse fazer para que o menino se sentisse melhor. – Eu sei que se seus pais pudessem, eles estariam com você. Quando você nasceu, sua mãe ficou tão feliz, assim como seu pai. Sabe, não eram bons tempos, as pessoas tinham medo de andar na rua, quase ninguém vinha comprar sorvete, seus pais lutaram tanto para que você pudesse viver em um mundo mais calmo como o de hoje. Foram atrás deles, eu não sei o motivo, mas foram e eles nunca entregaram a informação que os bruxos das trevas queriam. Eles foram pessoas fortes, Neville, deram de tudo para de proteger. Até mesmo a vida deles. Sei que deve sentir falta e que deve ser difícil, mas eles te amam até hoje.
Neville ficou quieto, não sabia o que havia acontecido com seus pais até então e saber que eles foram torturados apenas por causa de uma coisa boba, de uma informação qualquer, fez com que ele sentisse uma enorme onda de orgulho. Queria saber mais, perguntar mais e ouvir ele falando de seus pais por horas, queria ter a coragem para perguntar para seus parentes sobre eles, mas nunca teve, nunca sentiu que podia e pensava que talvez o grande buraco em seu peito fosse por causa disso. Respirou fundo. – Eu não posso perguntar deles lá em casa. – comentou. – Minha avó não gosta de falar e eu não acho que meus parentes gostem muito de mim. – deu de ombros, olhando para o avô. Não sabia ao certo o que falar. Deveria sentir surpresa? Mostrar o orgulho? Deveria dizer algo como “oh, agora tudo faz sentido?”. Preferiu não fazer perguntar para não deixar o homem ainda mais desconfortável. Entretanto, viu o outro se mexer inquieto na cadeira com seu ultimo comentário e perguntou-se se foi uma boa idéia falar algo daquele tipo.
- Como assim?
- Muitos deles achavam que eu era um aborto. Tenho esse tio que me pendurava na janela para ver se eu tinha magia. Acho que nem a minha avó deve gostar deles, mas ela não gosta de muita gente.
- Por que acha que eles não gostam de você?
- Bem... – confuso, Neville coçou a nuca. Não entendia o porquê de aquilo ser importante para o outro. – não sei. Parecem que estão sempre me olhando feio, querendo que eu seja tão bom quanto meus pais foram, não falam muito comigo e sempre chateiam minha avó falando para ela dar um jeito em mim. Não sei, talvez seja só o jeito deles.
- Neville... –chamou o mais velho, estava incrivelmente irritado com a idéia de que seu neto se achava menos do que era. – você é maravilhoso. – sorriu, vendo o garoto olhar assustado. – Eu sei que talvez as pessoas sejam duras com você, mas você não deve nunca se deixar abater por isso. Eu sei que talvez a família do seu pai não seja tão carinhosa assim, e que sua avó pode ser um pouco difícil, mas eles te amam muito e sabem que você é um garoto fantástico, assim como eu sei também e olhe que nem fiquei tanto assim com você. – vendo que o comentário não ajudou, ele respirou fundo. Não era aquilo que havia imaginado. – As pessoas são ruins, você vai encontrar ainda muitas pessoas ruins pelo caminho, elas vão te chatear, falar que você não é bom o suficiente, mas quer saber? Você é sim. Tão bom quanto seu pai, quanto sua mãe, algum dia você vai provar isso, vai mostrar que não precisa ser ninguém além de si mesmo e que todo mundo estava errado. Você não precisa mudar, não precisa duvidar de si mesmo, eu tenho certeza de que você é tão bom quanto querem que você seja. Eu acredito em você.
Neville sentiu vontade de chorar, mas não o fez, ficou olhando para o homem a sua frente não só agradecido, mas com um forte amor no coração. Ele não sentia que Florean era de sua família, mas pensava que algum dia as coisas poderiam mudar, que ele poderia ajudar e ser ajudado. Acreditou no que ele disse, quis acreditar, não duvidou dele mesmo naquele momento e jurou que não iria duvidar nunca mais. Sabia que não iria dar certo, que em algum momento ele iria se sentir mal, mas ali ninguém poderia dizer que Neville Longbottom não era o cara mais legal do mundo. Ele sorriu, quando abriu a boca para falar algo para seu avó um forte grito fez ele virar o rosto e ver sua avó andando irritada em sua direção. – Ah não. – levantou-se rapidamente, pegando a gaiola do sapo e ficando de frente para o avô. – Qual era o nome do sapo do meu pai?
Com um sorriso, Florean respondeu: — Trevor.
Neville iluminou o rosto com um grande sorriso, abraçou o homem pela cintura, fechando os olhos rapidamente. – Obrigado, avô.
- Neville Longbottom! O que é que você pensa que estava fazendo quando sumiu daquele jeito no meio daqu... Oh, olá Florean. – Augusta ajeitou o chapéu, olhando o sorveteiro incomodada.
- Estava conversando com Neville. Ele se perdeu sabia. – o menino ficou no meio dos dois, olhando para os sapatos. Florean passou a mão pelos cabelos lisos dele novamente. – Por que não conta para sua avó o novo nome do seu sapo?
Erguendo a cabeça, ele olhou para a mulher, o sorriso ainda iluminava seu rosto quando ele respondeu Trevor, achou ter visto uma lagrima nascer nos olhos dela a medida que sua expressão zangada se suavizava, agarrou o neto pelos ombros e lhe deu um enorme abraço que não durou muito, pois logo ela estava brigando com ele novamente. – Vamos, vamos. Ainda temos que comprar sua varinha. – mudando de assunto, ela limpou os olhos e evitava olhar para o neto. Ele nunca havia a visto chorar. Neville se virou para Florean novamente.
- Quando estar triste ou quando quiser só conversar, me mande uma carta, sim? E venha sempre aqui comer sorvetes. Não admito que vá para outra loja, ouviu? – dessa vez foi Fortescue que o puxou para um abraçado apertado que durou alguns minutos, não chorou, mas gostou de sentir o corpo do neto em seus braços. Os dois só se afastaram quando Trevor coaxou. Eles riram. – Lembre-se, você é inteligente, corajoso e não precisa ser quem não é. – beijou a testa de Neville antes de se afastar.
O garoto pegou a mão da avó, que olhava feio para ela, mas que deixava transparecer o alivio de ter o encontrado, os seguiram para a rua que levava para a loja de varinhas e Florean voltou para sua loja mais feliz do que nunca, pensando que era melhor ter sido desse jeito do que qualquer outro. Agora seu neto sabia dele, iria visitá-lo, iria mandar cartas, talvez até mesmo pedisse sua ajuda em alguns deveres nas férias, quem sabe não viria passar alguns dias com ele? Havia esperança afinal. Era como se Alice estivesse de volta.
E por falar em Alice, a mulher que estava tão longe dali revirou-se na cama novamente, não olhando mais para janela. Não estava triste, não. Virou de lado, olhando para a parede branca de seu quarto, abraçou com força o que chamava de lençol e fechou os olhos. Em seus lábios havia um pequeno sorriso. Frank também parou de olhar para o teto, focou-se na parede que o separava de sua amada e assim como ela, sorriu. O casal Longbottom não se lembra de muita coisa, nem de si próprios e nem de todo o resto, mas se você acredita no amor que os pais podem ter por seus filhos, vão acreditar que ambos sentiram que seu Neville havia encontrado alguém, que sentia-se amado e que, no final, tudo iria dar certo, mesmo que não para eles dois. Afinal, quantos eles se deixaram ser torturados, não era em Neville e em todas as outras crianças do mundo que eles estavam pensando? Naquele momento, tanto Alice quanto Frank sentiram que haviam feito a coisa certa.
Notas finais
Bem, espero que tenham gostado e que tenham entendido a história direito (você entra nisso também moça), qualquer coisa é só perguntar.
Feliz aniversario amor meu ♥
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