Notas iniciais
heyy, como sempre outro conto de wolfquest. dessa vez baseado na minha loba moondancer e no caos que eu enfrentei recentemente jogando.

A lua brilhava no céu, começando a minguar, mas ainda brilhante e formosa. Moondancer descansava junto de seu companheiro, Onyx, e suas três pequenas filhotes, Luna, Angel e Windsong. As três dormiam juntas, bem grudadas e praticamente amontoadas uma em cima da outra, em um grande feixe de grama alta. Luna estava doente, e suas irmãs se preocupavam muito. Windsong havia passado por um período complicado também quando era mais nova, mas havia se recuperado rapidamente. Agora, queria cuidar de sua irmã. Em ninhadas menores é natural que haja uma afeição ainda mais forte entre os membros da ninhada, e Moondancer se encantava com aquilo.

Moondancer soltava um bocejo involuntário. O dia havia sido tão cansativo: demarcação de território e uma eventual luta com lobos rivais que a acabou pegando de surpresa. Ela e Onyx acabaram saindo um pouco machucados, mas nada grave, e expulsaram os dois lobos da alcateia rival de volta de onde vieram. Era tão bom poder estar com suas três pequeninas. Sentir seus cheiros. Era um calmante instantâneo para ela. Contudo, quando se virou para Onyx, esperando vê-lo tão relaxado quanto, observou o macho de pelos escuros de pé, mais distante, com as orelhas atentas. Sua silhueta era totalmente rija.

— Onyx, o que houve?

— Urso. — Ele respondeu, vidrado no horizonte. — Sinto cheiro de urso.

A loba engoliu em seco e farejou o ar. Não fazia muito tempo desde que tiveram que expulsar um urso de seu território. Poderia ser o mesmo. Por muito pouco ele não conseguiu atacar as filhotes, que tiveram que correr por suas vidas. Agora, o casal ficava mais atento. Se houvesse um urso, queriam encontrá-lo o quanto antes, afinal, Luna agora estava adoecida. Se ela precisar fugir, o quão rápido vai conseguir correr? Por quanto tempo? Já era uma aposta terrível demais com filhotes sadios, não gostava de pensar em como seria com Luna.

— Também sinto. — Moondancer concluiu com uma voz temerosa. O odor era forte. Forte demais. Seu olhar agora também buscava uma movimentação suspeita em qualquer lugar. Um urso-pardo macho era grande demais para se esconder por muito tempo. Eles só precisavam encontrá-lo depressa, e mostrar de vez que seus filhotes não eram uma refeição fácil.

A loba foi até as filhotes para acordá-las e alertá-las da situação. Elas precisavam estar preparadas, mas Moondancer esperava conseguir manter o urso bem distante dessa vez. Ela e Onyx precisavam fazer isso. Luna parecia exausta. Seu olhar era fundo e triste, mas tentou demonstrar coragem à sua mãe. Moondancer quis chorar. O urso não podia se aproximar de forma alguma.

— Ali! — Onyx gritou e imediatamente correu em direção ao enorme urso-pardo. Ele ainda estava bem longe. Isso era bom. Moondancer estava confiante, embora sentisse seu coração pulsar tão rápido que poderia sair de seu peito. A fêmea correu junto de seu companheiro, rosnando ferozmente.

— Vá embora! — Gritou, para em seguida abocanhar sua perna traseira.

O urso soltou grunhidos e rugidos em resposta. As palavras são facilmente perdidas entre as diferentes espécies. A raiva, por outro lado, é transmitida universalmente.

As garras do animal eram definitivamente assustadoras. Seu tamanho era tremendo. Moondancer era uma loba ágil, no entanto. Sempre foi. Seus pais diziam que observá-la era como constantemente assistir a uma dança. Seus movimentos eram velozes e ao mesmo tempo delicados. Ela corria, girava e saltava num piscar de olhos, com uma graciosidade impecável. Agilidade é uma habilidade essencial para lidar com ursos arredios. Eles mordem, viram-se para todos os lados e jogam suas patas gigantes pelo ar. Mas são lentos. Moondancer dançava com o urso. Ele tentava lhe dar uma patada, mas ela já havia desviado. Podia sentir o vento do movimento em seu focinho. Um passo errado poderia lhe custar a vida.

Em outras situações, Onyx adorava observá-la. Nas caçadas seus movimentos eram fenomenais. Desviava de coices como se não fossem nada. Como se não pudessem acertar sua cabeça e matá-la. Mas naquele momento, concentrava seu foco em morder o oponente. Seu olhar penetrava nos olhos do urso, que ficava cada vez mais enraivecido com a furtividade de Moondancer. Isso dava brechas para que Onyx conseguisse mordê-lo. Quando ele focava no macho, Moondancer o mordiscava. Eram a dupla perfeita. Eles iriam conseguir. Ela tinha certeza. Aquele urso nunca mais voltaria.

Até que quando foi desviar mais uma vez, foi lenta. O urso a acertou em cheio no torso com suas garras. O choque distraiu Onyx, e o urso a acertou mais uma vez enquanto tentava levantar do chão, jogando-a para o lado. Moondancer não conseguia respirar. Mas o urso ainda estava longe das pequenas. Ele já estava irritado demais. Ele iria embora.

A loba tentava, mas não conseguia se levantar. Todos os seus ossos pareciam terrivelmente pesados. Sentia tanta dor. Não conseguia mais acompanhar Onyx e o urso. Onde eles estavam? Ouviu um grunhido terrível de seu companheiro. E logo em seguida um ainda mais alto do urso.

Respirar.

Respirar.

Respirar de repente era uma tarefa tão difícil. Doía demais, e ela puxava ar de menos.

Não podia morrer. Suas filhotes ainda eram tão jovens. Sua alcateia ainda era jovem. Sua mãe lhe disse que tinha um futuro brilhante. Por isso saiu de sua alcateia natal. Não era isso. Não podia deixar que um urso acabasse com tudo numa noite de verão. Ela queria viver mais. Ver suas filhotes se tornarem grandes adultas. Ver o anoitecer outras tantas vezes. Existir ao lado de Onyx.

Respirar.

— Moondancer. — Ouviu-o chamar, ansioso. — Moondancer! — Soava desesperado agora.

“Sim, querido. Estou machucada. Preciso dormir. Você está bem?” Ela tentava dizer. Tentava fazer qualquer som, mas nada parecia sair. Mal conseguia olhá-lo. Via um borrão que parecia ter seu formato.

— Moondancer! — Sua voz tremia.

— Papai! Sua pata! — Era Windsong. Ela parecia assustada. Mas estava viva. Queria ouvir a voz das outras duas, isso a reconfortaria. O que havia com a pata de Onyx?

— Está tudo bem. Bom, está quebrada e dói bastante. Mas vai passar. Já me aconteceu antes. — Ele parecia tão calmo ao falar com Windsong. Onyx era ótimo com as filhotes. Ele era duas primaveras mais velho que Moondancer, e tinha um pouco mais de experiência por conta disso. Ela o admirava. — Volte para suas irmãs. O urso não vai voltar.

— E a mamãe?! Ela não levanta!

“Eu vou ficar bem.” Novamente, nada saía. Ela queria vê-los, mas não conseguia levantar sua cabeça. Seus olhos enxergavam borrões escuros que poderiam ser qualquer coisa.

— Vou levá-la. Agora volte, por favor. Aqui é muito aberto.

Moondancer ouviu os pequenos passos de Windsong se distanciarem, e sentiu os dentes de Onyx em sua nuca.

— Moon... — Ela gostava quando ele lhe chamava assim. Sorriria, se pudesse. Mas agora precisava respirar. — Você não pode morrer. Por favor.

Sentiu seu corpo ser arrastado. Doía um pouco, mas nada comparado à toda a dor que sentia pelo torso. O cheiro de sangue era muito forte. O quanto estava sangrando?

— Mamãe! — Ouviu os gritos aflitos em uníssono das três filhotes.

Ouviu um suspiro de Onyx. As três a cheiraram, cautelosamente. Estavam tão assustadas. Ela conseguia farejar.

— Ela ficou muito ferida. O urso a acertou no peito. — Onyx disse, cansado.

— Mas ela vai ficar bem? — Angel perguntou. Ela sempre fazia as perguntas difíceis.

— Eu espero que sim.

Onyx não tentou minimizar as coisas, o que a preocupou. Ele não disse que ficaria bem, que iria melhorar. Ele torcia para que isso acontecesse, mas não tinha a menor ideia se realmente poderia acontecer. Moondancer queria saber o quão mal estava para que ele falasse dessa forma. Não podia morrer. Não para um urso, não agora. Só tinha três primaveras, não havia vivido o suficiente ainda. Não podia morrer.

Mas toda vez que tentava se mover, nada acontecia. Só sentia dor.

Respirar.

— Voltem a dormir. Sei que foi muito assustador, mas eu ficarei com a mamãe. O urso se foi. — Ele concluiu.

— Queremos ajudar, papai. — Angel disse. — Por favor.

Por um momento, houve silêncio. Onyx não sabia o que dizer, o que fazer. Ele apenas queria deitar ao lado de Moondancer até que ele pudesse ouvir sua voz. Nunca se sentiu tão apreensivo. Toda vez que a olhava, tinha medo de que ela tivesse morrido. Até que notava sua fraca respiração, e se acalmava pelos próximos segundos.

— Se realmente querem fazer algo, podem me ajudar a limpar seus ferimentos. É importante para que eles possam curar, e é uma das maiores formas da alcateia cuidar de si. Ajudamos a família quando estão feridos.

Quando terminou de falar, pôs-se a lamber os pelos de Moondancer, tentando limpar os machucados e mostrando às filhotes como fazer isso de forma delicada e gentil. A fêmea tremeu um pouco com a sensação. Ardia.

Porém Onyx ficava aliviado de saber que ela estava consciente o suficiente para sentir qualquer coisa. Seus olhos não abriam. Ela não tentava mais se mover. Cada instante parecia o último.

— Não precisam se não quiserem. Eu gostaria que vocês voltassem a dormir. — Ele continuou.

— Vamos ajudar! — Windsong estava decidida. As irmãs também, mesmo Luna, cansada e assustada.

— Luna, você realmente não quer descansar? Precisa guardar suas energias. — O tom do macho era calmo, mas preocupado.

— Eu preciso ajudar, papai. Por favor.

Onyx fitou sua filhote. Ela não era a menor das três — Windsong era — mas parecia tão franzina agora. Comia devagar, sem gosto pela carne. Não tentava caçar pequenos animaizinhos como as irmãs. Já estava doente há certo tempo, e ele tinha tanto medo. Não poderia dizer não a ela. No fundo, não conseguia deixar de pensar que esses poderiam ser os últimos momentos que as pequenas passariam com a mãe. Ele queria sacudir esses pensamentos para longe, mas era inevitável.

Assim, os quatro passaram longos minutos cuidando de Moondancer, até que seus ferimentos estancassem. O cheiro de sangue agora era fraco, embora seu pelo cinzento estivesse manchado.

— E agora, papai? — Luna perguntou, fitando Moondancer, na esperança de que ela fosse levantar em breve.

— Agora vocês irão dormir. Por favor, filhotes. — Onyx estava derrotado, e só queria desesperadamente que as pequenas fossem descansar e parassem de olhar tão atordoadas para o corpo da mãe. Ele não sabia mais o que lhes dizer. — Precisam descansar. Especialmente você, Luna.

As filhotes concordaram, embora amuadas. Novamente se amontoaram umas nas outras buscando o máximo de aconchego possível para que conseguissem dormir. Onyx torcia para que a imagem do urso não assombrasse seus sonhos, e sim que vissem coisas boas enquanto dormiam.

Agora, o lobo podia se deitar em silêncio ao lado de sua companheira. Esqueceu-se de sua pata quebrada e colocou peso nela antes de deitar. Com tantas coisas em sua mente, sua pata quebrada parecia tão insignificante. Exausto, permitiu-se chorar. De cansaço, de medo, de angústia.

— Moondancer, por favor. Por favor, não morra. — Ele sussurrou.

A loba ainda estava acordada. Ainda sentia dor, mas o toque cauteloso das filhotes e de Onyx a fez sentir um pouco melhor. E agora conseguia sentir o calor do corpo de seu companheiro ao seu lado. Ela queria dizer que não queria morrer, que queria continuar ao seu lado. Mas continuava sem conseguir falar nada. Seus olhos também continuavam cerrados, mesmo que tudo que ela quisesse agora era olhar nos olhos de Onyx.

Moondancer estava com medo. Sentia sua consciência se perdendo e voltando. Não sabia se era seu corpo em exaustão completa tentando cair no sono, ou se era... outra coisa.

“Eu te amo, Onyx.”

Res... pi... rar...


***

O sol começava a querer aparecer no horizonte, sua luz fraca pintando o céu escuro de tons alaranjados. Onyx dormia ao lado de Moondancer — estava com medo de dormir e deixá-la só, porém eventualmente seu corpo não aguentou mais — e as filhotes também dormiam tranquilamente, juntas como sempre.

Os olhos esverdeados de Moondancer se abriram vagarosamente, enquanto se acostumavam à luz. Ela fitou as filhotes, e depois Onyx. E sorriu. Todos pareciam bem, e ela ainda estava viva.

Sentia dores, mas já não havia nenhum sangramento. Possivelmente algum osso quebrado.

Mas estava viva.

Apoiou sua cabeça no corpo de seu companheiro, buscando uma posição mais confortável e buscando seu calor, e o macho acordou assustado com a movimentação.

— Moondancer...?

— Estou aqui, Onyx. Estou aqui. — Sua voz saiu em um sussurro trêmulo, mas conseguiu falar. Os olhos de Onyx se encheram d’água após o lobo ouvir seu som favorito no mundo, a voz de Moondancer, e ele começou a lamber seu focinho.

Estava viva.


Notas finais
spero que tenham gostado! achei difícil de passar essa experiencia pra palavras, mas ao mesmo tempo gostei de fazer. :^) uma curiosidade é que imagino a moondancer parecida com a pérola de steven universe, no sentido de seus movimentos de luta e afins, não na personalidade. as duas são ágeis e precisas, e lutam com tanta destreza que é como se estivessem dançando. aqui uma música que me veio constantemente na cabeça enquanto eu escrevia: dance of swords - https://www.youtube.com/watch?v=1LsNmHNQSWY
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!